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Macunaíma, de Mário de Andrade - Por Miguel Sanches Neto

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Macunaíma, de Mário de Andrade Miguel Sanches Neto Macunaíma antes de Macunaíma Como os demais grandes livros do período, o que caracteriza Macunaíma
    Mensagem 1 de 1 , 1 de set de 2008
      Macunaíma, de Mário de Andrade
      Miguel Sanches Neto


      Macunaíma antes de Macunaíma

      Como os demais grandes livros do período, o que caracteriza Macunaíma
      (1928), definido por Mário de Andrade como uma rapsódia, é um desejo
      de sabotar conceitos, de frustrar expectativas de leitura, de criar
      ambigüidades. É portanto uma obra programada para fugir aos moldes
      tradicionais, funcionando como um manual das vanguardas do começo do
      século XX, num momento em que experimentalismo e nacionalismo se
      aproximaram. Ele faz também a passagem da ótica urbana para a ótica
      primitiva, numa reconstrução poética dos mitos nacionais. Nenhum
      livro do período é mais importante do que ele, tanto pela busca de
      caminhos ficcionais quanto pela desnegativação da nacionalidade.

      No campo da filosofia da composição, Macunaíma é produto da vanguarda
      paulista, fazendo parte de um arsenal teórico-crítico levantado
      contra a literatura que tinha o passado como verdade imutável e
      reproduzível. A primeira manifestação da teoria que dará origem ao
      romance se configura em Paulicéia desvairada (1922), livro de poemas
      sobre a cidade de São Paulo onde Mário de Andrade testava novos
      recursos estéticos. Os poemas deste livro abusam do conceito da
      simultaneidade, tentando flagrar por meio de cortes, reticências e
      justaposições a música dissonante da cidade grande. São Paulo não é
      apenas tema no livro, é principalmente linguagem nervosa, tumultuada,
      ruidosa. A cidade que se faz verbo, um verbo cheio de
      descontinuidades, é vista do bonde em movimento, num embalo veloz que
      fragmenta o real e cria novos agrupamentos. A cidade se torna móvel.
      Esta idéia de mobilidade é o centro semântico do livro.

      Nesse sentido, a metáfora fundadora do livro é o Arlequim, personagem
      de identidade instável. Desde a capa do livro, composta por losangos
      em cores preta, vermelha e amarela, numa referência à veste
      arlequinal, até as palavras soltas, os versos polifônicos, os poemas
      fragmentários, tudo é representação deste ente carnavalesco. O
      próprio tom de blague que marca o livro avesso à seriedade é um
      atributo ligado à persona de que se vale Mário de Andrade. Ele veste
      a fantasia e faz uma leitura zombeteira, festiva e alcoólica da
      cidade, dando-lhe um estatuto arlequinal.

      A figura do Arlequim, nascida na antiga comédia italiana, tinha como
      objetivo divertir e ridicularizar os costumes, as esquisitices e as
      extravagâncias da sociedade. É uma espécie de espelho irônico, um
      bobo da corte burguesa. Segundo o Dicionário de Símbolos de
      Chevalier, "encarnava os papéis de jovem gaiato, de bufão malicioso,
      de um indivíduo matreiro embora meio pateta, e de leviano. Sua
      vestimenta multicor sublinhava sobretudo esse último aspecto. O
      arlequim é a imagem do irresoluto e do incoerente, que não se prende
      a idéias, sem princípios e sem caráter. Seu sabre é apenas de
      madeira, seu rosto anda sempre mascarado, sua vestimenta é feita de
      remendos, de pedaços de pano. A disposição destes pedaços em xadrez
      evoca uma situação conflitiva - a de um ser que não conseguiu
      individualizar-se, personalizar-se e desvincular-se da confusão de
      desejos, projetos e possibilidades". Símbolo do fragmentário, do ser
      em conflito, o Arlequim é metáfora da metrópole em permanente
      ebulição, mas também e principalmente de um autor que não se prende a
      nenhuma idéia de arte, a nenhum valor seguro, buscando se apropriar
      de todos os legados modernos da arte.

