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O mercado esta mudando ou é impressão minha?

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  • Juan Bernabo
    Pessoal, Desculpem mais talvez pelo horario fiquei nostalgico, coisa de tanguero, bom vou fazer uma retrospectiva sobre como vejo o que tem acontecido nos
    Mensagem 1 de 4 , 25 de mar de 2008
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      Pessoal,

      Desculpem mais talvez pelo horario fiquei nostalgico, coisa de tanguero, bom vou fazer uma retrospectiva sobre como vejo o que tem acontecido nos últimos anos na saga de Agile no Brasil que é claro é completamente ego cêntrica e limitada visão dos fatos e gostaria tambem ter a contribuição de quem quiser agregar fatos a esta historia.

      Eu me lembro da vez que veio ao Brasil o Kent Beck, Scott Ambler, Rob Mee e uma galera muito legal para o evento XP 2002 organizado pelo Klaus Wuestefeld e sua empresa na epoca, naquela época eu estava lançando um piloto da revista Object Magazine Brasil, que foi um sucesso de audiência, porem um fracasso de bilheteria, e com a idéia de falar do ciclo de vida completo de desenvolvimento de software, não só de programação, porque o que eu via como um dos grandes problemas era a falta de integração entre as disciplinas, as pessoas e que isso me parecia estar no cerne da crise do software, la estava o Vinicius da ImproveIt, o Fabio Kon da USP e outras personalidades do mundo Ágil.

      Isso foi em 2002, parece um seculo, teve o XP 2004 com um pouco menos de ruido, e depois parece que ouve um inverno, em 2005 e 2006 depois de tentar em varias empresas de fazer o que eu sei que é entregar software de forma iterativa e incremental e evolutiva e ter conflitos com os mais variados tipos de planos malucos, processos, e politicas disfuncionais acabei me decidindo a mudar de negocio, não mais ter que brigar de dentro de uma organização para tentar mudar politicas que colocam em risco projetos, e fazer que as empresas com suficiente dor e/ou disposição para mudar possam me contratar para ajudar-las a fazer isso.

      Em 2006 foi uma dureza fechar algum contrato, nenhum gerente ou diretor queria saber de outra coisa que não fosse CMMI/MPSbr/RUP, naquela epoca eu começei a tentar sair da toca e conheci algumas pessoas na lista CMM-Brasil, hoje morta e encarnada na CMMI-Brasil, que tambem estabam falando sobre Agile e com serias criticas ao que empresas estavam adotando, e a gente sacudeu um pouquinho a poeira num primeiro Mini-Workshop de Gerenciamento Ágil de Projetos entre o Marcio Tierno, Jose Papo, Adail Retamal e eu e depois numa segunda edição organizado pelo PMI-SP que também foi muito bem.

      Em 2007 começou para mim a maratona de Scrum no Brasil, organizando treinamentos em varias capitais e fazendo palestras e webcasts adoidado, muito barulho em listas, e conseguimos que centenas de pessoas fissem o treinamento de CSM, para mim Scrum seria a arma fundamental para poder criar celulas de produção de software auto-geridas que pudessem adotar processos/praticas ágeis vindas do XP/FDD/Lean ou qualquer outra coisa que pudesse agregar valor a produzir software pronto em duas a quatro semanas.

      Como empresas não queriam ouvir falar de Agile/Scrum, a estrategia foi começar pelas pessoas, aqueles indivíduos que mesmo que a empresa não pagasse o treinamento o fariam por conta da convicção ou da dor da forma de trabalhar atual, e estes seriam os "early adopters" que acabariam evangelizando Scrum/Agile em suas organizações.

      Depois disto começou a emerger e sair do anonimato, pelo menos para mim, uma galera talentossisima que não vou me atrever a falar todos os nomes, e Agile deixou de ser sinônimo de coisa de programador adolescente revoltado e passou a ser coisa de gente grande, o que sempre foi... mais....

      Em 2008 ainda tem profissional que paga do seu bolso, mais muita muita empresa deixou a certeza de um futuro melhor cheio de processos altamente definidos, muitos documentos e matrizes de rastreabilidade, pela simplicidade e foco em resultados de Agile.

      Na virada do ano perdemos pelo menos uns 3 a 4 grandes valores na comunidade Ágil no Brasil para outros países, que vão ser muito difíceis repor, espero que estem bem por la Shoes, Danilo, Fábio...

      Neste ano começou a crescer e se fortalecer um pequeno eco-sistema de profissionais, consultores, empresas que é fundamental para uma adopção em massa possa ser realizada na nossa industria para realmente ser relevante.

      Por isso creio que o mercado esta mudando, falta muito ainda desmistificar as abordagens ágeis, educar e mostrar cases de grandes implantações que já estão acontecendo aqui no Brasil e seus resultados.

      Bom agora algumas previsões para este e os próximos anos....

      Acredito que no Brasil as mudanças / adopção será muito mais abrupta do que em outros países do mundo, e a adopção de Agile em todas suas variantes sobre tudo em processos híbridos com gestão baseada em Scrum ou Kanban e TOC e engenharia baseada em XP, FDD e sobre tudo com conceitos de Lean Software Development é o que me parece que vai cada vez mais o caminho para implantações serias.

      Este ano vão sair do papel Agile Alliance Brasil, Forum Agile 2008, Agile Magazine Brasil, como deveria ter se chamado a Object Magazine de 2002, novos treinamentos com personalidades internacionais, e outros colegas também estão em vento em popa fazendo um monte de coisas, desde treinamentos, coaching, palestras, revistas, tudo para aumentar a adopção e deixar TI um pouco mais Ágil aqui no Brasil.

      Quem sabe o slogam "For a Faster, Cheaper, Better & Cooler IT" pegue...

      Abraços,
      Juan.
      PD: quem quiser colaborar nestas empreitadas é só mandar um email.

