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Re: Contribuição Indígena para a cultura brasileira atual .

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  • Eduardo Rivail Ribeiro
    Prezado Beni, Excelente idéia esta, do documentário. Eis aqui alguns palpites. Em geral, as contribuições lingüísticas são boas pistas para se chegar a
    Mensagem 1 de 8 , 25 de out de 2009
    • 0 Anexo
      Prezado Beni,

      Excelente idéia esta, do documentário. Eis aqui alguns palpites. Em geral, as contribuições lingüísticas são boas pistas para se chegar a contribuições à cultura material e espiritual, porque, em geral, o uso de um nome indígena para um item ou uma prática cultural indica uma origem indígena para os mesmos (por exemplo, na culinária, o pirão, o mingau, a paçoca -- denominados por nomes indígenas -- são óbvias contribuições indígenas). Às vezes há surpresas interessantes -- como é o caso de 'quarar', discutido aqui antes, ou o da 'moqueca', que, apesar do nome indígena, é geralmente vista como uma contribuição africana. Porque, afinal, a Língua Geral acabou ultrapassando barreiras étnicas (sendo falada, por exemplo, no Triângulo Mineiro, por mestiços de Boróro e negros).

      Como a Língua Geral era a língua do povo, é natural que nos tenha legado denominações para itens do cotidiano que, em última instância, não são propriamente de origem indígena. Por exemplo, 'paqüera', que se refere a entranhas, miúdos (em geral, de porco ou bovino, animais de origem exótica); ou 'suã' (também de porco). Ou 'quirera', que se refere a fragmentos de grãos (qualquer um, incluindo os de origem exótica, como o arroz). Ou 'quarar' (roupas, afinal, não ocupavam muita importância entre os indígenas brasileiros).

      Os hábitos de higiene, como você menciona, são um bom exemplo de provável influência indígena. Sobre isto, uma fonte excelente é Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, Caminhos e Fronteiras, etc.), que contrasta bem o comportamento dos nascidos no Brasil, acostumados, como os índios, a banhos diários, e o de portugueses recém-chegados. Um caso anedótico, que ele menciona, é o de um alto funcionário português que fez a longa jornada de São Paulo a Cuiabá sem tomar um banho sequer, causando estranheza entre os paulistas que o acompanharam na viagem.

      Há, claro, contribuições gerais para uma cultura nacional -- caso de alguns dos itens culturais mencionados acima. Mas é necessário resistirmos à tentação de ver as contribuições indígenas como algo monolítico no país. Há certas culturas regionais que herdaram -- ou preservaram -- mais de nossos ancestrais indígenas. O caboclo amazônico e o caipira, por exemplo. A catira, ainda praticada por caipiras em Goiás, Minas etc., é de origem indígena. E há crenças relacionadas à vida cotidiana que são herdadas diretamente de nossos ancestrais indígenas. Esta é uma diferença essencial entre uma herança puramente econômica (caso do milho ou da abóbora, digamos, nos EUA) e uma herança cultural mais integral, em que práticas econômicas são imbuídas de um sistema de crenças. Entre os lavradores da minha região, por exemplo, há uma maneira "correta" de se arrancar a mandioca; se o sujeito gemer, prejudica a qualidade da raiz. É uma crença que talvez tenha vindo dos índios, que foram, afinal, os que nos ensinaram a plantar mandioca. Qualquer um pode plantar mandioca, claro; mas as crenças associadas ao plantio, isto em geral é o que se adquire de pai para filho, desde os índios até o caipira atual.

      Outra prática ainda usada entre os caipiras é a do mutirão, também de origem indígena (http://www.etnolinguistica.org/tupi:mutirao).
      E práticas como estas tendem a desaparecer, com a urbanização, a escolarização, etc. Portanto, tendem a ser melhor preservadas em ambientes rurais e relativamente isolados. Um fato interessante é que, na segunda metade do século XIX, os caipiras paulistas ainda preservavam muitas palavras da língua geral que seriam depois substituídas por palavras do português. Isto é relatado em uma passagem pouco conhecida do livro Viagem ao Araguaia, de Couto de Magalhães (que comentei em meu blog: http://tr.im/avati). Ao valorizarmos nossa herança indígena, devemos valorizar também o caipira, o caboclo, o sertanejo, que são, afinal, os que nos ancoram a nossas raízes.

      Meu penúltimo palpite diz respeito a um preconceito a ser evitado. É comum ouvir-se, em discussões sobre o Tupinambá, que teria sido "nossa língua original", "a língua de nossos ancestrais". Por mais que a intenção seja exatamente oposta (nacionalista e nativista), isto tem na verdade um viés colonialista. As línguas de nossos ancestrais eram centenas e a contribuição indígena para a formação genética e cultural do brasileiro provém de uma diversidade de povos. O caráter unificante da Língua Geral, que tanto favoreceu a colonização e, possivelmente, a unidade nacional, não deve obscurecer o papel de tantos povos indígenas, anônimos ou não, na construção da cultura brasileira. A ênfase exagerada no Tupinambá resulta numa injustiça para com os demais povos indígenas, muitos dos quais ainda sobrevivem entre nós. Basta ver quantas cidades evoluíram a partir de aldeias ou aldeamentos indígenas para perceber-se que nossos ancestrais indígenas não são necessariamente índios Tupí extintos há séculos. Um exemplo de estudo genético demonstrando isto, com relação aos Botocudos e seus descendentes em uma pequena cidade de Minas, pode ser acessado no seguinte endereço:

      http://www.etnolinguistica.org/media:jan2005

      Finalmente, há o que eu chamaria de "implantes culturais" -- aspectos do folclore dito "brasileiro" cuja ampla distribuição deve-se mais à mídia e aos velhos livros de Educação Moral e Cívica do que a uma herança cultural propriamente dita. Por mais que eu seja fã do Sítio do Pica-Pau Amarelo, sacis e boitatás nunca foram parte de meu universo cultural, por mais que meus livros escolares tentassem promovê-los como "cultura nacional". Claro que não são pura invenção -- devem ser, afinal, parte da cultura tradicional de algum lugar. Mas não da minha.

