--- Em voadores, Fernando Sepe <sepefernando@...> escreveu
> Bom, parece que matar é errado. Parece sabe...
> Então um ato pode ser imoral mas moral, enquanto outro pode ser
> moral mas imoral...
> A discussão é mais difícil do que parece...
> Joice:
> Quanto à religião, eu acredito muito que a religião é útil enquanto
> meio de controle do ser humano, mas acho cruel a exploração que
> fazem. Porém, não tenho como afirmar que o mundo não viraria
> um "bundalelê" se não tivéssemos "regras" a seguir.
> Enfim, pergunta difícil heim!
> Maisa:
> E pra "colocar mais lenha na enquete", o que é roubar? E o que é
> matar? Poderíamos dizer que matar é roubar a vida? De que vida
> estamos falando? E qdo mais roubamos? Só qdo tomamos algo de alguém?
> ...
Pois é, era para ser uma pergunta tão óbvia para nós, a maioria espiritualistas.
Matar e roubar é errado? Parece que sim, né? Porque mesmo? E se retirarmos
aquilo que alguém arbitrou como sendo de Deus, fica mais complicado ainda, não?
E se pararmos para pensar nos conceitos e valores, como alguns propuseram, aí
mesmo é que complica...
Que coisa, será que nossas grandes certezas - inclusive as mais básicas e
espirituais - repousam em posições que não foram refletidas sequer em seus
conceitos? E, curioso, dependendo do ponto de vista (foram defendidos vários
aqui, o de não receber a dor, o utilitarista, o da maioria, o do estado da
natureza, o do temer consequências), aí chegamos necessariamente a conclusões
aparentemente lógicas e definitivas, que, entretanto, não são iguais entre si.
Como pode uma verdade única ou a grande Lei estar simultaneamente em duas ou
mais posições que diferem e divergem?
As questões mais simples tendem a ser as mais complicadas. Pense nas perguntas
de crianças, que veem o mundo sem paradoxos e coerencias pré-estipuladas, e
vejam se são mesmo tão fáceis e óbvias de se responder:
Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou? Onde eu estava antes de nascer? O que é
certo e errado? Porquê? Porquê? E porquê.
Adultos sem paciência respondem PORQUE SIM. Só muda de onde vem esse SIM pronto:
da Bíblia, da imprensa, do senso-comum, do código penal, da codificação de
kardec, daquilo que é esperado dele em seu meio, época, lugar e classe social...
Postei a pergunta durante uma aula sobre Kant e Ética. Não era minha, o
professor a citou, para examinarmos nossa ética de um modo um pouco mais
crítico. Matar é errado? As respostas de Kant são boas, como citou o Sepe. Mas
são também feitas para endossar os valores de um homem branco, europeu, cristão,
do séc XVII, que nunca saiu de sua cidade, súdito fiel, numa época em que
ninguém falava ainda em antropologia ou respeito ético multicultural. Mesmo a
ética absoluta em Kant - que moveu minha pergunta, que moveu a resposta do Sepe
- é passível de toneladas de críticas de pensadores posteriores. Afinal, se ele
remove a camada religiosa mas apresenta uma ética absoluta, esses "bons" valores
sociais seus acabam sendo, grosso modo, uma nova espécie de religião, ainda que
sem uma nova Bíblia ou Deus...
... daí surgiu para mim a idéia do debate / enquete. Sem certo ou errado. Eu
sabia que, como colocado, faria cada um pensar os seus valores. E quando
pensamos valores assim, tão "óbvios" que são às vezes irrefletidos, sei que
encontramos muita coisa para analisar pelo fio da razão, e muitas surpresas de
observar que construimos edifícios em cima de conceitos "nossos" que nem nós
mesmos conseguimos definir.
Além do mais, quero realmente ter uma idéia maior de como a turma aqui
fundamenta sua postura ética. Afinal de conta, religiões aqui há várias, além
das muitas não-religiões aqui representadas (deistas, agnósticos, unitaristas,
céticos, espiritualistas arreligiosos, vedanta, etc). A moral de cada uma pode
variar, seus códigos também. Mas ME PARECE qeu a questão ÉTICA é indispensável
para podermos falarmos em um UNIVERSALISMO (ecumênico) e em ESPIRITUALIDADE NO
COTIDIANO.
Mas de que ética estamos falando, hem?
Melhor pensarmos um pouco mais antes de sairmos por aí escrevendo ou palestrando
sobre leis "morais" ou o que seria "certo" na visão de Deus. Parece que mal
sabemos para nós. Mas, como o Sepe, acredito que uma ética seja possível. Com ou
sem usarmos o humano recurso de "Deus".
Láz