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Escritora negra fala sobre preconceito racial

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  • Romeu Sierra
    Conceição evaristo - EU NÃO SEI CANTAR A escritora CONCEIÇÃO EVARISTO critica os estereótipos artísticos que pairam sobre a mulher negra e defende a
    Mensagem 1 de 1 , 22 de mar de 2006
      Conceição evaristo - EU NÃO SEI CANTAR

      A escritora CONCEIÇÃO EVARISTO critica os estereótipos artísticos que pairam
      sobre a mulher negra e defende a educação como a melhor ferramenta de acesso
      à igualdade

      POR CAROL FREDERICO

      Como qualquer escritora, Conceição Evaristo é uma mulher que conta histórias
      - aquelas que vem ouvindo desde criança, que testemunhou ao longo de seus 60
      anos de vida, histórias alheias que se enquadram à sua realidade. Mas ela
      não é qualquer escritora. Ser mulher, negra e escrever sobre essa condição
      faz torcer três vezes o nariz de editores e leitores brasileiros,
      culturalmente acostumados a fechar os olhos diante dessa realidade, apagada
      até dos livros de história.

      É uma situação mais complexa do que na África do Sul, por exemplo, onde a
      escritora Nadine Gordimer ganhou o prêmio Nobel de Literatura escrevendo
      romances que tratam das relações raciais, em plena vigência do Apartheid, o
      hoje extinto regime de segregação racial do país. É mais complicado do que
      nos Estados Unidos, onde o livro A cor púrpura, de Alice Walker, foi
      best-seller, virou filme de Steven Spielberg e peça encenada em um teatro na
      Broadway. Num país em que talvez o maior marco no tema seja a obra de
      Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo, publicado pela primeira vez há
      quase 46 anos, Conceição Evaristo alcançou um feito especial com o
      lançamento de seu primeiro romance, Ponciá Vicêncio (Mazza Edições, 126
      páginas, R$ 25). Não que ela não tivesse publicado nada antes. Até agora,
      sua obra estava presente em antologias, e o reconhecimento pelo trabalho é
      ainda mais evidente nos seus textos publicados nos Estados Unidos, na
      Inglaterra e na Alemanha. Nascida e criada numa favela de Belo Horizonte,
      estudar era seu maior objetivo. Trabalhando como doméstica na capital
      mineira, terminou o Normal, hoje magistério, em 1971, depois mudou-se para o
      Rio, onde estuda até hoje. Sua dissertação de mestrado sobre literatura
      afro-brasileira foi a primeira sobre o tema no país, conquistando nota 10
      com louvor. Às vésperas do lançamento de seu segundo romance, Becos da
      memória, e preparando-se para a defesa da sua tese de doutorado, Conceição
      concedeu a seguinte entrevista à Raça.

      "ESPERA-SE QUE A MULHER NEGRA SEJA CAPAZ DE DESEMPENHAR DETERMINADAS
      FUNÇÕES, COMO COZINHAR MUITO BEM, DANÇAR, CANTAR, MAS NÃO ESCREVER. ÀS VEZES
      ME PERGUNTAM: 'VOCÊ CANTA?'. E EU DIGO: 'NÃO CANTO NEM DANÇO"

      Raça - Quais são os obstáculos para um autor negro publicar um livro?

      Conceição - O primeiro obstáculo é ser um autor novo. Alguém já consagrado
      recebe de início um outro tratamento, mesmo se escrever uma baboseira. Se
      for um autor com presença na mídia, como uma apresentadora de TV, é ainda
      mais fácil. Agora, se você não está na mídia e ainda é negro e mulher, a
      situação se complica mais, porque espera-se que a mulher negra seja capaz de
      desempenhar determinadas funções, como cozinhar muito bem, dançar, cantar -
      mas não escrever.

      Às vezes, as pessoas olham para mim e perguntam: "Mas você canta?'. E eu
      digo: 'Não canto nem danço'. Para um negro desconhecido tornar-se escritor,
      há todas essas dificuldades. Para uma mulher negra, pode multiplicar isso
      por mil, pois você vai assumir uma função que a sociedade não está
      acostumada a esperar. A sociedade tem uma expectativa que nunca é
      intelectual.

      Que tipo de dificuldade existe quando um autor negro vai oferecer sua obra
      em uma editora?

