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Chegam às livrarias obras adaptadas à unificação ortográfica

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    mexe-mexe (ou mexemexe?) do idioma Chegam às livrarias obras adaptadas à unificação ortográfica, obrigatória para os livros didáticos a partir de 2010;
    Mensagem 1 de 1 , 10 de set de 2008
      mexe-mexe (ou mexemexe?) do idioma
      Chegam às livrarias obras adaptadas à unificação ortográfica,
      obrigatória para os livros didáticos a partir de 2010; mudanças
      afetam apenas 0,43% do vocabulário brasileiro


      Josué Machado


      A unificação ortográfica entra em vigor no Brasil em janeiro próximo,
      mas haverá um período de três anos de adaptação às regras. Mais à
      frente, deverá valer para os outros sete países de expressão
      portuguesa. Assim o português deixará de ser a única língua com duas
      ortografias e poderá ser idioma oficial na Unesco, como defendia o
      filólogo Antônio Houaiss (1915-1999), inspirador da mudança.

      Nesses três anos de convivência e transição, as duas ortografias
      serão aceitas aqui em todas as instâncias. Para os períodos letivos
      de 2010 em diante, no entanto, o governo brasileiro comprará só
      livros didáticos e de referência com a ortografia unificada. São
      milhões de exemplares para o ensino fundamental e médio distribuídos
      às quase 200 mil escolas públicas do país.

      Diante dessas informações, confirmadas por Carlos Alberto Ribeiro
      Xavier, assessor especial do ministro da Educação, Fernando Haddad,
      as editoras já trabalham para lançar seus dicionários renovados. De
      todo modo, ninguém deve se desfazer de dicionários e obras de
      referência. Não perdem o valor. Basta conhecer as alterações
      previstas, que se resumem, para nós, à supressão de poucos acentos e
      à tentativa meio furada de simplificar o uso do hífen, tracinho
      diabólico cuja extinção ninguém lamentaria, a não ser poucos sábios
      tristes.

      Enfim, são mudanças pouco expressivas, que afetam mais os
      portugueses. Em porcentagem, 0,43% de modificações no vocabulário
      brasileiro e 1,42% no português. Como ainda há dúvidas sobre a
      redação de muitas palavras, principalmente por causa do hífen, esses
      números constituem espantoso refinamento estatístico produzido pelos
      redatores do acordo.

      Grafia e sentido
      Outra razão para manter os livros atuais? Lembrar que os dicionários
      valem sobretudo pela expressão de significados, que não mudam com o
      acordo, e que nas gramáticas a ortografia é só um dos aspectos do uso
      da língua, não o principal.

      Ninguém será obrigado a dizer ou escrever, como alguns portugueses,
      que nossos putos ou canalhas estão a bulhar; que vamos entrar numa
      bicha à espera de um cacete quentinho; que a rapariga desfilou linda
      apenas de cuecas; que vamos ao talho comprar acém; que o combóio
      sairá da gare às 9h43; que abalamos para apanhar o eléctrico de Santa
      Teresa; que vamos morfar uma sande; que ela vai levar uma pica; que
      ao mandar o bernardo às compras será preciso usar durex para prevenir-
      se contra os perigos desta vida.

      Putos são crianças; putalhada ou canalhada, criançada; bulhar,
      brigar; bicha, fila; rapariga, garota; cuecas, calcinha; cacete, pão
      alongado; abalar, sair; combóio, trem; gare, estação; eléctrico,
      bonde; morfar, comer; sande, sanduíche; levar uma pica, tomar
      injeção; mandar o bernardo às compras é o que se chama eufemicamente
      de fazer amor; durex, preservativo.

      Dicionários na frente
      As editoras nacionais relançarão seus dicionários até o fim de 2009.
      Se não houver surpresas, o Aurélio sai na frente, até o fim de 2008
      ou no 1º trimestre, anuncia Emerson Santos, diretor-geral da divisão
      de Livros e Periódicos da Editora Positivo.


      O filólogo Antônio Houaiss (1915-1999), grande defensor do acordo
      ortográfico
      Meses depois será lançado o novo Houaiss, porque a equipe técnica
      termina de rever a segunda edição em março de 2009, prevê Mauro
      Salles de Villar, diretor do Instituto Antônio Houaiss. O Michaelis
      será lançado em 2010, diz Breno Lerner, diretor-geral da
      Melhoramentos. A versão completa do Caldas Aulete estará na internet,
      informa Paulo Geiger, editor da Lexikon Editora.

