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  • Kowalsky
    29 de abr de 2005
      Censura é uma lata na boca
      Livio Tragtenberg
      28/04/2005
      Fonte: Folha de São Paulo
       
      O recente episódio envolvendo certas "recomendações" contratuais que
      vetavam o uso de certos tipos de imagens pelos VJs num grande festival
      de música eletrônica em São Paulo expõe a situação real da atividade
      artística em nossos tempos.

      Finalmente, chegamos à "música eletrônica de pista no mundo da Xuxa".
      Não pode ter imagem de drogas, violência, política, mas é para a
      rapaziada encher a cara...

      De uma forma geral, os criadores são reféns (uns mais felizes do que
      os outros) dos marqueteiros e de suas estratégias publicitárias. O
      Estado continua ausente da promoção cultural na sociedade, porque lhe
      falta projeto e estratégias. A lei de incentivo transformou o artista
      num "mal necessário" nos planos de marketing. E de que artista estamos
      falando? Que cada vez se aliena mais, num ambiente de pose e de
      escapismo.

      E, me desculpe a rapaziada, a música eletrônica, que surgiu como
      curtição de uma tribo urbana em busca de novas formulações e veiculação
      para o fazer musical e que criou resultados inovadores noutros tempos,
      caiu na vida e já tem suas festas de peão.

      Será que esse é o destino único da criação artística nos dias de hoje?
      Linha auxiliar de campanha de vendas? Se é assim, então pelo menos
      vamos falar claro.

      Estive neste mês na Winter Music Conference, em Miami (EUA). Lá, DJs e
      assemelhados assumiam alegremente o papel de garotos-propaganda de
      celulares, gadgets e outros equipamentos periféricos, que são a razão
      de ser da cena eletrônica de pista nos EUA. Como numa convenção de
      vendas, DJs faziam demonstrações de equipamentos, produtores negociavam
      pelos corredores de hotéis, onde a grande excitação girava em torno de
      qual tecnologia vai dominar os novos suportes.

      Nesse ambiente, é natural que uma empresa, na hora de promover seu
      produto, queira relacioná-lo a comportamentos, sons e imagens que lhe
      interessam.

      Cabe, sim, à rapaziada ficar esperta e perceber que está dançando
      conforme as escolhas musicais desses marqueteiros em seus refrigerados
      escritórios e que eles não têm nenhum compromisso com música. Trata-se
      de negócio.

      Mas será que a rapaziada está preocupada em ser, uma vez mais, massa
      manipulada de um consumismo cada vez mais sacana? Sacana porque inventa
      comportamentos, símbolos, sons que, através de massiva propaganda, faz
      crer à moçada que esses são os seus valores e modos de vida.

      Quanto à situação dos VJs, à censura travestida de linguajar
      "politicamente correto" e legalista resta constatar que precisam ser
      criados espaços sociais para que se veicule realmente música, vídeo
      etc. E que esses megafestivais de celular, cerveja e outros usam sons e
      imagens apenas como iscas de uma juventude incauta. Que acha que se
      manifesta "com uma lata na boca", slogan que é uma versão repaginada
      daquele antigo "liberdade é uma calça velha de jeans". De slogan em
      slogan desfiamos nossa indigência cultural.

      [Livio Tragtenberg é compositor]

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