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voadores@..., Torre de Controle - Moderação da
Voadores <voadores-owner@y...> escreveu
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Artigo PREMIADO, imparcial, publicado na revista SuperInteressante,
que esclarece todos os MITOS nutritivos associados à questão da
alimentação.
Por Denis Russo Burgierman, editor
drusso@a...
Câncer, doenças cardíacas, crueldade com os animais, matança de
semelhantes, desastre ecológico...
Afinal, será que você deveria virar um vegetariano?
Comer não é só uma questão de matar a fome. A decisão sobre que
comida colocar no prato tem implicações econômicas, ambientais,
éticas, culturais, fisiológicas, filosóficas, históricas, religiosas.
Embora a percentagem de vegetarianos venha se mantendo mais ou menos
estável ao longo da história, há um interesse crescente no assunto -
restaurantes naturais e vegetarianos ficam lotados na hora do almoço,
tornou-se comum, pelo menos nas classes médias urbanas, a preocupação
em reduzir o consumo de carne, e surgiu uma indústria bilionária de
produtos naturais que, nos Estados Unidos, já movimenta quase 8
bilhões de dólares.
Esta reportagem não ensina você a comer. Felizmente, essa ainda é uma
decisão pessoal, que depende apenas do seu julgamento sobre o que é
certo e o que é errado e - não menos importante - do seu gosto. O que
essa matéria faz é tentar ajudar na decisão com o máximo possível de
informação insuspeita sobre cada um dos muitos aspectos envolvidos
nessa importante decisão. Se você, depois de terminá-la, vai devorar
um brócolis ou um cheeseburger, já não é assunto nosso. Só esperamos
que, terminado o texto, ao decidir o que comer você saiba o que está
fazendo e o que isso implica.
O QUE É CARNE?
A faca desce macia, cortando sem esforço o pedaço de picanha. Dourada
e crocante nas bordas, tenra e úmida no centro. Você põe a carne na
boca e mastiga devagar, sentindo o tempero, a maciez, a temperatura.
O sumo que escorre dela enche a boca e, com ele, o sabor
incomparável. Carne é bom.
Mas que tal assistir à mesma cena sob outra perspectiva? No prato jaz
um pedaço de músculo, amputado da região pélvica de um animal bem
maior que você. Com a faca, você serra os feixes musculares. A
seguir, coloca o tecido morto na boca e começa a dilacerá-lo com os
dentes. As fibras musculares, células compridas - de até 4
centímetros - e resistentes, são picadas em pedaços. Na sua boca, a
água (que ocupa até 75% da célula) se espalha, carregando organelas
celulares e todas as vitaminas, os minerais e a abundante gordura que
tornavam o músculo capaz de realizar suas funções, inclusive a de se
contrair. Sim, meu caro, por mais que você odeie pensar que a comida
no seu prato tenha sido um animal um dia, você está comendo um
cadáver. Carne é tecido animal, em geral muscular. As fibras que a
compõe são feixes de células musculares, enroladas umas nas outras.
Em volta delas há uma cobertura de gordura, cuja função é lubrificar
o músculo e permitir que ele relaxe e se contraia suavemente. Ou
seja, não há carne sem gordura.
A diferença entre carne branca e vermelha é a quantidade de ferro no
tecido - o mesmo mineral que dá cor ao sangue. As células de animais
grandes, como o boi, são ricas de uma molécula chamada mioglobina,
que contém ferro. Peixes e galinhas, por terem o corpo menor, não
precisam de reservas tão grandes de nutrientes nas células e, por
isso, têm menos mioglobina. Animais mais velhos têm carne mais
vermelha - isso explica a brancura do frango industrializado, abatido
antes dos dois meses, se comparado à galinha caipira. Essa última tem
mais tempo para acumular mioglobina nas células. NÚMEROS, NÚMEROS,
NÚMEROS
Há no mundo 1,35 bilhão de bois e vacas. Criamos 930 milhões de
porcos, 1,7 bilhão de ovelhas e cabras, 1,4 bilhão de patos, gansos e
perus, 170 milhões de búfalos. Some todos eles e temos uma população
de animais quase equivalente à humana dedicando sua vida a nos
alimentar - involuntariamente, é claro. E isso porque ainda não
incluímos na conta a população de frangos e galinhas abastecendo a
Terra de ovos e carne branca: 14,85 bilhões. Só no Brasil há 172
milhões de cabeças de gado bovino - uma para cada cabeça humana.
Nosso rebanho bovino só é menor que o da Índia, onde é proibido matar
vacas. Na média, um brasileiro come perto de 40 quilos de carne
bovina por ano - ou seja, uma família de cinco pessoas devora uma
vaca em 12 meses. Somos o quarto país do mundo onde mais se come
carne bovina . Um brasileiro médio come também 32 quilos de frango e
11 quilos de porco todo ano.
TODOS OS TIPOS DE VEGETARIANOS
Vegetarianos não são todos iguais. Conheça as diferenças.
Ovolactovegetarianos
Não comem carne de nenhum tipo, mas consomem ovos, leite e derivados.
