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Gilka Machado, Brasil

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  • sonia regina
    Gilka Machado Lépida e leve Lépida e leve em teu labor que, de expressões à míngua, O verso não descreve... Lépida e leve, guardas, ó língua, em seu
    Mensagem 1 de 2 , 6 de set de 2004
       
        

       

       

       

      Gilka Machado

      Lépida e leve

       

       

       
      Lépida e leve
      em teu labor que, de expressões à míngua,
      O verso não descreve...
      Lépida e leve,
      guardas, ó língua, em seu labor,
      gostos de afagos de sabor.


      És tão mansa e macia,
      que teu nome a ti mesmo acaricia,
      que teu nome por ti roça, flexuosamente,
      como rítmica serpente,
      e se faz menos rudo,
      o vocábulo, ao teu contacto de veludo.


      Dominadora do desejo humano,
      estatuária da palavra,
      ódio, paixão, mentira, desengano,
      por ti que incêndio no Universo lavra!...
      És o réptil que voa,
      o divino pecado
      que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
      e que a Terra povoa e despovoa,
      quando é de seu agrado.


      Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
      ó língua-idéia, ó língua-sensação,
      em que olvido insensato,
      em que tolo recato,
      te hão deixado o louvor, a exaltação!


      — Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
      — Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
      Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
      alucinação,
      és o elástico da alma... Ó minha louca
      língua, do meu Amor penetra a boca,
      passa-lhe em todo senso tua mão,
      enche-o de mim, deixa-me oca...
      — Tenho certeza, minha louca,
      de lhe dar a morder em ti meu coração!...


      Língua do meu Amor velosa e doce,
      que me convences de que sou frase,
      que me contornas, que me veste quase,
      como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
      Língua que me cativas, que me enleias
      os surtos de ave estranha,
      em linhas longas de invisíveis teias,
      de que és, há tanto, habilidosa aranha...


      Língua-lâmina, língua-labareda,
      língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
      Força inféria e divina
      faz com que o bem e o mal resumas,
      língua-cáustica, língua-cocaína,
      língua de mel, língua de plumas?...


      Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
      amo-te como todas as mulheres
      te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
      pela carne de som que à idéia emprestas
      e pelas frases mudas que proferes
      nos silêncios de Amor!...
       

       

       

      Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, Editora Objetiva, 2001 - Rio de Janeiro, Brasil

       

       

       

      sonia regina, osvaldo pastorelli, jean-pierre barakat editores


      poemas daqui e de acolá - edição 06.9.04 

      formatação em html e seleção  da imagem: sonia regina

      som fundo: Qing Shu - Jacky Cheung

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