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A memória do mal - (morre o escritor russo Alexandre Soljenitsin)

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    A memória do mal Este é o nosso monumento comum de amizade a todos os torturados e mortos (Arquipélago do Gulag) Luís Ferreira | 08-08-2008 Editorial A
    Mensagem 1 de 1 , 1 de set de 2008
      A memória do mal
      "Este é o nosso monumento comum de amizade a todos os torturados e
      mortos" (Arquipélago do Gulag)

      Luís Ferreira | 08-08-2008
      Editorial








      A morte aos 89 anos do dissidente soviético e escritor russo
      Alexandre Soljenitsin marcou de forma indelével a semana que passou,
      num claro sinal da importância que a obra literária e o percurso
      biográfico deste homem assumiram na história contemporânea. Este
      acontecimento mereceu por parte da imprensa um destaque inesperado,
      com os jornais e as televisões a dedicarem dezenas de páginas e
      largas horas de emissão à evocação de um homem que, com o passar dos
      anos, foi sendo remetido a uma obscuridade imerecida.



      A explicação para este fenómeno radica no gesto heróico de um
      indivíduo isolado, que abalou com um simples livro os alicerces de um
      regime totalitário, responsável pelo encarceramento e homicídio de
      milhões de seres humanos. A publicação, em 1973, do Arquipélago de
      Gulag, provocou um autêntico terramoto nas consciências ocidentais,
      acostumadas a olhar para os países que se situavam do outro lado da
      cortina de ferro como uma mera curiosidade sociológica ou, nos casos
      mais patológicos, como um exemplo edificante a seguir.



      As atrocidades cometidas durante o estalinismo são-nos relatadas na
      primeira pessoa, através do testemunho impressionante de um autor que
      sofreu na pele a brutalidade das prisões e a crueldade do trabalho
      escravo na região inóspita da Sibéria. O jovem soldado Soljenitsin
      foi preso no decurso da Segunda Guerra Mundial por ter duvidado, numa
      carta dirigida a um camarada de armas, das decisões que se
      encontravam a ser tomadas pelas chefias militares. Este "crime" valeu-
      lhe uma condenação a oito anos de prisão, e a quatro de exílio, em
      condições inimagináveis, sem que tenha sido realizado qualquer tipo
      de julgamento, ou concedida qualquer hipótese de defesa.



      O sistema penal soviético tinha precisamente como principais
      características a arbitrariedade das decisões e a formulação
      incessante de processos kafkianos. A polícia recebia anualmente uma
      quota de detenções a efectuar, cabendo-lhe a tarefa de encontrar os
      inimigos imaginários do Estado, e aniquilar todas as potenciais
      ameaças ao progresso imparável do comunismo. As denúncias e as
      vinganças pessoais sucediam-se a um ritmo alucinante, com filhos a
      incriminarem orgulhosamente os próprios pais, e amigos impedidos de
      prestarem o mínimo gesto de solidariedade a quem era escolhido
      aleatoriamente para integrar mais uma das purgas promovidas por algum
      burocrata sem escrúpulos.



      Foi durante este período negro da humanidade que a fome foi eleita
      como arma preferencial de extermínio político. Em regiões como a
      Ucrânia, milhões de pessoas foram privadas do acesso aos bens
      alimentares essenciais, chegando mesmo a haver registo de casos
      extremos de canibalismo. Aldeias inteiras sucumbiram a este novo tipo
      de holocausto silencioso, ocultado pela historiografia oficial que
      preferia elogiar as inúmeras virtudes do ditador georgiano.



      O quotidiano nos Gulags aparece-nos descrito em vários livros do
      autor russo, que assume em diferentes ocasiões um registo
      predominantemente jornalístico, como maneira de fixar os nomes e as
      vidas que iam sendo aniquilados no mais completo dos anonimatos. A
      morte lenta e absurda destas pessoas assumiu a dimensão de um ritual
      macabro, mergulhando-nos num universo sufocante do qual se encontrava
      arredado o mínimo sinal de esperança ou compaixão.



      Alexandre Soljenitsin revelou, por diversas vezes, uma enorme coragem
      ao denunciar a barbárie e a selvajaria que pautaram os longos anos de
      despotismo nos países de Leste, sobretudo por o ter feito a partir do
      interior do próprio sistema totalitário. Mesmo a decisão de publicar
      o seu livro mais famoso resultou do facto de o KGB ter assaltado o
      seu escritório, o que o levou a enviar para França, de forma
      repartida, o manuscrito que o acompanhava desde o seu regresso da
      Sibéria, numa atitude indiciadora da determinação e do desespero que
      o guiaram durante esse período.



      A opção de não receber pessoalmente o Prémio Nobel da Literatura é
      sintomática do modo abnegado como encarou o combate da sua vida, dado
      que sabia de antemão que, se saísse da União Soviética, as
      autoridades dificilmente permitiriam o seu regresso ao país. Esta
      dimensão de pátria esteve também sempre muito presente na sua obra, o
      que o levou a cometer excessos e a proferir declarações insólitas,
      que acabaram por gerar uma enorme polémica.



      O lado controverso da sua personalidade permitiu que fosse levada a
      cabo uma campanha difamatória que tinha como objectivo primordial
      desacreditar os acontecimentos que relatou nos seus livros. A extensa
      galeria de intelectuais que sucumbiu ao fascínio do terror
      estalinista desempenhou um papel fundamental nesta mistificação,
      apressando-se a ocultar até à exaustão os massacres documentados,
      cometidos em nome de uma das heresias que marcou a face do século XX.



      Vivemos num período de progressiva e perigosa amnésia histórica, com
      os movimentos negacionistas a pretenderem retirar os mais elementares
      direitos às vítimas de Auschwitz e do Gulag. Alexandre Soljenitsin
      lutou durante décadas para que os carrascos não obtivessem a sua
      derradeira vitória sobre os inocentes que dizimaram. Para que a
      memória do mal supremo não mergulhasse em definitivo no abismo do
      esquecimento.


      Fonte: http://www.jornaldobarreiro.com.pt/?
      lop=n_artigo&op=45c48cce2e2d7fbdea1afc51c7c6ad26&id=b98a3773ecf715751d
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