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[Carta O BERRO] PARA NÃO ESQUECER JAMAIS! Hi stória de GRENALDO DE JESUS DA SILVA -CCXVIII-

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  • Vanderley - Revista
    Carta O Berro..........................................................repassem GRENALDO DE JESUS DA SILVA (1941-1972) Filiação: Eneida Estela Silva e
    Mensagem 1 de 1 , 15 de ago de 2011
      Carta O Berro..........................................................repassem
       
       
       
       
       
       

      GRENALDO DE JESUS DA SILVA (1941-1972)

      Filiação:

      Eneida Estela Silva e Gregório Napoleão Silva

      Data e local de nascimento:

      17/4/1941, no Maranhão

      Organização política ou atividade:

      não definida

      Data e local da morte:

      30/5/1972, em São Paulo (SP)

      O maranhense Grenaldo de Jesus da Silva, tinha sido um dos 1509 marinheiros que foram expulsos da Armada em abril de 1964. Foi morto

      em 30/5/1972, no Aeroporto de Congonhas (SP). Tentava seqüestrar um avião da Varig, que havia decolado para Curitiba, obrigando o piloto

      a retornar a São Paulo. Depois de ser negociada a saída de todos os passageiros e a maior parte dos tripulantes, a aeronave foi invadida e

      Grenaldo morto. Agentes do DOI-CODI/SP relataram a vários presos políticos que se encontravam naquela unidade de segurança as condições

      em que tinham executado o seqüestrador.

      A versão oficial divulgada foi de que se suicidara. Somente em 2003, a repórter Eliane Brum, da revista

      Época, foi procurada por uma testemunha

      com novas informações. Mais do que isso, a matéria permitiu que o filho de Grenaldo de Jesus, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut,

      que ainda não conhecia as circunstâncias reais da morte do pai, encontrasse sua verdadeira história e sua família.

      O nome de Grenaldo de Jesus sempre constou do

      Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, apesar de não haver contato com seus familiares.

      Seu corpo, enterrado como indigente no Cemitério Dom Bosco, em Perus, foi parar dentre as ossadas da vala clandestina daquele

      cemitério. A família não apresentou requerimento à CEMDP quando foi editada a Lei nº 9.140/95. Somente em 2002, um dos irmãos entrou

      com o pedido, cuja responsabilidade foi transferida ao filho quando finalmente localizado.

      Nascido no Maranhão, o marinheiro Grenaldo era o filho mais velho dentre 12 irmãos. Seu pai era alfaiate, a mãe servente de escola em

      São Luís (MA). Ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará em 1º/1/1960. Em 30/9/1964, quando era marinheiro de 2ª classe,

      foi expulso em função de sua participação política e terminou sendo condenado a 5 anos e dois meses de prisão, a mais alta pena dentre

      os 414 marinheiros julgados.

      Para evitar a prisão, mudou-se para Guarulhos, na Grande São Paulo. Durante cinco anos, trabalhou como porteiro e vigilante da empresa

      Camargo Corrêa. Casou-se com Mônica e tiveram um filho. Num dia de 1971, Grenaldo saiu de casa, nervoso após receber cartas que provavelmente

      lhe avisavam que fora descoberto. A mulher só voltou a saber dele quando foi divulgada sua morte por ocasião do seqüestro. O

      menino Grenaldo tinha 4 anos e cresceu sem saber do pai.

      A requisição de exame ao IML, marcada com o “T” que identificava os militantes políticos, foi assinada pelo delegado do DOPS Alcides Cintra

      Bueno Filho. O laudo de necropsia foi assinado pelos legistas Sérgio Belmiro Acquesta e Helena Fumie Okajima, que definiram a morte por

      “

      traumatismo craniano encefálico”.

      A história começou a ser desvendada quando a foto de Grenaldo foi publicada em matéria da revista

      Época, de março de 2003. Uma testemunha

      do seqüestro procurou a revista. Era José Barazal Alvarez, sargento especialista da Aeronáutica e controlador de tráfego aéreo

      no aeroporto de Congonhas, que estava trabalhando no dia da tentativa de seqüestro e alternava com os colegas a comunicação com a

      tripulação do avião. Quando a tentativa de seqüestro acabou, ele recebeu a missão de reunir os pertences do seqüestrador e redigir um

      relatório. Há 30 anos sofria pesadelos ao lembrar da carta-testamento para o filho, que ele mesmo retirou do peito de Grenaldo, junto a um

      segundo tiro em seu corpo. Percebeu então que Grenaldo não se suicidara com um único tiro, como afirmaram a Aeronáutica e os legistas

      do IML. Mas José Barazal decidiu permanecer calado até rever a foto publicada, quando então decidiu procurar o filho de Grenaldo e contar-

      lhe a verdade. Não guardou a carta, mas se lembra que era dirigida ao filho, explicando que seqüestrava o avião para chegar ao Uruguai

      e que viria buscar a família assim que possível. Mas ninguém conhecia o filho de Grenaldo até que uma cunhada sua, meses depois, viu a

      mesma revista num consultório dentário e Grenaldo Erdmundo passou a fazer parte desta história. A revista proporcionou um emocionante

      encontro de José e Grenaldo Erdmundo, resgatando a verdade.