      Mandei o romance Ponciá Vicêncio para uma editora e não tive resposta.
      Depois disso, não tentei mais nenhuma. Após algum tempo, resolvi tentar a
      Mazza por uma questão ideológica, pelo fato de ser uma editora de uma mulher
      negra. Mas o problema não termina com a publicação de um livro. Ponciá
      Vicêncio já esteve em uma livraria grande aqui do Rio, e eu o levei
      pessoalmente. Só que o livro não foi colocado no sistema de informática da
      loja e, portanto, era como se ele não estivesse lá. Dois pesquisadores
      estrangeiros que vieram ao Brasil foram procurar a obra e tiveram que
      insistir, pois a livraria afirmava que o livro não existia.

      Quer dizer, um livro de Conceição Evaristo numa grande livraria é colocado
      lá no fundo, escondido, em último lugar, enquanto o de um autor conhecido já
      é posto logo nentrada. Mas esse é um problema mercadológico. Além disso, tem
      a questão da temática do meu trabalho, que é uma faca de dois gumes. Por um
      lado, ela não interessa, mas com a lei 10.639 [que instituiu a
      obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas]
      esse tema vai atender a uma demanda - só que sempre por uma questão
      mercadológica, nunca ideológica.

      A Senhora acha que a questão da auto-estima influencia o resultado final do
      conteúdo?

      Influencia em todos os aspectos da nossa vida. Aquela história de que o
      profissional negro não pode falhar, de que a gente é treinado para tirar 10
      - pois do contrário não serve - faz com que a gente tenha uma exigência
      muito grande a nosso respeito. Eu me pergunto várias vezes se esse tempo
      todo que demorei para publicar meu livro não foi por causa de uma
      autocensura, do tipo 'será que está bom mesmo?'.

      A gente já foi tão machucado na auto-estima, exigimos de nós mesmos ser
      sempre o melhor, que isso cria uma certa insegurança. Porque muitas vezes
      você vê pessoas que não têm competência nenhuma, que botam um ovinho de nada
      e saem gritando - e todo mundo fica aplaudindo. E nós, negros, às vezes
      temos coisas ótimas que nós mesmos não percebemos.

      Quer dizer, então, que as comparações entre a literatura produzida por
      negros e por brancos trazem medo para o autor?

      Acho que isso é algo que ao mesmo tempo pode ser usado a nosso favor e
      contra. Em certos momentos, o fato de ser quantitativamente menor pode
      também ser positivo, porque você vira a novidade, mas também passa por
      aquela situação de 'puxa, negro escreve?', 'mulher negra escreve?'. Só que
      também é preciso ser hábil para tirar proveito desse jogo.

      Escrevemos, sim, e escrevemos diferencialmente. Nesse caso, estar em menor
      número serve para afirmar e explicar positivamente essa diferença
      quantitativa. Numa antologia que tem, por exemplo, 14 escritoras brasileiras
      e só três negras, alguma coisa está errada. Aí é o momento de você, negro,
      apontar o que está errado, porque é lógico que não há só três escritoras
      negras neste país.

      NÃO NASCI RODEADA DE LIVROS, NASCI RODEADA DE PALAVRAS

      Em obras como A escrava Isaura, uma visão deturpada da mulher negra,
      embranquece a heroína e lhe confere características positivas por não ter os
      traços negros. Quais são as conseqüências disso?

      Quando a mulher negra passa por esse processo, continua sendo desvalorizada
      na sua condição de mulher. Ainda se espera que determinadas funções ou
      lugares não sejam propícios para as mulheres negras. É muito mais fácil para
      a sociedade brasileira aceitar uma negra rebolando com a bunda de fora do
      que reconhecer a competência de uma negra professora, de uma negra médica.

      Eu não sei até que ponto essas mulheres eram realmente fogosas, ou se isso
      era atribuído a elas. O fato é que a sociedade espera que você cumpra
      determinadas funções e tenha determinadas características que vêm sendo
      coladas à imagem das mulheres negras há anos e anos.

      Para a senhora, qual é a diferença entre ser mulher negra e simplesmente
      mulher?

      É muito diferente. A questão étnica pode ter um peso bem grande, mas vai
      depender muito da situação em que se está. Na questão do feminismo, por
      exemplo, enquanto as mulheres brancas precisaram sair às ruas para ficar
      livres da tutela do pai, do marido ou do irmão, esse não foi o nosso caso.
      Não precisamos lutar pra ficar livre da dominação e querer trabalhar. A
      gente sempre precisou trabalhar.

