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Re: [etnolinguistica] 'Verão' em Kaingáng e Laklãnõ

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  • Wilmar R. D'Angelis
    Eduardo a melhor razão para fazer conexão entre prÿg = verão, e prÿg = fome, miséria, parece ser o fato de que no próprio dicionário de Wiesemann
    Mensagem 1 de 3 , 10 de out de 2007
      Eduardo

      a melhor razão para fazer conexão entre "prÿg" = verão, e "prÿg" = fome,
      miséria, parece ser o fato de que no próprio dicionário de Wiesemann
      aparecem, um após o outro, "prÿg" = "ano" e "prÿg" = "fome, miséria" (com
      um exemplo: "Quando não tem comida chamamos de 'prÿg'").
      Ao que tudo indica, "prÿg" não significou "verão" para os Kaingang, mesmo
      no passado, mas a estação "depois do inverno".
      O que é preciso entender, pois, é porque esse termo passou a significar
      "ano", e em que sentido mais preciso.
      De fato, "prÿg" é o tempo da fome porque é o período em que, após o
      inverno (nas terras Kaingang do Sul isso se dá a partir de alguma altura
      de agosto ou início de setembro, conforme o ano) não se tem mais pinhões e
      não se tem nenhum produto plantado (as roças Kaingang eram milho, feijão e
      morangas/abóboras, que não se podem plantar senão quando o perigo das
      geadas já passou; portanto, plantam apenas a partir de setembro, e vão
      poder colher apenas de dezembro em diante).
      Assim, "prÿg", como estação, é a pré-primavera, mas também não corresponde
      ao inverno.
      Os sinais do "prÿg" são justamente o reinício das "atividades" dos
      micro-organismos, na terra (eles vêem isso por uns certos insetos ou
      corozinhos, no chão). Isso marca, então, o "início de um novo ano", de
      modo que dizer "ano", para os Kaingang, com o termo "prÿg", significava,
      no passado, dizer algo como "ano novo" no nosso calendário. Com a
      diferença que, no nosso calendário, essa data não tem significado
      relacionado ao ciclo da terra ou agrícola, mas para eles tinha. Hoje, os
      modernos Kaingang usam "prÿg" com sentido praticamente semelhante ao nosso
      de "ano" (pode ser falar, então, em "2007 prÿg" ).
      Não é demais lembrar que isso que estou dizendo não está nos dicionários,
      e boa parte da geração Kaingang mais jovem desconhece.

      Wilmar D'Angelis


      > Prezados colegas,
      >
      > Àqueles que se especializam nas línguas Jê do Sul (Kaingáng e Laklãnõ),
      > peço
      > que me ajudem a esclarecer uma dúvida. Nas fontes de que disponho
      > (dicionário de Wiesemann, para o Kaingáng; dissertação de Bublitz (1994),
      > para o Laklãnõ), a raiz prÿg/plõm é traduzida como "verão". Tenho razões
      > para crer que esta raiz é reflexo de Proto-Jê *prãm 'fome' (na minha
      > reconstrução) e que a conexão semântica pode, inclusive, ser corroborada
      > por
      > dados etnográficos.
      >
      > Mas, como "verão" e "inverno" podem significar coisas muito diferentes em
      > diferentes partes do país (e até mesmo dentro do mesmo dialeto), gostaria
      > de
      > saber qual o significado mais preciso do termo Kaingáng/Laklãnõ mencionado
      > acima. Mais precisamente, a que parte do ano se refere? Seria uma estação
      > seca ou chuvosa? Para aqueles que ficaram curiosos quanto às razões para
      > minhas perguntas, sugiro uma visita a meu blog (
      > http://kawina.wordpress.com/2007/10/09/the-season-of-hunger-a-note-on-historical-semantics/
      > ).
      >
      > Desde já, muito obrigado.
      >
      > Atenciosamente,
      >
      > Eduardo
      >
      > --
      > http://kawina.wordpress.com
      >


      --
      Wilmar R. D'Angelis
      Professor Doutor - Depto de Lingüística
      Instituto de Estudos da Linguagem - IEL
      UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas)
      Estado de São Paulo - Brasil
    • Eduardo Ribeiro
      Prezado Wilmar, Muitíssimo obrigado por suas informações. Eu devo ter me confundido quanto à tradução verão em Kaingáng (que agora não encontro em
      Mensagem 2 de 3 , 10 de out de 2007
        Prezado Wilmar,

        Muitíssimo obrigado por suas informações.  Eu devo ter me confundido quanto à tradução "verão" em Kaingáng (que agora não encontro em nenhuma das minhas fontes); devo ter me influenciado pelos dados do Xokléng.  Mas, o que me interessava aqui eram as circunstâncias em que PJê 'fome' veio a referir-se a uma época específica do ano em Jê do Sul -- e você me esclareceu isto com maestria. Pergunto-me se as épocas compreendidas pelos termos Kaingáng e Xokléng seriam as mesmas.  Isto, talvez, ajudaria a determinar se tal mudança semântica teria se dado já em Proto-Jê Meridional.

