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Autores discutem como fugir do rótulo de africanos

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Autores discutem como fugir do rótulo de africanos Alexandre Werneck, Jornal do Brasil RIO - A nacionalidade de um escritor costuma ser parte de seu cartão
    Mensagem 1 de 2 , 25 de out de 2008
      Autores discutem como fugir do rótulo de africanos
      Alexandre Werneck, Jornal do Brasil


      RIO - A nacionalidade de um escritor costuma ser parte de seu cartão
      de visita. Em tempos de mundialização dos universos e das pautas
      culturais, pertencer a uma literatura nacional acabou por se tornar
      um elemento de identidade ainda mais forte. Mas para os escritores
      oriundos de países da África, a capa do passaporte parece, por vezes,
      e sobretudo no Brasil, padecer de um certo "excesso de síntese":
      angolano, moçambicano, guineano, o adjetivo que acaba ao lado do
      autor é mesmo "africano". É como se a África fosse um país.

      A Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto) – que
      ocorre no balneário pernambucano de 6 a 9 de novembro – celebrará os
      pontos de contato entre as literaturas latino-americanas e as vindas
      do continente negro (que na literatura nem é tão negro assim). O
      encontro, que em sua quarta edição começa a se consolidar como um
      espaço de referência para a reflexão acadêmica em teoria literária no
      país, levou o Idéias a aproveitar para perguntar: como mostrar as
      peculiaridades das literaturas de cada país africano sem incorrer no
      risco da farinha do mesmo saco, o clichê da "literatura africana"?

      – Esse é um esterótipo oriundo da ignorância – diz a pesquisadora
      Lucila Nogueira, professora da UFPE e curadora literária da
      Fliporto. – É primordial pensar não na África, mas em Áfricas, em
      literaturas africanas, justamente a preocupação que tivemos na
      curadoria.

      – É um fenômeno que ocorre muito mais no Brasil, que desconhece suas
      origens e é um país muito grande, que acha que se basta a si próprio –
      diz José Eduardo Agualusa, de Angola, conhecido dos brasileiros
      sobretudo por O ano em que Zumbi tomou o Rio.

      Unidades diaspóricas

      Agualusa falará na Fliporto em 7 de novembro, na mesa sobre o acordo
      ortográfico entre os países de língua portuguesa, e, no mesmo dia,
      conversa com os conterrâneos Pepetela e Ondjaki em uma mesa sobre a
      literatura de seu país, ligação que ele nem acha tão relevante assim,
      deslocando o debate para um extremo ainda mais distante:

      – Um autor não quer ser reconhecido como continental ou nacional, mas
      como escritor.

      Outro que participa da Festa, Luis Carlos Patraquim, de Moçambique,
      menos conhecido por aqui, é um dos poetas mais celebrados em seu país
      (autor de obras elogiadas como O osso côncavo). Ele também critica
      (por e-mail) a unificação, em bom português lusitano (pré-acordo):

      – Falar assim de África, genericamente e sem referir países e suas
      especificidades, decorre ainda de uma inconsciente idéia de império
      ou de aquilo a que alguém chamou de "desejos coloniais". Mas a
      própria "África" = países africanos por vezes também não ajuda. Falar
      da floresta sem ver as árvores é incorrecto.

      Fora da Festa, mas um dos mais importantes observadores brasileiros
      das africanidades, Nei Lopes defende o outro lado: para ele, embora
      seja preciso ver os países africanos em sua unidade, é importante ver
      a África em pelo menos um sentido unificado: a partir de uma leitura
      de sua diáspora:

      –Todos os pontos de contato são motivados por uma origem comum. Que
      começa nos primórdios da Humanidade e atravessa a alta Antiguidade,
      com migrações seculares, até quase os nossos dias. E também pela
      tragédia do escravismo que, de certa forma, uniu a todos na desgraça
      e que, ainda por cima, culminou na exploração colonial mais
      aviltante, através da utilização de métodos bem semelhantes, tanto da
      parte de franceses quanto de ingleses, belgas ou portugueses. A idéia
      de uma integração entre a África e sua diáspora, uma colaboração
      efetiva em nome de uma origem comum, uma reverência de herdeiros
      diante de um respeitável e portentoso legado ancestral é, no meu
      entender, altamente pertinente – teoriza Lopes.

