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antonio veronese entrevista à veja.com

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      Artes Antonio Veronese: sucesso da arte brasileira em Paris 9 de junho de 2009 Veronese em seu ateliê em Barbizon, na França LINKS RELACIONADOS •
    Mensagem 1 de 1 , 10 de jun 03h38min
       

      Artes

      Antonio Veronese: sucesso da arte brasileira em Paris

      9 de junho de 2009

      Antonio Veronese: sucesso da arte brasileira em Paris (Divulgação)
      Veronese em seu ateliê em Barbizon, na França
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      Por Maria Carolina Maia

      Antonio Veronese está em cartaz em Paris. De novo. A mostra Antonio Veronese à Saint-Cloud, aberta ao público no último dia 3, é a quarta do artista brasileiro na Cidade Luz em apenas oito meses. Radicado na França desde 2004, ele se sente - ao menos artisticamente - em casa. A troca de endereço, portanto, foi útil, embora tenha sido motivada por ameaças de morte, recebidas depois que Veronese denunciou casos de violência contra menores no Brasil.

      O engajamento em favor de crianças e adolescentes carentes é uma das características de suas obras - além de uma espécie de obsessão por rostos. Antes de deixar o Rio - que o paulista de Brotas adotara por anos -, deu aulas de arte para menores infratores no Instituto João Luiz Alves, na Ilha do Governador. Em 1998, chegou a cobrar da então primeira-dama, Ruth Cardoso, medidas para tirar das ruas crianças abandonadas. Sua obra Just Kids (Apenas Crianças) é usada pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) para simbolizar os dez anos do Estatuto da Infância e da Adolescência (ECA), enquanto Save the Children (Salvem as Crianças) é símbolo dos 50 anos da ONU. Apesar de distante do Brasil, Veronese, de 55 anos, se diz ligado a essa temática e ao país. Mas se sente esquecido pela crítica brasileira, que, segundo ele, lhe dedica "a mais absoluta e total indiferença". Leia a seguir a entrevista do artista a VEJA.com.

      A tela 'Save the Children' - Divulgação

      Você declarou à televisão estatal chinesa, a CC-TV, que é mais fácil abrir espaço para a arte brasileira em Paris do que no Brasil. Por que isso ocorre?
      Porque o caldo cultural da França é mais suculento. Na área da pintura, que é um produto de consumo da classe média e da burguesia, a demanda é incomparavelmente maior do que a brasileira. E é natural que seja. Aqui, há política de estado e investimento público e privado em cultura. Fomentar e distribuir cultura deveria ser prioridade do Ministério da Cultura do Brasil. Uma vez, eu disse ao Gil [Gilberto Gil, ex-titular da Cultura] quando "estava" ministro: o PT quer distribuir renda, mas distribuir cultura é igualmente preciso.

      A sua mostra Visages du Silence, realizada em 2003 em Paris, foi prorrogada três vezes e, em vez dos 15 dias previstos, durou dois meses. Isso contou pontos para a sua entrada no mundo da arte francês?
      Foi sem dúvida com essa exposição que eu arrumei um espaço na França, ajudado por um artigo que saiu no [jornal] Le Figaro. Senti de imediato que havia um interesse maior aqui, um carinho com os artistas. Foi um alívio, porque antes eu havia enfrentando uma pedreira. Havia feito uma exposição em Nova York em 2001, 28 dias após o ataque às Torres Gêmeas. A cidade estava paralisada pelo medo. Os americanos entravam na minha exposição, viam os meus rostos, e saíam correndo... Então, eu resolvi doar a exposição inteira para a [organização não-governamental] World Childhood Foundation, presidida pela rainha Silvia, da Suécia. Os trabalhos eram os mesmos rostos de duas exposições que eu havia feito no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio: 600 Meninos e Brasileiros.

