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Os malandros de Buenos Aires

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Os malandros de Buenos Aires HERON MOURA * | * Professor de Linguística na UFSC Quando pensamos na literatura argentina, nos vêm à mente os nomes de Borges
    Mensagem 1 de 1 , 29 de mar de 2009
      Os malandros de Buenos Aires

      HERON MOURA * | * Professor de Linguística na UFSC


      Quando pensamos na literatura argentina, nos vêm à mente os nomes de Borges e Cortázar. Ambos praticaram uma literatura que nos suspende um pouco acima da Argentina, num pampa imaginário que é, também, um deserto ou um pesadelo. Embora Buenos Aires esteja presente na obra dos dois, a cidade não é protagonista na ficção desses autores; não sentimos neles a pulsação das ruas da capital argentina.

      Porém, há um autor de sobrenome estranho, Roberto Arlt (1900-1942), que, aliás, poderia ser um personagem borgeano, que vive e respira nas ruas de Buenos Aires. Mas nele não se encontra essa cidade da imaginação, situada numa curva do espaço-tempo ligando a América Latina e a Europa, como numa fita de Moebius, que dá a volta sobre si mesma. A Buenos Aires de Arlt é esse labirinto de vozes que o autor vai captando nas ruas de uma cidade em plena expansão, nas décadas de 20 e 30 do século passado, quando novos bairros iam surgindo em meio a pântanos e ao pampa.

      É, claramente, uma cidade latino-americana e de imigração, com seus espanhóis, galegos, genoveses, turcos. A cidade é essa aranha que vai tecendo uma teia enorme a partir de sua própria secreção. Há uma proliferação de bairros pobres, de casinhas tristes, sem quintal e com um jardinzinho de nada. Fala-se o lunfardo (gíria porteña) e se ouve tango.

      É essa cidade gigantesca, devoradora, em plena expansão, povoada de seres melancólicos, como as atrizes envelhecidas da Calle Corrientes. Há um povo miúdo nas ruas, lutando pela sobrevivência diária, bem longe dos tigres e dos labirintos de Borges. É uma população de buscavidas, palavra que denota essas pessoas que se viram no dia-a-dia para encontrar seu meio de vida, biscateiros de sua própria existência. Essa é a cidade que se deixa entrever no belo livro Aguafuertes porteñas (1933), de Roberto Arlt. São pequenas notas de teor jornalístico sobre as pessoas, hábitos e faits divers da vida de Buenos Aires. São textos meio jornalísticos, meio ficcionais, burlescos, cômicos e muito comoventes. Arlt usa essas notas para exprimir um sarcasmo que não consegue ocultar sua paixão por esses buscavidas. Ele próprio era um deles, vivendo em pensões miseráveis e caminhando incansavelmente pelas ruas. Arlt é, também, personagem do autor Arlt. Esse nome até parece inventado, mas não, ele existe mesmo, como se esforça para mostrar em um texto. Quanto a chamar-se Arlt (uma só vogal para três consoantes!), ele insiste: "Yo no tengo la culpa".

      Esse humor encobre, talvez, a percepção de um mundo muito sombrio, encerrado numa cidade de maníacos, de solitários, de mulheres amargas. Mas um mundo, sobretudo, povoado de vagabundos, de gente que passa o dia sem fazer nada, vivendo com poucos ou nenhum peso no bolso.

      Há todo um vocabulário que Arlt utiliza para designar esses ociosos. Eles são os fiacún, os squenun, os homens que se tiram a muerto, os malandras (no feminino mesmo)... Arlt constrói uma verdadeira taxonomia das diferentes categorias de vadios e malandros que abundam em Buenos Aires. Ele se finge de ilustre filólogo, que define com precisão as diferentes classes de ociosos, as variadas posturas psicológicas correspondentes. Por exemplo, ele distingue o fiacún do hombre que se tira a muerto. O fiacún sofre de fiaca (corpo mole, preguiça), e a fiaca não é premeditada, mas natural em quem a sente. Já o hombre que se tira a muerto foge do trabalho e da responsabilidade por vontade própria, com o agravante da premeditação. O próprio Arlt se confessa adepto do corpo mole, pois está sempre atrasado na entrega de suas crônicas...

      Essa multidão de ociosos nos oferece uma imagem surpreendente de Buenos Aires. A literatura brasileira apresenta uma grande quantidade de personagens que não trabalham, que vivem de favores ou pequenos trambiques. São os nossos malandros. Antônio Cândido cunhou o termo "dialética da malandragem" para exprimir essa relação entre inclusão e exclusão na sociedade brasileira, que a literatura reflete. Como se o espelho necessário do trabalho fosse o biscate, o bico ou a ociosidade. Para cada trabalhador, há o seu duplo, o futuro desempregado.

      O surpreendente é que o mesmo cenário se encontra na Buenos Aires descrita por Arlt. Sim, há o malandro argentino, nosso co-irmão. E há até mesmo uma palavra específica para esse malandro porteño: el furbo. O furbo é aquele que "vive dentro da lei, a acata, a reverencia, a idolatra, violando-a 70 vezes ao dia", na definição lapidar de Arlt. O furbo se dá bem, é esperto, dá pequenos golpes, é um estelionatário nos limites da lei e do sistema comercial. E a palavra furbo não é ofensiva: se um homem conta que fez uma pequena maracutaia e se deu bem, o interlocutor comenta "Ah!, furbo...", assim como nós diríamos, em bom português, "Ah, que malandro...".

      Normalmente associamos a literatura à criação de identidades culturais. Para muita gente, o povo russo é uma mistura meio indigesta de Dostoiévski, Tolstoi e Tchecov... Mas a literatura também serve para criar similaridades. Identificamos, distorcido, o nosso próprio retrato, na literatura de outro povo. E o que não imaginávamos se torna real: há, sim, malandros na Argentina, e Buenos Aires é o Rio de Janeiro, e não Paris ou Genebra. Quer dizer, a não ser que haja uma população de furbos em Paris...


      Fonte: http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2447182.xml&template=3898.dwt&edition=11944§ion=1323
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