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Re: [etnolinguistica] Apapokuva Guarani: significado de 'Nimuendaju'

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  • wafnetto@usp.br
    Caro Eduardo, do tanto que sei do Guarani, eu diria que é mais apropriado dizer aquele que fez o seu próprio espaço/lugar . ni- reflexivo ; mu-
    Mensagem 1 de 5 , 11 de fev de 2004
      Caro Eduardo, do tanto que sei do Guarani, eu diria que é mais apropriado dizer
      'aquele que fez o seu próprio espaço/lugar'.
      ni- 'reflexivo';
      mu- 'causativo';
      enda espaço em que se descança, dorme, senta..., pode ser a sua casa, mas também
      pode ser um lugar provisório não precisa ser +humano, podendo ser até feito por
      um cachorro, quando arruma um lugarzinho para se deitar;
      ju poderia ser "levantar", mas isso é mais próprio de 'jupi', poderia ser um
      indicador de aspecto como 'outra vez, novamente'. Acredito que, jocosamente,
      poder-se-ia traduzir como "aquele que está sempre por aí".
      É sempre difícil traduzir nomes próprios, mesmo porque são sempre nomes antigos
      que são repassados para os recém-nomeados. Não precisam ser nomes descritivos.
      Assim, mesmo a tradução que proponho pode estar completamente equivocada. Creio
      que qualquer um pode se sentir a vontade para refazê-la ou discordar dela. Não
      haverá qualquer certeza.
      Waldemar


      Citando Eduardo Rivail Ribeiro <erribeir@...>:

      > Caros colegas,
      >
      > Aos conhecedores de Guarani, em geral, ou de Apapokuva, em particular, eu
      > ficaria grato se pudessem me esclarecer uma dúvida. Ao longo dos anos, tenho
      > lido e ouvido diferentes traduções para o nome 'Nimuendaju', dado pelos
      > Apapokuva ao grande pioneiro da etnologia (e lingüística) brasileira, nascido
      > Curt Unkel (1883-1945).
      >
      > As duas traduções mais comuns são 'aquele que faz o seu próprio caminho' e
      > (se me lembro bem; estou citando de memória) 'aquele que fez morada entre
      > nós'. Recentente, deparei com mais uma, em uma matéria da revista Ciência
      > Hoje: 'aquele que constrói sua própria casa' (de certa forma, uma 'mistura'
      > dos dois primeiros).
      >
      > Qual seria a tradução mais correta? Alguém poderia me explicar a morfologia
      > desta palavra?
      >
      > Desde já, muito obrigado.
      >
      > Cordialmente,
      >
      > Eduardo
      >
      >
      >
      >
      >
      >
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      > Eduardo Rivail Ribeiro
      > Department of Linguistics/University of Chicago
      > Museu Antropológico/Universidade Federal de Goiás
      > http://www.etnolinguistica.org
      >
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    • Aryon Rodrigues
      Eduardo: No dialeto Guaraní dos Apapokúva, que é o mesmo mais recentemente chamado no Brasil (desde os trabalhos de Egon Schaden) de Nhandéva (no Paraguai
      Mensagem 2 de 5 , 11 de fev de 2004
        Eduardo:

        No dialeto Guaraní dos Apapokúva, que é o mesmo mais recentemente chamado no Brasil (desde os trabalhos de Egon Schaden) de Nhandéva (no Paraguai é Chiripá), o nome Nmuendajú tem a seguinte constituição: ni- prefixo reflexivo, mu- prefixo causativo, -en um dos alomorfes do verbo 'estar sentado', -a ~ -av sufixo nominalizador de circunstância, ju [dZu] 'amarelo' (tema descritivo, que metaforicamente parece significar também 'brilhante', 'respeitável', e que é acrescentado a nomes de pessoas). A ordem das derivações é a seguinte: -ena(v) 'lugar de estar sentado, ou estabelecido, assentamento', muena [muenda] 'fazer assentamento', nimuena [nimuenda] 'fazer assentamento para si mesmo', nimuenaju [nimuendadZu] 'o que fez seu assento, o que se estabeleceu'. Como você vê, a segunda interpretação das que você menciona é a mais próxima.

        Aproveito para lhe dizer que estou tendo dificuldade para assessar os documentos da Etnolingüística. Para abrir um dos arquivos, fui solicitado pelo sistema a inscrever-me na Yahoo. Fiz isso (agora tenho também o endereço Aryon_Rodrigues@...), mas, quando peço para baixar um documento da Etnolingüística (p. ex., o que foi colocado pelo Peyró), a resposta é que o mesmo não está disponível. Deve ser necessário algum "macete" que ainda ignoro. Você, como webmaster, pode me orientar?

