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  • especiesmutantes
    14 de nov de 2006
      Raves inglesas em evidência outra vez

      A mídia inglesa diz que elas voltaram; mas quem é da cena diz que
      elas nunca foram embora.

      10.11.06 18:35

      (foto)
      Quantos infratores!

      Desde o ano passado os relatos na mídia de festas ao ar livre rolando
      por toda a Inglaterra não param de aumentar. Algumas raves chegaram a
      reunir mais de 5 mil pessoas, como ocorreu em Cornwall no início
      deste ano. A maior parte das festas, porém, tem públicos modestos,
      variando entre 50 e 500 pessoas. Nada comparado aos tempos "áureos",
      quando raves chegavam a ter 30 mil pessoas dançando por uma semana
      (como o festival de Castlemorton, em 1992). Tudo indica que apareceu
      uma nova geração que curte esse tipo de festa, trazendo novos
      elementos, porém mantendo a essência dos primórdios. Por conta disso,
      as raves estão novamente chamando a atenção e, obviamente, arrepiando
      os cabelos dos conservadores de plantão.

      Um pouquinho de história

      Em 1994, foi publicado o Criminal Justice and Public Order Act, lei
      que dava à polícia plenos poderes para acabar com "qualquer reunião
      com mais de 100 pessoas, ao ar livre, onde música caracterizada por
      batidas repetitivas estivesse sendo tocada". Isso fez com que grande
      parte da cena eletrônica tratasse de se encaixar nos conformes na
      lei, migrando para clubes, enquanto outra parcela refugiou-se no
      underground. Mas, na verdade, o que muita gente continuou fazendo foi
      freqüentar os dois tipos de evento. No geral, as raves no campo
      acabaram sofrendo mais e só as menores ou mais discretas conseguiram
      ser realizadas.

      As chamadas "squat parties", festas organizadas em locais urbanos
      invadidos - casas abandonadas, antigas salas de cinema etc. -,
      passaram a ser o refúgio dos ravers de disposição mais subversiva.
      Foi onde alguns estilos musicais como acid techno e, em menor grau, o
      psytrance puderam se desenvolver à vontade. O problema é que, de
      alguns anos para cá, estas festas urbanas passaram a ser alvo de
      violentas gangues juvenis cuja idéia de diversão é zoar e assaltar
      ravers distraídos. Até casos de estupro foram registrados. Por conta
      disso, squat parties passaram a contar com um novo elemento: equipes
      de segurança.


      "Elas nunca foram embora!"

      Por doze anos essa cena underground se manteve viva e longe dos
      olhares da mídia e das autoridades (e também das publicações
      mainstream). Agora não mais. A mídia inglesa caiu em cima do
      fenômeno, "descobrindo" a volta das raves. Para pessoas envolvidas
      com esse lado da cena, como Chris Hill, do sound system No Borders e
      que está no Brasil para fazer o Teknival de Salvador, não deixa de
      ser divertido ver esse súbito interesse em algo que, segundo ele,
      sempre esteve aí. "Dois amigos meus, envolvidos com festas
      underground, foram convidados para falar sobre isso num programa da
      BBC. Perguntaram sobre a volta das raves e a primeira coisa que eles
      disseram foi `elas nunca foram embora!'"

      Um ponto em que todos concordam porém é que existe uma geração nova
      nesse tipo de festa, algo que estava faltando alguns anos atrás.
      Chris, que participa dessa cena faz mais de 10 anos, conta que "na
      virada do milênio foi muito esquisito, ficamos esperando a nova
      geração chegar... e ela nunca veio! Houve uma quebra!"

      Olhando para o público atual, pode-se ver que eles agora chegaram.
      Além daqueles que já freqüentavam as squats, boa parte dos ravers de
      hoje, conforme aponta Sarah Champion em artigo para o jornal The
      Guardian de 26 de agosto, é carne nova: "eles têm entre 14 e 25 anos,
      num mix eclético de garotos de classe média com dreadlocks, cursando
      a sexta-série, com estudantes universitários loucos por festa, alguns
      jovens com vinte e poucos anos que trabalham em escritórios, e
      adolescentes de boné e tênis".

