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Sobre Barcelona

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  • frankvoador
    Sobre Barcelona Amanhece mais um dia para mim no Brasil, enquanto abro o jornal nessa manhã fria tão londrina e tão estranha. Relaxado, olho a manchete do
    Mensagem 1 de 3 , 20 de ago

      Sobre Barcelona

      Amanhece mais um dia para mim no Brasil, enquanto abro o jornal nessa manhã fria tão londrina e tão estranha.

      Relaxado, olho a manchete do jornal e mergulho no mundo onde crianças são mortas por terroristas e tudo parece estar mergulhado no caos. Ao meu redor, a vida irradia o contrário nas imagens das minhas crianças brincando e nos adultos correndo ou se abraçando, como se não existisse mundo além do vida normal que se estende até onde a vista pode alcançar.

      Continuo imerso naquele oceano de imagens trágicas do jornal. Meus olhos navegam por aquele mar turbulento de letrinhas que provocam um maremoto no meu coração.

      Enquanto vejo no jornal tanta morte, mais um atentado na Europa, a situação caótica no Rio; lembro-me de Krishna e de Arjuna, no Baghavad Gita, onde Krishna explica ao seu arqueiro e discípulo que ninguém nasce ou morre, apenas entra e sai dos corpos perecíveis. E mesmo acreditando nisso, a lágrima ainda assim escorre pelo meu rosto furtivamente.

      Decido, então, deixar o jornal de lado, pois não quero entrar em sintonia com a tristeza coletiva por causa do que ocorreu na Espanha, já há muita tristeza no ar.

      Então resolvo calar a mente inquisitória e o coração chorão, e mergulho no silêncio de uma meditação. É difícil calar a mente, que é porta-voz de um senso de revolta de quem não entende por que flores são esmagadas, mas consigo domá-la e fico ali quietinho no silêncio, abraçando o nada que esconde o tudo.

      Sinto tranqüilidade, e a confusão vai dando lugar àquela lucidez meditativa tão estranha e tão familiar (parece que eu nunca vou ficar acostumado com ela).

      Imagens vêm à mente, e sem julgá-las, vejo novamente Krishna conversando com um Arjuna hesitante em ir para a guerra. Ouço Krishna explicando que há tempo para tudo, inclusive tempo de guerrear. Ao mesmo tempo, lembro-me do dia em que fiquei chocado quando um amigo me disse que se éramos incapazes de ferir alguém nessa vida, é porque em muitas outras vidas já provamos o sabor da espada na mão e o gosto amargo do sangue na boca.

      Abro os olhos e fico refletindo sobre isso, sabendo nos apressamos em julgar tudo aquilo que não conseguimos entender. Se não conseguimos o que pedimos, é porque Deus não nos escuta. Se uma criança morre de fome na África, é porque Deus não existe. Seguimos atribuindo a Deus uma responsabilidade e uma ação que dependem apenas de nós para nunca mais ocorrer. Seguimos pedindo explicações para cada folha caída, esquecendo que além das nossas crenças, a natureza segue seu ciclo.

      O mundo segue rodando, como sempre fez antes de você ou eu estarmos por aqui, e parece, pelo menos para mim, que quanto mais exigimos explicações, mas confusos ficamos. Sei que para cada coisa que consigo compreender, há outras milhares que preciso aprender a deixar no ar, até a hora certa, quando a vida vai fazer questão de me explicar.

      Sei, também, que nada mudou ou mudará debaixo do sol, mas o que se passa no nosso coração se transforma o tempo inteiro.

      Tragédias ocorrem, feridas se abrem e no meio de tudo isso estamos nós, seres humanos, aprendendo e evoluindo. Cada um com a sua história, cada um com o seu ponto de vista, cada um com a sua lição.

      Cada um com o seu plano de vôo, que exige que aprendamos a voar tanto em dia claros como em noites escuras.

      Sei que não há justificativa na tragédia. Sei que não há explicação que sacie o meu coração ou o seu, ansiosos por um motivo. Mas, ali no cantinho daquele meditação, refletindo sobre tudo isso, tentei acender a minha luzinha, para não contribuir com a escuridão.

      Nada parece ser mesmo absoluto. Amor e ódio, vida e morte, compreensão e confusão, são tudo parte do mesmo todo que resulta em experiência. Talvez seja por isso que Krishna diz a Arjuna que ele aceite o seu tempo de guerra.

      Talvez porque cada um, a seu tempo, vai aprender a sua lição e seguir para outro ciclo onde o “caminho da dor” não parece ser mais a única opção.

      Nesses tempos de tragédia, deixo a pergunta sem resposta.

      Acho que estou começando a compreender que quem julga não enxerga.


      Quem não enxerga, ignora que é justamente quando o mundo está escuro, que temos que acender a nossa luz.