        Quanto à extensão do nome de uma época do ano para referir-se a "ano", a sua explicação é mais do que satisfatória para mim -- e demonstra, mais uma vez, a importância de se conhecer a cultura para se conhecer bem a língua.  Mas talvez seja interessante notar que isto é algo comum.  Em Karajá, por exemplo, pergunta-se tiwesebo abeòra? (lit. 'quantas (são) suas estações chuvosas?") ou tiwesebo awyra (lit. 'quantas (são) suas estações secas?'), ao indagar-se a idade de uma pessoa. E, em português, fala-de de "primaveras" e -- por falar em língua e cultura -- "carnavais".

        Mais uma vez, muito obrigado.

        Atenciosamente,

        Eduardo


        On 10/10/07, Wilmar R. D'Angelis < dangelis@...> wrote:

        Eduardo

        a melhor razão para fazer conexão entre "prÿg" = verão, e "prÿg" = fome,
        miséria, parece ser o fato de que no próprio dicionário de Wiesemann
        aparecem, um após o outro, "prÿg" = "ano" e "prÿg" = "fome, miséria" (com
        um exemplo: "Quando não tem comida chamamos de 'prÿg'").
        Ao que tudo indica, "prÿg" não significou "verão" para os Kaingang, mesmo
        no passado, mas a estação "depois do inverno".
        O que é preciso entender, pois, é porque esse termo passou a significar
        "ano", e em que sentido mais preciso.
        De fato, "prÿg" é o tempo da fome porque é o período em que, após o
        inverno (nas terras Kaingang do Sul isso se dá a partir de alguma altura
        de agosto ou início de setembro, conforme o ano) não se tem mais pinhões e
        não se tem nenhum produto plantado (as roças Kaingang eram milho, feijão e
        morangas/abóboras, que não se podem plantar senão quando o perigo das
        geadas já passou; portanto, plantam apenas a partir de setembro, e vão
        poder colher apenas de dezembro em diante).
        Assim, "prÿg", como estação, é a pré-primavera, mas também não corresponde
        ao inverno.
        Os sinais do "prÿg" são justamente o reinício das "atividades" dos
        micro-organismos, na terra (eles vêem isso por uns certos insetos ou
        corozinhos, no chão). Isso marca, então, o "início de um novo ano", de
        modo que dizer "ano", para os Kaingang, com o termo "prÿg", significava,
        no passado, dizer algo como "ano novo" no nosso calendário. Com a
        diferença que, no nosso calendário, essa data não tem significado
        relacionado ao ciclo da terra ou agrícola, mas para eles tinha. Hoje, os
        modernos Kaingang usam "prÿg" com sentido praticamente semelhante ao nosso
        de "ano" (pode ser falar, então, em "2007 prÿg" ).
        Não é demais lembrar que isso que estou dizendo não está nos dicionários,
        e boa parte da geração Kaingang mais jovem desconhece.

        Wilmar D'Angelis



        > Prezados colegas,
        >
        > Àqueles que se especializam nas línguas Jê do Sul (Kaingáng e Laklãnõ),
        > peço
        > que me ajudem a esclarecer uma dúvida. Nas fontes de que disponho
        > (dicionário de Wiesemann, para o Kaingáng; dissertação de Bublitz (1994),
        > para o Laklãnõ), a raiz prÿg/plõm é traduzida como "verão". Tenho razões
        > para crer que esta raiz é reflexo de Proto-Jê *prãm 'fome' (na minha
        > reconstrução) e que a conexão semântica pode, inclusive, ser corroborada
        > por
        > dados etnográficos.
        >
        > Mas, como "verão" e "inverno" podem significar coisas muito diferentes em
        > diferentes partes do país (e até mesmo dentro do mesmo dialeto), gostaria
        > de
        > saber qual o significado mais preciso do termo Kaingáng/Laklãnõ mencionado
        > acima. Mais precisamente, a que parte do ano se refere? Seria uma estação
        > seca ou chuvosa? Para aqueles que ficaram curiosos quanto às razões para
        > minhas perguntas, sugiro uma visita a meu blog (
        > http://kawina.wordpress.com/2007/10/09/the-season-of-hunger-a-note-on-historical-semantics/
        > ).
        >
        > Desde já, muito obrigado.
        >
        > Atenciosamente,
        >
        > Eduardo
        >
        > --
        > http://kawina.wordpress.com
        >

        --
        Wilmar R. D'Angelis
        Professor Doutor - Depto de Lingüística
        Instituto de Estudos da Linguagem - IEL
        UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas)
        Estado de São Paulo - Brasil




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        http://kawina.wordpress.com
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