Em geral, quando alguém diz que é "vegetariano", é essa dieta que ele
segue.
Lactovegetarianos
Provavelmente o mais numeroso dos grupos, já que essa dieta é
predominante no sul da Índia - por razões religiosas. Nada de carne,
mas leite e derivados estão liberados. O ovo é terminantemente
proibido, por conter a "vibração da vida".
Vegans
Não consomem nada de origem animal: carne, ovos, leite, mel. Roupas
de couro, lã e seda também estão proibidas.
Semivegetarianos
Aquelas pessoas que afirmam ser vegetarianas, mas abrem exceções para
peixes ou aves. São vistos com desdém pelos outros grupos. A
principal razão para essa dieta, que recusa só a carne vermelha, é o
cuidado com a saúde.
Macrobióticos
Dieta tradicional japonesa, que pode ser vegan, ovolactovegetariana
ou incluir peixe. Há várias restrições - a dieta acompanha as
estações do ano, o cardápio tem que incluir uma árvore toda, da
semente ao fruto. Como foi elaborada no Japão, a macrobiótica não
contempla a realidade brasileira (as estações do ano, por exemplo,
são diferentes aqui). Isso pode levar a deficiências alimentares.
Crudivorismo
Só comem vegetais crus. É preciso cuidado com essa dieta, porque ela
exclui os grãos, que são as melhores fontes de proteína e ferro dos
vegetarianos. Há risco de desnutrição.
Frugivorismo
Os frugivoristas não só rejeitam carne, como evitam machucar ou matar
vegetais. Por isso, comem apenas aquilo que as plantas "querem" que
seja comido: frutas e castanhas. Consideram o consumo de folhas,
caules e raízes uma violência. A dieta não é das mais saudáveis, já
que é pobre em proteínas e em minerais. CARNE FAZ MAL?
Quem come mais carne - especialmente carne vermelha - tem índices
maiores de câncer e de enfarte, as duas principais causas de morte do
planeta. É o que dizem as estatísticas. Carne faz mal, então? Não é
tão simples.
Nos últimos 30 anos, as autoridades dos Estados Unidos vêm
aconselhando os americanos a diminuir a ingestão de carne vermelha e
manteiga por causa de suspeitas de que a gordura saturada presente em
grande quantidade nesses alimentos aumenta a taxa de colesterol e,
com isso, causa ataques cardíacos. O conselho virou norma no mundo
todo - a Organização Mundial da Saúde e vários governos adotaram a
política de reduzir a gordura saturada. Tudo muito bom, só que tem
algumas peças que, mesmo após três décadas de pesquisas, continuam
não se encaixando no quebra-cabeças.
Uma delas é a Europa mediterrânea. Lá, desde que terminaram os
rigores da Segunda Guerra, o consumo de carne vermelha tem aumentado.
Pois bem: a taxa de doenças cardíacas diminuiu no mesmo período. E a
França? O país da pâtisserie, fã ardoroso das carnes vermelhas de
todo tipo, onde qualquer almoço começa refogando o que quer que seja
em manteiga derretida, tem uma das mais baixas taxas de mortes por
ataque cardíaco do mundo.
No ano passado, Gary Taubes, correspondente da revista americana
Science e um dos principais escritores de ciência do mundo, escreveu
um longo artigo no qual classificava o medo da gordura saturada
como "dogma". Taubes afirma que, mesmo com tanta pesquisa, não há
prova de que gordura saturada e enfartes estão ligados. E vai além:
diz que a propaganda do governo só serviu para fazer com que os
americanos comessem mais - ao evitar a gordura, eles acabavam
ingerindo mais carboidratos, mais açúcar, para manter a quantidade
diária de calorias (o corpo tende a reclamar quando as calorias são
insuficientes para saciá-lo - isso se chama fome). Resultado: o
índice de obesidade passou de 14% para 22% no país. E obesidade,
sabidamente, é um sério fator de risco para doenças cardíacas.
A maior parte do mundo médico ainda acredita na malignidade da carne
vermelha e da manteiga. ("Não tenho dúvidas da relação entre gordura
saturada e doenças cardiovasculares", afirma o nutricionista
argentino Cecílio Morón, oficial da agência da ONU que cuida de
alimentação, a FAO. Denise Coutinho, que coordena a política de
nutrição do governo brasileiro, repetiu quase as mesmas palavras.)
Mas o artigo de Taubes serviu para mostrar que nutrição não é baseada
numa relação simples de causa e conseqüência, tipo "mais carne, mais
ataques cardíacos".
Mas, afinal, o que sobra da discussão? Dietas de países gelados como
a Escócia e a Finlândia, onde o único vegetal consumido em quantidade
é o tabaco, estão equivocadas. Os altos índices de ataques cardíacos
por lá são prova incontestável. Mas os franceses, e os mediterrâneos
em geral, devem estar fazendo alguma coisa certa. Sua dieta é variada
e rica em vegetais frescos, azeite de oliva (tido como redutor de
colesterol), vinho e carne de todos os tipos. Ao contrário dos
americanos, esses povos comem com calma, em ambientes descontraídos.
