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A Religião dos Índios Brasileiros

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    A Religião dos Índios Brasileiros Gostei mestra Isis Pena que a academia e a antropologia, navegam demais na III dimensão Lí um livro falando que haviam
    Mensagem 1 de 1 , 5 de nov de 2010

      A Religião dos Índios Brasileiros


      Gostei mestra Isis

      Pena que a academia e a antropologia, navegam demais na III dimensão

      Lí um livro falando que haviam indios aqui, nativos, vindos das filipinas e da mongólia, e houve a chegada pelo ar e pelo mar de atlantes, salvos do cataclismo

      Sabes algo a mais sobre isso?

      Tambem o texto não fala do uso de psicoativos e enteógenos como a aoasca, hoje inserida em um culto mais ocidentalizado e pretensamente cristão e espírita...

      Tens como aprofundar isso?

      Beijinhos a todas as bruxinhas e uxos da lista, Orua


      Não é fácil definir o sistema religioso dos indígenas do Brasil, primeiro porque se trata de vários povos, com culturas diversas, segundo porque, devido à grande movimentação destes povos pelo vasto território brasileiro, os seus costumes e, portanto, também a sua religião sofreram contínuas e profundas modificações através do tempo.


      Os antropólogos admitem em geral que se trata de povos de origem mongólica (mongóis siberianos), que teriam atravessado do estreito de Behring, povoando o continente americano desde o Canadá até a Terra do Fogo.

       

      É possível que algumas levas de semitas, talvez de fenícios, tenham navegado até o México, e mesmo que povos da Melanésia tenham abordado a costa do Pacífico, penetrando no interior da América do Sul. Mas trata-se de hipóteses sem fundamento consistente, e, em todo o caso, não foram tão importantes que alterassem de modo sensível a etnia mongólica de nossos indígenas.


      As aparentes diferenças de cor da pele e de estatura corporal podem muito bem ser explicadas pelo ambiente em que os nossos indígenas viveram e ao regime alimentar que adotaram. Assim, os indígenas protegidos pela densa floresta conservaram- se mais claros do que os dos cerrados, mais expostos ao
      sol, e os que se alimentaram de caça se desenvolveram fisicamente mais do que os que só tinham peixe por dieta.
      Os etnólogos admitem também quatro grandes áreas culturais: a Andina, que se
      desenvolveu a partir do Paraná, com intensa agricultura, produzindo a
      urbanização, a arquitetura, a indústria de tecidos e cerâmica, cujo expoente
      máximo é o Império dos Incas; a do Círculo das Caraíbas (Antilhas, Colômbia,
      Venezuela), de agricultura menos intensa e de organização social menos
      refinada, mas com uma cerâmica expressiva; a da Grande Floresta, com
      agricultura de subsistência, caça e pesca; a dos Cerrados, a mais pobre
      culturalmente, caracterizada pela coleta de frutos, raízes, pequenos animais
      A arqueologia, por sua vez, admite que os primitivos habitantes da América
      do Sul se tenham concentrado, primeiramente, em certas áreas verdes das
      cabeceiras dos grandes rios, e só aos poucos povoaram o resto do continente
      sul-americano, à medida em que a floresta progredia pelas savanas e pelas
      margens fluviais. Este fato esclarece até certo ponto que os indígenas da
      América do Sul, em particular do Brasil, tenham formado desde tempos remotos
      grandes grupos lingüísticos distintos, pois os primitivos habitantes destas
      regiões tiveram de viver milênios segregados em suas ilhas verdes, criando
      costumes próprios. Esclarece igualmente o fato de nos últimos milênios se
      terem dado a uma grande movimentação pelo território brasileiro, a ponto de
      o grupo Tupi-Guarani, originário do território da atual Rondônia brasileira,
      se ter espalhado por todo o território brasileiro atual, desde o Estado do
      Rio Grande do Sul até o atual Amapá.
      Acresce que o estudo da religião de nossos indígenas foi bastante descurado
      pelos sábios e mesmo frontalmente mal interpretado. Os antigos missionários
      católicos, no afã de reduzir os indígenas à fé cristã, interpretavam
      apressadamente as suas figuras míticas nos padrões da teologia católica,
      identificando, por exemplo, Tupã com Javé e Anhangá com o demônio. De sua
      parte, os antropólogos modernos, interpretam freqüentemente as crenças dos
      nossos indígenas dentro de padrões socioeconômicos atuais, que tira todo o
      sentido original da religião de nossos aborígines.
      Os Sistemas Religiosos Indígenas

