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Hilaire Belloc (1870-1953) e o Estado Servil - Sugestão da Moderação

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Hilaire Belloc (1870-1953) e o Estado Servil* Por Carlos de Jesus Fernandes Joseph-Pierre Hilaire Belloc nasceu em França, nos arredores de Paris, em La
    Mensagem 1 de 1 , 22 de ago de 2006
      Hilaire Belloc (1870-1953) e o Estado Servil*

      Por Carlos de Jesus Fernandes



      Joseph-Pierre Hilaire Belloc nasceu em França, nos arredores de
      Paris, em La Celle-Saint-Cloud, a 27 de Julho de 1870, filho de um
      advogado francês casado com uma inglesa (Bessie Rayner Parkes),
      pertencente á alta burguesia, proveniente do protestantismo e
      convertida ao catolicismo e que foi muito activa nos primórdios do
      movimento feminino pró-sufrágio. A educação de Belloc foi quase
      inteiramente britânica, após a morte do pai, começando na Oratory
      School em Birmingham, uma escola católica e continuando no Balliol
      College, em Oxford, pela qual se licenciou em História, em 1894,
      com "the highest honors". Casou com uma americana, Elodie Hogan, em
      1896. Em 1902 tornou-se súbdito britânico, por naturalização, e
      durante alguns anos (1906-1910) foi membro do Parlamento Britânico,
      sob as cores do Partido Liberal. Em Oxford revelou-se um excelente
      orador e parece não haver grandes dúvidas de que poderia, se
      quisesse, ter tido uma carreira distinta na política. Mas acabou por
      escolher a escrita como o seu campo de acção e, na verdade, missão, e
      tornou-se um dos mais prolixos e diversificados - atendendo á
      diversidade de temáticas e de estilos - autores na longa história da
      literatura inglesa.

      Quando morreu, a 16 de Julho de 1953, com quase 83 anos de idade,
      Belloc deixava para trás cerca de cem livros publicados e um vasto
      número de ensaios avulsos, artigos, recensões e discursos. Uma das
      mais controversas figuras do seu tempo, foi, também, um dos mais
      respeitados e venerados, pela sua cultura, visão, vigor e brilhantez
      de estilo literário. Escreveu muito sobre História, incluindo uma
      História de Inglaterra em quatro volumes, e vários tratamentos
      histórico e biográficos da Revolução Francesa – um acontecimento com
      uma quase obsessiva influência no pensamento de Belloc -, mas os seus
      escritos historiográficos ocuparam relativamente pequeno espaço na
      totalidade da sua bibliografia. Ele era crítico literário e analista
      social e político, um incessante polemista em muitas áreas,
      jornalista, novelista e sobretudo, poeta. Os seus poemas podem ser
      encontrados em muitas antologias de poesia inglesa, mas a sua
      primeira aventura neste campo foi a dos versos com non sense. O seu
      livro The Bad Child's Book of Beasts, escrito enquanto se encontrava
      em Oxford, em 1896, gerou uma atenção imediata e é considerado nos
      nossos dias como um clássico.

      É impossível entender qualquer dos escritos de Belloc sem começar por
      saber e analisar o seu profundo - de toda uma vida - Catolicismo
      Romano. Esta religião empreendeu um renascimento importante quase
      imediatamente após a Revolução Francesa, tanto na Europa Continental
      como na Inglaterra e nos Estados Unidos. É duvidoso que Belloc
      pudesse ter alguma vez alcançado a sua influência pessoal como
      católico libertário, se não fosse o trabalho e prestígio de homens do
      século XIX, seus antecessores, como Hugues-Félicité-Robert de
      Lamennais, Jean-Baptiste-Henri Lacordaire, Charles Forbes, Conde de
      Montalembert, John Henry Newman, Henry Edward Manning, John Emerich
      Dalberg Acton e muitos outros que muito contribuiram para restaurar
      Roma como influência intelectual, mas também, cultural, social e
      económica, o que não acontecia, talvez, desde a Contra-Reforma.

      Belloc é o Catolicismo não só daquelas figuras mencionadas antes,
      mas, igualmente, é o Catolicismo de Sir Thomas More, que, como é
      sabido, foi decapitado pela sua corajosa oposição ás medidas de
      política e de economia dos Tudor, as quais, Belloc, quatro séculos
      mais tarde, atacará com vigor, e em Utopia encontramos uma forma de
      sociedade não muito diferente da advogada por Belloc. A isto deve ser
      acrescentado que existe muito de comum entre as ideias sociais e
      económicas de Belloc e as contidas nas famosas encíclicas de Leão
      XIII, do século XIX.

