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Re: [L&L] Albert Camus - Conceitos de Deus

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  • Silas Silva
    Oi Ubiratan, Adorei os textos sobre o Camus que você enviou. Muita coisa ficou mais clara pra mim depois que os li. Pela primeira vez leio Camus, A Peste, e
    Mensagem 1 de 2 , 30 de mar de 2009
      Oi Ubiratan,

      Adorei os textos sobre o Camus que você enviou. Muita coisa ficou mais
      clara pra mim depois que os li.

      Pela primeira vez leio Camus, A Peste, e acho fantástico. Fenomenal a
      forma com que ele descreve a vida e o absurdo do flagelo, e o
      comportamento e os sentimentos de todos que estão ali, sitiados. Além de
      um texto belíssimo pela sua estética, é um chamado ao valor de termos
      todos uma vida digna (ao contrário de alguns pós-modernos que insistem
      em louvar uma vida medíocre e solitária). Apesar de suas brigas com o
      Sartre, é perfeitamente possível fazer um paralelo entre essas duas
      filosofias: o absurdismo e o existencialismo, na busca individual (mas
      não individualista) por si mesmo e por um sentido próprio da vida.

      Valeu!

      On Sat, Mar 28, 2009 at 09:18:00PM -0000, Ubiratan Rocha da Silva wrote:
      > 4) CONCEITO DE DEUS EM CAMUS[1]
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      > Camus vai recusar a idéia de Deus, ele diz não aceitar a noção de um Deus cuja existência não teria nenhum assento na realidade sensível. Ele não faz nenhuma concessão a esse Deus que não intervém no problema do mal. Do problema do mal nasce o silêncio de Deus, e esse silêncio se moldará a noção dessa divindade. Camus não aceita que o assassinato de Abel não fosse impedido por Deus. Para ele, se Deus permite tudo, ele é responsável por tudo. Pior ainda, foi o próprio Deus que insuflou o homicídio no coração de Caim. Para Camus Deus é: "Uma divindade cruel e caprichosa, aquela que prefere, sem motivo convincente, o sacrifício de Abel àquele de Caim e que, por isso, provoca o primeiro assassinato". Por isso, Camus não vai aceitar um Deus arbitrário em suas decisões.Camus tira a razão de Deus por motivos morais. Ele recusa duplamente a fé como recusa a injustiça e o privilégio. Deus, para Camus é visto como o pai da morte e o supremo escândalo. Mais tarde, Camus amenizará seu tom na denúncia de Deus, mas não deixará de fazê-la. O ser humano não é mais inocente e Deus não é mais o culpado de tudo. Ele temperará o arbítrio divino com o arbítrio humano, a criminosidade divina com a criminosidade humana. Mesmo assim, ele não deixará de ver o mal como um escândalo e Deus, com seu mutismo, longe e indiferente a tudo. Até o fim Camus se pergunta, porque Deus permite tudo? Porque ele permite que neste mundo crianças tenham fome, sofram e morram? Chavanes conta um episódio da sua vida. Em 1959, alguns meses antes de sua morte, Camus declarou ao pastor de Lourmarin e à sua esposa: Vocês os crentes, vocês são eleitos, é por isso que eu estarei sempre do lado dos outros. A esposa do pastor lhe respondeu: Os homens, muito freqüentemente, são decepcionantes, apenas Deus não o é. Após um instante de silêncio, Camus lhe perguntou: Você está segura disto?
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      > O problema do mal será questão central em todo o pensamento de Camus. De um deus considerado horroroso no Antigo Testamento, Camus verá como frustra a tentativa de eliminação do mal pelo cristianismo, pois este se mostrou uma religião que aceita paradoxalmente o assassinato de um inocente, Cristo. Camus fará um jogo contrário à doutrina cristã entre o Jesus divino e o Jesus humano dizendo que enquanto Jesus era visto como Deus, seu sofrimento na sua morte era a justificação do mal no mundo. Por isso sua aproximação com Marcião. Diz ele: só o sacrifício de um deus inocente poderia justificar a longa e universal tortura da inocência.Só o sofrimento de Deus, e o sofrimento mais desgraçado, podia aliviar a agonia dos homens. Se tudo mais, exceção, do céu a terra, está entregue à dor, uma estranha felicidade então é possível. Entretanto, Camus irá dizer que quando da critica da razão, o Jesus divino descoberto como homem e a medida em que a divindade do Cristo foi negada, a dor voltou a ser o quinhão dos homens, Jesus frustrado é apenas um inocente a mais, que, os representantes do Deus de Abraão torturaram de maneira espetacular. Esse falseamento da suficiência cristã para o problema do pecado ficou encoberta até o século XVIII. A partir daí se de um lado Camus diz que o pensamento libertino abriu espaço para a grande ofensiva contra o céu inimigo, para aqueles que descobriram e queriam se rebelar contra o mal que os assolava com suas próprias forças, mas que não podiam uma vez que a religião os vedava, de outro lado, os cristãos teimosos e cegos fizeram da história o ligar para resolver o problema do mal. Como diz Hanna: Mas se a perda do Cristo trouxe aos homens à face do mal, isso deixa os homens no mesmo estado de espírito de antes, porque eles sabem agora que a história é sua justificação, e está em suas mãos realizar a promessa que a história contém.
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      > Camus achava a palavra salvação demasiado grande, não há e nem mesmo é necessário salvação para o ser humano. Camus fala outro não, e desta vez é ao sobrenatural, pois não precisava dele, sabe de sua responsabilidade e dever sobre seu próprio destino, sabe da força e fraqueza que o habitam e não aceita qualquer interferência externa sobre o que diz respeito somente a ele. Para Camus a salvação não existe, ele afastou veementes as soluções fáceis propostas como remédios ao terror inspirado pela morte, seu campo vivencial é o mundo e liga-se a si mesmo no mundo e faz dele o seu reino. Camus amava mais a natureza do que a história. Acusou o cristianismo de dar lugar e valor privilegiado à história eliminando a relação de contemplação com a natureza mudando o seu eixo para um relacionamento de sujeição. A natureza é, para Camus, o lugar do prazer do corpo. Ela é sua mediação com o sagrado.
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      > A revolta é a atualização da vida, não se tem mais deus e tudo o que se tem é a vida dada gratuitamente e sem explicação. Nesta vida, é preciso se revoltar, pois pela revolta acabamos por nos conduzir num mundo perdido e com valores que mantenham ou mesmo animem nossa dignidade. A revolta é capaz de nos fazer transcender, a única transcendência de que Camus faz conta e é luta contra o absurdo, a única capaz de reivindicar clareza e ordem num universo que parece pouco razoável. A grandeza da revolta contra todo ataque à dignidade humano reside igualmente na afirmação implícita da transcendência do espírito humano, o único capaz de julgar em nome de uma justiça que somente ele pode conceber.
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      > Fonte: http://existencialismo.sites.uol.com.br/camus.htm
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      Silas Silva
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