      É sintomático que Paulicéia desvairada traga uma apresentação longa,
      o "Prefácio interessantíssimo", em que o autor se manifesta
      camaleônico, recusando qualquer tipo de filiação estética, e se
      afirmando em disponibilidade, aberto para as mudanças. Embora urbano
      e cosmopolita, este livro antecipa os valores de Macunaíma na figura
      do Arlequim. Mas há ainda um outro estágio, uma obra que amplia a
      proposta original de Mário, abrindo novos possíveis criativos.

      Oswald, autor de Macunaíma
      Em movimentos literários fortes como o Modernismo, mesmo com todas as
      divergências internas, as obras são construídas coletivamente. Isso
      foi mais praticado num período em que a idéia de autoria perdeu sua
      natureza exclusivista. Assim, poderíamos dizer que Macunaíma é mais
      uma construção do período modernista do que manifestação de um
      projeto pessoal. E dentro desta movimentação grupal, um dos autores
      de Macunaíma é o Oswald de Andrade de Pau-Brasil (1925).

      Em seus poemas minimalistas, em que a língua brasileira é usada com
      humor e ironia, em que o eu poético percorre o país, indo de um canto
      a outro, de um tempo histórico ao presente, numa viagem centrípeta,
      que faz com que tudo se direcione para a cidade de São Paulo, temos
      uma ampliação do conceito de simultaneidade, que agora não é pensado
      apenas no interior dos versos, mas nas suas relações narrativas.

      Passando dos poemas sobre a história do Brasil, desentranhados de
      textos dos viajantes estrangeiros, aos poemas do período colonial ou
      da infância cafeeira do eu lírico, para percorrer como aprendiz de
      turista as cidades históricas de Minas ou a festa carnavalesca do
      Rio, Oswald abandona, pela poesia ironicamente saudosista, as
      latitudes européias em nome de um país múltiplo e primitivo. Em boa
      medida, o herói sem nenhum caráter se confunde com a figura poética e
      biográfica de Oswald de Andrade, por conta de sua tendência para a
      blague, de seu priaprismo, de seus deslocamentos pelo país etc. Não
      seria incorreto afirmar que Oswald de Andrade é autor e modelo de
      Macunaíma, dentro desta lógica coletivista de produção.

      Sem o projeto do volume Pau-Brasil talvez não se desenhasse na
      imaginação de Mário de Andrade a figura de Macunaíma, que solda
      identidades, espaços e discursos, tornando-se por sua identidade
      agregativa um símbolo risível do homem nacional.

      Apesar das diferenças de fatura estética, os projetos de leitura de
      Brasil de Mário e Oswald mantêm pontos de contato. A identidade do
      texto e a do homem nacional são vistas pela justaposição de partes
      díspares. Assim, a poesia Pau-Brasil é um aprofundamento do caráter
      arlequinal de nossa cultura.

      A palavra-chave do livro Pau-Brasil é a descoberta. Esta palavra tem
      vários níveis de significação no texto: descobrir o Brasil que fica
      sob a roupagem erudita da linguagem e desvelar suas características,
      não banindo os elementos estrangeiros; descobrir no sentido de mapear
      os caminhos possíveis da pátria, construindo itinerários país
      adentro, deixando-se encantar por suas paisagens e por sua gente; e
      descobrir no sentido de buscar a poesia naquilo que nunca foi visto,
      como uma espécie de disponibilidade poética para o deslumbramento.

      A nossa identidade, para Oswald, é um aglomerado de elementos
      contraditórios. A convivência conflituosa deles é que nos
      caracteriza. O poeta não as escamoteia, dando-lhes uma representação
      literária, uma valoração exageradamente irônica.

      Assim, a fórmula criativa de Oswald vai ser a justaposição de
      opostos, colocando lado a lado os elementos próprios do Brasil
      Colônia e os do Brasil burguês e industrial, mostrando os choques
      entre os traços pré-burgueses e burgueses. Ainda estamos dentro da
      idéia de uma identidade feita de pedaços, sob o signo da
      carnavalização, reação ao racionalismo ocidental.