    • Artur Ventura dos Santos
      ... Sei que não há justificativa na tragédia. Sei que não há explicação que ... A meu ver, a tragédia humana tem resposta: depende do referencial
      Mensagem 2 de 3 , 21 de ago


        frankvoado <---> escreveu:

         

        Sobre Barcelona

         

        Relaxado, olho a manchete do jornal e mergulho no mundo onde crianças são mortas por terroristas e tudo parece estar mergulhado no caos. Ao meu redor, a vida irradia o contrário nas imagens das minhas crianças brincando e nos adultos correndo ou se abraçando, como se não existisse mundo além do vida normal que se estende até onde a vista pode alcançar.

         

        Continuo imerso naquele oceano de imagens trágicas do jornal. Meus olhos navegam por aquele mar turbulento de letrinhas que provocam um maremoto no meu coração.

         

        Sei que não há justificativa na tragédia. Sei que não há explicação que sacie o meu coração ou o seu, ansiosos por um motivo. Mas, ali no cantinho daquele meditação, refletindo sobre tudo isso, tentei acender a minha luzinha, para não contribuir com a escuridão.

         

        Nada parece ser mesmo absoluto. Amor e ódio, vida e morte, compreensão e confusão, são tudo parte do mesmo todo que resulta em experiência.

         

        Nesses tempos de tragédia, deixo a pergunta sem resposta.

         

        Acho que estou começando a compreender que quem julga não enxerga.

         

        Quem não enxerga, ignora que é justamente quando o mundo está escuro, que temos que acender a nossa luz.


        Enviado por: frankvoador@...
        Responder através da web através de email Adicionar um novo tópico Mensagens neste tópico (1)
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        A meu ver, a tragédia humana tem resposta: depende do referencial mitológico, com que se a encare !!!

        Ou você compreende a vida humana - como uma cadeia alimentar em evolução - ou como uma ficção "espiritual", inventada por romancistas geniais que se divertem mais ou menos sadicamente, iludindo as nossas almas, pobres de consciência ...

        Especulativamente - artur

      • nipusaibot0
        Olá pessoal gostei muito da mensagem do Frank. Talvez a que mais gostei até hoje de todos os seus textos. O que é ao mesmo tempo muito engraçado, pois me
        Mensagem 3 de 3 , 29 de ago
          Olá pessoal



          gostei muito da mensagem do Frank. Talvez a que mais gostei até hoje de todos os seus textos. O que é ao mesmo tempo muito engraçado, pois me identifiquei com esse distanciamento em relação ao fato da morte feia, de entender o carma coletivo. Mas um dia depois tomo ciência de que está acontecendo uma chacina de índios no Mato Grosso sendo bancada pelo estado, que moveu seu(nosso?) exército.


          Com isso reconheço que acredito sim em carma coletivo, mas não significa que devamos perceber passivos a nossa realidade com cara de carma. Relativizar a morte tem seus perigos, ainda mais se o fazemos enquanto povo repetidos momentos da história.


          Tenho certeza que o maior problema não é se as almas dos índios irão se perder ou não. Se vai ou não faltar quem reze por eles. O grande problema é que seres humanos estão se colocando como juízes da vida. E isso sendo feito pelos estados nações ao redor do globo é diferente de enxergar apenas as ações terroristas de grupos independentes.


          Segundo a historinha de o que é democracia, cada um de nós está assinando embaixo de cada ação do estado, pois nós elegemos quem toma as decisões. Todo aquele que acha que não é bem assim, ou discorda mesmo, ainda não pode dizer que não é com ele. Mesmo se você discorda da democracia, do governo, da política, o fato é que o povo chamado de brasileiro ainda continua matando os povos indígenas.


          Não adianta salvar teoricamente o capitalismo com argumentos neoliberais, pois o fato é que interesses pessoais estão justificando massacre de povos. Teorias econômicas não podem servir para justificar a morte.


          Do ponto de vista espiritual, o balanço que faço é que estamos perdendo o convívio com consciências muito evoluídas, que estão ficando sem ambiente para conduzir seus trabalhos aqui, por exemplo de integrar a vida moderna novamente à natureza de forma harmônica. Ao não dar valor para vidas de seres humanos, estamos menosprezando o conhecimento de toda uma cultura, sem avaliar o quanto eles são necessários para o nosso presente e para o futuro da terra. As consciências impedidas de trabalhar aqui, com certeza terão outros mundos para trabalhar.


          Os caras do agronegócio e dos latifúndios acham que a conta das mortes está se fechando com lucro, mas a realidade é que ninguém lucra. Nós brasileiros do dia-a-dia, que não nos relacionamos diretamente com a questão, somos cobrados eternamente de aprender a seguinte lição: como eu faço para dar valor no meu semelhante e considerá-lo da melhor forma possível. Agora que parece que não é com a gente, já temos chance de aprender. Se não aprendemos nunca, o carma coletivo vai sendo gerado, e uma hora isso vai resvalar na nossa vida cotidiana diretamente de alguma forma.



          Sinceramente,
          Tobias
        Sua mensagem foi enviada com êxito e será entregue aos destinatários em breve.