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=?x-user-defined?Q?Pa'i_'chefe'_em_J=EA:_um_empr=E9stimo=3F?=

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  • Eduardo Rivail Ribeiro
    Prezados colegas, O estudo comparativo das línguas da família Jê vem permitindo a reconstrução de vários termos referentes à cultura material (incluindo
    Mensagem 1 de 4 , 6 de jul de 2005
      Prezados colegas,
       
      O estudo comparativo das línguas da família Jê vem permitindo a reconstrução de vários termos referentes à cultura material (incluindo 'cesto', 'sal', 'tecer' etc.), fornecendo assim interessantes informações acerca da cultura Proto-Jê. Um item referente à organização política poderia, talvez, ser também reconstruído, mas antes gostaríamos de, se possível, avaliar a possibilidade de que se trataria de um empréstimo. O item a que me refiro é o termo para 'chefe', para o qual se encontram prováveis cognatos em Jê Setentrional (a, b) e em Jê Meridional (c, d):
       
      a. Apinajé pa'i (Ham, Waller & Koopman 1979)
      b. Krahô pahhi (Popjes & Popjes 1986)
      c. Xokléng pa'i (Wiesemann 1978)
      d. Kaingáng pã'i (Wiesemann 1978)
       
      Em princípio, os fatos de que (i) prováveis cognatos ocorrem em pelo menos dois dos três ramos da família e de que (ii) as correspondências fonológicas parecem ser regulares garantiriam a reconstrução do termo para 'chefe' para a proto-língua; uma reconstrução plausível -- e um tanto transparente -- seria *pa'i. Neste caso, porém, a existência de termo semelhante, de significado afim, em línguas da família Tupi-Guarani sugeriria um pouco de cautela, já que os termos nas línguas Jê poderiam ser resultados de empréstimos. Em Guarani Paraguaio, por exemplo (de acordo com o dicionário disponível na página de Wolf Lustig), tem-se pa'i 'sacerdote, cura'; palavras semelhantes ocorrem também em Ka'apor, etc.
       
      Caso seja empréstimo, haveria pelo menos duas possibilidades: (1) o termo teria ingressado antes da separação das línguas da família Jê (sendo, portanto, reconstruível para a proto-língua); (2) o termo teria ingressado independentemente em diversas línguas (ou em ancestrais intermediários delas, tais como o Proto-Jê Meridional ou o Proto-Jê Setentrional, por exemplo). É claro que há também a possibilidade de que (3) as semelhanças entre as duas famílias são apenas coincidências, ou que (4) o termo é, de fato, um empréstimo Jê a línguas de outras famílias. Seja qual for a opção correta, os resultados têm um certo interesse antropológico.
       
      Para avaliar a plausibilidade das diversas hipóteses, seria importante contar com maiores informações sobre a distribuição e antigüidade de formas como pa'i nas línguas da família Tupi-Guarani (ou, quem sabe, do tronco Tupi). Para tanto, peço mais uma vez a ajuda dos colegas desta lista. Seria tal termo reconstruível para o Proto-Tupi-Guarani? Para o Proto-Tupi? Ou seria limitado a algumas línguas? Ocorreriam termos semelhantes em outras famílias? Em outras línguas Jê ou Macro-Jê?
       
      Quanto à profundidade temporal do Proto-Tupi-Guarani, haveria alguma estimativa?
       
      Desde já, agradeço quaisquer informações que me puderem fornecer.
       
      Abraços,
       
      Eduardo
    • Sebastian Drude
      Prezado Eduardo, são interessantes as possíveis cognatos para o item cacique, chefe em línguas Jê, e pelo que você expôs, me parece provavel que a
      Mensagem 2 de 4 , 7 de jul de 2005
        Prezado Eduardo,


        são interessantes as possíveis cognatos para o item 'cacique, chefe'
        em línguas Jê, e pelo que você expôs, me parece provavel que a
        hipótese da reconstrução seja confirmada.

        Quanto a tua pergunta sobre uma possível relação com termos
        semelhantes em línguas Tupí-Guaraní (TG):

        > Neste caso, por?m, a exist?ncia de termo semelhante, de significado
        > afim, em l?nguas da fam?lia Tupi-Guarani sugeriria um pouco de
        > cautela, j? que os termos nas l?nguas J? poderiam ser resultados de
        > empr?stimos. Em Guarani Paraguaio, por exemplo (de acordo com o
        > dicion?rio
        > <http://www.staff.uni-mainz.de/lustig/guarani/dicc/woertlok.htm>
        > dispon?vel na p?gina de Wolf Lustig), tem-se /pa'i/ 'sacerdote,
        > cura'; palavras semelhantes ocorrem tamb?m em Ka'apor
        > <http://www.pegue.com/indio/kaapor.htm>, etc.