      --
      TeamWare do Brasil
      Equipes Altamente Eficazes
      Agilidade, Pessoas e Tecnologia
      São Paulo: +55 (11) 5061-8221
      Brasilia: +55 (61) 9969-9282
      Boston: +1 (617) 507-1490
      Buenos Aires: +54 9 (11) 68195600
    • Manoel Pimentel
      Caro amigo Juan, Excelente retrospectiva, feita com o mesmo tom carregado de um típico tango de Carlos Gardel :-) Agora permita que eu cante o meu fado (Ora
      Mensagem 2 de 4 , 26 de mar de 2008
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      • 0 Anexo

        Caro amigo Juan,

         

        Excelente retrospectiva, feita com o mesmo tom carregado de um típico tango de Carlos Gardel :-)

         

        Agora permita que eu cante o meu fado (Ora pois, pois!).

         

        Na época do XP 2002, estava ainda em Belém (PA) e por motivos financeiros, não pude vir até o evento.

         

        Nessa época minhas principais referências em XP, eram o Ron Jeffries e Kent Beck, mas com a repercussão do evento, vim a conhecer o trabalho do Klaus e do Vinícius que posteriormente foram muito importantes quando criei o XPNorte (Grupo de Usuários XP da Região Norte).

         

        Digamos que se em nível de Brasil, já era difícil adotar agile em projetos, lá na região Norte, havia alguns obstáculos a mais, porém, como eu já vinha de algumas experiências com as idéias de PMBOK e RUP, vi grandes oportunidades de ganho de produtividade através de práticas ágeis, por isso, comecei a usar, gostei do que vi e passei a tentar influenciar os pequenos mundos que eu estava inserido para a adoção de agile, portanto comecei a escreve artigos sobre o tema, fazer palestras, workshops, etc. 

         

        Em seguida pequei um "pau-de-arara" e vim para São Paulo, aqui pude ver na prática que também existe muita resistência até em empresas daqui do eixo sul/sudeste, então tive que ter o mesmo "jogo de cintura" lá do norte, para usar agile em meus projetos aqui no sudeste.

         

        Sabemos que  muitas são as dificuldades em fazer as empresas adotarem agile, mas em minha visão, a maior delas é a natureza humana do medo da mudança, fazendo com que as pessoas tenham um paradoxal comportamento de desejar inovações, mas não querer ser o primeiro a fazê-las e sim esperar por cases de sucesso para "copiar" a inovação sem passar pelas dificuldades inerentes do parto (mas isso é assunto para outro fado!).

         

        Mas hoje, vejo que o cenário está gradualmente mudando, pois empresas de portes variados já estão começando a "pedir" por agile e isso é um excelente feedback para o trabalho de toda a nossa comunidade.

         

        Pela parte da Revista Visão Ágil, estamos tentando fazer nossa contribuição para a evolução da comunidade e do mercado para agile aqui no Brasil, por isso, gradualmente estamos melhorando nossa revista, nosso grupo de usuários, expandindo funcionalidades de nosso site, participando de eventos, como foi o caso do Java Brasil 2007, onde fizemos uma trilha completa de palestras em agile (que fez muito sucesso!) e também como será o caso do FISL deste ano, onde estaremos com stand fazendo algumas atividades para demonstrar práticas ágeis.  

         

        Quero terminar  parabenizando toda a nossa comunidade, pois apesar de nosso tamanho, temos feito bastante "barulho"  no mercado e gostaria também de  conclamar  todos para contribuir com  a divulgação e evolução das idéias agile aqui em nosso país.

         

        Obrigado,

         

        Manoel Pimentel, CSP

        www.visaoagil.com

         


         
        Em 26/03/08, Juan Bernabo <juan.bernabo@...> escreveu:

        Pessoal,

        Desculpem mais talvez pelo horario fiquei nostalgico, coisa de tanguero, bom vou fazer uma retrospectiva sobre como vejo o que tem acontecido nos últimos anos na saga de Agile no Brasil que é claro é completamente ego cêntrica e limitada visão dos fatos e gostaria tambem ter a contribuição de quem quiser agregar fatos a esta historia.

        Eu me lembro da vez que veio ao Brasil o Kent Beck, Scott Ambler, Rob Mee e uma galera muito legal para o evento XP 2002 organizado pelo Klaus Wuestefeld e sua empresa na epoca, naquela época eu estava lançando um piloto da revista Object Magazine Brasil, que foi um sucesso de audiência, porem um fracasso de bilheteria, e com a idéia de falar do ciclo de vida completo de desenvolvimento de software, não só de programação, porque o que eu via como um dos grandes problemas era a falta de integração entre as disciplinas, as pessoas e que isso me parecia estar no cerne da crise do software, la estava o Vinicius da ImproveIt, o Fabio Kon da USP e outras personalidades do mundo Ágil.

        Isso foi em 2002, parece um seculo, teve o XP 2004 com um pouco menos de ruido, e depois parece que ouve um inverno, em 2005 e 2006 depois de tentar em varias empresas de fazer o que eu sei que é entregar software de forma iterativa e incremental e evolutiva e ter conflitos com os mais variados tipos de planos malucos, processos, e politicas disfuncionais acabei me decidindo a mudar de negocio, não mais ter que brigar de dentro de uma organização para tentar mudar politicas que colocam em risco projetos, e fazer que as empresas com suficiente dor e/ou disposição para mudar possam me contratar para ajudar-las a fazer isso.

        Em 2006 foi uma dureza fechar algum contrato, nenhum gerente ou diretor queria saber de outra coisa que não fosse CMMI/MPSbr/RUP, naquela epoca eu começei a tentar sair da toca e conheci algumas pessoas na lista CMM-Brasil, hoje morta e encarnada na CMMI-Brasil, que tambem estabam falando sobre Agile e com serias criticas ao que empresas estavam adotando, e a gente sacudeu um pouquinho a poeira num primeiro Mini-Workshop de Gerenciamento Ágil de Projetos entre o Marcio Tierno, Jose Papo, Adail Retamal e eu e depois numa segunda edição organizado pelo PMI-SP que também foi muito bem.

        Em 2007 começou para mim a maratona de Scrum no Brasil, organizando treinamentos em varias capitais e fazendo palestras e webcasts adoidado, muito barulho em listas, e conseguimos que centenas de pessoas fissem o treinamento de CSM, para mim Scrum seria a arma fundamental para poder criar celulas de produção de software auto-geridas que pudessem adotar processos/praticas ágeis vindas do XP/FDD/Lean ou qualquer outra coisa que pudesse agregar valor a produzir software pronto em duas a quatro semanas.