      Os minidicionários são capítulo à parte. Houaiss, Aurélio e
      Michaelis, com 30 mil verbetes, foram lançados para a Bienal do Livro
      de São Paulo em agosto, já de acordo com a unificação. O da Academia
      Brasileira de Letras, publicado pela Editora Nacional, sairá até
      outubro com 33 mil verbetes. A surpresa na área foi a rapidez com que
      os portugueses prepararam dicionários conformes à unificação e os
      lançaram já no começo do ano. Ainda mais pela resistência que opõem
      ao acordo e porque ele só deve vigorar na Terrinha a partir de 2014.

      Remota
      Mauro Villar diz não acreditar num recuo português ao acordo porque
      os governos já oficializaram sua aceitação. Mas Evanildo Bechara,
      membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), teme que os
      portugueses ainda o abandonem, porque a população dá evidentes
      demonstrações de contrariedade.

      "Já houve deserções de parte a parte. Basta lembrar os acordos de
      1931 e de 1945. Depois de assinados, foram rejeitados por uma ou
      outra parte", alerta.

      As editoras portuguesas apostam suas fichas. A Texto, do grupo Leya,
      publicou dois - Novo Dicionário da Língua Portuguesa, médio, 1.653
      páginas, e Novo Grande Dicionário da Língua Portuguesa, 2.048 páginas
      em 2 volumes. A Porto Editora fez o Dicionário de Língua Portuguesa
      2009, "o único com o antes e o depois", também médio, 1.728 páginas.

      Bechara observa que talvez os portugueses tenham sido rápidos demais
      por tratarem de forma discutível e contraditória certos aspectos da
      grafia não claramente definidos pelo acordo, em particular em relação
      ao hífen.

      "O acordo menciona os prefixos pré-, pró- e pós-, que devem se unir
      por hífen, e exclui as formas átonas pre-, pro- e pos- que se
      aglutinam
      Evanildo Bechara, da ABL: portugueses ainda contrariados
      com o elemento seguinte. Mas é omisso quanto ao re- e não o inclui
      na lista de prefixos ou de 'elementos não autônomos ou falsos
      prefixos' que pedem hífen quando o elemento seguinte começa com a
      mesma vogal com que ele termina", explica Paulo Geiger.

      Outro exemplo de Geiger para a não-inclusão do re- nesses casos: ele
      não pede hífen antes de elementos que começam com h, como todos os
      outros; o h apenas cai ante o re- como em "reabilitar"
      e "reaver". "Por isso, não estou convencido de que o acordo
      estipula 're-eleger', 're-educar'. Ele?não é claro?quanto a isso."

      Critérios insondáveis
      Geiger reconhece que o uso do hífen é problema malresolvido e lembra
      que critérios continuarão insondáveis.
      "Houaiss, a quem eu enviara uma lista de palavras
      compostas 'duvidosas' quanto ao hífen,?devolveu-a anotada, mas sem
      coerência nem critérios claros: 'marca-passo' (verbo + subst),
      mas 'mataborrão'; 'limpa-trilhos', mas 'pegaladrão'; 'bate-estaca',
      mas 'catavento', 'paralama', 'mataburro', 'matapiolho' etc.
      E 'lerolero', mas 'ruge-ruge'. E aí?", pergunta.

      Por aí se vê que o dicionário da Texto saiu com algumas dessas
      aparentes contradições. Registra "preeminên­
      cia", ?"preestabelecer", "preexcelência", "preexistência"?etc. e "pré-
      escola". Dirão ser clara a diferença: pré- com o timbre aberto,
      acentuado,?é seguido de hífen; com timbre fechado, sem acento, sem
      hífen. Mas saberão todos, que não especialistas, reconhecer quando o
      prefixo é tônico ou átono? Quando deve ou não ser acentuado? E no
      Nordeste, em que as vogais e e o soam quase sempre com timbre aberto?

      Algo semelhante se passa com o prefixo re-. Só que no dicionário da
      Texto, re aparece seguido de hífen antes de segundo elemento começado
      com e, embora seja átono. Estão lá registrados, portanto: "re-
      edição", "re-educação", "re-eleição", "re-empossar". Obviamente, com
      o timbre fechado. Imprevisão dos sábios que redigiram o Acordo,
      precipitação da editora e provável distração da equipe que preparou o
      dicionário. (O Vocabulário Ortográfico da ABL
      manterá "reedição", "reeducação" etc.)

      No caso das palavras compostas por verbo + substantivo, outra
      incoerência no acordo, que registra "guarda-chuva",
      mas "mandachuva"; "paralama", "parabrisa", mas "para-choque". O
      dicionário da Texto ignora essas diferenças e usa sempre hífen, mas
      registra incoerências como "lengalenga" e "zaz-traz", entre outras.