      Abraços,

      Eduardo

      --- Em etnolinguistica@..., "Beni Borja" <beni@...> escreveu
      >
      > Prezados,
      >
      > Estou escrevendo o roteiro para um documentário que versa sobre a contribuição indígena para a formação da cultura brasileira atual.
      >
      > Me interessaria muitíssimo ouvir de vocês suas opiniões gerais sobre o tema ,e especialmente coisas específicas que fazemos hoje cujas raízes são , ou podem ser, indígenas.
      >
      > Naturalmente, a contribuição linguística tem uma parte essencial nessa história que eu estou montando, mas além dela temos muitíssimos comportamentos sociais, de como comemos,bebemos,dançamos,nos asseamos etc... que tem óbvia contribuição indígena. Meu interesse é tanto comportamental, quanto factual.
      >
      > Compreendo a natureza científica desse grupo, e peço perdão antecipadamente pelo meu questionamento ser ligeiramente ¨off-topic¨, mas me pareceu que os integrantes desse grupo poderiam dar uma contribuição muito rica para esse meu projeto. Pediria a vocês que se despissem por um momento, do rigor científico e me falassem das suas experiências pessoais e das idéias que você tem sobre o tema ,mesmo que elas não tenham comprovação material.
      >
      > Como se trata de uma pesquisa para um roteiro em construção, preciso nesse momentos mais de pistas e questionamentos do que própriamente afirmações categóricas,
      >
      > Agradecendo desde já as contribuições ,
      >
      > um abraço,
      >
      > Beni Borja
      >
    • Rauly Sá e Silva
      Concordo com o Eduardo, acredito que se colocar o tupinambá como língua ancestral única é um erro. Nesse ponto, prefiro a língua geral que tinha um
      Mensagem 2 de 8 , 25 de out de 2009
      • 0 Anexo
        Concordo com o Eduardo, acredito que se colocar o tupinambá como língua ancestral única é um erro. Nesse ponto, prefiro a língua geral que tinha um caráter mais unificante, posto que eram muitas línguas, como hoje são. Mas acho interessante esse tema, eu pensei em fazer algo assim para a aula de cinema, mas não tinha recursos para que saísse algo bom... portanto, não fiz. Não sei se alguém já pensou nisso, talvez eu esteja entregando uma tese de mestrado ou doutorado de graça, mas, não seria o nosso modo de comer churrasco uma versão atual do ritual antropofágico? os hábitos são parecidos, apesar de ter sido esse hábito sumido na colonização (eu acredito, embora pareça pouco provável que um hábito central sumisse sem deixar vestígios...). Adoro churrasco, mas sempre que estou em um, me sinto como em páginas do hans standen. Não sei, maspode ser uma visão. 
        Abraços, Rauly Silva 
        --
        Mengo Hexa
        Kó îekuapaba pupé ereporomoaûîéne!

        Rauly Silva

      • fedviges
        Boa noite, como sugestãobibliográfica, O professor José Ribamar Bessa e maria Carlota Rosa aorganizaram um livro cujo �?título é Línguas gerais:
        Mensagem 3 de 8 , 25 de out de 2009
        • 0 Anexo

          Boa noite, como sugestãobibliográfica,
          O professor José Ribamar Bessa e maria Carlota Rosa aorganizaram um livro cujo �?título é Línguas gerais: Pilítica Linguística e catequse na America do Sul no Período Colonial, da Editora UERJ, Rio de Janeiro
          Francisco Edviges


          Em 25/10/2009 19:13, Eduardo Rivail Ribeiro < kariri@... > escreveu:


           

          Prezado Beni,

          Excelente idéia esta, do documentário. Eis aqui alguns palpites. Em geral, as contribuições ling�?ísticas são boas pistas para se chegar a contribuições à cultura material e espiritual, porque, em geral, o uso de um nome indígena para um item ou uma prática cultural indica uma origem indígena para os mesmos (por exemplo, na culinária, o pirão, o mingau, a paçoca -- denominados por nomes indígenas -- são óbvias contribuições indígenas). Às vezes há surpresas interessantes -- como é o caso de 'quarar', discutido aqui antes, ou o da 'moqueca', que, apesar do nome indígena, é geralmente vista como uma contribuição africana. Porque, afinal, a Língua Geral acabou ultrapassando barreiras étnicas (sendo falada, por exemplo, no Triângulo Mineiro, por mestiços de Boróro e negros).

          Como a Língua Geral era a língua do povo, é natural que nos tenha legado denominações para itens do cotidiano que, em última inst� �ncia, não são propriamente de origem indígena. Por exemplo, 'paq�?era', que se refere a entranhas, miúdos (em geral, de porco ou bovino, animais de origem exótica); ou 'suã' (também de porco). Ou 'quirera', que se refere a fragmentos de grãos (qualquer um, incluindo os de origem exótica, como o arroz). Ou 'quarar' (roupas, afinal, não ocupavam muita importância entre os indígenas brasileiros).