O que os está salvando dos ataques cardíacos? Os legumes, o azeite, o
vinho, a conversa mole depois do almoço, a brisa marinha? Ninguém
sabe ao certo. Provavelmente é uma conjunção de todos esses fatores.
O raciocínio vale em parte para o câncer também. Os comedores de
carne morrem mais de câncer de intestino, boca, faringe, estômago,
seio e próstata. Ainda assim, o elo entre carne e câncer é meio
frouxo. Tudo indica que, se é que a carne aumenta mesmo a incidência
de câncer, sua influência é bem pequena - um fator entre muitos.
Agora, de uma coisa ninguém tem dúvidas: vegetais fazem bem. Uma
dieta rica em frutas, legumes e verduras claramente reduz as chances
de ter câncer no esôfago, na boca, no estômago, no intestino, no
reto, no pulmão, na próstata e na laringe, além de afastar os ataques
cardíacos. Frutas e legumes amarelos têm caroteno, que previne câncer
no estômago; a soja possui isoflavona, que diminui a incidência de
câncer de mama e osteoporose; o alho tem alicina, que fortalece o
sistema imunológico; e por aí vai - essa lista poderia ocupar o resto
da revista. Em resumo: não está bem claro se a carne faz mal. Muito
bem, pelo jeito, não faz. Mas, para ser saudável, o importante é ter
uma dieta rica e variada de vegetais. Seja ela vegetariana ou não.
DÁ PRA VIVER SEM CARNE? O vegetarianismo exige cuidados e
conhecimentos de nutrição, mas com certeza pode-se ter uma dieta
saudável sem carne. Aliás, o fato de exigir cuidados a faz mais
saudável. Um vegetariano tende a prestar mais atenção no que come e
nos efeitos disso sobre seu corpo. E isso, em si, já é um hábito
salutar. Muitos nutricionistas afirmam que as crianças não devem, de
maneira nenhuma, ficar sem proteína animal, sob risco de terem o
desenvolvimento cerebral prejudicado. Essa regra deve ser seguida a
não ser que os pais saibam muito bem o que estão fazendo, conheçam as
propriedades de cada alimento e - não menos importante - que a
criança queira.
Os ovolactovegetarianos não têm problemas com proteínas porque os
derivados de animais são tão protéicos quanto a carne. O perigo é que
leite e ovos são pobres em minerais, especialmente ferro, que é
fundamental para a saúde - ele é usado para construir a hemoglobina,
uma molécula cuja função é carregar o oxigênio do pulmão para as
células. Sem ferro, portanto, as células podem morrer. Isso é a
anemia.
Ou seja, ovolactovegetarianos não podem basear sua dieta no leite,
nos ovos e nos queijos, sob risco de ficarem sem nutrientes valiosos.
É preciso comer muitos e variados vegetais, em especial soja, feijão,
brócolis, couve, espinafre - todos ricos em ferro. A quantidade é
fundamental, porque o ferro dos vegetais é menos absorvido pelo corpo
que o de origem animal. Uma boa dica é acompanhar as refeições com
suco de laranja, já que a vitamina C ajuda na absorção do ferro.
Outra fonte de ferro é a casca de grãos como o arroz e o trigo. Por
isso, eles devem ser sempre integrais. Denise Coutinho, responsável
pela política nutricional do governo federal, adiantou à Super que
está em estudo uma medida para tornar a fortificação com ferro
obrigatória nas farinhas de trigo e de milho. A medida, que visa
combater a desnutrição, vai acabar ajudando a vida dos vegetarianos.
Já para os vegans, a palavrinha mágica é "soja". Se você não gosta
desse grão ou é alérgico a ele, virar vegan vai ser bem mais penoso.
A questão é a seguinte: suprir suas necessidades protéicas com carne
é fácil. "Afinal, você é feito de carne", diz Pedro de Felício,
especialista em produtos de origem animal da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Um bife tem a mesma composição que os músculos do
seu corpo. As proteínas das quais ele é feito são, também, iguais às
suas, feitas com os mesmos aminoácidos. Portanto, contêm tudo o que
você precisa. Proteínas vegetais são mais simples. Elas não contêm
todos os componentes necessários. A soja, entre os vegetais, é o que
tem as proteínas mais completas. Há outras fontes de proteína, como o
feijão, mas, se você não come soja, vai precisar de grandes
quantidades e de muita variedade de vegetais para juntar todos os
aminoácidos de que precisa. "Desde que sigam essa regra, os vegans
tendem a ter uma dieta até mais equilibrada que os
ovolactovegetarianos, já que não ocupam lugar no estômago com ovos e
leite, que são pobres em vários nutrientes", diz o nutricionista
vegan George Guimarães. Uma questão para os vegans é a vitamina B12,
que o corpo não produz e não existe em vegetais. A B12 é fabricada
por bactérias e pode ser encontrada nos animais (que comem bactérias
ao ciscar ou pastar). Mas suprir as necessidades de B12 é fácil:
qualquer biscoito ou cereal com a palavra "fortificado" no rótulo
contém a vitamina. Ela também é vendida em cápsulas.
<<< continua >>>
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