      Desta forma, é muito difícil definir, como foi dito, o sistema religioso de
      nossos indígenas, e só muito por alto podemos enquadrá-lo nas formas
      estereotipadas de animismo, totemismo, xamanismo. Preferimos, por isso,
      descrever os elementos religiosos que mais chamam a atenção dos estudiosos,
      sem lhes dar uma interpretação definitiva. No entanto, não podemos deixar de
      ressaltar os elementos xamãnicos, como a crença em um Ser Superior, de
      caráter celeste, em espíritos também celestes, que intervêm na vida dos
      homens e nas atividades do pajé, lembrando de perto as atividades do xamã
      siberiano (transes extáticos, invocação e domínio dos espíritos).
      Os ritos são de tipo socioeconômico (ritos de caça, de pesca, de guerra),
      notando-se a ausência de um culto especifico a alguma figura divina, a não
      ser entre os Aruaque e Caraíba, talvez por influência de povos vizinhos,
      como os Chibcha, de cultura superior.
      Resumindo, podemos dizer que os grupos indígenas, que povoaram o Brasil
      antes do advento dos portugueses, não chegaram a um conceito claro da
      divindade, menos ainda a cultuar publicamente um deus único, mas certamente
      tenderam a um monoteísmo implícito na figura de um Ser Superior.
      A menor ou maior manifestação deste monoteísmo primitivo está condicionada
      ao sistema de vida que os diversos grupos tiveram de adotar conforme o
      ambiente em que viveram: a de simples colhedores, em plena floresta tropical
      a de caçadores, nos cerrados; e a de incipiente agricultura nas regiões
      mais férteis.
      A vida errante, a que foram compelidos pelas condições adversas do clima e
      pelas continuas lutas entre os grupos, impediram a elaboração mais refinada
      de suas crenças e o desenvolvimento de um culto específico.