      A repórter localizou também o mecânico de vôo Alcides Pegruci Ferreira, a única pessoa que permaneceu no avião com Grenaldo após a

      fuga da tripulação pela janela, e que encontrou o corpo caído, viu o buraco da bala, quase na nuca. Afirmou que “

      virou piada o seqüestrador

      suicidado com um tiro na nuca

      ”. “A ditadura decidiu que era suicídio e a gente teve de aceitar. Botaram um pano em cima”.

      A relatora do processo na CEMDP observou que, “embora o IPM seja inconclusivo quanto à motivação política de Grenaldo de Jesus da Silva

      no seqüestro que culminou em sua morte, assim como não há documentação reunida nos autos que comprove que o falecido participava de

      uma ação politicamente orientada, fica patente que esse entendimento foi o que conduziu toda a ação policial militar quanto aos fatos”.

      Por unanimidade, a Comissão Especial acompanhou o voto da relatora, no entendimento de que “

      a aeronave em que Grenaldo se encontrava

      quando morreu se assemelha às dependências policiais, já que a vítima estava sob custódia das forças de segurança

      ”.

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      + Informações.

      G

      RENALDO DE JESUS DA SILVA

      Nasceu em 11 de abril de 1941 no Maranhão, filho de Gregório Napoleão Silva e

      Eneida Estela Silva.

      Morto aos 31 anos.

      Expulso da Marinha em 1964.

      Ao tentar seqüestrar um avião do vôo São Paulo/Porto Alegre, foi dominado pelos

      agentes do DOI/CODI-SP que, mesmo tendo imobilizado Grenaldo, deram-lhe um tiro na

      cabeça. O assassinato de Grenaldo deu-se a 30 de maio de 1972, no Aeroporto de

      Congonhas, e foi contado em detalhes pelos policiais do DOI/CODI-SP aos prisioneiros

      políticos que se encontravam detidos nesse órgão.

      A versão policial da requisição do exame necroscópico, solicitado pelo Delegado

      Alcides Cintra Bueno Filho é de suicídio. Assinam o laudo os médicos legistas Sérgio

      Belmiro Acquestra e Helena Fumie Okajima.

      O Relatório do Ministério da Aeronáutica diz que foi “morto em 30 de maio de

      1972...”

      =================================================================================================

      + Informações.

      (do livro Hábeas Córpus)

      GRENALDO DE JESUS DA SILVA (1941-1972)

      N

      ascido no Maranhão, Grenaldo era o mais velho de 12 irmãos. Seu pai era alfaiate, e a mãe, servente

      de escola em São Luís (MA). Ingressou na Escola de Aprendizes de Marinheiros do Ceará no

      começo de 1960. Após golpe militar de 1964, quando Grenaldo era marinheiro de segunda classe, foi

      um dos 1.509 expulsos da Marinha e condenado a cinco anos e dois meses de prisão, a pena mais alta

      entre os 414 réus julgados.

      Para evitar a prisão, mudou-se para Guarulhos, na Grande São Paulo. Durante cinco anos, trabalhou

      como porteiro e vigilante da empresa Camargo Corrêa. Casou com uma moça chamada Mônica e

      tiveram um filho. Certo dia de 1971, Grenaldo saiu de casa, nervoso após receber cartas que

      provavelmente lhe avisavam que fora descoberto. A mulher só voltou a saber dele quando foi divulgada

      sua morte, em 30 de maio de 1972. O filho, então com 4 anos, e também chamado Grenaldo, cresceu

      sem saber das circunstâncias da morte do pai.

      A morte de Grenaldo ocorreu no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, quando ele tentava

      sequestrar um avião da Varig, que havia decolado para Curitiba, obrigando o piloto a retornar a

      Congonhas. Depois de ser negociada a saída de todos os passageiros e a maior parte dos tripulantes, a

      aeronave foi invadida e Grenaldo, morto. Agentes do DOI-Codi/SP relataram a vários presos políticos

      que se encontravam naquela unidade de segurança as condições em que tinham executado o

      sequestrador. No entanto, a versão oficial foi de que se suicidara. A requisição de exame ao IML,

      marcada com o “T” que identificava os militantes políticos, foi assinada pelo delegado do Dops Alcides

      Cintra Bueno Filho. O laudo de necropsia foi assinado pelos legistas Sérgio Belmiro Acquesta e Helena

      Fumie Okajima, que definiram a morte por “traumatismo craniano encefálico”.