      No Catolicismo ardente de Belloc encontramos uma filosofia da
      História que celebra a Idade Média pela abolição da escravatura e do
      estatuto de servidão, pela vasta difusão da propriedade pelo povo, e
      por um significativo grau de liberdade individual, e pelo
      florescimento do ensino, das artes, filosofia e literatura que fez a
      Europa sair da Idade das Trevas. Belloc vê na Reforma e no
      capitalismo que se desenvolveu com aquela as causas do despotismo
      moderno e da insegurança económica que nos leva ao apelo do
      socialismo, colectivismo e evidentemente, que nos conduz àquilo a que
      apelidou de Estado de Servidão (the servile state). A liberdade
      definha em todas estas formas de Estado, mas tal só se tornou
      possível pela desesperança daqueles que foram convertidos em massas
      sem propriedade.

      A visão de Belloc da História do Ocidente moderno é, sobretudo, uma
      visão de retrocesso e não de progresso; de declínio da vida, da
      liberdade e da segurança económica da Idade Média. Encontramos aqui
      um considerável grau de romantismo acerca deste período e por isto
      sofreu, no seu tempo, muitos ataques, daqueles para quem o período
      medieval foi sobretudo um período de trevas, superstição e de tirania
      feudal e para quem o Renascimento e a Reforma constituíram os
      terrenos fertéis da liberdade e das Luzes. Diga-se, mesmo aceitando o
      romantismo de Belloc, que deve ser admitido que a posição de Belloc
      sobre o carácter social e económico da Idade Média e a sua visão dos
      efeitos reais do Renascimento e da Reforma, em certa medida, tem sido
      confirmadas pelos estudiosos em décadas recentes. Não estamos, hoje,
      tão prontos, como estavam muitos dos contemporâneos de Belloc, a
      associar o medievalismo com o Mal e a modernidade com o Bem.

      Não deve extrair-se do Catolicismo de Belloc e da sua veneração pela
      Idade Média que fosse um conservador. Ele próprio declarava-se da
      esquerda do liberalismo. Admirava muito William Cobbett, o radical
      inglês do princípio do século XIX que, como ele, lutou pelos
      direitos de propriedade das massas. Diga-se que as convicções
      políticas de Cobbett haviam sido formadas, nada menos, que pelo
      pensamento de Edmund Burke. Como sabemos, Burke, não apreciava os new
      dealers da finança, como lhes chamava nas suas Reflections on the
      Revolution in France. Burke é presentemente considerado o pai do
      conservadorismo moderno, mas não é de esquecer que apoiou os colonos
      americanos e aqueles que na Índia e na Irlanda desejavam repelir o
      domínio britânico. O seu ataque aos revolucionários franceses
      fundamentava-se na expropriação da propriedade da Igreja, guildas, e
      proprietários, e no crescimento do poder arbitrário em nome do Povo.
      Em suma, Burke, era um Tory e o seu amor pela liberdade não admitia
      compromissos.

      Em Belloc encontramos um forte elemento da filosofia de Burke, como a
      encontramos nos escritos de muitos, no século XIX e no princípio do
      século XX, para quem a sua fundamental devoção à tradição e á
      continuidade não afastava a sua hostilidade a todas as formas de
      organização económica, religiosa ou política, em grande escala, nas
      quais a liberdade e a segurança dos indivíduos eram sacrificadas. Por
      exemplo, com excepção da fé Católica Romana, há muito pouco a
      separar a visão social e económica de Belloc, da de Thomas
      Jefferson, que, igualmente, temia, em nome da liberdade individual,
      as grandes cidades, as grandes indústrias e as grandes burocracias,
      que via formando-se na Europa. Poder-se-ia pensar, pelo ataque que
      Belloc empreende contra o capitalismo, que o nosso autor era contra a
      liberdade económica, mas dever-se-á, antes, considerar que o seu
      objectivo maior era a mais vasta distribuição possível pela
      população de indivíduos, de propriedade privada e de liberdade para
      usar a mesma propriedade conforme aprouvesse ao seu detentor. Alguns
      definirão capitalismo com o mercado livre precisamente nestes termos;
      mas, para Belloc capitalismo significava, em primeiro lugar, o tipo
      de expropriações monopolísticas que haviam acontecido com os
      primeiros reis Tudor e em segundo lugar, o crescimento de indústria
      em grande escala, de grandes corporações, de agregação de
      propriedade, que, com a conversão de tantos indivíduos em não-
      proprietários deixava-os a estes bastante abertos para os avanços
      do colectivismo e do estado servil. Mas se Belloc não gostava do
      capitalismo do seu tempo, abominava e temia o género de oposições e
      controlo do mesmo capitalismo, que constituíam a substância das
      reformas "liberais" de Lloyd George em Inglaterra, as quais formavam
      a armação do estado servil nas suas restrições à liberdade económica
      individual.