      Romance enciclopédico
      Se o processo de composição de Macunaíma é devedor de propostas
      anteriores, ele ao mesmo tempo as exacerba, de tal maneira que se
      torna a grande obra literária do período. Desde a sua escrita veloz,
      em poucos dias, até o seu caráter compósito, tudo leva a pensar as
      peripécias do herói sem caráter como uma suma da geração de 20.
      Depois dele, pouco sobra do Modernismo da primeira fase, abrindo-se
      para nossa literatura perspectivas novas. Dentro do processo pendular
      da evolução literária, a literatura hegemônica no período seguinte
      optará por um regionalismo realista, herdando da geração anterior a
      preocupação com o homem fora do centro, mas recusando, por achá-lo
      desrespeitoso, o tom crítico-irônico. O realismo se impõe como forma
      de tratar sociologicamente dos dramas do homem nacional. Macunaíma,
      portanto, fecha um período e aponta para outro.

      A primeira marca forte do livro é a geograficização. Ele tenta ser um
      mapa nacional em que as regiões ganham cor. O processo agora é
      inverso ao da viagem dos modernistas. É o ser primitivo que vem para
      a cidade moderna, anarquizando suas conquistas por meio de um olhar
      adoecido. A viagem no espaço se dá mediante recursos próprios das
      histórias encantadas, em sucessivas metamorfoses. O índio nascido na
      selva passa por evoluções bruscas e chega à metrópole para
      desreconhecer as coisas, dando-lhes um caráter selvagem. Este
      movimento, da periferia para o centro, é novo na literatura de
      turista dos modernistas, e vai ser o mesmo dos autores do
      regionalismo da década de 30.

      Ao vir para a cidade, a princípio em busca da pedra que simboliza o
      seu povo e o seu amor perdido, Macunaíma traz consigo os dois irmãos,
      mas também traz o tempo que separa o homem moderno do primitivo. Ele
      é um ser carregado de temporalidades. Assim, a viagem no espaço
      corresponde a outra muito mais radical, que é a viagem no tempo.
      Depois da chegada, ele não pára, deslocando-se continuamente pela
      cidade e pelo país; nestas excursões, participa de diferentes
      momentos históricos, mantendo diálogo com seres de outras épocas.
      Tudo o influencia, das culturas urbanas às práticas religiosas
      africanas, da identidade masculina exacerbada a papéis femininos.
      Assim como o Arlequim, ele se deixa construir com pedaços. É um ser
      coletivo, que não se fecha ao outro.

      Este mapa em que se converte o romance traz assim a vocação do
      fragmento e a soma de espaços e de linguagens, o que tem uma
      continuidade na personalidade de Macunaíma, que é uma coletânea de
      modos de ser, e no próprio romance, feito de trechos de histórias
      coletados em várias fontes, escritas e orais. Macunaíma é um resumo
      do país, mas um resumo em que as partes permanecem em conflito.

      E esta é a principal dificuldade de fruição do livro, o que leva
      muitos a recusá-lo como obra narrativa, mesmo reconhecendo seu valor
      programático. Não há uma relação de continuidade no enredo, uma
      relação de causa e efeito, cada momento narrativo do livro é
      independente, funcionando mais no isolamento do que no conjunto. Uma
      cena não se relaciona com a outra nem segue uma lógica narrativa.
      Como a roupa do Arlequim, o pedaço é a unidade maior de sentido.

      E aí se percebe a coerência da proposta do livro, apesar da congênita
      incoerência de partes. O personagem feito de retalhos aparece em uma
      história fragmentária, mas nada disso é gratuito, pois esta idéia
      está a serviço da representação de um país em pedaços, que não
      admite - por sua diversidade de paisagem, de pessoas, de
      temporalidades - uma síntese integradora. Para escrever um romance
      que represente o país como um todo, é preciso apostar no
      fragmentário, admitindo as descontinuidades, aproximando subitamente
      o que está distante. Os escritores da geração seguinte abrirão mão
      desta idéia de uma arte que seja extensivamente nacional em nome da
      região. O nacional, nos anos 30, será conquistado pela metonímia, em
      oposição à idéia totalizadora de Mário de Andrade, que tentou
      concentrar num único livro, e num personagem-símbolo, o país inteiro
      nas suas múltiplas manifestações culturais e temporais.

      Houve uma concentração muito grande de poesia neste romance, por isso
      ler Macunaíma se tornou algo dificultoso, dentro de uma proposta de
      revelar o país todo, percorrendo partes que não se somam, que apenas
      se sucedem. Trata-se de um romance enciclopédico, em que cada cena é
      o verbete sobre o país.