      Grupo Tupi-Guarani

      Segundo uma lenda muito antiga, Tupi e Guarani eram dois irmãos que,
      viajando sobre o mar, chegaram ao Brasil e com seus filhos povoaram o nosso
      território; mas um papagaio falador fez nascer a discórdia entre as mulheres
      dos dois irmãos, donde surgiram a desavença e a separação, ficando Tupi na
      terra, enquanto Guarani e sua família emigraram para a região do Prata.
      No entanto, a pesquisa científica afirma que o grupo Tupi-Guarani é
      originário da região hoje chamada de Rondônia, donde o ramo Guarani emigrou
      para o sul, penetrando no Paraguai, enquanto o ramo Tupi penetrava no Brasil
      estendendo-se por todo o seu litoral, desde o Rio Grande do Sul até o atual
      território do Amapá.
      Esta notável movimentação dos Tupi-Guarani prende-se à busca de uma espécie
      de Paraíso, onde os homens poderiam refugiar-se quando chegasse o fim do
      mundo, e que estaria colocado na direção leste, além do grande mar
      (Atlântico). Por isso, cada vez que a situação se tornava calamitosa, os
      Tupi, sob o comando de um pajé ou de um profeta, empreendiam a longa
      caminhada em busca da "terra-sem-mal" . O Mito, recolhido entre os Apapocuva,
      guaranis originários do Mato Grosso mas estabelecidos no Estado de São Paulo
      diz o seguinte: Nyanderuvusu, "nosso pai grande", ser principal da
      mitologia apapocuva, criou o mundo e a primeira mulher, Nyandesy, "nossa mãe
      , que concebeu dois gêmeos, mas foi devorada por uma onça, que respeitou as
      duas crianças, Nanderykey e Tyvyry, identificados com o sol e a lua.
      Nyandesy sobrevive na "terra-sem-mal" , onde os homens vivem eternamente
      felizes. Pode-se pensar em uma influência da escatologia cristã, mas o mito
      motivou já antes da vinda dos portugueses as grandes emigrações do grupo
      Tupi-Guarani.
      Como se vê neste mito, a concepção de um Ser Supremo não é muito clara, mas
      muitos outros mitos falam de um formador do mundo (da terra, do sol, da lua,
      dos homens, dos animais...) e fundador dos costumes humanos, de modo que não
      se pode duvidar da crença geral em um monoteísmo implícito. Muitas vezes o
      Ser Supremo dá existência, diretamente ou por meio de uma "Grande Mãe", a
      dois gêmeos, que assumem as funções de "heróis civili- zadores",
      identificados, como vimos acima, com o sol, a lua. Aliás, o solarização
      (fenômeno da identificação do Ser Supremo com o sol) é uma constante em toda
      a mitologia dos indígenas brasileiros.
      Entre os Mundurucu, tupis do Tapajós, Caro Sacaibu é um deus criador
      onisciente e herói civilizador, pois ensinou aos homens a caça e a
      agricultura. Maltratado pelos mundurucu retirou-se ao mais alto do céu, onde
      se confunde com a cerração. No fim do mundo, queimará os homens no fogo. Mas
      é benévolo e atende as preces dos que a ele recorrem (antes da caça, da
      pesca, nas doenças). Castiga os maus e acolhe benignamente os bons.
      Entre os Tupinambás (Estado da Bahia), Monan é um Ser Superior que criou o
      céu, a terra, os pássaros, os animais. Mas os homens mostraram-se maus e,
      por isso, Monan enviou Tatá (Tatá-manha = Mãe-Fogo) que consumiu tudo. Só se
      salvou Irin-Magé, que Monan tinha levado ao céu, e que se tornou o "herói
      civilizador" da nova geração de homens, com o nome de Maire-Monan, do qual
      descende Sumé, o grande pajé, que gerou os dois gêmeos Tamendonaré
      (Tamandaré) e Aricute, que se odiavam de morte, donde a constante rivalidade
      entre as duas tribos que deles descendem, Tupinambá e Tomimi.
      Segundo Couto de Magaiháes (O Selvagem, 1874), os Tupi faziam descender de
      um Ser Superior antigo as três grandes divindades: Guaraci, o sol; Jaci, a
      lua; e Ruda, o amor. Guaraci criou os homens e dominava sobre as seguintes
      entidades sobrenaturais: Guairapuru,protetor dos pássaros; Anhangá protetor
      da caça dos campos; Caapora, protetor da caça da floresta. Jaci criou os
      vegetais e dominava sobre as seguintes entidades sobrenaturais: Saci Cererê,
      espírito zombeteiro; Mboitatá, a serpente de fogo; Urutau, pássaro de mau
      agouro; Curupira, guardião da floresta. De Ruda, guerreiro que reside nas
      nuvens, dependem Cairê, a lua cheia, e Catiti, a lua nova.
      Infelizmente, os sábios deram em geral mais atenção aos costumes dramáticos
      dos indígenas do que aos seus ritos secretos, do que resulta conhecermos
      muito bem os costumes canibalescos dos Tupi, mas muito pouco as suas
      verdadeiras crenças religiosas.
      No entanto, uma coisa é certa: Os Tupi-Guarani possuíam na figura do pajé um
      elemento religioso de primeira plana, como o xamã dos mongóis siberianos.
      Estruturalmente, o fenômeno é o mesmo: assim como o xamã siberiano, o pajé é
      ao mesmo tempo médico, sacerdote, psiquiatra, pois ele cura, dirige as
      preces, aconselha, empregando não só ervas medicinais como também o transe
      extático, no qual entra em contato com os espíritos em benefício de seus
      clientes. Notemos que o pajé não se deixa possuir dos espíritos, como no
      Candomblé africano, mas, como no xamanismo siberiano, apossa-se dos
      espíritos e às vezes sai em busca da alma do enfermo, que o abandonara,
      causando-lhe o estado doentio, para fazê-la retornar ao corpo e
      restituir-lhe a saúde.
      Certamente, podemos encontrar entre os pajés a esperteza dos charlatães e a
      maldade dos feiticeiros, mas estes elementos são antes deturpações do
      verdadeiro significado da pajelança, pois esta tem por intento precípuo
      ajudar o indígena em suas aflições.
      Outro elemento típico do xamanismo é a crença na "alma" humana, como
      entidade espiritual, a qual não se extingue com a morte corporal, mas,
      transformando- se em "anguera", empreende uma longa viagem em busca da
      terra-sem-mal" .
      Afora os ritos de dança, que serviam para comemorar todos os acontecimentos
      sociais, como o casamento, a guerra, a morte, o que mais impressionou os
      antigos autores foi o "canibalismo ritual" dos Tupi-Guarani. Referimo-lo
      aqui para esclarecer que não se trata de um fenômeno religioso, como
      acontece entre os Astecas, mas de um rito puramente social, muitas vezes
      ligado ao rito da iniciação dos jovens guerreiros, os quais, sacrificando um
      prisioneiro, mostravam a sua maturidade tribal.
      Aliás, alguém já sustentou que o canibalismo é um fenômeno socioeconômico,
      pois aparece sempre onde falta a caça abundante para suprir o grupo de
      proteínas. De fato, nas Américas o fenômeno está mais ou menos restrito aos
      Astecas, que não dispunham de grande caça, e aos Tupis, que se estendiam
      pelo litoral brasileiro.