        Como empresas não queriam ouvir falar de Agile/Scrum, a estrategia foi começar pelas pessoas, aqueles indivíduos que mesmo que a empresa não pagasse o treinamento o fariam por conta da convicção ou da dor da forma de trabalhar atual, e estes seriam os "early adopters" que acabariam evangelizando Scrum/Agile em suas organizações.

        Depois disto começou a emerger e sair do anonimato, pelo menos para mim, uma galera talentossisima que não vou me atrever a falar todos os nomes, e Agile deixou de ser sinônimo de coisa de programador adolescente revoltado e passou a ser coisa de gente grande, o que sempre foi... mais....

        Em 2008 ainda tem profissional que paga do seu bolso, mais muita muita empresa deixou a certeza de um futuro melhor cheio de processos altamente definidos, muitos documentos e matrizes de rastreabilidade, pela simplicidade e foco em resultados de Agile.

        Na virada do ano perdemos pelo menos uns 3 a 4 grandes valores na comunidade Ágil no Brasil para outros países, que vão ser muito difíceis repor, espero que estem bem por la Shoes, Danilo, Fábio...

        Neste ano começou a crescer e se fortalecer um pequeno eco-sistema de profissionais, consultores, empresas que é fundamental para uma adopção em massa possa ser realizada na nossa industria para realmente ser relevante.

        Por isso creio que o mercado esta mudando, falta muito ainda desmistificar as abordagens ágeis, educar e mostrar cases de grandes implantações que já estão acontecendo aqui no Brasil e seus resultados.

        Bom agora algumas previsões para este e os próximos anos....

        Acredito que no Brasil as mudanças / adopção será muito mais abrupta do que em outros países do mundo, e a adopção de Agile em todas suas variantes sobre tudo em processos híbridos com gestão baseada em Scrum ou Kanban e TOC e engenharia baseada em XP, FDD e sobre tudo com conceitos de Lean Software Development é o que me parece que vai cada vez mais o caminho para implantações serias.

        Este ano vão sair do papel Agile Alliance Brasil, Forum Agile 2008, Agile Magazine Brasil, como deveria ter se chamado a Object Magazine de 2002, novos treinamentos com personalidades internacionais, e outros colegas também estão em vento em popa fazendo um monte de coisas, desde treinamentos, coaching, palestras, revistas, tudo para aumentar a adopção e deixar TI um pouco mais Ágil aqui no Brasil.

        Quem sabe o slogam "For a Faster, Cheaper, Better & Cooler IT" pegue...

        Abraços,
        Juan.
        PD: quem quiser colaborar nestas empreitadas é só mandar um email.

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        TeamWare do Brasil
        Equipes Altamente Eficazes
        Agilidade, Pessoas e Tecnologia
        São Paulo: +55 (11) 5061-8221
        Brasilia: +55 (61) 9969-9282
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      • Vinicius Manhaes Teles
        Oi, Juan. Minha resposta curta para a sua pergunta é: sim, o mercado está mudando. Ele está sempre mudando. :-) Mas, talvez não tanto assim quanto
        Mensagem 3 de 4 , 26 de mar de 2008
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          Oi, Juan.

          Minha resposta curta para a sua pergunta é: sim, o mercado está mudando. Ele está sempre mudando. :-) Mas, talvez não tanto assim quanto gostaríamos e, possivelmente, não na direção que desejamos. Uma das mudanças mais perceptíveis é que cada vez mais gente tem ouvido falar de desenvolvimento ágil. Mas, isso não quer dizer necessariamente que cada vez mais gente esteja adotando métodos ágeis. Certamente, cada vez mais gente DIZ estar usando métodos ágeis. Mas, a distância entre o DIZER e o FAZER é imensa, sobretudo nesta área. Acredito que, daqui por diante, veremos cada vez mais gente falando sobre desenvolvimento ágil, mas continuaremos a ver poucos usando. Há algumas razões fundamentais para isso.

          Desenvolvimento ágil não tem a ver com Scrum, XP, FDD, Lean ou seja lá qual for o nome. Tem a ver, acima de tudo, com a maneira como encaramos desenvolvimento de software. Tem a ver com a compreensão da verdadeira NATUREZA do desenvolvimento de software. Os anos passam, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue se livrar da idéia de que desenvolver software seja igual a construir prédio. As conseqüências desta dissonância cognitiva são infinitamente mais sérias do que a maioria de nós gostaria de acreditar. Escrevi exaustivamente sobre isso na minha dissertação (http://www.improveit.com.br/xp/dissertacaoXP.pdf, cápitulos 3 e 4), então, não vou me estender aqui. Apenas resumirei porque isso é tão prejudicial.

          O que uma empresa produz é resultado de como ela está estruturada. Quem tem autoridade para dizer como deve ser a estrutura de uma empresa é quem está no topo. Então, a estrutura de qualquer é empresa é, no fim das contas, o resultado do modo de pensar, da mentalidade, de quem está no comando. A mentalidade da maioria dos empresários, diretores e gerentes no mundo inteiro é, com raríssimas exceções, arcaica e incompatível com o trabalho de desenvolver software. Quando o topo da empresa não entende o tipo de mentalidade necessária para se desenvolver software de forma bem sucedida, não há santo que possa fazer milagre. E eu garanto, a maioria absoluta das pessoas que estão no comando das empresas não entende uma vírgula do que significa desenvolver software. Isso inclui, certamente, a maioria absoluta dos CIOs. Não é à toa que eles buscam recorrentemente coisas como CMMI, PMBOK, MPS.BR, ITIL etc, todos absolutamente incompatíveis com a NATUREZA do desenvolvimento de software. A mentalidade por trás destas aberrações é inútil, quando o assunto é software, mas casa perfeitamente com a mentalidade da maioria dos gestores. E não pára por aí. Nas universidades, a situação é igual ou pior.

