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732Carlos Drummond de Andrade, Brasil

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  • Pastorelli
    25 de mar de 2007
      --- de Andrade, Brasil

       

       

       

      procura da poesia

       

      Não faças versos sobre acontecimentos.
      Não há criação nem morte perante a poesia.
      Diante dela, a vida é um sol estático,
      Não aquece nem ilumina.

      As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
      Não faças poesia com o corpo,
      esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão    lírica.

      Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
      são indiferentes.
      Nem me reveles teus sentimentos,
      que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
      O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

      Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
      O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
      Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

      O canto não é a natureza
      nem os homens em sociedade.
      Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
      A poesia (não tires poesia das coisas)
      elide sujeito e objeto.

      Não dramatizes, não invoques,
      não indagues. Não percas tempo em mentir.
      Não te aborreças.
      Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
      vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
      desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

      Não recomponhas
      tua sepultada e merencória infância.
      Não osciles entre o espelho e a
      memória em dissipação.
      Que se dissipou, não era poesia.
      Que .se partiu, cristal não era.

      Penetra surdamente no reino das palavras.
      Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
      Estão paralisados, mas não há desespero,
      há calma e frescura na superfície intata.
      Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
      Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
      Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

      Espera que cada um se realize e consuma
      com seu poder de palavra
      e seu poder de silêncio.
      Não forces o poema a desprender-se do limbo.
      Não colhas no chão o poema que se perdeu.
      Não adules o poema. Aceita-o
      como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
      no espaço.

      Chega mais perto e contempla as palavras.
      Cada uma
      tem mil faces secretas sob a face neutra
      e te pergunta, sem interesse pela resposta
      pobre ou terrível, que lhe deres:
      Trouxeste a chave?

      Repara: ermas de melodia e conceito,
      elas se refugiaram na noite, as palavras.
      Ainda úmidas e impregnadas de sono,
      rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

       

       

       

       

      sonia regina, osvaldo pastorelli, jean-pierre barakat editores


      poemas daqui e de acolá - edição 11.04.05 

      formatação em html, seleção do poema e imagem: sonia regina

      som fundo: beethoven

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