      O que Belloc incansavelmente advogava era um sistema político-
      económico a que chamava distributism ou distributivism (em português,
      distributismo, distributivismo ou distribucionismo), e que obtinha,
      também, o concurso enérgico do brilhante Gilbert Keith Chesterton –
      cuja conversão ao Catolicismo Romano deveu muito à influência de
      Belloc – e de outros espíritos de estatura. Neste sistema todos
      possuiriam propriedade, seria auto-sustentado e mais livre e capaz
      de defesa contra os esforços dos governos para diminuir a liberdade
      através da passagem de legislação coerciva em nome do humanitarismo e
      da segurança social. Distributismo significaria indivíduos livres e
      famílias livres, sem ninguém suportando outros, e com o estado
      adaptado ás necessidades da liberdade económica e não o inverso, que
      como vimos, Belloc via como a verdadeira substância da História de
      Inglaterra desde os Tudors.

      Belloc, infelizmente, não nos diz como é que o distributismo pode ser
      desencadeado; como é que pode ser gerado por entre as opressões e
      arregimentações da vida política e económica moderna. Esta poderá ser
      uma das razões para o relativo insucesso da sua - e de Chesterton -
      defesa deste ideal. Mas a razão principal, cremos, liga-se
      claramente à popularidade no princípio do século XX de doutrinas,
      como as de Sidney e Beatrice Webb e de muitos outros que foram
      capazes de fazer o socialismo fabiano e os seus numerosos offshoots
      tão atractivos para os intelectuais e para muitos dos líderes do
      emergente Partido Trabalhista de Inglaterra (Labour Party). A
      vantagem táctica gozada por cada uma das formas convencionais do
      socialismo, fabiano ou marxista, consistia no facto de estas,
      individual ou globalmente, serem construídas para realidades do
      Estado moderno, nacional, colectivista. É interessante aqui referir
      que ao lado do distributismo de Belloc, encontrávamos movimentos como
      o guild socialism ou o sindicalismo, que igualmente foram beber á
      Idade Média muitos dos seus valores e ideias, e que se opunham, ao
      contrário do socialismo convencional e da social-democracia, ao
      Estado centralizado e colectivista. Mas estes movimentos tinham quase
      tão pouco sucesso para atrair seguidores como o distributismo. A dura
      realidade é que os primeiros cinquenta anos do século XX mostram que
      tudo o que Belloc nos havia mostrado ter começado com a Reforma –
      criação das massas não-proprietárias e do Estado nacional despótico –
      aconteceu. Quer nos totalitarismos da Rússia ou de outros países,
      quer nos socialismos democráticos da Suécia e Inglaterra ou nas
      economias planeadas como o New Deal americano, é o Estado, o Estado
      burocrático, quem largamente triunfou. Quem vimos nós, aparecer, em
      nome do comunismo, fascismo ou da economia planeada, foi o Estado
      manager. Este Estado assenta economicamente na capacidade para se
      apropriar da riqueza de um largo número de pessoas para ter meios
      para apoiar e depois subordinar, o crescente número daqueles que num
      verdadeiro sentido são parasitas.

      Um tal Estado é precisamente o Estado Servil a que se referia Belloc,
      nomeadamente em The Servile State, um dos seus livros mais
      importantes e um daqueles livros que com visão, sabedoria, idealismo
      e capacidade para iluminar a realidade, fazem a diferença entre o
      vital e o efémero e defende-nos de crenças sofisticadas.



      Fevereiro de 2005

      Carlos de Jesus Fernandes

      *originalmente publicado no semanário Domingo Liberal



      Causa Liberal




      Fonte: http://www.causaliberal.net/documentosCJF/Belloc.htm
      22/08/06
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