        Abraços,
        Aryon



        At 05:07 11/2/2004 -0800, you wrote:

        Caros colegas,
         
        Aos conhecedores de Guarani, em geral, ou de Apapokuva, em particular, eu ficaria grato se pudessem me esclarecer uma dúvida. Ao longo dos anos, tenho lido e ouvido diferentes traduções para o nome 'Nimuendaju', dado pelos Apapokuva ao grande pioneiro da etnologia (e lingüística) brasileira, nascido Curt Unkel (1883-1945).
         
        As duas traduções mais comuns são 'aquele que faz o seu próprio caminho' e (se me lembro bem; estou citando de memória) 'aquele que fez morada entre nós'. Recentente, deparei com mais uma, em uma matéria da revista Ciência Hoje: 'aquele que constrói sua própria casa' (de certa forma, uma 'mistura' dos dois primeiros).
         
        Qual seria a tradução mais correta?  Alguém poderia me explicar a morfologia desta palavra?
         
        Desde já, muito obrigado.
         
        Cordialmente,
         
        Eduardo




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        Eduardo Rivail Ribeiro
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      • Wilmar R. D'Angelis
        Caro Eduardo acho que a resposta do Prof. Aryon é bastante precisa, mas acrescentaria um dado etnográfico a respeito do sufixo -ju . As comunidades Guarani
        Mensagem 3 de 5 , 29 de fev de 2004
          Caro Eduardo

          acho que a resposta do Prof. Aryon é bastante precisa, mas acrescentaria
          um dado etnográfico a respeito do sufixo "-ju". As comunidades Guarani
          que, entre a primeira metade do século XIX e a primeira do século XX
          partiram do Mato Grosso ou do Paraguai, em migrações messiânicas, rumo ao
          mar, ainda que hoje sejam alinhadas no que tem-se chamado (desde Egon
          Schaden), os "Nhandeva-Guarani", partilhavam, naquele momento, de muitos
          elementos comuns a outros grupos, alguns dos quais hoje tomamos por
          'marca' dos Mbyá-Guarani (os mais "fundamentalistas" dos Guarani, alguém
          já disse). Uma dessas coisas é a composição dos nomes pessoais. Tais nomes
          são sagrados, e os Mbyá ainda hoje não os revelam aos nãó-índios, mas
          junto aos "Nhandeva" que ainda os tenham, não há dificuldade para os
          revelarem. Bem, nesses nomes sagrados, o elemento "-ju" (cuja pronúncia,
          em Guarani, é algo que em português escreveríamos como "dju", por conta do
          caráter africado alveo-palatal sonoro da consoante), que em linguagem
          comum significa "amarelo", em linguagem religiosa tem o sentido de
          "resplandecente", o que equivale, também, a sagrado, próprio ou originado
          das divindades. Entre os Nhandeva-Guarani atuais da Aldeia Nimuendaju
          (antigo Posto Araribá), onde o próprio foi batizado, encontrei pessoas
          como Avá Ropodju, Kunhã Nimbokotyvydju, Rokwawydju , Nimoapendju,
          Niaryasaju, e vários outros.
          Por isso, aliás, discordo completamente da sugestão do Waldemar, que os
          nomes se interpretem ao gosto pessoal. Línguas tem, evidente, espaço para
          a indeterminação, mas também são regradas, e também estão inseridas em uma
          cultura, e é preciso conhecer a cultura para falar das línguas.
          Abraço
          Wilmar D'Angelis


