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Cristovão Tezza - sensação apó s prêmios

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Escritor exilado em Curitiba vira sensação após prêmios Em O Filho Eterno , Cristovão Tezza relata experiência com o filho que tem síndrome de Down
    Mensagem 1 de 1 , 3 de nov de 2008
      Escritor "exilado" em Curitiba vira sensação após prêmios
      Em "O Filho Eterno", Cristovão Tezza relata experiência com o filho
      que tem síndrome de Down
      Publicado em: 03/11/2008 08:49 Folha de S.Paulo

      Foto: Reprodução

      "Ela é magnífica para escrever, te dá distância. Mas você pena
      enquanto não entra no eixo Rio de Janeiro-São Paulo", define o autor
      sobre a capital paranaense
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      "Ela é magnífica para escrever, te dá distância. Mas você pena
      enquanto não entra no eixo Rio de Janeiro-São Paulo", define o autor
      sobre a capital paranaense
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      Cristovão Tezza achou que ia ser massacrado pela crítica quando
      resolveu escrever "O Filho Eterno" (ed. Record). "Problema pessoal
      não é problema literário. O tema tem uma pedra no meio do caminho",
      pensou. A dúvida tinha a ver com a arriscada opção de relatar sua
      experiência com o filho, que tem síndrome de Down. O cuidado foi
      excessivo. Com o romance, o escritor radicado em Curitiba tornou-se a
      sensação literária de 2008.

      É de dar inveja a qualquer autor nacional. Na última quinta, Tezza
      recebeu o Prêmio Portugal Telecom. Na sexta, foi o Jabuti de melhor
      romance - e, por pouco, não leva também o Jabuti de livro do ano, que
      afinal foi para Ignácio de Loyola Brandão. Cristovão já havia
      faturado os prêmios da Associação de Críticos de Arte de São Paulo e
      da revista "Bravo!".

      Pode não ser tudo. No final de novembro, ainda é forte concorrente
      para o Prêmio São Paulo de Literatura.Tezza vai se tornando, assim,
      uma unanimidade. Trata-se de um fenômeno semelhante àquele que
      ocorreu com Milton Hatoum, em 2006. Na época, formou-se a convicção
      de que estava surgindo um novo fenômeno: a consagração dos escritores-
      acadêmicos. No caso do catarinense, é uma verdade apenas parcial.

      Professor tardio
      Nascido em Lages (Santa Catarina), há 56 anos, Tezza resistiu a
      entrar na universidade, o que só fez aos 25 anos. É um "professor
      tardio", como se define. Sempre desejou ser escritor e precisou
      insistir. A consagração chegou em sua 14ª obra de ficção. "O Filho
      Eterno" já foi lançado na Itália e em breve ganha edições em
      Portugal, na França e na Espanha.

      A força do livro está em traduzir friamente, sem concessões, o choque
      e a revolta de um jovem transgressor, um "filhote retardatário dos
      anos 70 e dinossauro medieval", ao descobrir a condição excepcional
      do filho recém-nascido.

      O romance amadureceu ao longo de dez anos. "É um exercício da
      crueldade. Esse é o principal atributo do narrador. Ele não pode ter
      piedade de nada e de ninguém", diz Tezza. Literariamente, o livro
      dialoga com duas grandes obras que abordam o mesmo tema.

      A primeira é "Uma Questão Pessoal" (Companhia das Letras), do Prêmio
      Nobel japonês Kenzaburo Oe. "Além de tudo, Oe também expressa aquela
      coisa dos anos 60, de rebeldia", diz Tezza.

      Outra influência assumida é "Nascer Duas Vezes" (Companhia das
      Letras), do italiano Giuseppe Pontiggia. "São depoimentos pessoais, é
      um diário do escritor com o filho."

      A verdadeira resposta para o livro, no entanto, veio do Prêmio Nobel
      sul-africano J.M. Coetzee, autor de "Juventude" (Companhia das
      Letras). "Esse é um dos livros mais cruéis que já li sobre a
      adolescência. Mostra o processo do narrador sair da confissão e se
      transformar em objeto. É o que o autor precisa fazer. Aquilo me deu a
      chave, foi quando me livrei da primeira pessoa."