      O nome de Grenaldo sempre constara do Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, apesar de não

      haver contato com seus familiares. Seu corpo, enterrado como indigente no Cemitério Dom Bosco, em

      Perus, foi parar entre as ossadas da vala clandestina daquele cemitério. A família não apresentou

      requerimento à CEMDP quando foi editada a Lei 9.140/95. Somente em 2002, um dos irmãos de Grenaldo

      entrou com o pedido, cuja responsabilidade foi transferida ao filho, quando este foi finalmente localizado.

      A história começou a ser desvendada quando a foto de Grenaldo foi publicada em matéria da repórter

      Eliane Brum, na revista

      Época, em março de 2003. Uma testemunha do sequestro procurou a revista.

      Era José Barazal Alvarez, sargento especialista da Aeronáutica e controlador de tráfego aéreo no

      aeroporto de Congonhas, que estava trabalhando no dia da tentativa de sequestro e alternava com os

      colegas a comunicação com a tripulação do avião. Quando o incidente acabou, ele recebeu a missão de

      reunir os pertences do sequestrador e redigir um relatório. Até fazer o contato com a revista, Alvarez

      durante 30 anos vivera atormentado pela lembrança de ter tirado do peito de Grenaldo, junto a uma

      segunda perfuração de tiro, a carta-testamento que o militante havia escrito e endereçado ao filho. Ele

      concluiu que o sequestrador não poderia ter-se suicidado com um único tiro, como afirmaram a

      quando viu a foto publicada, decidiu procurar o filho de Grenaldo e contar-lhe a verdade. Não guardou

      a carta, mas se lembra de que era dirigida ao filho, explicando que sequestrava o avião para chegar ao

      Uruguai e que viria buscar a família assim que possível.

      Mas ninguém conhecia o filho de Grenaldo, até que uma cunhada sua, meses depois, viu a revista num

      consultório dentário. A revista proporcionou um emocionante encontro de Alvarez com Grenaldo

      Edmundo da Silva Mesut, resgatando a verdade.

      A repórter localizou também o mecânico de voo Alcides Pegruci Ferreira, a única pessoa que

      permaneceu no avião com Grenaldo após a fuga da tripulação pela janela, e que encontrou o corpo caído,

      viu o buraco da bala, quase na nuca. Afirmou que “virou piada o sequestrador suicidado com um tiro na

      nuca [...] A ditadura decidiu que era suicídio e a gente teve de aceitar. Botaram um pano em cima”.

      A relatora do processo na CEMDP observou que “embora o IPM seja inconclusivo quanto à motivação

      política de Grenaldo de Jesus da Silva no sequestro que culminou em sua morte, assim como não há

      documentação reunida nos autos que comprove que o falecido participava de uma ação politicamente

      orientada, fica patente que esse entendimento foi o que conduziu toda a ação policial militar quanto aos

      fatos”. Por unanimidade, a Comissão Especial acompanhou o voto da relatora, com a interpretação de

      que “a aeronave em que Grenaldo se encontrava quando morreu se assemelha às dependências policiais,

      já que a vítima estava sob custódia das forças de segurança”.

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      Detalhes.

      Ditadura | 20/02/2009 10:53 | Atualizado em: 17/09/2009 19:36
       
       

       

       

      Três décadas depois, ex-militar conta a verdade ao filho do marinheiro que seqüestrou um avião da Varig e morreu

       

       

      VIDAS ASSINALADAS
      Grenaldo da Silva Mesut (à esq.) descobriu a verdade sobre o pai pelo testemunho de José Barazal Alvarez (à dir.). Agora, busca a carta deixada pelo pai e desaparecida nos labirintos do regime

      Na sala de estar, sentados um diante do outro, dois homens estão unidos por um assassinato. É sábado, 26 de julho, e faz frio em São Paulo. Eles se encontram pela primeira vez. O mais velho, José Barazal Alvarez, de 63 anos, tem atravessado na garganta um segredo de mais de três décadas. O mais jovem, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut, de 35 anos, vive um daqueles raros momentos na vida em que um homem descobre, entre o desejo e o horror, que seu destino está prestes a ser alterado. José se liberta: 'Seu pai não se suicidou. Ele foi assassinado', diz. 'Deixou uma carta para você. Tirei essa carta do peito dele, a primeira página estava manchada de sangue. Li e entreguei aos meus superiores.' Grenaldo cai de joelhos diante de José. Juntos, rezam um pai-nosso.