      O herói risível
      A sua raiz é paródica. Macunaíma não traz uma idéia triunfal do homem
      brasileiro, vendo-o a partir daqueles elementos tidos como negativos.
      Se há uma crítica ao caráter nacional nestes retratos risíveis, há
      também uma aceitação pelo humor daquilo que somos. Historicamente,
      sempre houve um descompasso conceitual entre quem somos e quem
      gostaríamos de ser, o que fez com que tentássemos impor pela
      literatura uma idéia de civilização sobre as vastidões selvagens de
      nossas terras e de nossos sentimentos. Este projeto de mascaramento é
      um contínuo em nossa história, tendo se iniciado com as obras
      religiosas, passando pelo arcadismo, pelo romantismo, pelo
      parnasianismo. O real imediato, por incômodo, é apagado em nome de
      uma idéia de civilização. Mesmo nosso naturalismo, com toda a sua
      obsessão de escancarar a podridão da sociedade, via o desvelar das
      mazelas como um processo profilático: mexer na ferida para que ela
      fechasse. Ou seja, ainda no naturalismo havia uma incapacidade de
      aceitar os traços desviantes de nosso caráter.

      Com o modernismo, houve uma liberação total dos recalques. Dessa
      forma, os escritores puderam ver o homem nacional como ele era nos
      seus piores momentos. Não havia um projeto de anular o que fosse fora
      de padrão, ao contrário, o diferente passou a ser um valor cultural.
      Macunaíma é a obra que mais investiu na positivação pelo riso das
      nossas marcas.

      Na construção deste personagem-multidão, Mário de Andrade
      intensificou alguns elementos identitários. Talvez o mais saliente
      seja a sensualidade. Desde sua mais tenra idade, Macunaíma sofre de
      uma pulsão erótica que não conhece barreira. Ele dorme com mulheres
      mais velhas, une-se à Mãe do Mato e tem várias namoradas, rouba os
      afetos da cunhada, sai com as prostitutas paulistas. O hedonismo é
      sua marca. E ele está sempre brincando com as mulheres. E há as
      insinuações de uma homossexualidade festiva no caso do travestimento
      de francesa: "Então Macunaíma emprestou da patroa da pensão uns pares
      de bonitezas, a máquina ruge, a máquina meia-de-seda, a máquina
      combinação [...]. Era tanta coisa que ficou pesado mas virou numa
      francesa tão linda que se defumou com jurema e alfinetou um raminho
      de pinhão paraguaio no patriotismo para evitar quebranto". Seu
      objetivo é seduzir o gigante, mas depois de muitos jogos ambíguos,
      acabará empalado pelo pretendente, que enfia um tronco no buraco em
      que ele se esconde.

      Este erotismo exagerado não se restringe ao âmbito da sexualidade,
      atinge todos os níveis do texto. Macunaíma erotiza a máquina, tirando
      dela o poder racional e industrial para fazer uma relativização de
      todo o ideário moderno. Mas o erotismo fica mais explícito na
      linguagem usada por Mário, uma língua portuguesa dilatada pelos
      elementos da oralidade, pela contribuição indígena, africana e
      estrangeira. O que ele busca nesta língua que não se quer nacional
      como forma de negação do outro, mas nacional enquanto soma de todos
      os possíveis, é construir um código contemporâneo em que caibam
      nossas múltiplas experiências lingüísticas. Tudo isso é feito num tom
      sensual, que nos afasta da língua de matriz lusitana, mais formal.
      Mais do que uma crítica às duas línguas portuguesas, a falada e a
      escrita, a "Carta pras Icamiabas" é uma prova de como nos afastamos
      das origens mesmo quando queremos copiar um padrão, pois erramos a
      língua em qualquer circunstância. Habitante recente da língua
      erudita, Macunaíma comete erros risíveis, ganhando com isso
      autenticidade. Errar é, tanto do ponto de vista gramatical quanto
      sexual, conquistar uma face própria.