      Diáspora também é a palavra-chave de Lucila Nogueira, que informa que
      o guia conceitual para o encontro foi o modelo de pensamento do
      filósofo jamaicano radicado no Reino Unido Stuart Hall, autor da
      pesquisa Da diáspora: identidades e mediações culturais , na qual
      discute as mestiçagens culturais no mundo contemporâneo e estabelece
      pontos de contato entre as culturas.

      – A diáspora negra é vista hoje da mesma maneira que a judaica, como
      a dispersão de um povo pelo mundo. O Brasil não pode olhar para nada
      de maneira unificada, porque, afinal, não somos nada unificados
      também. É impossível falar de literatura brasileira, mas também de
      múltiplas literaturas.

      Pois bem, o Brasil tem mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e
      mais de 180 milhões de habitantes. Guiné-Bissau se espreme em 36,5
      mil quilômetros quadrados e tem pouco mais de 1,4 milhão de
      habitantes. Mesmo assim, a multiplicidade é a mesma tônica nacional:
      se aqui há uma região Nordeste profundamente diferente da região Sul,
      igualmente lá há dezenas de etnias que tornam o país uma colcha de
      retalhos cultural. O poeta Antônio Soares Lopes, o Tony
      Tcheka, "representa", por assim, dizer, Guiné-Bissau, na Fliporto –
      onde, aliás, como vários dos colegas africanos (usemos o termo com
      cuidado) lançará obras, em escala lusófona. Seu país tem influência
      islâmica e nele o português oficial não é nem de longe o idioma mais
      falado. O crioulo é presente e quase sempre hegemônico na fala (e
      muitas vezes escrita). Tcheka diz, por telefone, de Portugal, onde é
      radicado, que sua relação com esse traço já aponta uma peculiaridade
      gritante da literatura de seu país:

      – Se me perguntam quando escrevo em português e quando em crioulo,
      digo que sinceramente não sei. Às vezes uso os dois no mesmo poema,
      indistintamente.

      Ele sugere uma outra relação com a idéia de unidade, defendendo
      encontros como a Fliporto como momentos mais úteis para mostrar a
      diferença do que para consolidar semelhanças entre escritores
      africanos, sejam eles de quaisquer origens e línguas:

      – As literaturas por si próprias já demonstram essa diferença.
      Colocadas uma ao lado das outras, fica explícito o contraste. Mas não
      um contraste de separação, de isolamento, mas uma diferenciação que
      oferece vários universos diferentes.


      Fonte: http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/10/24/e241027480.html
    • Silas Silva
      Muito boa reportagem. Acho que, se por um lado a preocupação dos escritos é legítima, por outro a Lucila Nogueira do texto, entre outros, têm razão. Os
      Mensagem 2 de 2 , 27 de out de 2008
        Muito boa reportagem. Acho que, se por um lado a preocupação dos
        escritos é legítima, por outro a Lucila Nogueira do texto, entre outros,
        têm razão.

        Os países da África foram criados artificialmente, sem levar em
        consideração as diferentes etnias e povos que aí habitavam. Por isso,
        considerar os países sem considerar o contexto africano total, é ser
        minimalista, creio.

        Valeu pela reportagem, Ubiratan!

        On Sat, Oct 25, 2008 at 10:51:11AM -0000, Ubiratan Rocha da Silva wrote:
        > Autores discutem como fugir do rótulo de africanos
        > Alexandre Werneck, Jornal do Brasil

        --
        Silas Silva
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