          Os hábitos de higiene, como você menciona, são um bom exemplo de provável influência indígena. Sobre isto, uma fonte excelente é Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, Caminhos e Fronteiras, etc.), que contrasta bem o comportamento dos nascidos no Brasil, acostumados, como os índios, a banhos diários, e o de portugueses recém-chegados. Um caso anedótico, que ele menciona, é o de um alto funcionário português que fez a longa jornada de São Paulo a Cuiabá sem tomar um banho sequer, causando estranheza entre os paulistas que o acompanharam n a viagem.

          Há, claro, contribuições gerais para uma cultura nacional -- caso de alguns dos itens culturais mencionados acima. Mas é necessário resistirmos à tentação de ver as contribuições indígenas como algo monolítico no país. Há certas culturas regionais que herdaram -- ou preservaram -- mais de nossos ancestrais indígenas. O caboclo amaz�?nico e o caipira, por exemplo. A catira, ainda praticada por caipiras em Goiás, Minas etc., é de origem indígena. E há crenças relacionadas à vida cotidiana que são herdadas diretamente de nossos ancestrais indígenas. Esta é uma diferença essencial entre uma herança puramente econ�?mica (caso do milho ou da abóbora, digamos, nos EUA) e uma herança cultural mais integral, em que práticas econ�?micas são imbuídas de um sistema de crenças. Entre os lavradores da minha região, por exemplo, há uma maneira "correta" de se arrancar a mandioca; se o sujeito gemer, prejudica a qualidade da raiz. É um a crença que talvez tenha vindo dos índios, que foram, afinal, os que nos ensinaram a plantar mandioca. Qualquer um pode plantar mandioca, claro; mas as crenças associadas ao plantio, isto em geral é o que se adquire de pai para filho, desde os índios até o caipira atual.

          Outra prática ainda usada entre os caipiras é a do mutirão, também de origem indígena (http://www.etnolinguistica.org/tupi:mutirao).
          E práticas como estas tendem a desaparecer, com a urbanização, a escolarização, etc. Portanto, tendem a ser melhor preservadas em ambientes rurais e relativamente isolados. Um fato interessante é que, na segunda metade do século XIX, os caipiras paulistas ainda preservavam muitas palavras da língua geral que seriam depois substituídas por palavras do português. Isto é relatado em uma passagem pouco conhecida do livro Viagem ao Araguaia, de Couto de Magalhães (que co mentei em meu blog: http://tr.im/avati). Ao valorizarmos nossa herança indígena, devemos valorizar também o caipira, o caboclo, o sertanejo, que são, afinal, os que nos ancoram a nossas raízes.

          Meu penúltimo palpite diz respeito a um preconceito a ser evitado. É comum ouvir-se, em discussões sobre o Tupinambá, que teria sido "nossa língua original", "a língua de nossos ancestrais". Por mais que a intenção seja exatamente oposta (nacionalista e nativista), isto tem na verdade um viés colonialista. As línguas de nossos ancestrais eram centenas e a contribuição indígena para a formação genética e cultural do brasileiro provém de uma diversidade de povos. O caráter unificante da Língua Geral, que tanto favoreceu a colonização e, possivelmente, a unidade nacional, não deve obscurecer o papel de tantos povos indígenas, an�?nimos ou não, na construção da cultura brasileira. A ênfase exagerad a no Tupinambá resulta numa injustiça para com os demais povos indígenas, muitos dos quais ainda sobrevivem entre nós. Basta ver quantas cidades evoluíram a partir de aldeias ou aldeamentos indígenas para perceber-se que nossos ancestrais indígenas não são necessariamente índios Tupí extintos há séculos. Um exemplo de estudo genético demonstrando isto, com relação aos Botocudos e seus descendentes em uma pequena cidade de Minas, pode ser acessado no seguinte endereço:

          http://www.etnolinguistica.org/media:jan2005

          Finalmente, há o que eu chamaria de "implantes culturais" -- aspectos do folclore dito "brasileiro" cuja ampla distribuição deve-se mais à mídia e aos velhos livros de Educação Moral e Cívica do que a uma herança cultural propriamente dita. Por mais que eu seja fã do Sítio do Pica-Pau Amarelo, sacis e boitatás nunca foram parte de meu universo cultural, por mais que meus livros escolares tentassem promovê-los como "cultura nacional". Claro que não são pura invenção -- devem ser, afinal, parte da cultura tradicional de algum lugar. Mas não da minha.

          Abraços,

          Eduardo

          --- Em etnolinguistica@..., "Beni Borja" escreveu
          >
          > Prezados,
          >
          > Estou escrevendo o roteiro para um documentário que versa sobre a contribuição indígena para a formação da cultura brasileira atual.
          >
          > Me interessaria muitíssimo ouvir de vocês suas opiniões gerais sobre o tema ,e especialmente coisas específicas que fazemos hoje cujas raízes são , ou podem ser, indígenas.
          >
          > Naturalmente, a contribuição linguística tem uma parte essencial nessa história que eu estou montando, mas além dela temos muitíssimos comportamentos sociais, de como comemos,bebemos,dançamos,nos asseamos etc... que tem óbvia contribuição indígena. Meu interesse é tanto comportamental, quanto factual.
          >
          > Compreendo a natureza científica desse grupo, e peço perdão antecipadamente pelo meu questionamento ser ligeiramente �?off-topic�?, mas me pareceu que os integrantes desse grupo poderiam dar uma contribuição muito rica para esse meu projeto. Pediria a vocês que se despissem por um momento, do rigor científico e me falassem das suas experiências pessoais e das idéias que você tem sobre o tema ,mesmo que elas não tenham comprovação material.
          >
          > Como se trata de uma pesquisa para um roteiro em construção, preciso nesse momentos mais de pistas e questionamentos do que própriamente afirmações categóricas,
          >
          > Agradecendo desde já as contribuições ,
          >
          > um abraço,
          >
          > Beni Borja
          >