      A morte do pai - que o mais velho nunca pôde esquecer e o mais jovem desconhecia - ocorreu 31 anos antes. Em 30 de maio de 1972, Grenaldo de Jesus Silva seqüestrou sozinho um avião da Varig. Depois de ter liberado todos os passageiros e de a tripulação ter escapado, ele se suicidou, segundo a versão oficial do regime militar. Com um tiro na nuca.

      José Barazal Alvarez, sargento especialista da Aeronáutica e controlador de tráfego aéreo do Aeroporto de Congonhas, alternou com os colegas a comunicação com a tripulação do avião nas oito horas de seqüestro. Quando acabou, ele recebeu a missão de reunir os pertences do seqüestrador e escrever o relatório. O que viu causou-lhe pesadelos pela vida afora.

      Acordava assombrado pela visão do corpo amontoado 'como um saco de lixo' no porta-malas de um Opala preto da polícia. Em suas mãos ainda queimava a carta-testamento escrita para o filho, achada no peito do seqüestrador junto com um segundo furo de bala. Escreveu o relatório e calou-se. Por três décadas não contou nada nem à mulher.

      Em 10 de março deste ano, José deparou com a imagem do seqüestrador numa reportagem de capa de ÉPOCA. A matéria contava a história da primeira esposa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, morta quando estava com sete meses de gravidez. Um dos médicos que a assistiu, o mesmo que assinou seu atestado de óbito, era Sérgio Belmiro Acquesta. O legista, já falecido, foi acusado de falsificar laudos para a ditadura, mas absolvido pelo Conselho Regional de Medicina em 1999. A necropsia de Grenaldo era uma das peças que teriam sido forjadas por Acquesta para comprovar a tese de suicídio.

      Ao ver o passado impresso numa página de revista, o ex-sargento teve um choque. Quando amanheceu de uma noite de sobressaltos, decidiu procurar o filho do seqüestrador para lhe contar a verdade. José tinha passado 17 anos na Aeronáutica. Desde 1964 pedia para sair, mas só conseguiu ser desligado em 1975. Tinha medo. Três colegas, capuz enfiado na cabeça, viraram desaparecidos políticos bem na sua frente. Ouviu gritos de torturados por repartições públicas e viu presos do regime algemados em aviões. Naqueles dias de terror, José preparou um envelope lacrado e o confiou à mulher. Nele, as instruções caso não retornasse para casa ao fim do expediente. Como todos os sargentos, trabalhava muito, ganhava pouco, levava para a família a comida que sobrava dos aviões. Desde que deixou a Aeronáutica, ganha a vida como engenheiro.

      Professor de educação física em São Paulo, Grenaldo, o filho do seqüestrador, desconhecia seu passado. Só descobriu a fotografia do pai em junho. Sua cunhada folheava distraída uma revista velha no consultório do dentista quando viu a imagem. Ligou para a irmã: 'Leila, qual é o nome do pai de seu marido?' Quando ela contou o que havia lido, Leila reagiu: 'Você está delirando'. Ao que a outra retrucou: 'Não, meu coração disparou'. A partir dessa data, o filho empreendeu um doloroso caminho em busca da história - a do pai e a do país.

      Descobriu-se herdeiro de duas guerras. A da ditadura, trazida pelo pai. E a outra, não menos trágica, encarnada pela mãe. Sua avó, Christina, fugiu da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. No caminho, encontrou uma mulher morta. Nos braços, o bebê ainda respirava. Salvou a criança e, na fuga pela Europa devastada, chegou ao horror: sem leite ou comida, rasgou o pulso e alimentou a menina com seu sangue. O bebê era Mônica, aquela que seria sua mãe. No Brasil, nenhuma das duas alemãs gostava de falar do passado e, por isso, não fizeram perguntas quando Grenaldo, um maranhense robusto de silêncios, instalou-se em suas vidas.

      EXECUTADO
      Quando foi morto, o marinheiro Grenaldo de Jesus Silva fugia havia oito anos dos cárceres da ditadura

      Desde a noite de 26 de julho, nem o filho de Grenaldo nem José conseguiram retomar a vida como era antes. 'Seu pai não era um bandido. Não machucou ninguém. Deixou todo mundo sair do avião e foi executado. Sabe o que era a granada que diziam que ele tinha? Um carretel daqueles de pescaria, enrolado com fita crepe', revelou o ex-sargento. 'Na carta para você ele explicou que estava sendo perseguido, que não podia trabalhar por causa dos documentos e que cometia aquele ato de loucura para chegar ao Uruguai e construir uma nova vida. Depois, mandaria buscar você e sua mãe.'

