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'A enxada e a lança', livro de Alberto da Costa e Silv a para conhecer a África

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  • William Rosa Alves
    Estado de Minas. Pensar. Belo Horizonte, 1 de setembro de 2007. CLÁSSICOS PARA TODOS A enxada e a lança: Alberto da Costa E Silva Livro indispensável para
    Mensagem 1 de 1 , 1 de set de 2007
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      Estado de Minas. Pensar. Belo Horizonte, 1 de setembro de 2007.

      CLÁSSICOS PARA TODOS

      A enxada e a lança: Alberto da Costa E Silva

      Livro indispensável para compreensão da trajetória do continente africano da pré-história a 1500, A enxada e a lança é uma aula de geografia e política, iluminada com exemplos de arte e cultura

      Ângela Faria

      Nova Fronteira/Divulgação



      A enxada e a lança, de Alberto da Costa e Silva, conta a história da África da pré-história a 1500. Não se trata apenas de um clássico sobre a saga de povos que viveram na parte negra do continente, ao sul do deserto do Saara. De certa forma, essa "bíblia da terra", como diz Agostinho da Silva em poema dedicado ao livro, é também um clássico da história dos brasileiros. Não há como entender o nosso país sem compreender o Continente Negro. Sem África, não existe Brasil.

      Com suas 943 páginas, A enxada e a lança cumpre a missão a que se propôs Alberto da Costa e Silva: é um manual claro, direto, "embora emotivamente interessado", que nos torna menos ignorantes em relação a nosso passado. O alentado volume resultou de pesquisa sobre trabalhos de outros autores e "poucas idéias próprias" do - modesto - escritor, poeta e diplomata brasileiro. Notas e bibliografia ocupam nada menos de 137 páginas. Não se trata de leitura cacete, ou de um tijolaço impenetrável, repleto de citações e erudições pedantes. O livro só pede um pouco de concentração ao leitor.

      Costa e Silva vasculhou o que de melhor se produziu em antropologia, arqueologia e história para nos aproximar da África pré-1500, com seus povos, economia, arquitetura, arte, crenças, costumes e lendas. Algumas vezes, recorre ao auxílio de poetas. Fernando Pessoa, por exemplo, ajuda a elucidar a importância de Tsoede, que unificou o povo nupe em reino localizado na região do Rio Níger. Tantos séculos depois, o autor se pergunta: Tsoede é lenda? Existiu realmente? "Este, que aqui apontou,/ Foi por não ser existindo./ Sem existir nos bastou./ Por não ter vindo foi vindo/ E nos criou." - escreveu o português sobre Ulisses, uma espécie de Tsoede mais famoso. "Lenda ou carne, pouco importa, pois se fez história. E aglutinou um povo", conclui Costa e Silva.

      A África é um caleidoscópio de culturas e povos, fascinante capítulo da história humana

      A enxada e a lança não é livro "fácil", como esses volumes de história fast-food que fazem sucesso por aí, mas está longe de ser enigma só decifrável por iniciados. Muitas vezes, o leitor se sente tonto diante de tantos povos africanos. Esse impacto, talvez, seja o legado mais importante do livro. "Mas a África é isso tudo?", nos perguntamos, reféns de clichês do cinema, TV e até livros de história... O "susto" é um bom primeiro passo para a derrubada de preconceitos. Quando se chega ao posfácio, não há como pensar em apenas uma África. O continente que ali descobrimos é um caleidoscópio de culturas e povos - fascinante capítulo da história humana.

      Contar a história dos africanos antes de 1500 é missão para poucos. Para Costa e Silva, é como "adivinhar do passado". Poucas daquelas sociedades conheciam a escrita. A arqueologia - observa o autor - mal arranhou as imensas extensões do continente. Entre as fontes estão viajantes árabes, tradições e a riquíssima cultura oral. O historiador não descarta mitos, lendas, "as imaginações que se fizeram fatos e os fatos que se vestiram de imaginário porque se incorporaram ao que um povo tem por origem e rastro".

      No primeiro capítulo, uma aula de geografia. Deserto, estepes, savanas, florestas, oceanos e Mar Vermelho marcam a história de um povo. Temos a África do Sael, voltada para o Norte, Líbia e Egito; a África Atlântica, a oeste, que faz com as Américas a maior parte das trocas; e a África Índica, ao leste, ligada ao Oriente. São nada menos de 25 capítulos, divididos entre tópicos como povos, pré-história e regiões subsaarianas. Querma, Napata, Méroe, Nok, Axum, Núbia, Gana, Lago Chade, Grandes Lagos, Ifé e Lualaba podem nos parecer remotos, à primeira vista, mas guardam sagas fascinantes de nossos antepassados.

      Personagem central

      O Saara é personagem central dessa história: ao norte do deserto, está a cultura mediterrânea, marcada por intensas trocas com povos às margens do mar. Ao sul, a região subsaariana se caracteriza pelo isolamento. É bom lembrar que durante séculos os contatos de africanos com homens além-mar ocorreram em espaçados pontos do mapa.

      Até hoje, é grande a polêmica entre cientistas, mas o Sul do Saara é apontado como o local onde surgiu o homem. De lá ele teria emigrado, há 100 mil anos, para o Oriente Médio e o resto do mundo. Talvez nos litorais do sul e da Líbia, ao norte, ele tenha aprendido a explorar os recursos do oceano, observa Costa e Silva.