        • Eduardo Rivail Ribeiro
          Caro Rauly, Atividades combinando boi e espeto (e muito sangue) são bem ao gosto ibérico. Nada indígena aí. Além do quê, nem tudo em Staden merece
          Mensagem 4 de 8 , 25 de out de 2009
          • 0 Anexo
            Caro Rauly,

            Atividades combinando boi e espeto (e muito sangue) são bem ao gosto ibérico. Nada indígena aí. Além do quê, nem tudo em Staden merece credibilidade absoluta. Se, nos desenhos publicados por ele, o antropofagismo é retratado como algo grotesco, sanguinolento, é porque ele, como homem de sua época, o achava grotesco.

            Mas podemos continuar esta discussão fora da lista, se te interessa.

            Abraços,

            Eduardo

            --- Em etnolinguistica@..., Rauly Sá e Silva <brasileiroresoluto@...> escreveu
            >
            > Concordo com o Eduardo, acredito que se colocar o tupinambá como língua
            > ancestral única é um erro. Nesse ponto, prefiro a língua geral que tinha um
            > caráter mais unificante, posto que eram muitas línguas, como hoje são. Mas
            > acho interessante esse tema, eu pensei em fazer algo assim para a aula de
            > cinema, mas não tinha recursos para que saísse algo bom... portanto, não
            > fiz. Não sei se alguém já pensou nisso, talvez eu esteja entregando uma tese
            > de mestrado ou doutorado de graça, mas, não seria o nosso modo de comer
            > churrasco uma versão atual do ritual antropofágico? os hábitos são
            > parecidos, apesar de ter sido esse hábito sumido na colonização (eu
            > acredito, embora pareça pouco provável que um hábito central sumisse sem
            > deixar vestígios...). Adoro churrasco, mas sempre que estou em um, me sinto
            > como em páginas do hans standen. Não sei, maspode ser uma visão.
            > Abraços, Rauly Silva
            > --
            > Mengo Hexa
            > Kó îekuapaba pupé ereporomoaûîéne!
            >
            > Rauly Silva
            >
          • Jefferson Garcia
            Olá Beni,   ótima ideia o seu projeto.   Gostaria de sugerir algo para o seu roteiro caso veja importância na abordagem.   Sendo breve, na última semana
            Mensagem 5 de 8 , 26 de out de 2009
            • 0 Anexo
              Olá Beni,
               
              ótima ideia o seu projeto.
               
              Gostaria de sugerir algo para o seu roteiro caso veja importância na abordagem.
               
              Sendo breve, na última semana tive a oportunidade de apresentar um seminário sobre a "História e o livro didático" na Universidade Federal do Espírito Santo, e o tema de um dos capítulos de um livro que também utilizei pensei que fosse também de seu interesse.
               
               
              O capitulo 13, Imagens de índios e livros didáticos: uma reflexão sobre representações, sujeitos e cidadania. Por Eunícia Barros Barcelos Fernandes no livro de Rocha, H.A.B. Reznik, L. Magalhães, M.S. (orgs.) A História na Escola: autores, livros e leituras. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2009. p. 281-320.
               
              Dentre outras discussões sobre o ensino de história, o que interessa lhe informar é acerca dos esteriótipos sobre os índios construídos pelos brasileiros no decorrer dos séculos. Uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2000 mostrou que aproximadamente 80% a 90% (se não me engano) dos brasileiros tem visões esteriotipadas dos indígenas. A autora do capítulo questiona se essa visão não foi também uma contribuição dos livros didáticos, ou seja, a escola foi o próprio local em que as crianças não conheceram quem são os índios ou conheceram-nos de forma equivocada, "assimilada" a um etnocentrismo muito comum nas escolas, e mesmo aqueles que não a frenquentaram e não tiveram contato direto com índios ou seu descendente, possuem uma ideia por vezes esteriotipada produzida pelo senso comum.
               
              Alguns exemplos dessa "mentalidade" acerca dos índios seriam as ideias de
              singularidade = o índio e não os índios, neglicenciando a existência de uma multiplicidade étnica (Tupinambá, Tupiniquim, Tamoio, Carajá, etc...)
              pretérito e coadjuvante = sempre no passado e coadjuvante passivo da construção da identidade e história do Brasil
              selvagem = o índio só é índio se estiver nu no meio da mata e é o oposto da civilidade, necessita evoluir, é o canibal pagão,
               
              Estes e outros exemplos como a errônea ideia do índio preguiçoso, não querem indicar que as pessoas "civilizadas" que possuam essa "mentalidade" não sejam a favor dos índios. A autora do capítulo em questão leu em um jornal a opinião de um leitor que abordando sobre a demarcação das terras indígenas foi defensor ferrenho das áreas para os "nativos", porém, teve argumentos deturpados por um senso comum sobre os índios, que possivelmente foi adquirido, ou não foi corrigido na escola, local de um saber científico. Afinal, um leitor do Estado de São Paulo que tem um artigo publicado na coluna dedicada aos leitores (somente um artigo por semana) tem um grau de instrução no mínimo satisfatório no que tange às normas gramaticais, o que indica ser um adulto que tenha concluído no mínimo o ensino Médio, quiçá Superior.
               