      Três décadas antes, às 15h10 de 30 de maio de 1972, o sargento José Barazal Alvarez ouvira a voz do comandante Celso Caldeira, do PP-VJN, modelo Electra, da Varig. 'Estamos sendo seqüestrados.' O avião havia partido às 14h36 de São Paulo rumo a Porto Alegre, a primeira escala em Curitiba, com 48 passageiros a bordo. O seqüestrador, um homem atarracado, vestindo camisa cor-de-rosa, calça de algodão castanho, sapato de couro marrom, exigia Cr$ 1,5 milhão. Tinha uma suposta pistola, que apontava de dentro do bolso.

      Logo ficou claro para o comando da operação de resgate que ele tinha pouca intimidade com a aviação e nenhuma experiência como criminoso. O avião havia regressado a Congonhas logo após o anúncio do seqüestro e as negociações prosseguiam em terra. Exausto, ele havia deixado todos os passageiros desembarcar, velhos, mulheres e crianças primeiro. Depois a tripulação, com exceção da equipe de cabine. Acreditava em tudo o que lhe diziam com o objetivo de ganhar tempo. 'Era um nordestino calmo. Não tinha cara de marginal. Parecia desesperado', contou o mecânico de vôo Alcides Pegrucci Ferreira.

      Grenaldo de Jesus Silva era o primogênito dos 12 filhos do alfaiate Gregório e da servente de escola Eneida Estrela da Silva, de São Luís do Maranhão. Embarcou cedo na Marinha por sonho, para ajudar a família e para progredir na vida. Em 1964, os marinheiros perfilaram-se ao lado do presidente João Goulart, pressionando por reformas. Quando os generais espalmaram o poder, foram os mais rigorosamente punidos. Grenaldo era um dos 1.509 marinheiros expulsos pelos golpistas, 414 deles condenados à prisão. Recebeu a pena mais alta: cinco anos e dois meses.

      Como a maioria dos companheiros, Grenaldo fugiu. Ancorou em Guarulhos. Lá se apaixonou por Mônica, trabalhou de 1965 a 1970 como porteiro e vigilante na Camargo Corrêa - onde era considerado 'sério e inteligente' - e tentou outros negócios fracassados, como uma banca de frutas e um posto de gasolina. Em 1971, começou a receber estranhas cartas. E a ficar muito nervoso. É provável que tenha sido avisado de que a repressão localizara seu paradeiro. Deixou a família prometendo voltar para levá-los a uma vida melhor, em outro lugar. Sua mulher só voltou a ter notícias dele no dia do seqüestro.

      O desfecho da tragédia ocorreu entre as 22h59, quando a aeronave se preparava para decolar novamente, e as 23h09, quando um membro da repressão informou pelo rádio da cabine que estava tudo acabado. Por volta das 23 horas, dois dos três tripulantes fugiram pela janela. A bordo, restaram apenas o mecânico de vôo e o seqüestrador. Nesse momento, a pista de Congonhas estava ocupada por militares e policiais de forças diferentes, que disputavam os louros da operação.

      O mecânico Alcides conseguiu empurrar a porta da cabine. O seqüestrador pressionava para entrar, a arma na mão esquerda, no vão da porta. Alcides ouviu vários tiros disparados em direção ao interior da cabine e, em seguida, um baque. Abriu a porta e encontrou Grenaldo no chão. Achou que ele tinha apenas escorregado e botou o pé sobre a cabeça, para que não pudesse levantar. 'Vi então o buraco da bala, perto da orelha, quase na nuca, e o sangue', disse. O interior do avião estava tomado por bombas de gás lacrimogêneo. Alcides virou as costas e fugiu.

      O seqüestrador morreu oficialmente com 'um único tiro, com orifícios de entrada e de saída, dado encostado, direção da esquerda para a direita, levemente da frente para trás e quase horizontal'. A suposta arma, uma Beretta 9 milímetros, só apareceu para o exame da perícia 15 dias depois, acompanhada do projétil que teria causado a morte de Grenaldo. Os peritos concluíram que não havia 'elementos para se pronunciar a respeito'. No atestado de óbito, assinado pelo legista Sérgio Acquesta, a hora da morte é 22h34. Nesse horário, segundo o inquérito da Aeronáutica, realizado pelo coronel Renato Barbieri, Grenaldo estava vivo. Nas fitas gravadas com a comunicação entre o comando e o seqüestrador, a última mensagem ocorreu 25 minutos depois, às 22h59.