          Veja o caso da UFRJ, por exemplo. Neste semestre, o professor de engenharia de software, percebendo a crescente movimentação em torno de métodos ágeis, resolveu gastar boa parte do seu tempo para mostrar aos alunos que métodos como o XP não funcionam. Afinal, se fôssemos fazer um prédio com XP, aconteceria mil e uma coisas horrendas. Nisso ele está certo. O problema, como sempre, é a maldita distinção entre construir prédio e desenvolver software, a qual, seria óbvia para uma criança, mas é impossível de ser percebida por um Ph.D(eus). Olha que loucura, em uma universidade do quilate da UFRJ, o cidadão, só porque é Ph.D.(eus), não precisa se dar ao trabalho de estudar sobre métodos ágeis, nem muito menos usá-lo, para já saber, desde criancinha, que não pode dar certo. E claro, um conhecimento destes, tão valioso, não pode ser mantido só para ele. Também é preciso passar adiante para os alunos, como se fosse necessário. Afinal, eles já estão todos estagiando em empresas entupidas de documentos e péssimas práticas de desenvolvimento até o último fio de cabelo.

          Sempre fui muito otimista, em tudo. Mas, em se tratando de desenvolvimento ágil, acho que meu otimismo se foi. Foram precisos seis anos para isso acontecer, devo dizer, mas se foi. E a razão está lá em cima, no topo das empresas, no topo das universidades. Está lá onde a mediocridade e a incompetência imperam, ao menos em se tratando de desenvolvimento de software e gestão de pessoas. Percebi, com o tempo, que podemos fazer diferença na base, sim, mas é muito pequena e, freqüentemente efêmera. 

          Fiquei tempo suficiente nesta área para ver equipes adotarem XP, funcionarem super bem durante algum tempo e, mais a frente, serem impedidas de continuar porque a organização passa minar o andamento do grupo. É como um corpo estranho, que é expelido naturalmente pelas nossas células. Só para dar um exemplo. Em 2003, nós fizemos um projeto XP para a Vale do Rio Doce. Foi um projeto lindo, com tudo que se tinha direito. Até contrato de escopo negociável. As áreas de negócio amaram tudo o que foi feito. Adoravam os desenvolvedores. Depois que o sistema foi colocado no ar, foram encontrados apenas 3 bugs durante os seis meses seguintes. Isso é nada em um projeto de mais de um ano, com mais de dez pessoas envolvidas. O projeto foi um sucesso em praticamente todos os quesitos que se pudesse imaginar. Mas, aí é que estava o problema. A última coisa que alguém quer é um projeto de sucesso! Afinal, como ficam os demais? Quando o projeto acabou, tudo foi feito dentro da Vale para que nunca mais isso se repetisse. Acredite, não foi a única vez que vi isso acontecer. Em seis anos, eu vi muita coisa começar bem e, mais a frente, acabar. Por que? 

          Porque desenvolver software com a mentalidade ágil não é compatível com a mentalidade de quem manda. Isso é mais do que suficiente para limitar as mudanças na área de software. Acredito que vai levar muito tempo para que as empresas passem a ter gestores que compreendam não apenas o que é fazer software. Mas, o que é fazer um trabalho do conhecimento. A maioria absoluta dos gestores tratam seus funcionários como se fossem crianças. Fica parecendo que os piores imbecis são justamente os que mais freqüentemente são escolhidos para comandar as empresas. Não parece apenas, isso realmente acontece e dói ver o quanto isso é comum. Enquanto estes estiverem lá em cima, vamos ouvir falar muito sobre desenvolvimento ágil. Mas é só. Aliás, não é não. Tem coisa pior. Vamos ver pessoas fazendo barbaridades e dizendo que estão usando desenvolvimento ágil.

          Para quem ainda estiver no ramo de consultoria, isso não é necessariamente ruim. Essa área vai bombar. Vamos ter cada vez mais espaço para cursos e consultoria em desenvolvimento ágil. O interesse só vai crescer daqui por diante. Não necessariamente pelos méritos, mas porque alguém ouviu dizer que agora o grande lance é fazer software com a ___________ (preencha com a metodologia ágil preferida).

          O problema dos gestores não afeta apenas o desenvolvimento de software. Ele é muito mais sério e muito mais abrangente que isso. Entre em qualquer empresa grande e o que você verá é um bando de trabalhadores do conhecimento sendo tratados como pedreiros por um bando de incompetentes que não conseguem fazer nada melhor que jogar tempo e dinheiro na lata de lixo. O nível de desperdício de talento, tempo, dinheiro, oportunidades etc é tão colossal que eu realmente não consigo compreender como alguém consegue trabalhar em uma empresa grande atualmente. Claro, existem exceções. Pouquíssimas, mas existem. São apenas isso, exceções. 

          Desejo muita sorte e sucesso para quem continua lutando para mudar este panorama. Não tenho dúvidas de que as coisas irão melhorar ao longo do tempo. Mas, acho bastante improvável que uma mudança significativa aconteça no curto ou médio prazo. Enquanto as pessoas chegarem no topo das empresas com a mentalidade que temos hoje em dia, enquanto os professores universitários continuarem ensinando lixo, enquanto as empresas continuarem a ganhar dinheiro apesar das práticas de administração arcaicas que utilizam, enquanto nós aceitarmos trabalhar para estes idiotas, vai ser complicado.

          Desculpa pelo pessimismo. Não foi sempre assim. Foram necessários seis anos, seis turmas de XP na UFRJ, literalmente centenas de apresentações de XP em todo o Brasil, um mestrado, não sei quantos cursos, vários mentorings, alguns projetos de desenvolvimento XP, algumas conferências no exterior, um livro e mais um monte de coisas que eu não lembro, para me dobrar. E antes que alguém pense que o problema era o XP e que tudo poderia ser diferente se tivesse sido Scrum, FDD, Lean etc, não se enganem. O buraco é mais embaixo. Se você conseguiu chegar até aqui e prestou atenção ao que estou dizendo, tudo se resume a uma coisa: mudar é difícil? É. Mas, ainda é a parte fácil. O difícil mesmo é mudar de vez. 