      O fato é que a Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL (Eduardo
      Portella, Evanildo Bechara e Alfredo Bosi) se debatia até meados do
      ano para solucionar problemas como esses e lançar em novembro o novo
      Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) - a relação com a
      grafia oficial de 360 mil vocábulos. Embora tais problemas pareçam
      insignificantes, não podem ficar sem solução bem-fundamentada num
      catálogo dessa importância, espécie de bíblia lexicográfica. Por
      isso, a Comissão decidiu considerar exceções os exemplos
      contraditórios do acordo. Bechara admite que o trabalho não ficará
      perfeito:

      "Procuramos eliminar dúvidas e normatizar o Vocabulário da melhor
      maneira possível, mas sempre haverá críticas. Depois de muita
      discussão, tivemos de arbitrar em casos não previstos porque os
      problemas vão surgindo do exame de cada palavra discutível. Com o
      trabalho cuidadoso ao extremo, a surra dos críticos será menor",
      acredita.

      Registrará, por exemplo, "erva mate", mas "erva-de-santo-inácio",
      nome de planta; "bico de papagaio", anomalia em discos da coluna
      vertebral, sem hífen, como toda locução, e "bico-de-papagaio", planta.

      Trabalho de base
      "O lacunoso acordo", como o chamou Bechara, previa que o Volp seria o
      trabalho de base para a preparação dos dicionários. O atraso na
      preparação provocou a queixa dos editores, que talvez não possam
      esperar a lista normativa da ABL. Por isso, prepararam seus
      minidicionários como puderam, resolvendo por si as contradições do
      Acordo, às vezes com consultas informais à ABL.

      Breno Lerner, da Melhoramentos, é um dos que se queixaram. "A
      dificuldade, neste momento, é a falta de referências. O texto do
      acordo é vago em alguns tópicos, chegando a se contradizer em relação
      ao uso do hífen. Como até agora não temos o Volp reformado, cada
      editor adota sua própria interpretação do texto."

      É quase certo, no entanto, que o Volp ficará pronto a tempo de ser
      usado pelas editoras. Assim que o infernal hífen for minimamente
      domado, a ABL poderá transmitir a elas os resultados antes de
      publicar o listão. É a esperança de que não haja trombadas
      interpretativas entre dicionários de respeito.

      O que muda
      Caem alguns acentos, mas o uso do hífen continua infernal por causa
      das muitas exceções e dos critérios obscuros.

      Regras
      ALFABETO passa de 23 para 26 letras. O k, o w e o y voltam a integrar
      o alfabeto, de onde, na prática, jamais saíram.

      O TREMA é eliminado das palavras portuguesas e aportuguesadas, mas
      permanece em nomes próprios estrangeiros e derivados: Hübner,
      hüberiano, Müller. Palavras como "agüentar", "cinqüenta", "argüir"
      e "tranqüilo" ficam sem trema.

      ACENTUAÇÃO
      Perdem o acento:
      a) Os ditongos ei e oi de timbre aberto das paroxítonas (a sílaba
      tônica é a penúltima). Palavras
      como "assembléia", "idéia", "bóia", "heróico" e "jóia".

      Mas continuam acentuados os éi e ói das oxítonas e dos monossílabos
      tônicos de timbre aberto: constrói, dói, herói, anéis, anzóis,
      cruéis, fiéis, faróis, papéis.E mantém-se o acento no ditongo de
      timbre aberto éu: céu, chapéu, ilhéu, véu.

      b) Os hiatos ee e oo perdem o acento. (No caso de ee, verbos crer,
      dar, ler, ver e derivados, na 3ª. pessoa do plural). Em palavras
      como "crêem", "dêem", "lêem", "vêem", "abençôo", "côo", "corôo", "enjô
      o", "môo", "perdôo" e "vôo".

      c) As palavras paroxítonas homógrafas (acento diferencial). Mantém-se
      em pôde e pôr.
      Deixam de ser acentuados:
      "côa" (verbo "coar");
      "pára" (verbo); "péla" (substantivo e verbo); "pêlo" (subst.), "pélo"
      (verbo) e pelo.
      O acento diferencial se mantém em "pôde" (3ª pessoa do singular do
      pretérito perfeito do indicativo do verbo poder), homógrafo de "pode"
      (3ª pessoa do singular do presente do indicativo do mesmo verbo); e
      no verbo "pôr", homógrafo da preposição "por".

