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Trecho de "Culto da Imortalidade" páginas 9 a 11

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Trecho de Culto da Imortalidade páginas 9 a 11 Sobre José Lins do Rego, por Josué Montello Quem já teve em mão os originais manuscritos de um dos
    Mensagem 1 de 1 , 1 de mar de 2006
      Trecho de "Culto da Imortalidade" páginas 9 a 11
      Sobre José Lins do Rego, por Josué Montello



      Quem já teve em mão os originais manuscritos de um dos romances de José
      Lins do Rego há de se ter surpreendido com o seu processo de composição literária.
      Lembro-me de que ele confessava que, ao escrever, tinha a sensação de
      furar um barril cheio. Não repetia uma frase feita, exprimia o que na realidade
      sentia. Seus manuscritos refletem o seu poder de criação contínua, que não se
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      O romancista José Lins do Rego
      corrigia ou emendava, com a palavra a puxar a palavra, fluentemente, correntemente,
      até o fim da narrativa aliciante. Se bem me recordo, nem sequer abria
      parágrafos, numa letra apertadinha e cerrada, difícil de decifrar. Era o contador
      de histórias contando o seu conto, horas seguidas, indiferente ao fluir do
      tempo. E que apenas se interrompia por exaustão física, jamais por ter perdido
      o fio de seu relato.
      Em 1941, comentando um inquérito que se realizara entre os escritores
      franceses, sobre o motivo por que escreviam, José Lins do Rego insurgiu-se
      contra aqueles que confessavam escrever para servir a uma causa, como instrumento
      de um grupo, de uma classe ou de uma doutrina. E derramou-se em louvores
      à resposta de André Gide a Paul Valéry:
      "Gide escreve para não se matar. Esta é a grande resposta. Escreve para
      sobreviver, para pôr-se em intimidade com a vida, ligar-se com ela."
      Também José Lins do Rego não teria outra resposta para explicar o seu
      ofício de contador de histórias. Estas histórias participavam de seu mundo interior
      – lembradas apenas ou inventadas. Para elas vivia o mestre, e com elas ia
      entretendo as horas melhores da vida, sempre que a criação podia mais que o
      seu puro gosto de viver. De viver aqui fora, conversando com os amigos e companheiros
      ou participando da torcida apaixonada do Flamengo, nos campos
      de futebol. Sua natureza expansiva pedia essa comunicação efusiva. Mas os seres
      que lhe povoavam a memória e a imaginação podiam mais que a sua natureza,
      e ele sentava à mesa da escrita, dominado pelo gosto da criação literária.
      Nessas ocasiões, o mestre do romance não parecia o mesmo ser das comunicações
      habituais. Todo ele vivia para as dores e os dramas de seus personagens.
      Vem a propósito recordar aqui que há uma página, em Homens, Seres e Cores (Rio,
      1952), em que José Lins do Rego nos confessa os seus tormentos de criador:
      "Volto ao romance, que iniciara com vivo entusiasmo. Chego assim às
      últimas páginas, após um longo período de pausa, obrigado que fora a sus-
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      Josué Montello
      pender a tarefa, pelo asco que se apossara do autor pelo trabalho duro de erguer
      andaimes. – A composição como que se esgotara e o material que tomara
      para erguer um mundo me parecia seco, sem seiva, como de palha. Aí
      só mesmo parar. E deixar que o tempo faça a sua grande depuração. Desde
      que o criador se enoja de sua criatura, outro recurso não existe que separar
      um do outro e aguardar a recuperação das forças que se esgotaram."

      urs.Bira
      Moderação Literatura Leitura
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