              O que eu gostaria de contribuir, uma vez que sua intenção é abordar a contribuição indígena para a cultura brasileira atual, é justamente as interpretações, que por vezes são até pejorativas, e a falsa imagem na qual o "branco civilizado" criou do índio, a ponto de não reconhecer um índio a não ser que esteja nu e na selva, portando um arco e flecha e falando sua língua nativa, além de ignorar todo o universo idiossincrático das várias tribos indígenas sobre nossas representações culturais.
               
              Creio que minha sugestão partiria das perguntas: como o brasileiro vê o índio e a sua contribuição? Será que faz jus à contribuição dos índios? Como o próprio colega da lista  Eduardo exemplificou os mitos do saci e do boitatá representados a la Monteiro Lobato. Realmente fazem parte da cultura indígena (e daquela forma? em qual região?) ou foi algo construído socialmente e historicamente pelo "branco" para alegar uma ancestralidade indígena em nosso sangue?
               
              Espero ter contribuído com algo, mesmo que seja a partir da dúvida. Afinal, são dos problemas que surgem as grandes idéias.
               
              Desejo-lhe um bom trabalho.
              Jefferson.

              --- Em qua, 21/10/09, Beni Borja <beni@...> escreveu:


              De: Beni Borja <beni@...>
              Assunto: [etnolinguistica] Contribuição Indígena para a cultura brasileira atual .
              Para: etnolinguistica@...
              Data: Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009, 15:01


               




              Prezados,
               
              Estou escrevendo o roteiro para um documentário que versa sobre a contribuição indígena para a formação da cultura brasileira atual.
               
              Me interessaria muitíssimo ouvir de vocês suas opiniões gerais sobre o tema ,e especialmente coisas específicas que fazemos hoje cujas raízes são , ou podem ser, indígenas.
               
              Naturalmente, a contribuição linguística tem uma parte essencial nessa história que eu estou montando, mas além dela temos muitíssimos comportamentos sociais, de como comemos,bebemos, dançamos,nos asseamos  etc... que tem óbvia contribuição indígena.  Meu interesse é tanto comportamental, quanto factual.
               
              Compreendo a natureza científica desse grupo, e peço perdão antecipadamente pelo meu questionamento ser ligeiramente ¨off-topic¨, mas me pareceu que os integrantes desse grupo poderiam dar uma contribuição muito rica para esse meu projeto.  Pediria a vocês que se despissem por um momento, do rigor científico e me falassem das suas experiências pessoais e das idéias que você tem sobre o tema ,mesmo que elas não tenham comprovação material.
               
              Como se trata de uma pesquisa para um roteiro em construção, preciso nesse momentos mais de pistas e questionamentos do que própriamente afirmações categóricas,
               
              Agradecendo desde já as contribuições ,
               
              um abraço,
               
              Beni Borja 
               
               
               
                 















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              Veja quais são os assuntos do momento no Yahoo! +Buscados
              http://br.maisbuscados.yahoo.com
            • Helder Ferreira
              Olá todos, Pelo que mencionou Jefferson, eu me pergunto se essa idéia de contribuição indígena para a cultura brasileira atual não esconde um aspecto
              Mensagem 6 de 8 , 26 de out de 2009
              • 0 Anexo
                Olá todos,

                Pelo que mencionou Jefferson, eu me pergunto se essa idéia de "contribuição indígena para a cultura brasileira atual" não esconde um aspecto tenebroso de esta cultura, quer dizer, essa idéia que o Brasil nasceu no cadinho em que diversas culturas originais se mesclaram para formar  uma coisa nova. Isso é um remédio paliativo que não deixa explícito os séculos de intolerância à cultura indígena e o genocídio que significou a expansão da cultura européia pelas Américas. O Brasil é feio nesse sentido. Os povos indígenas que existem hoje no Brasil, existem apesar do Brasil. Dizer que os povos indígenas "contribuíram" ao Brasil é um eufemismo grosseiro, é como dizer que os judeus contribuíram para a cultura nazi. E por outro lado, é muito injusto com as culturas indígenas afirmar que esse Brasil destruidor e injusto é o que é por algum elemento de sua cultura. O Brasil não soube aproveitar nada dos conhecimentos indígenas sobre o mundo, natureza e sociedade. Beiju, cauim? Saci, Boitatá? Tudo isso até pode fazer de um folclore longínquo e inofensivo, mas não é cultura brasileira no sentido de um elemento verdadeiramente vivo de um povo. Resta ao povo brasileiro essa miragem de que é uma mistura de raças que contribuíram de maneira equilibrada para a formação de sua sociedade. Essa miragem que apazigua o coração e faz com que nos esqueçamos daquela intolerancia e que não vejamos adequadamente como foram e são as relações entre a sociedade nacional e as sociedades indígenas (vide tudo: Tucuruí, Transamazónica, Projeto Calha Norte, Projeto de Mineração em Terras Indígenas, a intolerância das secretarias de educação a uma educação indígena verdadeiramente diferenciada e tudo mais que permeia as relações povos indígenas e Brasil). O Brasil não é indígena ainda que queiramos que o fora.

                Saudações a todos,

                Helder

                --- Em seg, 26/10/09, Jefferson Garcia <jeffergar@...> escreveu:

                De: Jefferson Garcia <jeffergar@...>
                Assunto: Re: [etnolinguistica] Contribuição Indígena para a cultura brasileira atual .
                Para: etnolinguistica@...
                Data: Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009, 5:29

                 

                Olá Beni,
                 
                ótima ideia o seu projeto.
                 
                Gostaria de sugerir algo para o seu roteiro caso veja importância na abordagem.
                 
                Sendo breve, na última semana tive a oportunidade de apresentar um seminário sobre a "História e o livro didático" na Universidade Federal do Espírito Santo, e o tema de um dos capítulos de um livro que também utilizei pensei que fosse também de seu interesse.
                 