        1) Não sei do "etc.", e eu pessoalmente desconheço outras línguas com
        este termo. Outros membros desta lista certamente podem informar
        melhor sobre isto.
        É bem conhecido que um termo reconstruido para o Proto-Tupí-Guaraní
        para "sacerdote, shaman" é _pajé_ (que entrou inclusive no
        Português do Brasil), e eu não sei se este termo pode ser avaliado
        como um bom candidato para um cognato com _pa'i_ - fora da primeira
        sílaba, que, porém, deve ser uma das sílabas mais comuns nas
        línguas do mundo.

        2) Não sou muito otimista também quanto à relação de 'afinidade'
        semântica. É conhecido de vários povos Tupí-Guaraní o marcado
        antagonismo entre shamans e chefes (ver Clastres e outros autores),
        que somente ocasionalmente coincidem (como na busca da "terra sin
        males").
        Claro que são dois papeis sociais de destaque, mas para postular
        uma relação de empréstimo precisaria se mostrar com mais
        argumentação como um significado pode ter se desenvolvido a partir
        do outro, provavelmente com consequências graves para reconstrução
        cultural dos povos envolvidos.

        3) Em outras línguas Tupí, há poucos possíveis cognatos com _pa'i_ ou
        _pajé_. Temos _paini_ ou _paini Î_ no Mawé, e _pade_ em Xipaya
        (creio que os dados foram fornecidos no projeto Tupí Comparativo
        pelos respectivos pesquisadores, Sérgio Meira e Carmen Rodrigues).
        O início do primeiro, no Mawé, pode até ser comparado com _pa'i_,
        enquanto o segundo parece mais ser cognato de _pajé_, do TG.

        4) Os termos candidatos para cognatos para "chefe, cacique" em línguas
        Tupí são escassas. Temos algo como _tuwisa_ (_tabisarã_ em Mekens,
        dado de Vilacy Galúcio, _tuisa_ com nasalidade no /u/, em Mawé, e o
        _tuvisha_ do Guaraní, com alguns cognatos em outras línguas TG), de
        um lado, e _morekwat_ (Awetí e Mawé) ou _morerekwat_ (Kamayurá),
        que parecem ser termos regionais do (Alto) Xingú e adjacência??,
        possívelmente relacionados com o termo para "sol", de outro lado.
        Nos dois casos, nada têm a ver com _pa'i_.
        Claro que a não-existência de um termo confiável para a reconstrução
        para o proto-Tupí em si deixa espaço para especulações sobre a origem
        desta instituição social e possíveis empréstimos para sua designação.


        Na minha opinião impressionística, me parece mais provável que _pa'i_
        seja um termo Jê (ou Macro-Jê). Se há alguma relação com os termos
        para 'sacerdote' em algumas línguas TG citados por você, me parece ser
        mais provável que sejam empréstimos por estes -- mas o desenvolvimento
        semântico restaria a ser demonstrado.


        > Quanto ? profundidade temporal do Proto-Tupi-Guarani, haveria alguma
        > estimativa?

        Bom, aqui e acolá se compara a família TG com as línguas romanas, o
        que sugeria uma profundidade de 1500 a 2500 anos. Porém, Schleicher e
        outros argumentam que o grau de parentesco seria bem maior do que
        isso, chegando a somente 1000 anos ou até menos de separação. Eu
        pessoalmente simpatizo com esta avaliação, mas de novo, outros membros
        desta lista podem ter uma opinião com mais fundamento.

        Espero que estas informações e impressões sejam de alguma utilidade.


        Um último ponto, mais técnico: Por favor ajuste o Char(acter)Set do
        teu Microsoft Outlook Express 6 para "Western", ou "Unicode".
        Atualmente ele está configurado (cito do header do teu email) para
        "user-defined":

        > Content-Type: text/plain; charset="x-user-defined"

        O que faz com que na minha tela e provavelmente na tela de muitos
        outros os acentos aparecem de forma estranha, se é que aparecem. Em
        formato de texto, recebo somente interrogações:

        > Col?quios Ling??sticos do Museu Antropol?gico


        Espero poder aprender mais com os resultados da tua pesquisa no
        congresso em Belém em agosto! Até lá um grande abraço!

        Sebastian

        --
        | Sebastian D R U D E (Lingüista, Projeto Aweti / DOBES)
        | Setor de Lingüística -- Coordenação de Ciências Humanas (CCH)
        | Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém do Pará -- CNPq -- MCT
        | Cx.P. 399 -- CEP: 66 040 - 170 -- Tel. e FAX: (91) 274 40 04
        | Email: sebadru@...-berlin.de + drude@...
        | URL: http://www.germanistik.fu-berlin.de/il/pers/drude-en.html
      • Sebastian Drude
        Um acrécimo a minha mensagem anterior: Não está claro se _pa i_ em Guaraní sempre significava sacerdote , isto é, shaman nos tempos pré-históricos.
        Mensagem 3 de 4 , 7 de jul de 2005
          Um acrécimo a minha mensagem anterior:

          Não está claro se _pa'i_ em Guaraní sempre significava 'sacerdote', isto
          é, 'shaman' nos tempos pré-históricos. De repente tenha sido
          introduzido somente depois da chegada dos sacerdotes européios.