      O delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo, Alcides Cintra Bueno Filho, registrou: 'Os agentes dos órgãos de segurança cercaram a aeronave e, quando conseguiram adentrar na mesma, o epigrafado, vendo frustrado seu plano de fuga e que seria preso, suicidou-se'. A execução de Grenaldo, depois de imobilizado, foi contada em detalhes pelos policiais aos presos políticos do DOI-Codi, em São Paulo, quando voltaram da operação aos gritos de alegria. A tripulação e o chefe da equipe de controle de vôo, Alberto Bertulucci, ganharam a medalha Mérito Santos Dumont, pelo comportamento exemplar no episódio. 'A ditadura decidiu que era suicídio e a gente teve de aceitar. Botaram um pano em cima', disse Alcides, hoje aposentado da Varig. 'Era um ingênuo. Se deixou pegar numa situação estúpida dentro do avião', conta Bertulucci, aos 79 anos. 'Virou piada: um seqüestrador suicidado com um tiro na nuca...' Grenaldo foi sepultado como indigente na cova 2.836 do Cemitério de Perus.

      Seu filho tinha 4 anos. Na infância, o pai era citado apenas nas brigas familiares. 'Só podia ser filho de ladrão, mesmo', dizia a avó ou o tio. Não lhe permitiam perguntas. Quando tinha 10 anos, sua mãe teve um acidente vascular cerebral e ficou com danos permanentes. Morreria cinco anos depois. Aos 13, ele encontrou a avó morta no quarto. Ficou sozinho com o tio, usuário de drogas. Conseguiu sobreviver a tudo, casou-se com Leila, colega de faculdade, e tem Paola, de 4 anos, e a filha adotiva Cristina, de 13.

      Grenaldo pouco sabia sobre a ditadura. Desde julho, atravessa as noites dissecando em livros os anos de chumbo. Depois, fala dormindo. Sonha que é um detetive. Tentou obter a carta-testamento do pai no inquérito da Aeronáutica, mas ela não estava lá. Procurou resgatar seus pertences na 1a Auditoria Militar de São Paulo. Só levou a informação de que os livros de registro foram destruídos por mofo e cupins. Busca a avó paterna que ainda vive, aos 88 anos, em São Luís do Maranhão. Ganhou, numa única noite, um pai e uma história - mas ainda são muitas as zonas de sombra.

      José não sonhou mais com o homem executado no porta-malas do carro. Grenaldo precisa seguir sua busca. Ainda tem de identificar o pai entre os corpos das vítimas do regime resgatados da vala de Perus. Esse capítulo da história só acaba quando conseguir sepultar o pai. Corpos podem ser enterrados. A História, não.

      HERDEIRO DE TRAGÉDIAS
      O pai foi morto ao seqüestrar um avião, a mãe é vítima da Segunda Guerra Mundial
      VIDA DUPLA
      Grenaldo, o pai, com os colegas de trabalho. Ninguém sabia que era foragido do regime
      INOCENTE
      Grenaldo, o filho, antes da execução do pai. Dele, só lembra de um presente: um caminhão
      MULHERES MARCADAS
      Christina (à dir.), a avó de Grenaldo, alimentou sua mãe, Mônica, com o próprio sangue. Tinham uma pensão em Guarulhos

       

      Fotos: Maurilo Clareto/ÉPOCA, Reprodução, Álbum de família
       
       
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        Ficha Pessoal.
        Grenaldo de Jesus da Silva
         
         
          
        Dados Pessoais 
        Nome:Grenaldo de Jesus da Silva
        Estado:
        (onde nasceu)
        MA
        País:
        (onde nasceu)
        Brasil
        Data:
        (de nascimento)
        11/4/1941
          
        Dados da Militância 
        Morto ou Desaparecido:
        Morto
        30/5/1972
        São Paulo SP Brasil
        Aeroporto de Congonhas
        Clandestinidade
          
        Dados da repressão 
        Orgãos de repressão
        (envolvido na morte ou desaparecimento)
        Departamento de Operações Internas - Centro de Operações de Defesa Interna/SP DOI-CODI/SP SP Brasil
        Agente da repressão:
        (envolvido na morte ou desaparecimento)
        Alcides Cintra Bueno Filho
        Médico legista:
        (envolvido na morte ou desaparecimento)
        Helena Fumie Okajima, Sérgio Belmiro Acquestra
          
