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Carpentier faz triunfar a literatura sobre a verdade

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Carpentier faz triunfar a literatura sobre a verdade Claudio Castro Filho*, JB Online RIO - Ameaçando destronar alguns clássicos latino-americanos – como o
    Mensagem 1 de 1 , 13 de abr de 2009
      Carpentier faz triunfar a literatura sobre a verdade

      Claudio Castro Filho*, JB Online


      RIO - Ameaçando destronar alguns clássicos latino-americanos – como o célebre Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez – o peruano Mario Vargas Llosa afirma em seu Dicionário amoroso da América Latina que talvez seja do cubano Alejo Carpentier (1904-1980) a autoria do melhor romance escrito em língua espanhola no século 20. A obra-prima em questão chama-se O reino deste mundo, publicada em 1949, livro em que o escritor habanero apresentou, com todas as suas melhores letras, a inventiva idéia de um "real maravilhoso".

      Se pudéssemos explicar, e em poucas palavras, a que diz respeito tal poética – mas é provável que não possamos – diríamos que se trata de uma metamorfose literária daquilo que a História até então consagrou como sendo realidade. Assim, documentos de inconteste veracidade museológica ou referências clássicas pinçadas do próprio universo literário transmutam-se, na singular prosa de Carpentier, numa narrativa absolutamente livre, embora não deixe de permanecer reconhecível o legado cultural que a inspira e constitui.

      É dessa mesma natureza a novela Concerto barroco, composta por Carpentier em 1974, e que a Companhia das Letras acaba de publicar no Brasil. O argumento histórico, desta vez, nasce da encenação da ópera Montezuma, música de Vivaldi, apresentada no Teatro di Sant'Angelo, em Veneza, na temporada outonal de 1733. Sob a pena de Carpentier, o evento lírico setecentista inspirou o ápice de uma viagem – literal e metafórica – no tempo e no espaço. A empreitada inicia-se no México, quando um excêntrico barão da prata, acompanhado de seu cavalariço, sai em excursão a Veneza. Já nas primeiras linhas, a novela de Carpentier diz a que veio: mais do que provocar expectativas quanto ao erudito concerto que intitula a obra e servirá de clímax à narrativa, o percurso do amo e de seu criado Filomeno, desde a América até a Europa, é apresentado numa linguagem primorozamente forjada, repleta de ornamentos que dão especial sabor às palavras. Seu linguajar não teme em passar, sem transições, da suntuosidade à sutileza, do léxico erudito ao mais chulo palavrão, do sofisticado ao escatológico.

      A passagem por uma "Havana enlutada por terrível epidemia de febres malignas" e a viagem terrestre entre Madri e Barcelona, de onde a quixotesca dupla embarca para Roma, acumulam sinuosos episódios, todos de forte carga descritiva, de linguagem ornamental e amaneirada, e que trazem, além do mais, um interessante substrato político-antropológico. Há, em Carpentier, um sofisticado uso da ironia, que, em Concerto barroco, presta serviço à mais franca derrisão em face dos choques culturais que friccionam o encontro entre metrópole e colônia, entre o velho e novo mundo. É assim que, por vezes, a suposta erudição européia se vê rebaixada à mais vulgar truculência: "As damas decentes se livravam de todas as obscenidades e palavras sujas que tinham guardado na alma". Por outras, é causa de admiração a desenvoltura retórica de "um negrinho capaz de pronunciar tantos nomes oriundos de paganismos remotos".

      O carnaval veneziano fornecerá, portanto, as circunstâncias perfeitas para que todas as inversões, mascaramentos e desvelamentos sejam possíveis. A partir da atmosfera fabulosa instaurada com a festa pagã que há séculos é símbolo da Sereníssima República, a novela de Carpentier revela as maiores surpresas de seu enredo: é justo do dionisíaco baile que Vivaldi tira a inspiração de sua exótica ópera.

      Mas é preciso que o leitor esteja atento, pois as máscaras carnavalescas se agregam decisivamente às figuras, remodelando as faces e renomeando as personagens que até ali nos fizeram companhia. Tantas metamorfoses soam ainda mais herméticas na voz de um narrador cujo testemunho dos fatos parece prescindir de sujeito: as palavras, falando como que por si próprias, encenam o mito: "O que conta aqui é a ilusão poética...".

      A tradução de Josely Vianna Baptista cumpre exemplarmente o desafio de manter, na conversão de idiomas, a vivacidade de uma escrita ímpar, "barroca" tanto na forma quanto no conteúdo. Afinal de contas, o vocabulário de Carpentier situa-se nas tensões lingüísticas que aproximam e, ao mesmo tempo, distanciam as raízes ibéricas e as apropriações ameríndias que, em sua literatura, constituem o espanhol. Por outro lado, a plasticidade que rebusca a maneira de o escritor cubano contar suas histórias possibilita que a tradução encontre, nos recônditos da língua portuguesa, termos nos quais se faz notar o parentesco arqueológico entre as duas expressões ibero-americanas.

      O que fica é que, para Alejo Carpentier, o imprevisto, o incrível, o maravilhoso e o absurdo representam o triunfo da literatura sobre a verdade. "E o que se espera da ilusão cênica, a não ser que nos tire de onde estamos e nos leve até onde não poderíamos chegar por vontade própria?" – eis a pergunta com a qual nos confronta este Concerto barroco.

      * Professor de estética e teoria da arte na UERJ.


      Fonte: http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/10/10/e101022393.html
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