          Bartomeu Melià dá a seguinte etimologia:

          >> Pa'i era el padre de la familia grande guaraní y ese significado
          >> se aplicó después al "padre" sacerdote católico ...

          (Tirei isto da página
          http://www.linguapax.org/congres/taller/taller3/Melia.html, mas ele
          afirma isto em outros lugares também.)

          Pode até ter um efeito de contaminação ou influência por línguas
          latinas, cf. o termo _pai_ do próprio Português.

          No caso do Kaapor e possivelmente em outras línguas TG, o uso do mesmo
          termo poderia ser um efeito indireto, levado pela língua geral?

          Sebastian

          --
          | Sebastian D R U D E (Lingüista, Projeto Aweti / DOBES)
          | Setor de Lingüística -- Coordenação de Ciências Humanas (CCH)
          | Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém do Pará -- CNPq -- MCT
          | Cx.P. 399 -- CEP: 66 040 - 170 -- Tel. e FAX: (91) 274 40 04
          | Email: sebadru@...-berlin.de + drude@...
          | URL: http://www.germanistik.fu-berlin.de/il/pers/drude-en.html
        • Eduardo Ribeiro
          Prezado Sebastian, Muito obrigado pelas interessantes informações sobre as línguas Tupi. Sua mensagem me fez mais otimista com relação à reconstrução
          Mensagem 4 de 4 , 7 de jul de 2005
            Prezado Sebastian,

            Muito obrigado pelas interessantes informações sobre as línguas Tupi.  Sua mensagem me fez mais otimista com relação à reconstrução de *pa'i para o Proto-Jê, que seria, assim, mais um informação acerca da proto-cultura. [A reconstrução de * pa'i também ajudaria a corroborar uma suspeita minha, a de que é possível reconstruir uma consoante glotal para o Proto-Jê, algo que
            Davis não fez.]

            Quanto a pajé vs. pa'i em Tupi[-Guarani], parece-me que são palavras diferentes. Ambas ocorrem no dicionário Guarani a que me refiro na minha mensagem (enquanto pa'i ocorre como 'cura, sacerdote', paje ocorre como 'chamán, brujo, médico') e, aparentemente, ambas ocorriam também no Tupinambá. Um mito comumente mencionado na literatura é o de Pa'i Sumé (que os jesuítas associaram a São Tomé!); talvez os antropólogos na lista tenham
            mais a dizer a respeito disso. Então, é provável que pa'i e pajé se referissem a entidades distintas, e qualquer hipótese sobre o significado original de ambas deve levar isto em consideração.

            Quanto à suposta 'afinidade' semântica, o "marcado antagonismo entre shamans e chefes" entre os Tupi não é um contra-argumento tão forte assim: quando uma palavra é tomada de empréstimo, ela passa a fazer parte das relações léxico-semânticas da língua recebedora; o fato de que lanche em português veio a significar 'snack ', não 'almoço', a despeito do seu significado na língua original (inglês lunch), é um bom exemplo disso. Além disso, se pa'i
            é de fato uma palavra Tupi (e eu não tenho como afirmar isso, naturalmente), seu significado não seria exatamente o mesmo que o de 'shaman' (para o qual existe, como você aponta, uma outra palavra, reconstruível: pajé).

            Lamento os problemas gráficos com minha última mensagem. Vou ver como evitar isso no futuro. Para os que tiveram problemas com a legibilidade da mensagem, a cópia arquivada no sítio do grupo apresenta os diacríticos corretamente:

            Um abraço grato,

            Eduardo


            PS. A propósito: um possível cognato desta palavra parece ter ocorrido em Ofayé também, segundo Nimuendaju (cf. Darcy Ribeiro, 1951:116):

            "Nimuendaju ouviu ainda, dos Ofaié, que seus antigos xamãs sabiam evocar os Faí. Êstes seriam dois irmãos míticos que lhes apareciam sob forma humana, vestidos com tangas (os homens Ofaié andavam sempre nús) e ricamente ornamentados, para repartir com êles seus adornos de contas. A semelhança do nome faí com o paí dos Guarani e a referência a tangas masculinas, sugeriram a Nimuendajú a hipótese de que esta lenda se tivesse originado de uma visita histórica dos pagés guaraní [...]"
             
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