      Neste processo de desvelamento do homem local, há também a
      valorização da natureza dissimulada. O herói é uma versão de Pedro
      Malazarte e está sempre contando mentira para se dar bem. Mentir é
      algo natural em sua lógica, e reflete uma compulsão para o ficcional,
      para o imaginário. Numa cultura em que os elementos maravilhosos
      estão muito presentes, qualquer fidelidade ao real se torna
      inadequado. Então, o herói conta coisas inventadas como se fosse
      verdade, sempre com desfaçatez.

      Outro elemento formador do homem nacional é a preguiça. O livro é
      todo pontuado por um refrão que Macunaíma repete inúmeras vezes "ai
      que preguiça". Ele não quer trabalhar pois sempre viveu do trabalho
      de alguém, restando, quando está à deriva na cidade, a malandragem.
      Trabucar, como ele diz, é coisa para os outros, ele passa os dias
      dilapidando os recursos trazidos do Mato-Virgem, e depois tenta
      arranjar dinheiro de várias formas, até pedindo bolsa de estudo ao
      governo. Esta aversão ao trabalho é uma constante em nossa história
      de povo forjado no balanço da rede, no ardor sensual dos trópicos.

      Se Macunaíma é astuto o suficiente para viver sem trabucar, ele é
      igualmente ingênuo, e acaba ludibriado a cada instante. Astúcia e
      ingenuidade se alternam em sua trajetória, de tal forma que uma
      depende da outra. A sua esperteza nasce de sua ingenuidade, e vice-
      versa. Isso não o leva a um final luminoso, e sim depressivo, não
      obstante a alegria que perpassa a grande maioria das páginas. Ao
      voltar para a selva, segue perdendo pessoas e coisas pelo caminho,
      perde até partes de seu corpo, como uma das pernas. Ele volta como um
      vencido, que possui um único bem, a história (mais inventada do que
      vivida) de seus combates.

      Nesta narrativa em que se sucedem células dramáticas autônomas, há
      todo um processo de "explicação" mítica para as coisas que o herói
      conhece. Ele revela a origem do futebol, de expressões, de pragas, do
      truco, do automóvel... Tudo tem uma narrativa fundadora, como nos
      mitos de origem. O próprio livro é uma coleção de narrativas, sem
      maior estrutura do que a figura de um personagem que não se mantém
      uno. E isto está relacionado à natureza ambígua do herói.

      No início de sua vida, ele passa de criança a adulto por intermédio
      de expedientes mágicos. Sentindo que, na condição de criança, não tem
      acesso a todos os objetos de desejo, o caçula se sente excluído da
      vida tribal e vive no plano do maravilhoso as experiências adultas.
      Esta vivência contemporânea de duas identidades vai se cristalizar
      quando ele se torna um "menino-home". O episódio em que sua
      identidade dupla se estabiliza tem muitas conotações. Pode ser
      comparado à nossa prematura maioridade tropical, pois historicamente
      o menino logo passa a desempenhar funções adultas, seja no trabalho,
      seja na esfera sexual. Macunaíma sofre a transformação depois de ter
      enganado o Curupira, quando encontra a cotia, que joga nele uma poção
      mágica, um caldo envenenado de mandioca: "Macunaíma fastou
      sarapantado mas só conseguiu livrar a cabeça, todo o resto do corpo
      se molhou. O herói deu um espirro e botou corpo. Foi desempenando
      crescendo fortificando e ficou do tamanho de um homem taludo. Porém a
      cabeça não molhada ficou para sempre rombuda e com carinha enjoativa
      de piá". Estava determinada a condição dupla, de alguém que tem a
      força e o desejo adulto, mantendo a cabeça infantil.

      Toda a história, da sua lógica aos objetos de seu interesse, pertence
      ao mundo infantil. Mas há um elemento deste universo que é
      estruturante: a coleção. Como criança, e como ser primitivo (que está
      para o civilizado como a criança para o adulto), Macunaíma tenta
      compreender o mundo acumulando gratuitamente peças díspares, avulsas.
      Assim como o gigante coleciona pedras, ele resolve colecionar
      palavras feias, usando-as em vários momentos. Esta coleção guarda um
      sentido muito claro. O herói se reconhece nas palavras sujas. Mas é
      também uma pista para entender o romance todo, que seria uma coleção
      de histórias, de causos, de narrativas sem pontos de contato entre
      si. Ou seja, a obra de arte criada por Mário de Andrade participa, do
      ponto de vista tanto da lógica quanto da estrutura, do universo da
      criança e do primitivo. É fruto desta mentalidade infantil de
      Macunaíma, que assim questiona o excessivo racionalismo da arte.

