Carregando ...
Desculpe, ocorreu um erro ao carregar o conteúdo.
 

Nossa classe média é culturalmente pobre

Expandir mensagens
  • Ubiratan Rocha da Silva
    Celebremos a pesquisa divulgada pela FGV no começo de agosto: diminuiu o número de pobres e a classe média brasileira cresceu, representando mais da metade
    Mensagem 1 de 1 , 30 de ago de 2008
      Celebremos a pesquisa divulgada pela FGV no começo de agosto:
      diminuiu o número de pobres e a classe média brasileira cresceu,
      representando mais da metade da população (51,89%). Os critérios são
      confusos e a faixa de renda dessa Classe C, elástica: famílias com
      renda domiciliar total entre R$ 1.064,00 e R$ 4.591,00. Mas fiquemos
      com a manchete: somos um país de classe média, não mais um país de
      miseráveis, e afora uma ou outra imprecisão estatística, é de se
      comemorar principalmente pela tendência a médio prazo.

      Para os que lidam com a cultura, entretanto, uma pergunta se impõe: o
      que significa para a cultura esse aumento da classe média? E a
      constatação é aterradora: nossa classe média é pobre, culturalmente
      muito pobre. Não vai ao cinema, não compra nem lê livros, não
      freqüenta museus.

      Para explicar um pouco melhor essa conclusão, irei comparar os
      resultados da pesquisa da FGV, amplamente divulgados pela mídia, com
      dados publicados pelo jornalista Carlos Scomazzon em sua coluna do
      portal Artistas Gaúchos, "Afinal, quem tem acesso à cultura no
      Brasil?".

      Scomazzon destaca que, de acordo com pesquisa divulgada pelo IBGE no
      ano passado, os 10% mais ricos do Brasil são responsáveis por cerca
      de 40% de todo o consumo cultural no país. Ainda segundo a mesma
      pesquisa, apenas 7,3% dos municípios possuem cinemas e 18,8% das
      cidades têm teatros ou casas de espetáculo, menos de 10% dos
      brasileiros vão pelo menos uma vez por ano ao cinema, e aqueles que
      freqüentam as salas com mais regularidade não chegam a totalizar 5%,
      sendo que 87% dos brasileiros nunca foram ao cinema ver um filme.
      Outro dado estarrecedor é que 90% dos municípios não têm equipamentos
      culturais, e 92% da população nunca entrou em um museu.

      Já uma pesquisa de Gasto e Consumo das Famílias Brasileiras
      Contemporâneas, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
      mostra que as dificuldades de acesso da população à cultura consta em
      primeiro lugar entre os fatores causadores de desigualdades entre os
      brasileiros, seguido pelo acesso à educação. As famílias com maior
      poder econômico, diz o estudo, gastam 30% a mais com educação do que
      as mais pobres e, desta forma, têm acesso mais fácil à cultura.

      O jornalista ainda esmiúça os dados que se referem à leitura entre a
      população brasileira, a partir de pesquisa encomendada pelo Instituto
      Pró-Livro ao Ibope Inteligência. Segundo a pesquisa, o brasileiro lê,
      em média, 4,7 livros por ano, mas quando contabilizada apenas a
      leitura feita por pessoas que não estão mais na escola, a conta fica
      em 1,3 livro por ano. Já a média de livros comprados pelos
      brasileiros fica em 1,1 livro por ano.

      Sei que os dados assim condensados e expostos podem cansar e
      confundir, mas vamos agora comparar os números trazidos pelo texto de
      Scomazzon com a pesquisa da FGV. Segundo esta pesquisa, as classes A
      e B representam 15,52% da população brasileira, a classe C representa
      51,89% e as classes D e E 32,59%. Agora, se 87% dos brasileiros nunca
      foram ao cinema ver um filme e 92% da população nunca entrou em um
      museu, significa, a grosso modo, que o equivalente às classes C, D e
      E inteiras e parte da classe B nunca foram ao cinema ou ao museu!

      Desculpe o ponto de exclamação e a matemática grosseira, mas esse
      número apenas representa e sintetiza o que fica do cruzamento das
      pesquisas, algo que percebemos no dia-a-dia: nossa classe média ainda
      é culturalmente muito pobre. Não por acaso a enorme audiência das
      novelas globais e dos BBBs (inclusive na TV a cabo), não por acaso o
      sucesso da música "Créu", não por acaso o clipe da "Dança do
      Quadrado" no YouTube tem mais de 10 milhões de views! Não venham me
      dizer que são os pobres os consumidores dessa chamada cultura de
      massa, de gosto duvidoso. De forma alguma, são pessoas com casa,
      computador, às vezes TV a cabo.