      Veronese retoca tela 'Just Kids' - Divulgação

      Você considera esta a principal mostra da sua carreira?
      As minhas principais exposições são essa de 2003, que teve lugar no Centro Cultural Brasil-França, e a de outubro de 2008, talvez a mais significativa, na sede da Unesco. Foi a partir daí que a coisa explodiu. Eu passei a receber convites sucessivos. Em dezembro de 2008, fui chamado para expor na Galeria Celal, onde recebi a visita da ex-primeira dama Danielle Mitterrand. Em março deste ano, expus no Grand Palais, onde esteve a ministra de Cultura da França, Christine Albanel. E, agora, tem essa individual no Museu Histórico de Saint-Cloud, que me honra. Essa é a primeira vez que não tenho de colocar a mão no bolso para montar uma exposição. O museu é subordinado ao Ministério da Cultura da França, que pagou tudo. No Brasil, nunca tive apoio oficial para expor.

      Você chegou a ser ameaçado de morte, em 2002 e 2003, por seu trabalho. Foi por isso que você resolveu deixar o Brasil?
      Não foi só pela pintura, mas por todo o meu trabalho contra a violência. Dei entrevistas denunciando coisas que testemunhei trabalhando como voluntário em presídios no Rio e em Brasília, fiz denúncias em exposições no Brasil e na Suíça, falei à imprensa nacional e internacional, à Anistia Internacional... E aí começaram os telefonemas... Às vezes, no meio da madrugada... Então, eu liguei para o [advogado] Técio Lins e Silva e disse: "Amigo, me ajuda a tirar o meu passaporte italiano porque o teto de zinco 'tá ficando quente'".

      Pensa em voltar a viver no Brasil?
      Minha casa em Barbizon é chamada de centro cultural do Brasil na floresta. Os franceses vêm aqui para ouvir bossa nova e tomar caipirinha de cachaça. O DVD do Carlinhos Lyra faz o maior sucesso e a francesada batuca na caixinha e canta com sotaque. Eu amo o meu país e às vezes me bate um "banzo" danado. Mas o Rio das minhas fantasias acabou em 1994 com a morte de Tom [Jobim], e hoje sua elite pensante cabe numa platéia do Canecão. A crise dessa cidade é sobretudo uma crise de inteligência. Para essa gente casmurra, carro blindado virou símbolo de status, e o meu Rio da bossa nova, quem diria, "dançou" no funk. Por tudo isso, eu vou ficando por aqui, mas sempre com um pied-à-terre [pé-na-terra] no Rio, pois não dá para cortar o cordão umbilical.

      Veronese e um dos rostos de suas pinturas - DivulgaçãoComo é sua rotina na França?
      Eu moro em Barbizon, uma pequena cidade de pintores: aqui estão enterrados [Jean-François] Millet, [Theodore] Rousseau, [Jean-Baptist] Corot. [Pablo] Picasso alugou uma casa na região. Próximos, moraram [Paul] Cézanne e [Édouard] Manet, que pintou Déjeuner sur L´Herbe a 18 km daqui. Este é o berço do realismo e da chamada Escola de Barbizon, que era pré-impressionista. Como você vê, a coisa aqui é séria. Eu trabalho de domingo a domingo. Acordo às 9h, ando na Floresta de Fontainebleu com meu cachorro, volto para casa às 10h, como alguma coisa e pego firme no trabalho até às 17h, quando almoço. Faço uma "siesta" de 30 minutos, e pego firme de novo, até as 2h da madrugada, quando janto e tomo o meu vinho. Durmo às 4h, para driblar o fuso e falar com os filhos no Brasil.

      Por que tantas pinturas de rosto?
      Ainda não deu tempo de fazer outra coisa. Platão disse que o rosto é a síntese do universo. Imagine ter esse filão inesgotável. Está tudo ali. Eu abri a caixa de Pandora.

      Na sua opinião, qual é o papel do artista?
      Nós temos a obrigação da insolência. Afinal, quem manda na casa somos nós, o povo. A gente tem que ter brio e reagir contra a violência. A insolência é uma arma extraordinária para quebrar o iceberg da passividade. Insolência é o direito de desconfiar da solenidade caricata de um estado incompetente. Bertrand Russell [filósofo britânico] dizia que a solenidade é, muitas vezes, apenas um disfarce para a impostura.

      Como tem se portado, a seu respeito, a crítica brasileira nos últimos anos?
      Com a mais absoluta e total indiferença.

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