      Grupo Gé (Tapuias)

      Outro grande grupo de indígenas do Brasil é o chamado grupo Gê, constituído
      pelos indígenas que habitavam o planalto brasileiro, desde o Estado de São
      Paulo até o Pará. Culturalmente, era o mais atrasado, pois vivia da coleta
      de frutos, da pesca, da caça e só esporadicamente, por influência dos Tupi,
      praticavam uma agricultura de subsistência. Em conseqüência, os seus
      utensílios caseiros eram os mais primitivos e pobres.
      O nome Gê quer dizer: chefe - pai - ascendente, enquanto o nome Oran, que
      também é dado a este grupo, significa: filho - descendente. Os Tupi
      chamavam-no de Tapuia, que quer dizer: inimigo.
      Quanto à religião, podemos encontrar a idéia generalizada de um Ser Supremo,
      muitas vezes com características de herói civilizador, e não raro
      identificado com o sol. Assim, os antigos Aimorés, estabelecidos no Estado
      do Espírito Santo, acreditavam no "pai de cabeça branca" (Yekankreen Yrung),
      que habitava no céu. Nunca fora visto, a não ser por alguns homens da era
      primitiva. Era benévolo e invocado pelo pajé em casos de doença e caristia
      com cantos e preces, intervindo nas coisas humanas por meio dos "maret"
      (espíritos), de que se achava cercado. Punia os maus, mandava a chuva,
      matava os inimigos com flechas, produzia as fases da lua etc.
      Os Apinagé, do rio Tocantins, cultuavam o sol, que era objeto de preces e de
      danças nas ocasiões do plantio e da colheita. Era o autor da organização
      dual da tribo. Era representado pela forma circular com que a aldeia era
      construída, pela cor vermelha com que os guerreiros se pintavam. Ao lado do
      sol, estava a lua, e ambos criaram os antepassados dos Apinagé, mas em
      grupos separados, e por isso ao norte da vida ficavam os homens do sol e no
      sul os homens da lua. Também entre os Xavantes se encontra o culto do sol,
      que é chamado "nosso criador". O mesmo entre os Canela e os Xerente.
      São numerosos os mitos sobre o sol, a lua e o dilúvio, bem como a atividade
      dos irmãos gêmeos.
      É geral, igualmente, a crença nas almas dos homens, dos animais, das plantas
      etc. As almas dos homens não sobem ao céu, depois da morte, mas vivem na
      terra, nos lugares em que os corpos foram enterrados, transformando- se em
      outros seres ou em fantasmas.
      Os ritos são mais simples do que entre os Tupi, mas não faltam os ritos de
      passagem e os funerários. Os pajés têm funções semelhantes como entre os
      Tupi, curando doenças com ervas, mas também com transes extáticos, nos quais
      vão em busca da alma que abandonou o enfermo.

      Grupo Aruaque

      Ao norte do Brasil, encontramos o grupo Aruaque (arwak), oriundo da
      Venezuela e das Guianas. Essencialmente agrícolas, atribui à lua, astro por
      excelência das culturas agrícolas, característica de força cósmica,
      impessoal, existindo antes de todas as coisas e manifestando- se por uma
      série de emanações. Na origem, porém, está o ar, que assopra nas nuvens
      provocando a chuva e fecundando a terra. Reina sobre os homens, punindo-os
      com os elementos desencadeados. Não é invocando pessoalmente, mas por meio
      dos seres intermediários: vento, fogo, terremoto, trovão... Assume vários
      nomes e mesmo funções diversas, segundo os vários povos do grupo aruaque.
      Nas margens do rio Negro, tem o nome de Poré; entre os Maipuri, chama-se
      Puramínari; entre os Waica, do curso superior do Orinoco, chama-se Omana etc
      Entre os Pareci do Mato Grosso, tem o nome de Enoré e entre os Nambiquara,
      é o Trovão.
      São numerosos os mitos que se referem aos elementos agrícolas, como o
      aparecimento da mandioca.
      Mas o mito característico deste grupo é o do Jurupari (aruaque do rio Negro)
      Jurupari (nascido junto ao rio) foi concebido por uma mulher assexuada
      depois que ela tomou caxiri (licor de mandioca), e nasceu quando a mulher
      foi mordida por um peixe enquanto se banhava. Cresceu rapidamente e, adulto,
      convida todos a beber caxiri, mas como as mulheres não o quisessem preparar,
      amaldiçoou-as. E como os seus filhos tivessem comido do fruto da árvore uacu
      que lhe era consagrada, devorou-os todos. Irritados, os homens
      aprisionaram- no e atearam-lhe fogo, mas das cinzas nasceu a palmeira paxiuba
      de cujos ramos (seus ossos) os homens fizeram flautas, que não podem ser
      vistas pelas mulheres, sob pena de morte. Este mito tem importância capital
      nos ritos de iniciação e representa o domínio dos homens sobre as mulheres.