                 
                O capitulo 13, Imagens de índios e livros didáticos: uma reflexão sobre representações, sujeitos e cidadania. Por Eunícia Barros Barcelos Fernandes no livro de Rocha, H.A.B. Reznik, L. Magalhães, M.S. (orgs.) A História na Escola: autores, livros e leituras. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2009. p. 281-320.
                 
                Dentre outras discussões sobre o ensino de história, o que interessa lhe informar é acerca dos esteriótipos sobre os índios construídos pelos brasileiros no decorrer dos séculos. Uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2000 mostrou que aproximadamente 80% a 90% (se não me engano) dos brasileiros tem visões esteriotipadas dos indígenas. A autora do capítulo questiona se essa visão não foi também uma contribuição dos livros didáticos, ou seja, a escola foi o próprio local em que as crianças não conheceram quem são os índios ou conheceram-nos de forma equivocada, "assimilada" a um etnocentrismo muito comum nas escolas, e mesmo aqueles que não a frenquentaram e não tiveram contato direto com índios ou seu descendente, possuem uma ideia por vezes esteriotipada produzida pelo senso comum.
                 
                Alguns exemplos dessa "mentalidade" acerca dos índios seriam as ideias de
                singularidade = o índio e não os índios, neglicenciando a existência de uma multiplicidade étnica (Tupinambá, Tupiniquim, Tamoio, Carajá, etc...)
                pretérito e coadjuvante = sempre no passado e coadjuvante passivo da construção da identidade e história do Brasil
                selvagem = o índio só é índio se estiver nu no meio da mata e é o oposto da civilidade, necessita evoluir, é o canibal pagão,
                 
                Estes e outros exemplos como a errônea ideia do índio preguiçoso, não querem indicar que as pessoas "civilizadas" que possuam essa "mentalidade" não sejam a favor dos índios. A autora do capítulo em questão leu em um jornal a opinião de um leitor que abordando sobre a demarcação das terras indígenas foi defensor ferrenho das áreas para os "nativos", porém, teve argumentos deturpados por um senso comum sobre os índios, que possivelmente foi adquirido, ou não foi corrigido na escola, local de um saber científico. Afinal, um leitor do Estado de São Paulo que tem um artigo publicado na coluna dedicada aos leitores (somente um artigo por semana) tem um grau de instrução no mínimo satisfatório no que tange às normas gramaticais, o que indica ser um adulto que tenha concluído no mínimo o ensino Médio, quiçá Superior.
                 
                O que eu gostaria de contribuir, uma vez que sua intenção é abordar a contribuição indígena para a cultura brasileira atual, é justamente as interpretações, que por vezes são até pejorativas, e a falsa imagem na qual o "branco civilizado" criou do índio, a ponto de não reconhecer um índio a não ser que esteja nu e na selva, portando um arco e flecha e falando sua língua nativa, além de ignorar todo o universo idiossincrático das várias tribos indígenas sobre nossas representações culturais.
                 
                Creio que minha sugestão partiria das perguntas: como o brasileiro vê o índio e a sua contribuição? Será que faz jus à contribuição dos índios? Como o próprio colega da lista  Eduardo exemplificou os mitos do saci e do boitatá representados a la Monteiro Lobato. Realmente fazem parte da cultura indígena (e daquela forma? em qual região?) ou foi algo construído socialmente e historicamente pelo "branco" para alegar uma ancestralidade indígena em nosso sangue?
                 
                Espero ter contribuído com algo, mesmo que seja a partir da dúvida. Afinal, são dos problemas que surgem as grandes idéias.
                 
                Desejo-lhe um bom trabalho.
                Jefferson.

                --- Em qua, 21/10/09, Beni Borja <beni@psicotronica. com.br> escreveu:

                De: Beni Borja <beni@psicotronica. com.br>
                Assunto: [etnolinguistica] Contribuição Indígena para a cultura brasileira atual .
                Para: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br
                Data: Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009, 15:01

                 

                Prezados,
                 
                Estou escrevendo o roteiro para um documentário que versa sobre a contribuição indígena para a formação da cultura brasileira atual.
                 
                Me interessaria muitíssimo ouvir de vocês suas opiniões gerais sobre o tema ,e especialmente coisas específicas que fazemos hoje cujas raízes são , ou podem ser, indígenas.
                 
                Naturalmente, a contribuição linguística tem uma parte essencial nessa história que eu estou montando, mas além dela temos muitíssimos comportamentos sociais, de como comemos,bebemos, dançamos,nos asseamos  etc... que tem óbvia contribuição indígena.  Meu interesse é tanto comportamental, quanto factual.
                 
                Compreendo a natureza científica desse grupo, e peço perdão antecipadamente pelo meu questionamento ser ligeiramente ¨off-topic¨, mas me pareceu que os integrantes desse grupo poderiam dar uma contribuição muito rica para esse meu projeto.  Pediria a vocês que se despissem por um momento, do rigor científico e me falassem das suas experiências pessoais e das idéias que você tem sobre o tema ,mesmo que elas não tenham comprovação material.
                 
