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Conversa de Bois - João Guimarães Rosa

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  • Ubiratan Rocha da Silva
    Conversa de Bois - João Guimarães Rosa O conto Conversa de Bois está inserido entre aqueles que compõem o primeiro livro do autor: é o penúltimo entre os
    Mensagem 1 de 1 , 1 de mar de 2006
      Conversa de Bois - João Guimarães Rosa

      O conto Conversa de Bois está inserido entre aqueles que compõem o
      primeiro livro do autor: é o penúltimo entre os nove contos que se
      encontram em SAGARANA, livro publicado em 1946.

      A marca roseana de contador de "causos" aparece logo no primeiro
      parágrafo: "Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e
      com os homens, é certo e discutível, pois que bem comprovado nos
      livros das fadas carochas ( ..) "

      O narrador abre a história contando um fato: houve um tempo em que os
      bichos conversavam entre eles e com os homens e põe em dúvida se
      ainda podem fazê-lo e serem entendidos por todos : "por você, por
      mim, por todo mundo, por qualquer filho de Deus?!"

      Manuel Timborna diz que sim, e indagado pelo narrador se os bois
      também falam, afirma que "Boi fala o tempo todo", dispondo-se a
      contar um caso acontecido de que ele próprio sabe notícia. O narrador
      dispõe-se a escutá-lo, mas " só se eu tiver licença de recontar
      diferente, enfeitado e acrescentando pouco a pouco." Timborna
      concorda e inicia sua narração.

      O narrador nos dirá que o fato começou na encruzilhada de Ibiúva,
      logo após a cava do Mata-Quatro, em plena manhã, por volta das dez
      horas, quando a irara Risoleta fez rodopiar o vento. A cantiga de um
      carro de bois começou a chegar, deixando ouvir-se de longe.

      Tiãozinho, o menino guia, aparece na estrada: "(...) um pedaço de
      gente, com a comprida vara no ombro, com o chapéu de palha furado, as
      calças arregaçadas, a camisa grossa de riscado, aberta no peito( ...)
      Vinha triste, mas batia ligeiro as alpercatinhas, porque, a dois
      palmos da sua cabeça, avançavam os belfos babosos dos bois de guia -
      Buscapé, bi-amarelo (...) Namorado, caracú sapiranga, castanho-
      vinagre tocado a vermelho.(...) Capitão, salmilhado, mais em branco
      que amarelo, (...) Brabagato, mirim malhado de branco e de preto.
      ( ...) Dansador, todo branco (...) Brilhante, de pelagem braúna,
      ( ...) Realejo, laranjo-botineiro, de polainas de lã branca e
      Canindé, bochechudo, de chifres semilunares(...)."

      O carreiro Agenor Soronho, "Homenzarrão ruivo, (...) muito mal
      encarado" é apresentado aos leitores. Lá vai o carro de bois,
      carregado de rapaduras, dirigido por Soronho que tinha um orgulho
      danado de nunca ter virado um carro, desviado uma rota. Quem ia
      triste era Tiãozinho, fungando o tempo inteiro, semi-adormecido pela
      vigília do dia anterior, deixava um fio escorrendo das narinas. Ia
      cabisbaixo e infeliz: o pai morrera na véspera e estava sendo levado
      de qualquer jeito:

      "Em cima das rapaduras, o defunto.

      Com os balanços, ele havia rolado para fora do esquife, e estava
      espichado, horrendo. O lenço de amparar o queixo, atado no alto da
      cabeça, não tinha valido nada : da boca, dessorava um mingau pardo,
      que ia babujando e empestando tudo. E um ror de moscas, encantadas
      com o carregamento duplamente precioso, tinham vindo também."

      Os bois conversam, tecem considerações sobre os homens:

      "- O homem é um bicho esmochado, que não devia haver."

      Para os bois, Agenor é um bicho : "homem -do-pau-comprido-com-o-
      marimbondo-na- ponta". Comentam dele as covardias e despropósitos,
      sabem que não é tão forte quanto um boi.