      O acento diferencial será facultativo no substantivo "fôrma" em
      oposição ao substantivo e forma verbal "forma" (3ª pessoa do singular
      do presente do indicativo).

      d) O i e o u tônicos das palavras paroxítonas se forem precedidas de
      ditongo, como em "baiúca", "feiúra", "cheiínho" e "saiínha".

      e) O u tônico das pouco usadas formas verbais rizotônicas (que têm
      acento na raiz) quando faz parte dos grupos que e qui; gue e gui.
      Como em "apazigúe", "argúem", "averigúe", "obliqúes".

      A perda do hífen
      O uso do hífen é um problema malresolvido, com casos ainda em
      discussão na ABL, mas valem as seguintes regras:
      a) Não se usa quando o prefixo termina em vogal e o segundo
      elemento começa com r ou s, que se duplicarão.

      Antes Depois
      Ante-sala, anti-rugas
      Auto-retrato, contra-senso
      Extra-regimento, infra-som
      Ultra-romântico, ultra-sonografia
      Semi-sintético, supra-renal
      Supra-sensível Suprassensível Antessala, antirrugas
      Autorretrato, contrassenso
      Extrarregimento, infrassom
      Ultrarromântico, ultrassonografia,
      Semissintético, suprarrenal,
      Suprassensível

      O hífen se mantém quando os prefixos hiper-, inter- e super- se ligam
      a elementos iniciados por r: hiper-rancoroso, hiper-realista,
      hiper-requintado, hiper-requisitado, inter-racial, inter-regional,
      inter-relação, inter-resistente, super-racional, super-realista,
      super-resistente, super-revista.

      b) Não se usa hífen se o prefixo termina em vogal diferente da que
      inicia o segundo elemento.

      Antes Depois
      Auto-escola, contra-indicação
      Extra-oficial, infra-estrutura
      Intra-ocular, neo-expressionista
      Semi-árido, supra-ocular
      Ultra-elevado Autoescola, contraindicação
      Extraoficial, infraestrutura,
      Intraocular, neoexpressionista,
      Semiárido, supraocular,
      Ultraelevado

      A manutenção do hífen
      O hífen será mantido nos seguintes casos:

      1) Em palavras compostas que constituem unidade sintagmática e
      semântica, assim como naquelas que designam espécies botânicas e
      zoológicas: ano-luz, azul-escuro, médico-cirurgião, conta-gotas,
      guarda-chuva, manda-tudo, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor,
      couve-flor, erva-doce, mal-me-quer, bem-te-vi etc.

      2) Com os prefixos ex-, sota-, soto-, vice-, vizo-: ex-mulher, sota-
      piloto, soto-mestre, vice-campeão, vizo-rei.

      3) Com os prefixos circum- e pan- quando o segundo elemento começa
      por vogal e por m ou n: pan-americano, circum-adjacência.

      4) Com os prefixos tônicos acentuados pré-, pró- e pós- quando o
      segundo elemento tem vida à parte na língua: pré-bizantino, pró-
      romano, pós-graduação.

      5) Com os sufixos de origem tupi-guarani que representam formas
      adjetivas, como -açu-, -guaçu, e -mirim, quando o primeiro elemento
      acaba em vogal acentuada graficamente ou quando a pronúncia exige a
      distinção gráfica entre ambos: amoré-guaçu, manacá-açu, jacaré-açu,
      ceará-bravo, paraná-mirim.

      6) Nos topônimos iniciados pelos adjetivos grão e grã ou por forma
      verbal ou elementos que incluam artigo: Grã-Bretanha, Grão-Pará,
      Santa Rita do Passa-Quatro, Baía de Todos-os-Santos, Trás-os-Montes
      etc.

      7) Com os advérbios mal e bem quando formam uma unidade sintagmática
      com significado e o segundo elemento começa por vogal ou por h: bem-
      aventurado, bem-estar, bem-humorado, mal-estar, mal-humorado. Mas nem
      sempre os compostos com o advérbio bem se escrevem sem hífen quando
      tal prefixo é seguido por elemento iniciado por consoante: bem-
      nascido, bem-criado, bem-visto (ao contrário
      de "malnascido", "malcriado" e "malvisto").

      8) Nos compostos com os elementos além, aquém e sem: além-mar, além-
      fronteiras, aquém-oceano, recém-casados, sem-número, sem-teto.

      Hífen em locuções
      Não se usa hífen nas locuções (substantivas, adjetivas, pronominais,
      verbais, adverbiais, prepositivas ou conjuntivas): cão de guarda, fim
      de semana, café com leite, pão de mel, pão com manteiga, sala de
      jantar, cor de vinho, à vontade, abaixo de, acerca de, a fim de que
      etc.

      São exceções algumas locuções consagradas pelo uso: água-de-colônia,
      arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao-deus-
      dará, à queima-roupa.


      Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12509
      (acessado 10/9/2008)
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