      A infância tem um valor programático neste período, servindo para
      marcar as diferenciações dos trópicos em relação aos modelos
      europeus. Pela ótica do herói-criança, do menino-home, Mário de
      Andrade capta o país.

      É dessa forma que a sensualidade, a tendência para o fabuloso e para
      a mentira, a preguiça, a malícia, a ingenuidade e a infantilização se
      positivam no romance, tirando do homem nacional os recalques que
      faziam com que ele se sentisse menor do que o modelo europeu. Se há
      um caráter sociológico neste livro, ele é bem menor do que a sua
      função psicanalítica, que permitiu que nos aceitássemos como somos,
      tanto na esfera da linguagem quanto na dos comportamentos.

      Erudito narrador popular
      Mesmo não tendo uma preocupação eminentemente sociológica, a obra foi
      fundamental para fazer a passagem para os anos 30. A temática do
      nacional, aliada a conceitos modernos de arte, serviu para criar uma
      gramática literária própria nas obras dos anos 20, em que a principal
      imagem do escritor era a do viajante, sempre em busca de novas
      paisagens, tanto físicas quanto humanas e verbais. Mário de Andrade
      inscreve Macunaíma, sua ficção mais experimental, dentro da linhagem
      das narrativas orais, valendo-se de uma estrutura tradicional,
      subvertendo-a ao operar em campos antagônicos.

      Do ponto de vista externo, o livro é uma construção intelectual e
      atende a um projeto que ultrapassa a esfera da literatura, atingindo
      outros campos. Mário se fez pesquisador de linguagens, estudioso de
      folclore, viajante e crítico cultural antes de produzir uma obra em
      que o elemento programático é mais forte do que qualquer outro. No
      interior do livro, a história é contada por um narrador popular que
      saiu do passado profundo, da floresta, e passou rapidamente para o
      presente urbano, movido pelo entusiasmo da máquina, mergulhando num
      novo mundo em que tentará domesticar a ferocidade capitalista. Ao
      retornar, ele só leva algumas conquistas da civilização: um revólver
      Smith-Wesson, um relógio Patek e um casal de galinha Legorne. Estes
      objetos podem ser pensados como símbolos do poderio do conquistador:
      a arma, o tempo cronológico e o animal exótico. Macunaíma faz um uso
      ritualístico destas coisas, tirando-lhes o caráter civilizado na hora
      em que se reintegra a seu mundo original, já modificado. A volta é
      cheia de peripécias e de perdas, pois encontrará extinto seu povo.
      Ele faz o caminho do filho pródigo, mas não reencontra sua casa. É
      uma viagem de morte, de retorno a um reino devastado. Depois de
      perder tudo, resta-lhe um papagaio.

      E a história termina com uma reviravolta. A voz do personagem-
      narrador dá lugar à voz do autor-narrador, revelando sua estratégia
      narrativa: "Tudo ele [o papagaio] contou para o homem e depois abriu
      asa rumo a Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei para
      vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba
      destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque
      rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os
      casos de Macunaíma, herói de nossa gente." O narrador é o autor, mas
      travestido de contador popular de histórias diante dos ouvintes.
      Nesse momento, o livro funciona dentro de uma outra lógica. Ele, em
      tese, deixa de ser livro para ser narrativa oral. O autor abandona
      sua condição e assume o lugar de um outro, para contar uma história
      como os narradores tradicionais. Este é o último travestimento do
      livro, em que o próprio autor, transformado em personagem, conecta-se
      à história, dando-lhe um sentido coletivo, porque herdado, e
      socializador, porque partilhado fora do âmbito da literatura.

      Tudo isso é tratado como metáfora. A oralidade comandando a invenção
      da história será um projeto que terá continuidade na geração
      seguinte, quando os romancistas localizados nas regiões vão
      conseguir, num verbo mais simples, esta aproximação com o povo que,
      em Mário de Andrade, era mais um programa estético.

      Nota do Editor
      Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no
      jornal Rascunho, na edição de julho de 2008. Leia também: "O Mário
      que eu conheci".

      Fonte: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=265
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