          O Kent Beck tem um exemplo ótimo. Segundo ele, parar de fumar é fácil. Tanto que tem gente que já parou várias vezes. :-) O problema é parar e nunca mais voltar a fumar. É a mesma coisa. Um monte de gente vai conseguir mudar para desenvolvimento ágil. Poucos conseguirão sustentar esta mudança. E eu adoraria estar falando isso de orelhada. Mas, é que eu vi as pessoas voltarem a fumar um número suficiente de vezes para saber que é ótimo ver mais movimentação atualmente sobre desenvolvimento ágil. Mas, acredito que seja ingênuo achar que isso implique em uma mudança significativa. Muitos tentarão e a maioria vai voltar às práticas antigas, simplesmente porque todos os incentivos nas empresas giram em torno delas e isso continuará assim por muito tempo. 

          Apesar de tudo o que disse, torço, profundamente, para estar absolutamente equivocado! No mais, redobrem seus esforços! O desafio é bem maior do que parece à primeira vista.

          Grande abraço,

          Vinícius Teles

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          Em 26/03/2008, às 03:48, Juan Bernabo escreveu:

          Pessoal,

          Desculpem mais talvez pelo horario fiquei nostalgico, coisa de tanguero, bom vou fazer uma retrospectiva sobre como vejo o que tem acontecido nos últimos anos na saga de Agile no Brasil que é claro é completamente ego cêntrica e limitada visão dos fatos e gostaria tambem ter a contribuição de quem quiser agregar fatos a esta historia.

          Eu me lembro da vez que veio ao Brasil o Kent Beck, Scott Ambler, Rob Mee e uma galera muito legal para o evento XP 2002 organizado pelo Klaus Wuestefeld e sua empresa na epoca, naquela época eu estava lançando um piloto da revista Object Magazine Brasil, que foi um sucesso de audiência, porem um fracasso de bilheteria, e com a idéia de falar do ciclo de vida completo de desenvolvimento de software, não só de programação, porque o que eu via como um dos grandes problemas era a falta de integração entre as disciplinas, as pessoas e que isso me parecia estar no cerne da crise do software, la estava o Vinicius da ImproveIt, o Fabio Kon da USP e outras personalidades do mundo Ágil.

          Isso foi em 2002, parece um seculo, teve o XP 2004 com um pouco menos de ruido, e depois parece que ouve um inverno, em 2005 e 2006 depois de tentar em varias empresas de fazer o que eu sei que é entregar software de forma iterativa e incremental e evolutiva e ter conflitos com os mais variados tipos de planos malucos, processos, e politicas disfuncionais acabei me decidindo a mudar de negocio, não mais ter que brigar de dentro de uma organização para tentar mudar politicas que colocam em risco projetos, e fazer que as empresas com suficiente dor e/ou disposição para mudar possam me contratar para ajudar-las a fazer isso.

          Em 2006 foi uma dureza fechar algum contrato, nenhum gerente ou diretor queria saber de outra coisa que não fosse CMMI/MPSbr/RUP, naquela epoca eu começei a tentar sair da toca e conheci algumas pessoas na lista CMM-Brasil, hoje morta e encarnada na CMMI-Brasil, que tambem estabam falando sobre Agile e com serias criticas ao que empresas estavam adotando, e a gente sacudeu um pouquinho a poeira num primeiro Mini-Workshop de Gerenciamento Ágil de Projetos entre o Marcio Tierno, Jose Papo, Adail Retamal e eu e depois numasegunda edição organizado pelo PMI-SP que também foi muito bem.

          Em 2007 começou para mim a maratona de Scrum no Brasil, organizando treinamentos em varias capitais e fazendo palestras e webcasts adoidado, muito barulho em listas, e conseguimos que centenas de pessoas fissem o treinamento de CSM, para mim Scrum seria a arma fundamental para poder criar celulas de produção de software auto-geridas que pudessem adotar processos/praticas ágeis vindas do XP/FDD/Lean ou qualquer outra coisa que pudesse agregar valor a produzir software pronto em duas a quatro semanas.

          Como empresas não queriam ouvir falar de Agile/Scrum, a estrategia foi começar pelas pessoas, aqueles indivíduos que mesmo que a empresa não pagasse o treinamento o fariam por conta da convicção ou da dor da forma de trabalhar atual, e estes seriam os "early adopters" que acabariam evangelizando Scrum/Agile em suas organizações.

          Depois disto começou a emerger e sair do anonimato, pelo menos para mim, uma galera talentossisima que não vou me atrever a falar todos os nomes, e Agile deixou de ser sinônimo de coisa de programador adolescente revoltado e passou a ser coisa de gente grande, o que sempre foi... mais....

          Em 2008 ainda tem profissional que paga do seu bolso, mais muita muita empresa deixou a certeza de um futuro melhor cheio de processos altamente definidos, muitos documentos e matrizes de rastreabilidade, pela simplicidade e foco em resultados de Agile.

          Na virada do ano perdemos pelo menos uns 3 a 4 grandes valores na comunidade Ágil no Brasil para outros países, que vão ser muito difíceis repor, espero que estem bem por la Shoes, Danilo, Fábio...

          Neste ano começou a crescer e se fortalecer um pequeno eco-sistema de profissionais, consultores, empresas que é fundamental para uma adopção em massa possa ser realizada na nossa industria para realmente ser relevante.

          Por isso creio que o mercado esta mudando, falta muito ainda desmistificar as abordagens ágeis, educar e mostrar cases de grandes implantações que já estão acontecendo aqui no Brasil e seus resultados.

          Bom agora algumas previsões para este e os próximos anos....

          Acredito que no Brasil as mudanças / adopção será muito mais abrupta do que em outros países do mundo, e a adopção de Agile em todas suas variantes sobre tudo em processos híbridos com gestão baseada em Scrum ou Kanban e TOC e engenharia baseada em XP, FDD e sobre tudo com conceitos de Lean Software Development é o que me parece que vai cada vez mais o caminho para implantações serias.

          Este ano vão sair do papel Agile Alliance Brasil, Forum Agile 2008, Agile Magazine Brasil, como deveria ter se chamado a Object Magazine de 2002, novos treinamentos com personalidades internacionais, e outros colegas também estão em vento em popa fazendo um monte de coisas, desde treinamentos, coaching, palestras, revistas, tudo para aumentar a adopção e deixar TI um pouco mais Ágil aqui no Brasil.