      A partir daí, com a moldura ficcional estabelecida, a escrita
      fluiu. "Quando comecei a escrever, todos os problemas pessoais e
      emocionais já estavam resolvidos. A questão era como transformar isso
      em literatura", diz o escritor.

      "O Filho Eterno" coroa uma carreira bem-sucedida que está longe de
      ser banal: "Eu tinha tanto problema com a academia, quando jovem. Não
      quis fazer vestibular. Achei que universidade ia acabar comigo como
      escritor. Bem de acordo com a cabeça dos anos 70. Fui meio bicho-
      grilo, um hippie "à brasileira". Queria ser artista, transgressor",
      afirma.

      Nos anos 60, Tezza participou de uma comunidade de teatro, liderada
      por Wilson Rio Apa, um guru que "tinha uma visão rousseauniana do
      mundo e era um ecologista "avant la lettre'". Seguindo os passos do
      mestre, quis realizar uma aventura literária que foi a inspiração de
      grandes autores, como Melville: tornar-se um marinheiro. "Era o
      máximo do romantismo. Achava que os projetos intelectuais tinham de
      ser também projetos existenciais, uma idéia bem anos 60."

      Assim, em pleno regime militar, em 1971, Tezza rumou para o Rio de
      Janeiro e se inscreveu no curso para marinheiro. "Fiquei seis meses
      estudando, enquanto lia "Cem Anos de Solidão". Mas nunca pisei em um
      navio." Em seguida fez curso de correspondência para relojoeiro.
      Praticou o ofício, mas acabou abandonando.Foi com esse background que
      o escritor passou a se dedicar à literatura -lançado por pequenas
      editoras- e à bem-sucedida carreira acadêmica.

      Hoje, é autor de uma respeitada tese, já publicada: "Entre a Prosa e
      a Poesia - Bakhtin e o Formalismo Russo" (Rocco). Com a universidade,
      fez a "descoberta do discurso da ciência". E, na literatura, ainda
      que tenha começado com poesia e seja um autor versátil, se
      declara "fundamentalmente um romancista".

      De acordo com Tezza, "mostramos dificuldade com a cultura romanesca.
      A península Ibérica tem uma tradição de poetização do discurso
      romanesco, bem diferente da tradição inglesa ou americana. O
      brasileiro tem uma certa vergonha de ser narrador, ele precisa ser um
      poeta. Guimarães Rosa é um poeta da prosa. Machado de Assis está do
      lado oposto".

      Tezza acha natural que os críticos atualmente se dediquem à produção
      literária. "Antigamente, havia a crítica acadêmica e os escritores,
      como Jorge Amado, Carlos Heitor Cony ou Antonio Callado. Eram duas
      áreas bem distintas" diz. "A partir dos anos 70, passou a haver uma
      fusão, um tipo de elaboração acadêmica sobre a literatura, e hoje
      eles estão muito próximos. A universidade dá condições de
      sobrevivência."

      Foco em Curitiba
      Com o sucesso do autor, a capital paranaense passa a ter duas
      estrelas literárias. "Curitiba é um exílio. A literatura pula de São
      Paulo para Porto Alegre. A solidão do Dalton [Trevisan], aquela coisa
      meio caipira, é um retrato da cidade. Ela é magnífica para escrever,
      te dá distância. Mas você pena enquanto não entra no eixo Rio de
      Janeiro-São Paulo."

      Agora, aproveita o embalo com os prêmios para rascunhar a carta de
      demissão. Se possível, deseja se dedicar apenas à literatura. "Quero
      me dedicar mais à felicidade, à leitura. O escritor precisa de ócio",
      conclui.

      Pode até ser possível. Com o Portugal Telecom, recebeu R$ 100 mil. Se
      tirar a sorte grande com o Prêmio São Paulo, da Secretaria de Estado
      da Cultura, pode até sonhar com mais R$ 200 mil.

      Fonte:http://www.tribunadonorte.com/index.php?
      setor=DETALHESNOTICIA&nid=128711
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