      O carreiro Soronho pára para conversar com uns cavaleiros, entre eles
      uma moça, que ficam sabendo sobre a morte do pai do menino.
      Tiãozinho, que já começara a espantar a tristeza, recebe-a toda de
      volta. Despedem-se e Agenor usa de novo o aguilhão contra os animais.
      Os bois recomeçam a conversa : "Mas é melhor não pensar como o
      homem..."

      Reconhecem que Agenor Soronho é mau; o carreiro grita com eles.
      Começam a distinguir como trata o menino ( "Falta de justiça,
      ruindade só."). Encontram João Bala que teve o carro acidentado no
      Morro do Sabão; a falta de fraternidade de Soronho não permite que o
      outro carreiro seja ajudado.

      Tiãozinho, debaixo do sol escaldante, agora se recorda do pai: há
      anos vinha cego e entrevado, por cima do jirau: "Às vezes ele
      chorava , de noite, quando pensava que ninguém não estava escutando.
      Mas Tiãozinho, que dormia ali no chão, no mesmo cômodo da cafua,
      ouvia, e ficava querendo pegar no sono, depressa, para não escutar
      mais... Muitas vezes chegava a tapar os ouvidos, com as mãos. Mal-
      feito! Devia de ter, nessas horas, puxado conversa com o pai, para
      consolar... Mas aquilo era penoso... Fazia medo, tristeza e vergonha,
      uma vergonha que ele não sabia nem por que, mas que dava vontade na
      gente de querer pensar em outras coisas... E que impunha, até, ter
      raiva da mãe... ( ...) Ah, da mãe não gostava! Era nova e bonita, mas
      antes não fosse... Mãe da gente devia de ser velha, rezando e sendo
      séria, de outro jeito... Que não tivesse mexida com outro homem
      nenhum... Como é que ele ia poder gostar direito da mãe? ... "

      O leitor compreenderá , então, na continuidade do Discurso Indireto
      Livre que a mãe de Tiãozinho era amante de Agenor Soronho: "Só não
      embocava era no quartinho escuro, onde o pai ficava gemendo; mas não
      gemia enquanto o Soronho estava lá, sempre perto da mãe, cochichando
      os dois, fazendo dengos... Que ódio!..." Os bois se apiedam
      daquele "bezerro-de-homem" tão judiado e sofredor. Órfão, sozinho, a
      recordação da mãe não traz conforto. O carreiro, que já fora patrão
      do pai e seria o patrão do menino, exige-lhe muito mais que suas
      forças podiam oferecer:

      "- Entra p¹ra o lado de lá, que aí está embrejando fundo...

      Mais, dianho!... Mas não precisa de correr, que não é sangria
      desatada!... Tu não vai tirar o pai da forca, vai?... Teu pai já está
      morto, tu não pode pôr vida nele outra vez!... Deus que me perdoe de
      falar isso, pelo mal de meus pecados, mas também a gente cansa de ter
      paciência com um guia assim, que não aprende a trabalhar... Oi, seu
      mocinho, tu agora mesmo cai de nariz na lama! ... - E Soronho ri, com
      estrépito e satisfação."

      Os bois observam, conversam, tramam. Resolvem matar Soronho,
      livrando, portanto, o menino de toda a injustiça futura":

      "- E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente- dos-bois?

      - O bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-adiante vai caminhando
      devagar... Ele está babando água dos olhos..."

      Percebendo que Soronho está dormindo, que descansa o aguilhão ao seu
      lado, combinam derrubá-lo do carro, num solavanco repentino. Matam o
      carreiro, livram o menino. Quase degolado pela roda esquerda, lá está
      o carreiro: menos força que os bois, menos inteligência que eles.
      Tiãozinho está livre, Agenor quase degolado jaz no chão.


      Fonte:http://vestibular.setanet.com.br/resumos/boi.htm


      urs.Bira
      Moderação Literatura & Leitura
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