          Quem sabe o slogam "For a Faster, Cheaper, Better & Cooler IT" pegue...

          Abraços,
          Juan.
          PD: quem quiser colaborar nestas empreitadas é só mandar um email.

          -- 
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        • Manoel Pimentel
          Vinicius, Depoimento interessante (E creio que bem realista!) . Acho que a falta de continuidade na cultura agile nas empresas é um sintoma, que têm algumas
          Mensagem 4 de 4 , 27 de mar de 2008
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          • 0 Anexo

            Vinicius,

            Depoimento interessante (E creio que bem realista!) .

            Acho que a falta de continuidade na cultura agile nas empresas é um sintoma, que têm algumas  causas interessantes.

            A primeira causa é o fato de na maioria das vezes, toda a cultura agile fica restrita a área de desenvolvimento da empresa e por mais que consigamos bons resultados nessa área, é como se dentro da empresa, estivéssemos melhorando apenas um "elo da corrente", ou seja, a própria visão estratégica, políticas de negócios, práticas comerciais e financeiras, não acompanham a mesma linha de pensamento da área de desenvolvimento, dessa forma, todo o ganho obtido em um projeto, é perdido devido a outras restrições da empresa.

            A segunda causa que consigo ver, é como muitas vezes essa melhoria em processos de software, fica constantemente ameaçada por conceitos que atingem de forma mais ampla uma companhia, o que chamamos de frameworks corporativos como por exemplo: Seis Sigma, COBiT,  Itil, COSO, CMMi e por aí vai.

            Não estou falando apenas da questão agile x tradicionais, pois isso se trata de uma questão de abrangência de "munições",  por exemplo, quando analisamos os relacionamentos entre as PA's do CMMi, vemos que existem quatro categorias (Process Management, Project Management, Engineering e Support). Mas vamos atentar para a primeira delas, que no caso é Process Management, onde sabemos que é um conjunto de práticas que contém atividades "cross-project",  que visam se perpetuar por  vários projetos, ou seja uma tentativa de institucionalizar as atividades de Project Management de forma que se torne um processo "repetível".

            Veja que não estou falando que esses frameworks são melhores que as idéias agile, estou apenas tentando mostrar que os nossos maiores desafios são:

            - Envolver (comprometer)  outras áreas de uma companhia com pensamentos e práticas de acordo com nossas idéias agile;

            - Ter mecanismos que sustentem por vários projetos e por equipes diferentes, as práticas agile concebidas em um projeto.

            Porém, sinceramente, não sei se isso é uma utopia ou se é algo factível com os instrumentos  que temos hoje, aí entra experimentações com conceitos como  Lean, TOC e outras possíveis idéias que por ventura apareçam para validar tais possibilidades.

            Grato,

            Manoel Pimentel, CSP
            www.visaoagil.com

             

            _________________________________________________________________


             
            Em 27/03/08, Vinicius Manhaes Teles <vinicius@...> escreveu:

            Oi, Juan.

             
            Minha resposta curta para a sua pergunta é: sim, o mercado está mudando. Ele está sempre mudando. :-) Mas, talvez não tanto assim quanto gostaríamos e, possivelmente, não na direção que desejamos. Uma das mudanças mais perceptíveis é que cada vez mais gente tem ouvido falar de desenvolvimento ágil. Mas, isso não quer dizer necessariamente que cada vez mais gente esteja adotando métodos ágeis. Certamente, cada vez mais gente DIZ estar usando métodos ágeis. Mas, a distância entre o DIZER e o FAZER é imensa, sobretudo nesta área. Acredito que, daqui por diante, veremos cada vez mais gente falando sobre desenvolvimento ágil, mas continuaremos a ver poucos usando. Há algumas razões fundamentais para isso.

             
            Desenvolvimento ágil não tem a ver com Scrum, XP, FDD, Lean ou seja lá qual for o nome. Tem a ver, acima de tudo, com a maneira como encaramos desenvolvimento de software. Tem a ver com a compreensão da verdadeira NATUREZA do desenvolvimento de software. Os anos passam, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue se livrar da idéia de que desenvolver software seja igual a construir prédio. As conseqüências desta dissonância cognitiva são infinitamente mais sérias do que a maioria de nós gostaria de acreditar. Escrevi exaustivamente sobre isso na minha dissertação (http://www.improveit.com.br/xp/dissertacaoXP.pdf, cápitulos 3 e 4), então, não vou me estender aqui. Apenas resumirei porque isso é tão prejudicial.

             
            O que uma empresa produz é resultado de como ela está estruturada. Quem tem autoridade para dizer como deve ser a estrutura de uma empresa é quem está no topo. Então, a estrutura de qualquer é empresa é, no fim das contas, o resultado do modo de pensar, da mentalidade, de quem está no comando. A mentalidade da maioria dos empresários, diretores e gerentes no mundo inteiro é, com raríssimas exceções, arcaica e incompatível com o trabalho de desenvolver software. Quando o topo da empresa não entende o tipo de mentalidade necessária para se desenvolver software de forma bem sucedida, não há santo que possa fazer milagre. E eu garanto, a maioria absoluta das pessoas que estão no comando das empresas não entende uma vírgula do que significa desenvolver software. Isso inclui, certamente, a maioria absoluta dos CIOs. Não é à toa que eles buscam recorrentemente coisas como CMMI, PMBOK, MPS.BR, ITIL etc, todos absolutamente incompatíveis com a NATUREZA do desenvolvimento de software. A mentalidade por trás destas aberrações é inútil, quando o assunto é software, mas casa perfeitamente com a mentalidade da maioria dos gestores. E não pára por aí. Nas universidades, a situação é igual ou pior.