      São os "filhos" da primeira geração raver, uma moçada que herdou o
      gosto pela música e pelo espírito da cena eletrônica, mas que se
      cansou de baladas regadas a música comercial de má qualidade,
      violência causada pelo álcool, seguranças ignorantes e preços
      abusivos. Eles se encheram de tudo isso, e resolveram se mexer pra
      organizar as próprias festas. Fazendo coro às gerações anteriores,
      proclamam-se "anti-corporation" e "anti-fashion" (contra as
      corporações e a moda).

      Tecnologia, muitos BPMs e um novo sorriso na cara

      Além do público, as novidades tecnológicas também se renovaram:
      soundsystems portáteis, DJs tocando com MP3 players e localização das
      festas por GPS dão a cara das festas de hoje. Além disso, os
      organizadores evitam qualquer tipo de publicidade, sendo muito comum
      a divulgação das festas através de mensagens de texto no celular.
      Outra novidade: além do ecstasy e da maconha, fiéis companheiros de
      rave, o gás hilariante (à base de óxido nitroso, também utilizado
      como analgésico pelos dentistas) está presente na maioria das festas.
      Vendido em balões que custam entre 2 e 3 libras esterlinas (cerca de
      R$ 13), ou trazidos em latas de chantilly improvisadas, seus efeitos –
      risos e leve perda da coordenação motora – são menos intensos quando
      comparados aos do ecstasy, e ainda não há registros de efeitos
      colaterais.

      E a música? Quanto mais alta, pesada e rápida, melhor! Pois é, indo
      contra a tendência dos clubes europeus e americanos de diminuírem os
      BPMs, principalmente ao som de minimal e electro-house (conforme
      apurou Camilo Rocha no "Bate-estaca" de 23/06/06), os novos ravers
      querem é drum'n'bass, breakcore, hard techno, acid techno e
      psytrance. É o som que vem rolando nas squats já há algum tempo, e
      qualquer música mais "fraca" do que essa soa chill-out demais.

      A repressão continua

      As autoridades inglesas continuam sem a menor vontade de participar
      da brincadeira. A polícia vem tentando de todas as maneiras descobrir
      a localização das raves (que obviamente estão rolando em bosques
      escondidos no interior britânico) para literalmente acabar com a
      festa. Em alguns casos eles têm conseguido se antecipar e desmontar o
      soundsystem, e mandar os ravers pra casa. No entanto, já temos
      notícia de episódios onde as coisas saíram do civilizado e os
      oficiais pegaram pesado, com uso da violência. Foi o que aconteceu,
      por exemplo, dia 26 de agosto passado, durante uma rave em Essex.
      Conforme relata um artigo do jornal The Independent de 29 de
      agosto, "duzentos policiais de cinco distritos usaram gás
      lacrimogêneo, cachorros e cassetetes para dispersar os
      aproximadamente mil ravers. Durante a confusão, um carro da polícia
      foi incendiado e nove policiais se feriram (...) pelo menos dois
      ravers se machucaram. Trinta pessoas foram presas e soltas sob o
      pagamento de fiança". E esse não é um caso isolado, só naquele sábado
      outro confronto violento ocorreu durante uma festa em
      Gloucestershire. Com o Criminal Act ainda em vigor, a perseguição vai
      continuar rolando.

      O problema é que num território super-populoso como o Reino Unido é
      quase impossível achar um lugar onde se possa fazer barulho sem
      incomodar alguém. A solução? "O País de Gales", diz Chris Hill, "lá
      tem muitos lugares remotos, onde nem vale a pena para a polícia
      deslocar um efeito. Lá é o novo destino das raves."

      Vejam um pouco da cobertura que a mídia inglesa está fazendo:

      - Artigo de Sarah Champion para o The Observer, 27 de Agosto de 2006
      » arts.guardian.co.uk/features/story/0,,1859099,00.html

      - Artigo do The Independent, de 29 de Agosto de 2006
      » enjoyment.independent.co.uk/music/news/article1222377.ece

      - Artigo de BBC News – online, de 29 de Agosto de 2006
      » news.bbc.co.uk/1/hi/england/5294644.stm

      Texto integral do Criminal Justice and Public Order Act. 1994:
      » www.opsi.gov.uk/acts/acts1994/Ukpga_19940033_en_6.htm#mdiv63

      Site inglês anti-globalização bem bacana. Tem trechos dedicados à
      cena eletrônica underground
      » www.urban75.org




      Leonardo Freitas Fonseca

      http://www.rraurl.com/cena/especial.php?rr_especial_id=3149