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História da Mentora Vovó Catarina

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  • Leilane Castro
    *História da Mentora Vovó Catarina * *(Mas também conhecida como Dona Euzália)* Os tambores tocavam o ritmo cadenciado dos Orixás, e nós dançávamos.
    Mensagem 1 de 1 , 21 de dez de 2006
      *História da Mentora Vovó Catarina *

      *(Mas também conhecida como Dona Euzália)*



      Os tambores tocavam o ritmo cadenciado dos Orixás, e nós dançávamos.
      Dançávamos todos em volta da fogueira improvisada ou à luz de tochas ou
      velas de cera que fazíamos. A comida era pouca, mas para passar a fome nós
      dançávamos a dança dos Orixás. E assim, ao som dos tambores de nosso povo,
      nos divertíamos, para não morrer de tristeza e sofrimento. Eu era chamada de
      feiticeira. Mas eu não era feiticeira, era curandeira. Entendia de ervas,
      com as quais fazia remédios para o meu povo, e de parto; eu era a parteira
      do povo de Angola, que estava errando naquela terra de meu Deus. Até que
      Sinhazinha me tirou do meu povo. Ela não queria que eu usasse meus
      conhecimentos para curar os negros, somente os brancos; afinal, negro -
      dizia ela - tinha que trabalhar e trabalhar até morrer. Depois, era só
      substituir por outro. Mas Dona Moça não pensava assim. Ela gostava de mim, e
      eu, dela. Fui jogada num canto, separada dos outros escravos, e todas as
      noites eu chorava ao saber que meu povo sofria e eu não podia fazer nada
      para ajudar. De dia eu descascava coco e moía café no pilão. À noite eu
      cantava sozinha, solitária. E ouvia o cantar triste de meu povo, de longe.
      Ouvia o lamento dos negros de Angola pedindo a Oxalá a liberdade, que só
      depois nós entendemos o que era. E os tambores tocavam o seu lamento triste,
      o seu toque cadenciado, enquanto eu respondia de meu cativeiro com as rezas
      dos meus Orixás. A liberdade, que era cantada por todos do cativeiro, só
      mais tarde é que nós a compreendemos. A liberdade era de dentro, e não de
      fora.

      Aqueles eram dias difíceis, e nós aprendemos com os cânticos de Oxóssi e as
      armas de Ogum o que era se humilhar, sofrer e servir, até que nosso espírito
      estivesse acostumado tanto ao sofrimento e a servir sem discutir, sem nada
      obter em troca, que, a um simples sinal de dor ou qualquer necessidade, nós
      estávamos ali, prontos para servir, preparados para trabalhar. E nosso Pai
      Oxalá nos ensinou, em meio aos toques dos tambores na senzala ou aos
      chicotes do capitão, que é mais proveitoso servir e sofrer do que ser
      servido e provocar a infelicidade dos outros.

      Um dia, vítima do desespero de Sinhá, eu fui levada à noite para o tronco,
      enquanto meus irmãos na senzala cantavam. A cada toque mais forte dos
      tambores, eu recebia uma chibatada, até que, desfalecendo, fui conduzida nos
      braços de Oxalá para o reino de Aruanda. Meu corpo, na verdade, estava
      morto, mas eu estava livre, no meio das estrelas de Aruanda. Em meu espírito
      não restou nenhum rancor, mas apenas um profundo agradecimento aos meus
      antigos senhores, por me ensinar, com o suor e o sofrimento, que mais
      compensa ser bom do que mau; sofrer cumprindo nosso dever do que sorrir na
      ilusão; trabalhar pelo bem de todos do que servir de tropeço. Eu era agora
      liberta, e nenhum chicote, nenhuma senzala poderia me prender, porque agora
      eu poderia ouvir por todo lado o barulho dos tambores de Angola, mas também
      do Kêtu, de Luanda, de Jêje e de todo lugar. Em meio às estrelas de Aruanda
      eu rezava. Rezava agradecida ao meu Pai Oxalá.

      Fui pra Aruanda, lugar de muita paz! Mas eu retomei. Pedi a meu Pai Oxalá
      que desse oportunidade pra eu voltar ao Brasil pra poder ajudar a Sinhá,
      pois ela me ensinou muita coisa com o jeito dela nos tratar. E eu voltei.
      Agora as coisas pareciam mudadas. Eu não era aquela nega feia e escrava. Era
      filha de gente grande e bonita, sabia ler e ensinava crianças dos outros. Um
      dia bateu na minha porta um homem com uma menina enjeitada da mãe. Era muito
      esquisita, doente e trazia nela o mal da lepra. Tadinha! Não tinha pra onde
      ir, e o pai desesperado não sabia o que fazer. Adotei a pobre coitada, fui
      tratando aos poucos e, quando me casei, levei a menina comigo. Cresceu, deu
      problema, mas eu a amava muito. Até que um dia ela veio a desencarnar em
      meus braços, de um jeito que fazia dó. Quando eu retomei pra Aruanda, o que
      vocês chamam de plano espiritual, ela veio me receber com os braços abertos
      e chorando muito, muito mesmo. Perguntei por que chorava, se nós duas agora
      estávamos livres do sofrimento da carne, então, ela, transformando-se em
      minha frente, assumiu a feição de Sinhazinha! Ela era a minha Sinhá do tempo
      do cativeiro. E nós duas nos abraçamos e choramos juntas. Hoje, trabalhamos
      nas falanges da Umbanda, com a esperança de passar a nossa experiência pra
      muitos que ainda se encontram perdidos em suas dificuldades.
      *Extraído do Livro (TAMBORES DE ANGOLA)*

      Abraços Fraternos.
      Leilane Castro
      --
      "Tento ser como o sândalo que perfuma o machado que o corta".


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