             
            Veja o caso da UFRJ, por exemplo. Neste semestre, o professor de engenharia de software, percebendo a crescente movimentação em torno de métodos ágeis, resolveu gastar boa parte do seu tempo para mostrar aos alunos que métodos como o XP não funcionam. Afinal, se fôssemos fazer um prédio com XP, aconteceria mil e uma coisas horrendas. Nisso ele está certo. O problema, como sempre, é a maldita distinção entre construir prédio e desenvolver software, a qual, seria óbvia para uma criança, mas é impossível de ser percebida por um Ph.D(eus). Olha que loucura, em uma universidade do quilate da UFRJ, o cidadão, só porque é Ph.D.(eus), não precisa se dar ao trabalho de estudar sobre métodos ágeis, nem muito menos usá-lo, para já saber, desde criancinha, que não pode dar certo. E claro, um conhecimento destes, tão valioso, não pode ser mantido só para ele. Também é preciso passar adiante para os alunos, como se fosse necessário. Afinal, eles já estão todos estagiando em empresas entupidas de documentos e péssimas práticas de desenvolvimento até o último fio de cabelo.

             
            Sempre fui muito otimista, em tudo. Mas, em se tratando de desenvolvimento ágil, acho que meu otimismo se foi. Foram precisos seis anos para isso acontecer, devo dizer, mas se foi. E a razão está lá em cima, no topo das empresas, no topo das universidades. Está lá onde a mediocridade e a incompetência imperam, ao menos em se tratando de desenvolvimento de software e gestão de pessoas. Percebi, com o tempo, que podemos fazer diferença na base, sim, mas é muito pequena e, freqüentemente efêmera. 

             
            Fiquei tempo suficiente nesta área para ver equipes adotarem XP, funcionarem super bem durante algum tempo e, mais a frente, serem impedidas de continuar porque a organização passa minar o andamento do grupo. É como um corpo estranho, que é expelido naturalmente pelas nossas células. Só para dar um exemplo. Em 2003, nós fizemos um projeto XP para a Vale do Rio Doce. Foi um projeto lindo, com tudo que se tinha direito. Até contrato de escopo negociável. As áreas de negócio amaram tudo o que foi feito. Adoravam os desenvolvedores. Depois que o sistema foi colocado no ar, foram encontrados apenas 3 bugs durante os seis meses seguintes. Isso é nada em um projeto de mais de um ano, com mais de dez pessoas envolvidas. O projeto foi um sucesso em praticamente todos os quesitos que se pudesse imaginar. Mas, aí é que estava o problema. A última coisa que alguém quer é um projeto de sucesso! Afinal, como ficam os demais? Quando o projeto acabou, tudo foi feito dentro da Vale para que nunca mais isso se repetisse. Acredite, não foi a única vez que vi isso acontecer. Em seis anos, eu vi muita coisa começar bem e, mais a frente, acabar. Por que? 

             
            Porque desenvolver software com a mentalidade ágil não é compatível com a mentalidade de quem manda. Isso é mais do que suficiente para limitar as mudanças na área de software. Acredito que vai levar muito tempo para que as empresas passem a ter gestores que compreendam não apenas o que é fazer software. Mas, o que é fazer um trabalho do conhecimento. A maioria absoluta dos gestores tratam seus funcionários como se fossem crianças. Fica parecendo que os piores imbecis são justamente os que mais freqüentemente são escolhidos para comandar as empresas. Não parece apenas, isso realmente acontece e dói ver o quanto isso é comum. Enquanto estes estiverem lá em cima, vamos ouvir falar muito sobre desenvolvimento ágil. Mas é só. Aliás, não é não. Tem coisa pior. Vamos ver pessoas fazendo barbaridades e dizendo que estão usando desenvolvimento ágil.

             
            Para quem ainda estiver no ramo de consultoria, isso não é necessariamente ruim. Essa área vai bombar. Vamos ter cada vez mais espaço para cursos e consultoria em desenvolvimento ágil. O interesse só vai crescer daqui por diante. Não necessariamente pelos méritos, mas porque alguém ouviu dizer que agora o grande lance é fazer software com a ___________ (preencha com a metodologia ágil preferida).

             
            O problema dos gestores não afeta apenas o desenvolvimento de software. Ele é muito mais sério e muito mais abrangente que isso. Entre em qualquer empresa grande e o que você verá é um bando de trabalhadores do conhecimento sendo tratados como pedreiros por um bando de incompetentes que não conseguem fazer nada melhor que jogar tempo e dinheiro na lata de lixo. O nível de desperdício de talento, tempo, dinheiro, oportunidades etc é tão colossal que eu realmente não consigo compreender como alguém consegue trabalhar em uma empresa grande atualmente. Claro, existem exceções. Pouquíssimas, mas existem. São apenas isso, exceções. 

             
            Desejo muita sorte e sucesso para quem continua lutando para mudar este panorama. Não tenho dúvidas de que as coisas irão melhorar ao longo do tempo. Mas, acho bastante improvável que uma mudança significativa aconteça no curto ou médio prazo. Enquanto as pessoas chegarem no topo das empresas com a mentalidade que temos hoje em dia, enquanto os professores universitários continuarem ensinando lixo, enquanto as empresas continuarem a ganhar dinheiro apesar das práticas de administração arcaicas que utilizam, enquanto nós aceitarmos trabalhar para estes idiotas, vai ser complicado.

             
            Desculpa pelo pessimismo. Não foi sempre assim. Foram necessários seis anos, seis turmas de XP na UFRJ, literalmente centenas de apresentações de XP em todo o Brasil, um mestrado, não sei quantos cursos, vários mentorings, alguns projetos de desenvolvimento XP, algumas conferências no exterior, um livro e mais um monte de coisas que eu não lembro, para me dobrar. E antes que alguém pense que o problema era o XP e que tudo poderia ser diferente se tivesse sido Scrum, FDD, Lean etc, não se enganem. O buraco é mais embaixo. Se você conseguiu chegar até aqui e prestou atenção ao que estou dizendo, tudo se resume a uma coisa: mudar é difícil? É. Mas, ainda é a parte fácil. O difícil mesmo é mudar de vez. 

             
            O Kent Beck tem um exemplo ótimo. Segundo ele, parar de fumar é fácil. Tanto que tem gente que já parou várias vezes. :-) O problema é parar e nunca mais voltar a fumar. É a mesma coisa. Um monte de gente vai conseguir mudar para desenvolvimento ágil. Poucos conseguirão sustentar esta mudança. E eu adoraria estar falando isso de orelhada. Mas, é que eu vi as pessoas voltarem a fumar um número suficiente de vezes para saber que é ótimo ver mais movimentação atualmente sobre desenvolvimento ágil. Mas, acredito que seja ingênuo achar que isso implique em uma mudança significativa. Muitos tentarão e a maioria vai voltar às práticas antigas, simplesmente porque todos os incentivos nas empresas giram em torno delas e isso continuará assim por muito tempo. 