      Grupo Caraíba

      Os Caraíba estão estabelecidos no Estado do Pará à margem esquerda do
      Amazonas, com alguns grupos disseminados ao longo do rio Madeira (Arara) e
      outros nas cabeceiras dos rios Tapajós e Xingu (Nahuque e Bacairi).
      Inserido no território dos Gê, existia ainda o grupo Pimenteira. O núcleo
      originário, porém, está nas Guianas e na Venezuela. Adversários implacáveis
      dos Aruaque, os Caraíba adotaram, porém, muitos de seus costumes, inclusive
      a religião.
      A idéia de um Ser Supremo é muito difusa entre os diversos povos deste
      grupo, com tendência ao henoteísmo, ou seja, ao culto de uma divindade
      determinada com sentido de único deus, sem descartar-se das outras
      divindades.
      Entre os Arikens, do Pará, o Ser Supremo é Purá, identificado com o sol,
      enquanto o seu companheiro, Murá, se identifica com a lua. Ambos moram na
      montanha do céu, donde observam todas as coisas: não morrem, não envelhecem,
      não têm pais nem parentes. Purá criou os homens, esculpindo-os em madeira.
      Fê-los imortais, mas como não quiseram seguir suas ordens, foram consumidos
      por um incêndio, do qual só poucos escaparam. Sobre estes, Purá mandará no
      fim do mundo um incêndio total.
      Para os Caraíba do Suriname (Guiana Holandesa), a divindade central é Amana,
      deusa-mãe, virgem, com cauda de serpente. É o símbolo do tempo e a raiz de
      todas as coisas: não nasceu, nem morre, porque se renova constantemente.
      Gerou dois gêmeos: um na aurora, Tamusi, e outro no crepúsculo,
      Yolokan-tamulu. Tamusi criou todas as coisas boas, é o antepassado dos Calma
      mora na luz fria da lua, é o senhor do Paraíso, ao qual vão os bons, que,
      porém, não o poderão contemplar por causa de seu esplendor. Tamusi combate
      todas as forças negativas. Yolokan-tamulu (yolokan = natureza; tamulo = avô)
      é o senhor dos espíritos da natureza, criou a escuridão e o mal, mora no
      deserto do céu, em uma ilha chamada "país-sem-manhã ": não é propriamente o
      opositor do bem, mas a face destruidora da natureza.
      Os Caraíba do rio Barama, ao norte das Guianas, crêem em um "deus ocioso",
      cujo nome é ignorado. É o criador do universo, teve trato com os homens, mas
      depois afastou-se deles. Seu auxiliar, Komakoto, intervém no universo e nas
      coisas humanas.
      Os Caraíba das nascentes do Xingu crêem no "senhor dos animais", Kagatopuri,
      que é a mais sutil das almas humanas, a qual, separando-se do corpo pela
      morte, tornou-se um espírito (kadopa) e, depois de longa peregrinação,
      chegou à vila do herói civilizador Nakoeri, transformando- se então em
      iamura" (verdadeiro senhor dos animais).
      Os ritos agrícolas são numerosos: danças com sentido orgiástico, oferta de
      bebidas inebriantes (caxiri) etc. Há também ritos de caça, com danças de
      máscaras, que representam os espíritos dos animais.
      Mas a figura central é o pajé, cuja função exige treinamento ascético,
      técnicas de êxtase, contato com o mundo celeste, conhecimento das ervas
      medicinais etc. Até o vôo extático, que é próprio do xamanismo siberiano,
      encontra-se na pajelança dos Caraíba. Os mitos são também numerosos,
      principalmente com referência aos irmãos gêmeos, Keri e Kame, nomes de
      origem aruaque, significando sol e lua. São heróis civilizadores.
      Mas o mito mais notável é o de Macunaíma, deus criador dos Macuxi, Arecuna,
      Acavais, da Venezuela. Macunaíma quer dizer, literalmente, "aquele que
      trabalha bem à noite". Para vingar a mãe, morta por uma onça, mete-se em
      muitas aventuras, transformando- se em herói astuto e desinibido.
      Afora estes quatro grandes grupos lingüísticos, há outros grupos menores,
      como os Borôro do Mato Grosso e os Caigangues do Rio Grande do Sul e Santa
      Catarina, os quais, porém, afinam mais ou menos pelas mesmas idéias
      religiosas e pelos mesmos ritos.

       


       
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