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Nelson Pereira dos Santos - Acadêmico e Cineasta completa 80 anos

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Os cineasta-acadêmico completou 80 anos No último dia 22 Nelson Pereira dos Santos aniversariou. Ele é o único cineasta brasileiro que pertence à Academia
    Mensagem 1 de 1 , 25 de out de 2008
      Os cineasta-acadêmico completou 80 anos

      No último dia 22 Nelson Pereira dos Santos aniversariou. Ele é o
      único cineasta brasileiro que pertence à Academia Brasileira de Letras

      Luiz Carlos Merten
      Ag~encia Estado

      Nesta semana comemorou-se os 80 anos do único acadêmico entre os
      grandes diretores do cinema brasileiro. A Nelson Pereira dos Santos
      pode-se aplicar a definição, mas não no sentido muitas vezes
      depreciativo com que ela é usada no domínio da cultura, para indicar
      o artista que segue regras e não ousa muito, nem do ponto de vista
      estético nem político. Ao longo de sua memorável carreira, mestre
      Nelson muitas vezes apontou caminhos, mas ele é, no sentido mais
      literal, acadêmico pelo simples fato de integrar a Academia
      Brasileira de Letras - o único diretor brasileiro acolhido como
      membro na casa fundada por Machado de Assis. Deve ter contribuído
      para isso o fato de Nelson Pereira dos Santos ter adaptado tantos
      autores, não apenas Graciliano Ramos e Jorge Amado, mas também
      Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues e Guilherme de Figueiredo.

      Ele nasceu em São Paulo, no dia 22 de outubro de 1928. Cineclubista
      ardoroso, iniciou-se na prática cinematográfica integrando a equipe
      do longa "O Saci", como assistente de direção de Rodolfo Nanni. "O
      Saci" é de 1953. Três anos mais tarde, no Rio, o próprio Nelson virou
      diretor e, assimilando o neo-realismo, fez "Rio 40 Graus" e, na
      seqüência, "Rio Zona Norte". O primeiro filme teve problemas com a
      censura da época, mas já apontava o caminho. Nelson voltava-se para o
      Rio dos excluídos, do morro e da favela, onde bicheiros e sambistas
      se misturavam, numa época anterior à atual violência do tráfico. A
      favela ainda era, naquele tempo, o barracão de zinco e Zé Kéti podia
      soltar o verbo proclamando que era a voz do morro.

      Nelson saltou do morro para a da classe média urbana ("O Boca de
      Ouro"), antes de tomar o rumo do sertão, para fazer, com sua primeira
      adaptação de Graciliano Ramos ("Vidas Secas"), um dos marcos
      definidores do movimento chamado de Cinema Novo. Ele voltou à cidade,
      agora na Zona Sul ("El Justiceiro"), e em 1968, um ano emblemático,
      fez o filme talvez mais atípico de sua carreira, o mais vanguardista
      ("Fome de Amor"). Vieram depois seu manifesto antropofágico ("Como
      Era Gostoso o Meu Francês"), a incursão pelo universo dos orixás ("O
      Amuleto de Ogum"), o flerte com Jorge Amado ("Tenda dos Milagres"), o
      casamento com os sertanejos ("A Estrada da Vida") e o outro grande
      marco adaptado de Graciliano, "Memórias do Cárcere".

      O que é mais rico no legado de Nelson Pereira dos Santos é que ele
      não é um, mas múltiplo, adaptando seu estilo às necessidades
      específicas das histórias que, em diferentes momentos de sua
      evolução, quis contar. Ele pode ser neo-realista nos primeiros
      filmes, mas, a despeito de sua preocupação social, a luz e o
      enquadramento de "Vidas Secas" têm um quê de Michelangelo Antonioni -
      e Antonioni, mais Alain Resnais, estão presentes nas pesquisas de
      linguagem de "Fome de Amor". A antropofagia de "Como Era Gostoso"
      também marcou época e a índia Ana Maria Magalhães come a carne e
      chupa os ossos do francês Arduíno Colasanti para que o diretor, no
      pós-68, discuta as relações entre colonizados e colonizadores.

      O que há de tosco em "A Estrada da Vida" pode ser estratégia. Nelson
      Pereira filma a vida de "Milionário e Zé Rico" - o pré-"2 Filhos de
      Francisco" - para mostrar o artista como trabalhador. O grande
      momento do filme é quando eles trabalham na reforma da loja de discos
      e sua música começa a ser tocada. "Memórias do Cárcere" representa o
      apogeu. O relato autobiográfico do velho Graça nas prisões do Estado
      Novo é pretexto para falar do Brasil que está prestes a encerrar o
      ciclo da ditadura militar.

      Pode-se gostar mais de alguns filmes ("Vidas
      Secas", "Memórias", "Como Era Gostoso" e "Fome de Amor"), pode-se
      deplorar outros ("Quem É Beta?", o próprio "Jubiabá"), mas a obra de
      Nelson Pereira dos Santos não é só coerente. Na sua medida, como
      cineasta e escritor (roteirista), ele é representativo de sua
      geração, que quis pensar o Brasil e, mais do que isso, quis resgatar
      a identidade do brasileiro na tela. O movimento do Cinema Novo não
      representou outra coisa senão esse desejo de colocar o Brasil e os
      brasileiros nas telas dos cinemas.

      Não surpreende que Nelson tenha adaptado, para TV, um livro
      fundamental como "As Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda.
      Em 1995, com "Cinema de Lágrimas", ele não só resgatou o melodrama
      como expressão autêntica do cinema da América Latina. Fez também sua
      autocrítica, e a crítica de sua geração. No afã de filmar o Brasil,
      Nelson, Glauber Rocha, Joaquim Pedro, Ruy Guerra etc, muitas vezes
      estavam tão adiante de seu tempo que o povo na tela não tinha o
      contraponto do público nas salas. Tudo isso é história. Nelson, aos
      80 anos, é um jovem que ainda acalenta seu sonho de filmar a vida de
      Castro Alves. Só teremos a ganhar, talvez, se ele conseguir
      concretizá-lo.

      Fonte: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=330895
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