                Como se trata de uma pesquisa para um roteiro em construção, preciso nesse momentos mais de pistas e questionamentos do que própriamente afirmações categóricas,
                 
                Agradecendo desde já as contribuições ,
                 
                um abraço,
                 
                Beni Borja 
                 
                 
                 
                   

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              • Eduardo Rivail Ribeiro
                Prezado Helder, O Brasil nasceu no cadinho em que diversas culturas originais se mesclaram para formar uma coisa nova , sim. Agora, se todas estas culturas
                Mensagem 7 de 8 , 26 de out de 2009
                • 0 Anexo
                  Prezado Helder,

                  O "Brasil nasceu no cadinho em que diversas culturas originais se mesclaram para formar uma coisa nova", sim. Agora, se todas estas culturas participaram de livre e espontânea vontade, é o que se pode discutir. Na história da humanidade, TODA mescla de culturas implica, de certa forma, contatos indesejados ou indesejáveis. Os gauleses não pediram pra ser invadidos pelos romanos; os egípcios não pediram para ser invadidos pelos árabes e convertidos ao islã. Etc., etc. Achar que o Brasil -- ou a América Latina -- é uma exceção é ingênuo (se não for má vontade).

                  Uma diferença enorme entre o Brasil e, digamos, os EUA, é aquela entre extermínio e assimilação. Houve massacres, muitos, no Brasil. Mas muito do elemento indígena sobrevive hoje, nos genes de grande parte do povo brasileiro (ao contrário do que se vê nos EUA). Negar isto é que é, de fato, uma injustiça para com nossos ancestrais indígenas. Em uma conferência em Belém, aprendi que o DNA mitocondrial da população daquela metrópole amazônica é 90 porcento indígena. Você diria que todos aqueles descendentes de índios não são legítimos herdeiros das populações originais? Porque seus ancestrais cometeram o "terrível engano" de miscigenar-se?

                  Como mestiço de português, índio e negro, este seu niilismo me soa mais ofensivo do que qualquer ufanismo nacionalista. É baseado na concepção -- preconceituosa, sem dúvida -- de que os índios participaram do processo histórico passivamente, "coitadinhos". Houve -- e há -- injustiças, sim (contra brancos pobres, índios e negros). Mas uma das maiores delas é cometida, ironicamente, por indivíduos "politicamente corretos" que se arvoram em defensores de índio e se recusam a ver o índio como agente da história. Um pouco de perspectiva histórica te ajudaria muito.

                  Esta imagem do índio "em harmonia com a natureza", "tolerante para com as diferenças" é mais desumanizante do que aqueles desenhos coloniais que mostram índios com os pés voltados pra trás. Os índios são seres políticos, como qualquer outra cultura: faziam alianças entre si ou com os europeus, quando lhes parecia conveniente.

                  Quando eu falo em herança, não falo em apropriação do alheio. É algo hereditário, que os meus ancestrais indígenas me passaram, geração a geração. Então, considero legítimo, sim, falar em contribuições indígenas para a MINHA cultura brasileira; se não houve contribuições para a SUA, sinto muito. A menos que você seja purista e ache que, ao se misturar, o índio deixa de ser índio. E purismo (que, felizmente, os portugueses não tinham tanto), neste caso, é o que levou os nazistas a fazerem o que fizeram.