      Na coluna de Carlos Scomazzon, sua preocupação maior é mostrar que a
      grande maioria da população não tem acesso à cultura, mas eu iria
      mais além: essa população não tem acesso à educação satisfatória e,
      em conseqüência, não tem acesso à cultura ou simplesmente não
      valoriza a cultura. Porque se é verdade que um show de Caetano,
      Djavan ou Gil mesmo com leis de incentivo têm preços proibitivos
      (acima de R$ 100,00, ou seja, quase 10% de toda renda familiar
      dessa "nova classe C"), também é verdade que diversas atividades são
      oferecidas gratuitamente: há livros à venda por preço de xerox nos
      sebos, músicos que disputam espaço nos restaurantes da cidade,
      exposições com visitação aberta na maioria das capitais, sites e
      programas de TV voltados à cultura e não apenas ao entretenimento.
      Mas esse público, a classe média pobre culturalmente, começa por não
      perceber valor na produção artística local, prefere uma vez por ano
      assistir o ator global no teatro do que 10 vezes ao longo do mesmo
      ano descobrir as melhores peças de seus conterrâneos, levar filhos,
      amigos.

      Verdade que é mais fácil em cinco anos aumentar o salário de um
      trabalhador em R$ 500,00, o que o colocaria entre essa "nova classe
      C", do que fazê-lo deixar a novela da noite ou o futebol do domingo
      para ir a uma peça gratuita de teatro universitário ou a uma recém-
      inaugurada biblioteca. Mas espero que o país como um todo compreenda
      que uma coisa é tão importante quanto a outra.

      Os Titãs já cantavam "a gente não quer só comida, a gente quer
      comida, diversão e arte". E ainda que se concorde que num primeiro
      momento o importante seja saciar a fome, a falta de moradia, de
      higiene, não se pode imaginar que um país será melhor simplesmente
      porque sua população ganha um pouco mais. Pierre Bourdieu, filósofo
      francês contemporâneo, tem um conceito muito interessante a esse
      respeito, o do capital simbólico.

      Segundo Bourdieu, a posse do capital econômico confere, aos que o
      possuem, poder sobre os desprovidos, mas é pelo controle do capital
      simbólico que os dominantes impõem aos dominados seu arbitrário
      cultural, as hierarquias, as relações de dominação, fazendo-os
      percebê-las como legítimas. O capital cultural seria um desses
      capitais simbólicos, o que nos permite entender por que a mobilidade
      social a partir da classe C é tão mais difícil: ela não envolve
      apenas a capacidade de ganhar dinheiro, mas também o conhecimento de
      mundo que será fundamental para a consolidação das relações sociais.

      Dessa forma, devemos comemorar, sim, a maioria "Classe C", mas como
      professores, jornalistas, escritores, artistas, precisamos criar
      nessa população o hábito de consumir uma cultura plural, de valorizar
      a produção artística mais genuína, e não ficar restrita à TV aberta,
      aos hits do YouTube ou aos blockbusters hollywoodianos. Se é verdade
      que o brasileiro, em média, compra apenas um livro por ano e vai uma
      vez por ano ao cinema, o grande desafio de cada escritor, músico,
      ator, cineasta não é superar outro escritor, músico, ator, cineasta,
      é aumentar essa média para um e meio, dois, três por ano.

      Para terminar, deixo um pensamento de Daniel Pennac que sintetiza
      qual deve ser nosso papel já que não temos, individualmente, forças
      para mudar a cultura mass media de nossa sociedade: "o dever de
      educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as
      na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas
      sentem ou não a 'necessidade de livros'. Porque, se podemos admitir
      que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja
      rejeitado por ela".

      Fonte: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?
      codigo=2600

      Leia também:

      http://www.urs.bira.nom.br/textos_ursbira/o_poder_da_televisao.htm
      http://www.urs.bira.nom.br/textos_ursbira/sobre_a_pobreza_no_mundo.htm
      http://www.urs.bira.nom.br/textos_ursbira/sociedade_do_medo.htm
    Sua mensagem foi enviada com êxito e será entregue aos destinatários em breve.