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A literatura contra o sistema

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    A literatura contra o sistema Guilherme Diniz A literatura deve ser, por necessidade, progressista. Mesmo que escritores sofram influências de outros autores
    Mensagem 1 de 1 , 1 de abr de 2009
      A literatura contra o sistema

      Guilherme Diniz

      A literatura deve ser, por necessidade, progressista. Mesmo que escritores sofram influências de outros autores ― o que é absolutamente natural ―, é necessário o repensar constante da dimensão estética e conceitual daquilo que se irá escrever. A aceitação não-crítica de certos cânones e de regras prescritivas quanto à estilística e conteúdo faz com que uma pretensa literatura do futuro se torne mero plágio daquilo que apenas no passado se deu como ruptura.

      Por esse motivo, o discurso literário ― para não dizer as escolas literárias ― deve ser avesso a qualquer noção de sistema. Por sistema pode-se entender a totalidade discursiva organizada em torno de um mesmo objetivo; noutras palavras, um conjunto de elementos que, conectados entre si, hierarquicamente, visa explicar, aclarar ou fazer desenvolver determinado ponto de vista.

      Isso porque a literatura, e aqui se foge de qualquer limite imposto pela conceituação, deve ser abordada como algo ambíguo, incompleto, dotado de significados diversos. Deve ser ela mesma considerada, na noção de Umberto Eco, uma obra aberta. Contudo, o pensador italiano qualifica como aberta ou fechada não apenas a literatura, mas diversas manifestações artísticas onde ela é apenas uma vertente da expressão humana, ao lado da pintura e da música.

      Contudo, o que é aberta ou fechada não é a obra em si, mas o veículo que permite sua existência. No caso em questão, onde se fala de literatura, o veículo é a própria linguagem, pois é ela que permite sua manifestação. Para que uma literatura se proponha como inovadora, sua linguagem deverá sofrer provocações do acaso, do indeterminado, do provável, do interpretável. Essa literatura, antes de procurar flertar com o estabelecido, deverá aspirar à desordem fecunda.

      Deverá ela invocar tudo aquilo que desmistifica a ordem tradicional, objetiva, que legitima o status em detrimento da inovação; deve invocar a abertura de perspectivas e de hipóteses. Não é sem razão que no século XX viu-se o florescer de movimentos que iam afrontar justamente os cânones que supostamente determinavam a boa literatura.

      Influenciados por filósofos como Nietzsche, Kierkegaard e Wittgenstein, diversos escritores lutavam contra o que eles chamavam de "esclerose dos sistemas", com forte recusa quanto a autoridade moral de autores predecessores. A ideia de um discurso literário racionalista, descritivo, fechado, teve de ceder espaços cada vez maiores à sugestão, à imaginação, ao inconsciente, à ficção.

      Somente deste modo é possível, de forma coerente, situar a obra de James Joyce e Ezra Pound. Do contrário, livros como Os Cantos e Finnegans Wake se mostram apenas como delírios de mentes férteis, quando na realidade eles exploram e ultrapassam toda e qualquer objeção já feita quanto às prescrições poéticas e linguísticas de vanguarda.

      A literatura de Jorge Luis Borges (especialmente seu livro O Aleph), por exemplo, onde ele utiliza a narrativa sugestiva ao invés da puramente descritiva (como a encontrada em Eça de Queirós), pode ser citada como um produto desse novo movimento, ao lado, também, do escritor mexicano Octávio Paz; é bem significativo, nesse sentido, seu poema "Piedra de Sol". De forma explícita, podemos encontrar o poder da sugestão como método em Stéphane Mallarmé.

      Entretanto, como alguns já pretenderam, pode-se considerar a ambiguidade fonética encontrada no poeta francês meramente questão de estilo. Mas essa seria uma explicação reducionista e ao mesmo tempo incorreta. Se fosse essa característica apenas um modo de escrita inovador, seria improvável a criação de laços tão profundos como os que foram criados após a publicação do seu poema "Un coup de dés jamais n'abolira le hasard", no ano de 1914.

      A explicação mais plausível ― e é a que eu compartilho ― é a de que naquele momento histórico o discurso racional estava fatigado. A imposição do rígido modelo advindo de Aristóteles, exposto na sua obra Poética, estava em descompasso com uma realidade que então surgia. Era árvore de frutos infecundos, que já na conservadora Inglaterra do século XVIII William Blake lutava para desenraizar. Mallarmé apenas explicitou o que já estava, de uma forma ou de outra, implícito.

      Neste sentido, a obra aberta, nascida de uma literatura igualmente aberta, de múltiplas interpretações, só será possível quando os limites impostos pelas pretensões de se encontrar uma literatura acabada estiverem ultrapassados. A partir daí, um trabalho literário não procurará mais saber o que é e o que não é adequado. Será um trabalho que proporá mais perguntas do que oferecerá respostas; será uma literatura que considerará o mundo um objeto a ser decifrado, onde apenas a verdade do leitor servirá de guia relevante.

      Não será ela uma obra informal; não será ela, tampouco, casual. Ela será regida por uma estrutura própria, interna, ditada pelo seu próprio conteúdo, diferente daquela que o racionalismo demanda, onde um modelo pré-definido é escolhido para análise de forma comparativa. Seu objetivo será, como profetizou William Blake, romper com as banais portas da percepção. A obra aberta quer mostrar como as coisas são: infinitas ― iguais à imaginação humana.

      Nota do Editor

      Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado em seu blog, <a href="http://orinocerontevoador.wordpress.com/">O Rinoceronte Voador</a>. Leia também <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=320">Baudolino e a obra aberta de Eco</a>.

      Fonte: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2776
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