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Mudança na grafia que transforma “acreano” em “acriano”

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Confusão ortográfica Val Sales - valsales@pagina20.com.br 27-Mar-2009 Mudança na grafia que transforma acreano em acriano gera insatisfação na
    Mensagem 1 de 1 , 29 de mar de 2009
      Confusão ortográfica

      Val Sales - valsales@... 27-Mar-2009


      Mudança na grafia que transforma "acreano" em "acriano" gera insatisfação na população do Estado


      "A palavra `acreano' é vinculada a uma raiz histórica, tem tradição de identificar um povo e está imune de uma simples regra ortográfica relacionada a palavras com encontro de vogais, sejam elas átonas, tônicas ou alienígenas", destaca o cronista e juiz de direito José Augusto Fontes, em seu artigo "Acreano, sim! Acriano? Deve ser algum alienígena", publicado neste diário na última semana.

      Ele e o restante da população do Estado não concordam com a nova grafia da língua portuguesa que coloca o "i" no lugar do "e" na palavra acreano. A mudança gera polêmica em todos os grupos de conversa, seja nas ruas, nas universidades, nas empresas, nos botecos ou nas padarias. Todos são unânimes em defender que uma palavra que denomina um povo deve, até por questão de respeito, não ser alterada, a não ser que esse mesmo povo assim determine.

      Segundo ele, caso alguém queira aprofundar o debate, a palavra acreano subsistirá, inclusive pela aplicação da ortografia etimológica, que indica a preservação nas palavras e das suas letras de origem. "Essa aplicação, se conjugada com a essência da palavra a caracterizar o berço de uma gente, certamente apontará para o acreano original. Mudar acreano para acriano desvirtua e desnatura o que é natural, subtrai toda a carga histórica, detona o arcabouço cultural e fere o sentimento de um povo. Além disso, acriano é palavra feia, desconexa, sem turma nem simpatia. Totalmente fora de contexto", enfatiza José Augusto Fontes.
      A doutora em língua portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luisa Galvão Lessa, também pertence à massa dos insatisfeitos com a mudança. "Aqui no Brasil, por decreto, já se proibiu o uso da língua tupi. E aquelas pessoas, apanhadas na rua, falado o idioma nativo, deviam ser punidas severamente. E, agora, também será assim? Quem for flagrado falando `acreano' ou escrevendo `acreano' vai ser preso? E quem tem num documento escrito ser acreano, também será castigado? Recomenda o bom senso ter-se cuidado e atenção com essas medidas repentinas. Tudo requer estudo, análise, pesquisa e, até mesmo, consulta popular", enfatiza ela.



      Palavra "acreano" tem mais de 100 anos
      Mauro Modesto, membro da Academia Acreana de Letras e da Confederação Brasileira das Academias de Artes e Letras do Brasil, lembra que a questão também vem sendo motivo de insatisfação por parte dos presidentes das academias de Brasiléia, Xapuri, Assis Brasil e Sena Madureira. Ele é mais um dos que se colocam contra a mudança e se emociona ao falar do assunto. "Fizemos quatro revoluções para que nossos filhos, e os filhos dos nossos filhos fossem acreanos, fossem brasileiros. E agora, só temos que lamentar. É uma pena", reclama.

      Mauro Modesto faz questão de ressaltar que o Acre não é `Acri', e que esse é mais um motivo pelo qual acha a mudança desnecessária. "Estar-se mexendo em uma cultura por excelência. A nossa história é belíssima e acho que essa mudança foi de muito mau gosto. A palavra `acreano' tem mais de 100 anos e tem que ser respeitada e qualquer mudança, repensada. Nossos políticos deveriam levar isto para o Congresso Nacional, para a tribuna da Câmara e do Senado, assim como os deputados Estaduais e vereadores deveriam discutir mais", acrescenta.

      Mudança desnecessária e grotesca

      Para o repórter cinematográfico, Sidney Torres, não se trata apenas de uma mudança desnecessária, mas também grotesca. "Depois do fuso horário, essa é mais uma mudança que foge do normal e que o acreano é forçado a engolir sem ter sido consultado previamente ou tido qualquer oportunidade de debate", assevera.

      O estudante universitário Júnior Fiesca, diz que quando viu a palavra escrita no jornal impresso achou que se tratava de um erro de grafia, tendo descoberto depois que não se tratava de engano ou piada de mau gosto, mas de uma espécie de determinação que fere a democracia do país e a cultura do povo. "Temos de buscar formas de dizer que não aceitamos essa mudança, que ela é desnecessária e desrespeitosa", garante.

      João Paulo Mastrângelo, engenheiro florestal, acredita que em se tratando de uma palavra com a qual o povo se autodenomina, ela tem que ser respeitada. "Vejo isso como uma invasão a um costume cultural. Acho que deveria ter havido uma consulta prévia. Nada mais importante do que ouvir o povo antes de mexer em qualquer elemento que ele tenha como identidade", conclui.

      A jornalista Jamilsa de Almeida Melo afirma que a mudança pode até possuir alguma lógica ortográfica, mas já adianta que não está usando a alteração, até como forma de dizer que não concorda com a novidade.

      "O acreano se sente invadido em seu direito. O fato de não ter havido uma consulta prévia antes da batida do martelo faz a mudança soar como desrespeito, desvalorização e pouco caso às tradições de um povo. Logo, tendo sido esse povo o único a ter feito uma revolução armada, isto é, ter lutado e sangrado para se tornar brasileiro, é difícil aceitar."


      Fonte: http://www.pagina20.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=5207&Itemid=14
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