                  Até,

                  Eduardo

                  --- Em etnolinguistica@..., Helder Ferreira <helderperri@...> escreveu
                  >
                  > Olá todos,
                  > Pelo que mencionou Jefferson, eu me pergunto se essa idéia de "contribuição indígena para a cultura brasileira atual" não esconde um aspecto tenebroso de esta cultura, quer dizer, essa idéia que o Brasil nasceu no cadinho em que diversas culturas originais se mesclaram para formar  uma coisa nova. Isso é um remédio paliativo que não deixa explícito os séculos de intolerância à cultura indígena e o genocídio que significou a expansão da cultura européia pelas Américas. O Brasil é feio nesse sentido. Os povos indígenas que existem hoje no Brasil, existem apesar do Brasil. Dizer que os povos indígenas "contribuíram" ao Brasil é um eufemismo grosseiro, é como dizer que os judeus contribuíram para a cultura nazi. E por outro lado, é muito injusto com as culturas indígenas afirmar que esse Brasil destruidor e injusto é o que é por algum elemento de sua cultura. O Brasil não soube aproveitar nada dos conhecimentos indígenas sobre
                  > o mundo, natureza e sociedade. Beiju, cauim? Saci, Boitatá? Tudo isso até pode fazer de um folclore longínquo e inofensivo, mas não é cultura brasileira no sentido de um elemento verdadeiramente vivo de um povo. Resta ao povo brasileiro essa miragem de que é uma mistura de raças que contribuíram de maneira equilibrada para a formação de sua sociedade. Essa miragem que apazigua o coração e faz com que nos esqueçamos daquela intolerancia e que não vejamos adequadamente como foram e são as relações entre a sociedade nacional e as sociedades indígenas (vide tudo: Tucuruí, Transamazónica, Projeto Calha Norte, Projeto de Mineração em Terras Indígenas, a intolerância das secretarias de educação a uma educação indígena verdadeiramente diferenciada e tudo mais que permeia as relações povos indígenas e Brasil). O Brasil não é indígena ainda que queiramos que o fora.
                  > Saudações a todos,
                  > Helder
                  >
                  > --- Em seg, 26/10/09, Jefferson Garcia <jeffergar@...> escreveu:
                  >
                  > De: Jefferson Garcia <jeffergar@...>
                  > Assunto: Re: [etnolinguistica] Contribuição Indígena para a cultura brasileira atual .
                  > Para: etnolinguistica@...
                  > Data: Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009, 5:29
                  >
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                  > Olá Beni,
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                  >  
                  >
                  > ótima ideia o seu projeto.
                  >
                  >  
                  >
                  > Gostaria de sugerir algo para o seu roteiro caso veja importância na abordagem.
                  >
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                  > Sendo breve, na última semana tive a oportunidade de apresentar um seminário sobre a "História e o livro didático" na Universidade Federal do Espírito Santo, e o tema de um dos capítulos de um livro que também utilizei pensei que fosse também de seu interesse.
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                  > O capitulo 13, Imagens de índios e livros didáticos: uma reflexão sobre representações, sujeitos e cidadania. Por Eunícia Barros Barcelos Fernandes no livro de Rocha, H.A.B. Reznik, L. Magalhães, M.S. (orgs.) A História na Escola: autores, livros e leituras. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2009. p. 281-320.
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                  > Dentre outras discussões sobre o ensino de história, o que interessa lhe informar é acerca dos esteriótipos sobre os índios construídos pelos brasileiros no decorrer dos séculos. Uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2000 mostrou que aproximadamente 80% a 90% (se não me engano) dos brasileiros tem visões esteriotipadas dos indígenas. A autora do capítulo questiona se essa visão não foi também uma contribuição dos livros didáticos, ou seja, a escola foi o próprio local em que as crianças não conheceram quem são os índios ou conheceram-nos de forma equivocada, "assimilada" a um etnocentrismo muito comum nas escolas, e mesmo aqueles que não a frenquentaram e não tiveram contato direto com índios ou seu descendente, possuem uma ideia por vezes esteriotipada produzida pelo senso comum.
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                  > Alguns exemplos dessa "mentalidade" acerca dos índios seriam as ideias de
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                  > singularidade = o índio e não os índios, neglicenciando a existência de uma multiplicidade étnica (Tupinambá, Tupiniquim, Tamoio, Carajá, etc...)
                  >
                  > pretérito e coadjuvante = sempre no passado e coadjuvante passivo da construção da identidade e história do Brasil
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                  > selvagem = o índio só é índio se estiver nu no meio da mata e é o oposto da civilidade, necessita evoluir, é o canibal pagão,
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                  > Estes e outros exemplos como a errônea ideia do índio preguiçoso, não querem indicar que as pessoas "civilizadas" que possuam essa "mentalidade" não sejam a favor dos índios. A autora do capítulo em questão leu em um jornal a opinião de um leitor que abordando sobre a demarcação das terras indígenas foi defensor ferrenho das áreas para os "nativos", porém, teve argumentos deturpados por um senso comum sobre os índios, que possivelmente foi adquirido, ou não foi corrigido na escola, local de um saber científico. Afinal, um leitor do Estado de São Paulo que tem um artigo publicado na coluna dedicada aos leitores (somente um artigo por semana) tem um grau de instrução no mínimo satisfatório no que tange às normas gramaticais, o que indica ser um adulto que tenha concluído no mínimo o ensino Médio, quiçá Superior.
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                  > O que eu gostaria de contribuir, uma vez que sua intenção é abordar a contribuição indígena para a cultura brasileira atual, é justamente as interpretações, que por vezes são até pejorativas, e a falsa imagem na qual o "branco civilizado" criou do índio, a ponto de não reconhecer um índio a não ser que esteja nu e na selva, portando um arco e flecha e falando sua língua nativa, além de ignorar todo o universo idiossincrático das várias tribos indígenas sobre nossas representações culturais.
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                  > Creio que minha sugestão partiria das perguntas: como o brasileiro vê o índio e a sua contribuição? Será que faz jus à contribuição dos índios? Como o próprio colega da lista  Eduardo exemplificou os mitos do saci e do boitatá representados a la Monteiro Lobato. Realmente fazem parte da cultura indígena (e daquela forma? em qual região?) ou foi algo construído socialmente e historicamente pelo "branco" para alegar uma ancestralidade indígena em nosso sangue?
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                  > Espero ter contribuído com algo, mesmo que seja a partir da dúvida. Afinal, são dos problemas que surgem as grandes idéias.
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                  > --- Em qua, 21/10/09, Beni Borja <beni@psicotronica. com.br> escreveu:
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                  > De: Beni Borja <beni@psicotronica. com.br>
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                  > Assunto: [etnolinguistica] Contribuição Indígena para a cultura brasileira atual .
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                  > Para: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br
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                  > Data: Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009, 15:01
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                  > Estou escrevendo o roteiro para um documentário que versa sobre a contribuição indígena para a formação da cultura brasileira atual.
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                  > Me interessaria muitíssimo ouvir de vocês suas opiniões gerais sobre o tema ,e especialmente coisas específicas que fazemos hoje cujas raízes são , ou podem ser, indígenas.
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                  > Naturalmente, a contribuição linguística tem uma parte essencial nessa história que eu estou montando, mas além dela temos muitíssimos comportamentos sociais, de como comemos,bebemos, dançamos,nos asseamos  etc... que tem óbvia contribuição indígena.  Meu interesse é tanto comportamental, quanto factual.
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                  > Compreendo a natureza científica desse grupo, e peço perdão antecipadamente pelo meu questionamento ser ligeiramente ¨off-topic¨, mas me pareceu que os integrantes desse grupo poderiam dar uma contribuição muito rica para esse meu projeto.  Pediria a vocês que se despissem por um momento, do rigor científico e me falassem das suas experiências pessoais e das idéias que você tem sobre o tema ,mesmo que elas não tenham comprovação material.
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                  > Como se trata de uma pesquisa para um roteiro em construção, preciso nesse momentos mais de pistas e questionamentos do que própriamente afirmações categóricas,
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                  > Agradecendo desde já as contribuições ,
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                  > um abraço,
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                  > Beni Borja 
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                  > Veja quais são os assuntos do momento no Yahoo! +Buscados
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                  > http://br.maisbusca dos.yahoo. com
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