             
            Apesar de tudo o que disse, torço, profundamente, para estar absolutamente equivocado! No mais, redobrem seus esforços! O desafio é bem maior do que parece à primeira vista.

             
            Grande abraço,

             
            Vinícius Teles

             
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            Em 26/03/2008, às 03:48, Juan Bernabo escreveu:

            Pessoal,

            Desculpem mais talvez pelo horario fiquei nostalgico, coisa de tanguero, bom vou fazer uma retrospectiva sobre como vejo o que tem acontecido nos últimos anos na saga de Agile no Brasil que é claro é completamente ego cêntrica e limitada visão dos fatos e gostaria tambem ter a contribuição de quem quiser agregar fatos a esta historia.

            Eu me lembro da vez que veio ao Brasil o Kent Beck, Scott Ambler, Rob Mee e uma galera muito legal para o evento XP 2002 organizado pelo Klaus Wuestefeld e sua empresa na epoca, naquela época eu estava lançando um piloto da revista Object Magazine Brasil, que foi um sucesso de audiência, porem um fracasso de bilheteria, e com a idéia de falar do ciclo de vida completo de desenvolvimento de software, não só de programação, porque o que eu via como um dos grandes problemas era a falta de integração entre as disciplinas, as pessoas e que isso me parecia estar no cerne da crise do software, la estava o Vinicius da ImproveIt, o Fabio Kon da USP e outras personalidades do mundo Ágil.

            Isso foi em 2002, parece um seculo, teve o XP 2004 com um pouco menos de ruido, e depois parece que ouve um inverno, em 2005 e 2006 depois de tentar em varias empresas de fazer o que eu sei que é entregar software de forma iterativa e incremental e evolutiva e ter conflitos com os mais variados tipos de planos malucos, processos, e politicas disfuncionais acabei me decidindo a mudar de negocio, não mais ter que brigar de dentro de uma organização para tentar mudar politicas que colocam em risco projetos, e fazer que as empresas com suficiente dor e/ou disposição para mudar possam me contratar para ajudar-las a fazer isso.

            Em 2006 foi uma dureza fechar algum contrato, nenhum gerente ou diretor queria saber de outra coisa que não fosse CMMI/MPSbr/RUP, naquela epoca eu começei a tentar sair da toca e conheci algumas pessoas na lista CMM-Brasil, hoje morta e encarnada na CMMI-Brasil, que tambem estabam falando sobre Agile e com serias criticas ao que empresas estavam adotando, e a gente sacudeu um pouquinho a poeira num primeiro Mini-Workshop de Gerenciamento Ágil de Projetos entre o Marcio Tierno, Jose Papo, Adail Retamal e eu e depois numasegunda edição organizado pelo PMI-SP que também foi muito bem.

            Em 2007 começou para mim a maratona de Scrum no Brasil, organizando treinamentos em varias capitais e fazendo palestras e webcasts adoidado, muito barulho em listas, e conseguimos que centenas de pessoas fissem o treinamento de CSM, para mim Scrum seria a arma fundamental para poder criar celulas de produção de software auto-geridas que pudessem adotar processos/praticas ágeis vindas do XP/FDD/Lean ou qualquer outra coisa que pudesse agregar valor a produzir software pronto em duas a quatro semanas.

            Como empresas não queriam ouvir falar de Agile/Scrum, a estrategia foi começar pelas pessoas, aqueles indivíduos que mesmo que a empresa não pagasse o treinamento o fariam por conta da convicção ou da dor da forma de trabalhar atual, e estes seriam os "early adopters" que acabariam evangelizando Scrum/Agile em suas organizações.

            Depois disto começou a emerger e sair do anonimato, pelo menos para mim, uma galera talentossisima que não vou me atrever a falar todos os nomes, e Agile deixou de ser sinônimo de coisa de programador adolescente revoltado e passou a ser coisa de gente grande, o que sempre foi... mais....

            Em 2008 ainda tem profissional que paga do seu bolso, mais muita muita empresa deixou a certeza de um futuro melhor cheio de processos altamente definidos, muitos documentos e matrizes de rastreabilidade, pela simplicidade e foco em resultados de Agile.

            Na virada do ano perdemos pelo menos uns 3 a 4 grandes valores na comunidade Ágil no Brasil para outros países, que vão ser muito difíceis repor, espero que estem bem por la Shoes, Danilo, Fábio...

            Neste ano começou a crescer e se fortalecer um pequeno eco-sistema de profissionais, consultores, empresas que é fundamental para uma adopção em massa possa ser realizada na nossa industria para realmente ser relevante.

            Por isso creio que o mercado esta mudando, falta muito ainda desmistificar as abordagens ágeis, educar e mostrar cases de grandes implantações que já estão acontecendo aqui no Brasil e seus resultados.

            Bom agora algumas previsões para este e os próximos anos....

            Acredito que no Brasil as mudanças / adopção será muito mais abrupta do que em outros países do mundo, e a adopção de Agile em todas suas variantes sobre tudo em processos híbridos com gestão baseada em Scrum ou Kanban e TOC e engenharia baseada em XP, FDD e sobre tudo com conceitos de Lean Software Development é o que me parece que vai cada vez mais o caminho para implantações serias.

            Este ano vão sair do papel Agile Alliance Brasil, Forum Agile 2008, Agile Magazine Brasil, como deveria ter se chamado a Object Magazine de 2002, novos treinamentos com personalidades internacionais, e outros colegas também estão em vento em popa fazendo um monte de coisas, desde treinamentos, coaching, palestras, revistas, tudo para aumentar a adopção e deixar TI um pouco mais Ágil aqui no Brasil.

            Quem sabe o slogam "For a Faster, Cheaper, Better & Cooler IT" pegue...

            Abraços,
            Juan.
            PD: quem quiser colaborar nestas empreitadas é só mandar um email.

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