        Biografia 
          
        Documentos 
        Artigo de jornal
        Legistas identificam ossadas de militantes. Diário Popular, São Paulo, 10 jul. 1991. p. 3. Artigo sobre a identificação de algumas ossadas encontradas no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo, SP, pela equipe chefiada pelo legista Fortunato Badan Palhares, da Universidade de Campinas (UNICAMP). Foram identificados os desaparecidos Dênis Casemiro, Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria Lopes de Moraes. Houve uma cerimônia na qual participaram a prefeita Luíza Erundina e o secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, entre outras autoridades. Segundo o delegado Jair Cesário da Silva, que conduz o inquérito sobre a vala comum em Perus, esses fatos são novos e podem levar à responsabilização criminal dos envolvidos nos crimes políticos da ditadura. A família de Sônia pretende processar a União, lembrando que os torturadores continuam impunes. Em Perus podem estar também as ossadas de Dimas Antonio Casemiro, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira, Frederico Eduardo Mayr e Grenaldo de Jesus Silva. Para isso, as ossadas foram divididas em cinco grupos, conforme as condições de identificação, e a UNICAMP está solicitando verbas para a compra de equipamento para a realização de exames de DNA. As informações dadas pelas famílias dos desaparecidos foram fundamentais para a identificação das ossadas, pois seus laudos necroscópicos não descreviam todas as lesões sofridas pelas vítimas. Luíza Erundina voltou a exigir que os arquivos do DOPS fossem liberados pela Polícia Federal, passando para o Arquivo do Estado de São Paulo, lembrando a importância dessas informações para as investigações da UNICAMP.

        Artigo de jornal
        Chega a Rio Preto o corpo do ex-militante político. A Notícia, São José do Rio Preto, 12 ago. 1991. Restos mortais de vítima da repressão chegam a Votuporanga depois de 20 anos. Diário da Região, São José do Rio Preto, 13 ago. 1991, p. 1 e 3. Votuporanga, descanso ao guerrilheiro - Dênis Casemiro será sepultado hoje. A Notícia, São José do Rio Preto, 13 ago. 1991, p. A-3. Família de desaparecido quer indenização. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 ago. 1991, p. 8. (Caderno SP Norte). Ossada de Dênis Casemiro é sepultada no cemitério local. Diário de Votuporanga, Votuporanga, 14 ago 1991. Ossada de Dênis Casemiro será sepultada hoje. Diário de Votuporanga, Votuporanga, 13 ago. 1991. Culto à vítima do Regime Militar. A Cidade, Votuporanga, 13 ago. 1991. Legislativo suspende Ordem do Dia para culto a Dênis Casemiro. A Cidade, Votuporanga, 14 ago. 1991. Dênis é enterrado com honras de herói em Votuporanga, Diário da Região, São José do Rio Preto, 14 ago. 1991. Família só soube das atividades de Casemiro no último contato. A Cidade, Votuporanga, 15 ago. 1991, p. 3. A ossada de Dênis Casemiro foi enterrada em Votuporanga, SP, em meio a várias homenagens. O presidente da Câmara Municipal de Votuporanga, SP, suspendeu os trabalhos do dia, permitindo que os ossos de Dênis Casemiro fossem visitados publicamente. Houve atraso, pois a companhia aérea TAM negou-se a transportar o corpo, que teve de ir de carro. Dênis foi fuzilado pelo delegado Sérgio Fleury em 18/05/71, após um mês de torturas no DOPS/SP, e enterrado como indigente com dados físicos alterados na vala clandestina do cemitério de Perus, em São Paulo, SP. Acredita-se que mais presos políticos estejam enterrados na vala: Dimas Casemiro, irmão de Dênis, Frederico Eduardo Mayr, Flávio Carvalho Molina, Grenaldo Jesus da Silva e Francisco José de Oliveira. Fabiano César Casemiro, sobrinho de Dênis vai pedir indenização ao Estado pela morte de seu tio.

        Artigo de jornal
        Artigo intitulado Dênis Casemiro, sem fonte e data. Dênis era militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi preso no sul do Pará, em 04/71, trazido para São Paulo e torturado por um mês, até ser fuzilado pelo delegado Sérgio Fleury, que relatou como Dênis chorava, implorando para não morrer. A versão oficial publicada foi de que Denis, ao ser preso, tentou fugir com a arma de um policial, morrendo em tiroteio com as forças da repressão. No entanto, seu corpo teria sido encontrado no pátio do IML/SP. O laudo necroscópico apenas descreve os tiros, sem mencionar as marcas de tortura. Dênis foi enterrado em uma vala comum no cemitério de Perus, em São Paulo, SP, com seus dados alterados. Também estão lá enterrados e esperando identificação seu irmão Dimas Casemiro, Flávio Carvalho Molina, Grenaldo Jesus Silva e Francisco José de Oliveira.

        Artigo de jornal
        Seqüestrador é sepultado. Última Hora, Brasília, 2 jun. 1972. Reportagem curta acompanhada de foto sobre o sepultamento de Grenaldo, seqüestrador do Electra II da Varig. Possui o carimbo do arquivo do DOPS.