      O nosso feminismo vem para a gente se afirmar como pessoa. Eu acho que a
      nossa primeira luta feminista não foi contra o homem negro, mas contra os
      nossos patrões e patroas. Enquanto a primeira luta da mulher branca e da
      mulher de classe média foi contra os homens de sua própria família - e eu
      não estou dizendo que o homem negro não seja machista -, nós nos
      posicionamos primeiro contra o sistema representado, principalmente, pelo
      homem branco e pela mulher branca.

      A Senhora acredita que o discurso dos negros está mudando, no sentido de
      fugir do discurso produzido nas décadas anteriores, carregado de lamentos,
      mágoa e impotência?

      Há uma mudança, sim, e sempre tenho exposto isso. Há alguns anos, nossa
      afirmação étnica era uma de lamento, depois passou a uma de orgulho e hoje é
      de reivindicação.

      E como essa reivindicação vem?

      Essa reivindicação vem justamente porque nós estamos fazendo questão de
      estar em todos os espaços, nas universidades, na vida pública, nos meios de
      comunicação. Por isso acredito que hoje há uma afirmação que reivindica. Mas
      eu também acho que a gente não deve esquecer o passado, pois ainda
      precisamos exorcizar essa nossa dor. Creio que não esquecer impulsiona você
      a cobrar, porque nada que a sociedade está nos oferecendo é de graça. Então
      vale relembrar o passado.

      Estão nos devolvendo tardiamente o pouco do muito que nos tomaram. Essa
      lembrança deve ser fortalecida para sabermos sempre por que estamos
      cobrando. Não é um muro de lamentações. Eles nos roubaram e a gente não pode
      perder essa perspectiva do passado - mas olhando sempre para o futuro.

      Entre os escravos e quilombolas não havia registro escrito porque a maioria
      era analfabeta. Qual é a importância da história oral?

      A maior importância é essa fonte de possibilidades que a história oral
      revela, na medida em que ela me dá um conhecimento que foi negado ou
      disfarçado. Nossos antepassados vêm de uma cultura oral e o que poderia ter
      sido escrito não foi. A literatura, quando escreve a nosso respeito, o faz
      de outro modo. A oralidade é uma forma de dialogar com muita coisa que se
      desconhece.

      Quando paro a fim de escutar a história das pessoas, principalmente daquelas
      com mais idade, vejo quanta coisa a gente não sabe, que um livro não traz, e
      que só eles mesmos, com a sua sabedoria, podem nos contar. Uma coisa que
      também gosto de dizer é que eu não nasci rodeada de livros, nasci rodeada de
      palavras. Os escritores que conheço, que vêm de uma classe média, dizem 'eu
      nasci rodeado de livros'. E eu digo: 'Eu não nasci rodeada de livros, nasci
      rodeada de palavras, num ambiente onde contar histórias era uma coisa
      natural.

      "A PRIMEIRA LUTA FEMINISTA DAS MULHERES NEGRAS NÃO FOI CONTRA O HOMEM NEGRO,
      MAS CONTRA OS NOSSOS PATRÕES E PATROAS"

      A mulher negra está entre os maiores índices de pobreza. Elas não vão deixar
      de ser negras, mas como deixar de ser pobres?

      Deixar de ser pobre é uma coisa mais complicada, mas penso que você pode
      conseguir uma vida um pouco mais digna. Quando olho para trás e vejo que não
      moro mais numa favela, é porque consegui estudar, tenho uma profissão. Mas
      deixar de ser pobre implica ter uma estrutura sedimentada que ainda não
      possuímos. Não temos herança econômica. Poucos negros hoje na sociedade
      brasileira têm uma casa própria.

      Dificilmente você encontra um negro que tenha herdado uma casa na Tijuca
      [bairro carioca de classe média]. Portanto, deixar de ser pobre é uma luta
      que requer a acumulação de bens econômicos, propriedades, uma herança. Isso
      já acontece em termos individuais, mas não com a coletividade, pois você
      ainda não tem uma maioria em profissões liberais, em cargos privilegiados.

      Estamos saindo de um estado de miséria, só que não é uma conquista coletiva.
      Apenas o estudo abre essa perspectiva, mas também não podemos pensar que a
      educação faz milagre, porque há muitos negros formados e sem emprego, por
      uma questão social.
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