          > Caros colegas,
          >
          > Aos conhecedores de Guarani, em geral, ou de Apapokuva, em particular, eu
          > ficaria grato se pudessem me esclarecer uma dúvida. Ao longo dos anos,
          > tenho lido e ouvido diferentes traduções para o nome 'Nimuendaju', dado
          > pelos Apapokuva ao grande pioneiro da etnologia (e lingüística)
          > brasileira, nascido Curt Unkel (1883-1945).
          >
          > As duas traduções mais comuns são 'aquele que faz o seu próprio caminho' e
          > (se me lembro bem; estou citando de memória) 'aquele que fez morada entre
          > nós'. Recentente, deparei com mais uma, em uma matéria da revista Ciência
          > Hoje: 'aquele que constrói sua própria casa' (de certa forma, uma
          > 'mistura' dos dois primeiros).
          >
          > Qual seria a tradução mais correta? Alguém poderia me explicar a
          > morfologia desta palavra?
          >
          > Desde já, muito obrigado.
          >
          > Cordialmente,
          >
          > Eduardo
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          Prof.Dr. Wilmar da Rocha D´Angelis
          Departamento de Lingüística
          Instituto de Estudos da Linguagem - IEL
          Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
        • wafnetto@usp.br
          Caro Wilmar, A sua interpretação do nome Nimuendaju é muito boa, a do Prof. Aryon também. Eu ainda apoiaria essa interpretação propondo que o ju
          Mensagem 4 de 5 , 29 de fev de 2004
            Caro Wilmar,
            A sua interpretação do nome "Nimuendaju" é muito boa, a do Prof. Aryon também.
            Eu ainda apoiaria essa interpretação propondo que o "ju" 'resplandecente' é
            tônico, tal como normalmente se pronuncia o nome do Nimuendaju, e o "ju" que eu
            propus é átono. De fato, você tem novamente razão quando afirma que se deve
            conhecer a cultura para compreender a língua. Justamente os nomes próprios têm
            suas histórias tanto lingüísticas quanto culturais. Como você mesmo diz, os
            nomes são sagrados e, portanto, devem ser interpretados pelo mesmo caminho. A
            segmentação deles talvez não seja apropriada, nem como "amarelo",
            "resplandescente" ou o que quer que seja, tônico ou átono. Talvez o ideal fosse
            sugerir que a consulta solicitada pelo Eduardo fosse encaminhada aos próprios
            autores desse nome.
            Waldemar

            Citando "Wilmar R. D'Angelis" <dangelis@...>:

            > Caro Eduardo
            >
            > acho que a resposta do Prof. Aryon é bastante precisa, mas acrescentaria
            > um dado etnográfico a respeito do sufixo "-ju". As comunidades Guarani
            > que, entre a primeira metade do século XIX e a primeira do século XX
            > partiram do Mato Grosso ou do Paraguai, em migrações messiânicas, rumo ao
            > mar, ainda que hoje sejam alinhadas no que tem-se chamado (desde Egon
            > Schaden), os "Nhandeva-Guarani", partilhavam, naquele momento, de muitos
            > elementos comuns a outros grupos, alguns dos quais hoje tomamos por
            > 'marca' dos Mbyá-Guarani (os mais "fundamentalistas" dos Guarani, alguém
            > já disse). Uma dessas coisas é a composição dos nomes pessoais. Tais nomes
            > são sagrados, e os Mbyá ainda hoje não os revelam aos nãó-índios, mas
            > junto aos "Nhandeva" que ainda os tenham, não há dificuldade para os
            > revelarem. Bem, nesses nomes sagrados, o elemento "-ju" (cuja pronúncia,
            > em Guarani, é algo que em português escreveríamos como "dju", por conta do
            > caráter africado alveo-palatal sonoro da consoante), que em linguagem
            > comum significa "amarelo", em linguagem religiosa tem o sentido de
            > "resplandecente", o que equivale, também, a sagrado, próprio ou originado
            > das divindades. Entre os Nhandeva-Guarani atuais da Aldeia Nimuendaju
            > (antigo Posto Araribá), onde o próprio foi batizado, encontrei pessoas
            > como Avá Ropodju, Kunhã Nimbokotyvydju, Rokwawydju , Nimoapendju,
            > Niaryasaju, e vários outros.
            > Por isso, aliás, discordo completamente da sugestão do Waldemar, que os
            > nomes se interpretem ao gosto pessoal. Línguas tem, evidente, espaço para
            > a indeterminação, mas também são regradas, e também estão inseridas em uma
            > cultura, e é preciso conhecer a cultura para falar das línguas.
            > Abraço
            > Wilmar D'Angelis
            >
            >
            > > Caros colegas,
            > >
            > > Aos conhecedores de Guarani, em geral, ou de Apapokuva, em particular, eu
            > > ficaria grato se pudessem me esclarecer uma dúvida. Ao longo dos anos,
            > > tenho lido e ouvido diferentes traduções para o nome 'Nimuendaju', dado
            > > pelos Apapokuva ao grande pioneiro da etnologia (e lingüística)
            > > brasileira, nascido Curt Unkel (1883-1945).
            > >
            > > As duas traduções mais comuns são 'aquele que faz o seu próprio caminho' e
            > > (se me lembro bem; estou citando de memória) 'aquele que fez morada entre
            > > nós'. Recentente, deparei com mais uma, em uma matéria da revista Ciência
            > > Hoje: 'aquele que constrói sua própria casa' (de certa forma, uma
            > > 'mistura' dos dois primeiros).
            > >
            > > Qual seria a tradução mais correta? Alguém poderia me explicar a
            > > morfologia desta palavra?
            > >
            > > Desde já, muito obrigado.
            > >
            > > Cordialmente,
            > >
            > > Eduardo
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