        Artigo de jornal
        Artigo sem fonte e data, intitulado "Ex-companheira: Grenaldo foi bom chefe de família". Depoimento de Mônica Edmunda Messut, companheira de Grenaldo Jesus da Silva, acusado do seqüestro de um avião da Varig. Ela conta como foi a vida com Grenaldo, relatando suas boas qualidades como marido e pai do único filho do casal. Afirma que ele raramente falava da família, sabendo ela apenas que morava no Maranhão. Um dia, Grenaldo apareceu em casa, na cidade de São Paulo, acompanhado de uma moça apresentada a Mônica como Rosa, irmã dele. Disse também que iria para o Rio de Janeiro com ela, onde Rosa faria um tratamento de saúde. Desde então nunca mais voltou nem deu notícias. Mônica entra em algumas contradições, como quando afirmou, mais tarde, que Rosa foi apresentada como amiga de Grenaldo. Estão sendo feitas investigações para saber como Grenaldo conseguiu identidade falsa, em nome de Nelson Mesquita. A polícia acredita que foi com ajuda de falsários, que possuem cópias das cédulas de identidades de todos os estados brasileiros, ou então a cédula de Grenaldo pode ser fruto de um dos roubos sofridos por postos de identificação. Possui o carimbo do arquivo do DOPS.

        Artigo de jornal
        "Em cova rasa, ele é o 2836". "Grenaldo, segundo a família e os amigos". (Sem fonte), 2 jun. 1972. O primeiro artigo trata do enterro do Grenaldo Jesus da Silva, realizado em 01/06/72, no cemitério de Perus, em São Paulo, SP. Um amigo da família ligou para o IML/SP, dizendo que iria retirar o corpo. Como ele não apareceu, Grenaldo foi enterrado como indigente, em vala comum. No segundo artigo, há o depoimento de Mônica e sua mãe Cristina, companheira e sogra de Grenaldo. Elas afirmam que ele era uma boa pessoa, mas que há um ano enfrentou uma falência e começou a receber cartas do norte do país, que ele dizia serem de sua mãe, e desde então tornou-se um pouco intolerante. Em 09/71, chegou em casa acompanhado de uma moça, que ele apresentou como sua irmã. Disse também que iria acompanhá-la em um tratamento médico, mas nunca mais voltou nem deu notícias. Sua família soube pelo rádio que ele havia seqüestrado o avião da Varig.

        Foto
        Foto numerada do corpo no arquivo do DOPS. A cópia encontra-se pouco precisa. Há também uma ficha com as impressões digitais de Grenaldo, pouco nítida. Ambas possuem o carimbo do arquivo do DOPS.

        Foto
        Foto ampliada do cadáver, encontrada no DOPS/SP.

        Relatório
        Parte de documento produzido por organismo internacional, encontrado no arquivo do DOPS/SP, com nomes de pessoas mortas ou desaparecidas pela ditadura militar brasileira, seguidos de texto em inglês indicando alguns dados da morte e fonte da informação, a maioria da Anistia Internacional. São citados, entre outros: Fernando Borges de Paula Ferreira, Fernando Augusto da Fonseca, Gastone L. Beltrão, Gelson Reicher, Gerson Teodoro de Oliveira, Getúlio de Oliveira Cabral, Grenaldo de Jesus Silva, Hamilton Fernando Cunha, Hélcio Pereira Fortes, Heleny Ferreira Teles Guariba, Hiroaki Torigoi, Ísis Dias de Oliveira del Royo e Ismael da Silva de Jesus.

        Termo de declarações
        Documento da Delegacia Especializada de Ordem Social de São Paulo, de 29/06/72, de Leonardo Claro Estrela da Silva, irmão de Grenaldo. Declara que ficou mais de dez anos sem se comunicar com Grenaldo, que o mesmo trabalhava na empresa Camargo Correia e que não tinha conhecimento do envolvimento de seu irmão com política, que somente após o suicídio de Grenaldo é que soube, através de imprensa, que ele tentou seqüestrar um "aparelho" da Varig e que foi montado um esquema para capturá-lo. Informa ainda que comprou, em sociedade com Grenaldo, em 1971, um posto de gasolina, mas depois de reformá-lo, optaram por vendê-lo e com o dinheiro da venda Grenaldo adquiriu outros estabelecimentos comerciais, depois se mudou para o Rio de Janeiro e então voltou para São Paulo. Em anexo, segue ofício de encaminhamento deste termo e documento do Serviço de Informações do DOPS com o endereço de Grenaldo.
         
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