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Zila Mamede, Brasil

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  • Lab da Palavra
    Banho (rural) Zila Mamede De cabaça na mão, céu nos cabelos à tarde era que a moça desertava dos arenzés de alcova. Caminhando um passo brando pelas
    Mensagem 1 de 1 , 28 de abr de 2003
       
       
       
      Banho (rural)
      Zila Mamede

       

      De cabaça na mão, céu nos cabelos
      à tarde era que a moça desertava
      dos arenzés de alcova. Caminhando

      um passo brando pelas roças ia
      nas vingas nem tocando; reesmagava
      na areia os próprios passos, tinha o rio

      com margens engolidas por tabocas,
      feito mais de abandono que de estrada
      e muito mais de estrada que de rio

      onde em cacimba e lodo se assentava
      água salobre rasa. Salitroso
      era o também caminho da cacimba

      e mais: o salitroso era deserto.
      A moça ali perdia-se, afundava-se
      enchendo o vasilhame, aventurava

       

      por longo capinzal, cantarolando:
      desfibrava os cabelos, a rodilha
      e seus vestidos, presos nos tapumes

      velando vales, curvas e ravinas
      (a rosa de seu ventre, sóis no busto)
      libertas nesse banho vesperal.

      Moldava-se em sabão, estremecida,
      cada vez que dos ombros escorrendo
      o frio d'água era carícia antiga.

      Secava-se no vento, recolhia
      só noite e essências, mansa carregando-as
      na morna geografia de seu corpo.

      Depois, voltava lentamente os rastos
      em deriva à cacimba, se encontrava
      nas águas: infinita, liquefeita.

       

       Então era a moça regressava
      tendo nos olhos cânticos e aromas
      apreendidos no entardecer rural.

       

      Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, Editora Objetiva, 2001 - Rio de Janeiro, Brasil
      Imagem: Gauguin - Som: Tarrega

       
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