      Abaixo do Egito, às margens do Nilo, desenvolveram-se sociedades que, muitas vezes, livros escolares ignoram ou relegam a minúsculos pés de página. Empreendedores, esses povos venciam as cataratas do mitológico rio, cultivavam trigo e cevada, criavam belas cerâmicas, comerciavam intensamente. O povo cuxe, citado em textos de 2000 a.C, o reino de Querna, com sua cidade mercantil e manufatureira, os núbios, fornecedores de ouro e escravos ao Egito, nos surpreendem com sua organização político-religiosa, crenças ou pirâmides. Citada por Heródoto, Méroe recebeu expedições romanas enviadas pelo imperador Nero. Ao noroeste, esculturas de Nok chamam a atenção por seu esmero estético, caso da cabeça encontrada em 1954 em Kafin Kura, atualmente exposta no National Museum de Lagos.



      Os garamantes, habitantes do deserto, viviam ao sul de Trípoli. Hábeis comerciantes, negociavam com Roma, controlavam o trânsito de estranhos pelo Saara. Os camelos mudaram a história desse deserto - até o ano 300, vindos do Oriente, espalharam-se pela região, permitindo a até então quase impossível travessia do Nilo ao Atlântico. Escravos, ouro e sal eram as mercadorias mais importantes do comércio transaariano.

      A leste do continente, registrou-se intenso intercâmbio comercial e cultural entre árabes, africanos da Eritréia e regiões banhadas pelo Mar Vermelho e Oceano Índico. A Etiópia recebeu influências do Iêmen na arquitetura, escrita, técnicas de irrigação. Judeus chegaram até lá vindos da Arábia do Sul; Antigo Testamento e cultos judaicos se difundiram entre os etíopes. Na costa do Índico, entrepostos comerciais recebiam navios e mercadorias de romanos, árabes e persas. Os africanos vendiam incenso, marfim, chifres de rinoceronte. Compravam algodão, adagas, machados de ferro e açúcar. Escravos do Continente Negro eram levados para o Golfo Pérsico: bantos participaram de levantes na Baixa Mesopotâmia entre os séculos 7 e 9. Quando Vasco da Gama chegou a Mombaça, às margens do Índico, surpreendeu-se com edifícios de pedra e cal que encontrou por lá.

      A lingüística nos ajuda a acompanhar a trajetória dos bantos. Hordas de guerreiros conquistaram povos e originaram de 300 a 600 falas, cobrindo 9 milhões de quilômetros quadrados. Acredita-se que a expansão se deu a partir da fronteira de Nigéria e Camarões, no Oeste africano. À medida que terras agricultáveis se exauriam, eram empurrados para o Sul, agregando novas populações. Atualmente, cerca de 200 milhões de pessoas falam idiomas bantos.

      Islã e comércio são irmãos siameses: contatos entre povos do Oriente, sobretudo comerciantes, com africanos difundiram essa religião pelo continente. O clã queita, nas imediações do Rio Niger, reivindicava como ancestral Bilali Bunama, o companheiro negro de Maomé. Pastores cameleiros transportavam mercadorias e o Alcorão pelo deserto, cruzando a África. Em Gana, na costa atlântica, reis negros são apontados como os primeiros soberanos islamitas.

      Arte que encanta

      A enxada e a lança nos lembra também que a África escreveu importante capítulo da história da arte. Isso, muito antes de europeus lá desembarcarem. A escultura criada em Ifé, ao noroeste, exibe estética tão elaborada quanto obras clássicas gregas e do Renascimento italiano. Em Igbo-Ubwu, escavações trouxeram à luz peças de bronze e cerâmica que deslumbram experts. Destaca-se, especialmente, pote de bronze "com estranho rococó, virtuosidade quase Fabergé e estilo quase art nouveau", lembra Alberto da Costa e Silva. Na região de Zâmbia, esculturas de madeira, elegantes bastões e tamboretes seduziram e influenciaram Modigliani.

      Brasileiros se reconhecerão em vários capítulos de A enxada e a lança. Experientes mineradores, não foi por acaso que escravos especializados no ofício de lavrar vieram povoar Minas Gerais. A banana e o coqueiro, levados à África pelos orientais, são hoje uma espécie de marca registrada do Brasil - que, por sinal, exportou para lá o milho e a mandioca. O maracatu pernambucano e suas bonecas calungas são ecos dos cortejos reais africanos.

      Muito antes de Pedro Álvares Cabral chegar à Bahia, africanos eram escravizados no Egito, Grécia, Roma e Arábia pré-islâmica. Calcula-se que, entre os anos 800 e 1600, 2 milhões de cabeças cruzaram o Mar Vermelho e o Índico. Africanos usavam conterrâneos como mão-de-obra agrícola e nos exércitos. A enxada e a lança nos mostra como eram complexos os sistemas escravagistas do continente. Mais tarde, os próprios europeus, além de exportarem a mão-de-obra negra além-África, trocavam a mercadoria humana por ouro no interior do continente.

      Estudiosos acreditam que a chegada dos portugueses à África e o início do comércio transatlântico de negros representaram nova etapa para a história da escravidão. Ao fim de A enxada e a lança, não há como escapar da curiosidade: o que veio depois? Felizmente, o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva não abandona o seu leitor. Depois desse clássico, escreveu A manilha e o limbambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700; Francisco Felix de Souza, mercador de escravos - obras que nos conduzem pelo nosso passado. Caminhos fascinantes, mesmo que toda história seja remorso, como bem observou Carlos Drummond de Andrade.


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