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Avançado
Jung e a Nova Era 4/4   Lista de mensagens  
Responder | Encaminhar Mensagem #38063 de 93582 |
4/4
(postado anteriormente na lista Hecate por Cronos)

<...>


(3) De Dualismo para Totalidade: a dissolução do
si-mesmo em uma unidade primeva
"Ninguém sabe melhor o
verdadeiro significado de distinção do que aqueles que
entraram na unidade". - Tauler

A atitude prevalescente nas tradições filosóficas e
religiosas do Ocidente é a de que o mundo da
experiência humana está baseada em uma série de
dualidades e oposições binárias, como mente e corpo,
masculino e feminino, intelecto e emoção, civilizado e
primitivo. O mundo está estruturado como uma rede de
forças opositoras e competidoras, e tipicamente um
conjunto nesta rede de possibilidades (como
masculinidade, intelecto, mente) está privilegiado
sobre o conjunto oposto. O dualismo ocidental, muitas
vezes designado como dualismo cartesiano, pode levar a
um universo social e moral cindido, e estas cisões e
desigualdades têm sido vigorosamente desafiadas e
freqüentemente atacadas pelos principais discursos
liberacionais da modernidade.

A atitude da Nova Era é de reagir fortemente ao legado
dualístico ocidental postulando uma contrastante
cosmologia de totalidade. Para a Nova Era, o mundo é
auto-evidentemente "um", todas as coisas são iguais, e
as "dez mil coisas" de uma realidade complexa são
simplesmente aspectos ou facetas diferentes da única
verdadeira realidade. A Nova Era notoriamente toma
emprestado o símbolo chinês do Tao ou Yin e Yang, com
os lados luminoso e escuro equilibrados em completa
harmonia, como seu símbolo para a "nova" cosmologia de
totalidade. De acordo com a Nova Era, a mente
ocidental que percebe cisões e divisões está meramente
projetando sua própria divisão neurótica sobre a
realidade unitária do uni-verso.

Para a Nova Era - e aqui sua atitude faz coro com
certas atitudes prevalescentes em construtivismo e
pós-modernidade -, cisões, dualidades, distinções, são
meramente criações fictícias de uma mente imperiosa,
patriarcal, julgadora. A tarefa da consciência
avançada é ver através destas divisões, dissolvendo-as
e retornando o mundo à sua unidade original. A meta
primária da meditação e da prática espiritual da Nova
Era é quebrar as barreiras que tanto preocupam(12) o
intelecto racional (a mente ocupada, daninha), e
passar através da unidade ou totalidade primeva.
"Todas as coisas em uma" é uma expressão padrão, e
muitas pessoas dentro deste movimento concordam que
atingir esta realização é avançar a consciência
ocidental para além de sua condição presente.

A atitude junguiana à primeira vista pareceria estar
em pleno acordo com a Nova Era e sua retórica de
totalidade, dada a bem conhecida preocupação de Jung
com unidade, mandalas, e o Self como o "arquétipo da
totalidade". Em seu desejo de substituir o dualismo
ocidental com um novo holismo, a Nova Era está quase
axiomaticamente assumida como seguindo uma direção
"junguiana".

Entretanto, Jung contrasta fortemente dois diferentes
tipos ou modelos de totalidade. O primeiro é o que ele
chama de "totalidade pré-consciente", a totalidade do
universo primevo e amorfo, uma unidade indiferenciada
como uma sopa, que existe como um a priori à
consciência. Nesta unidade primordial, os pares de
opostos estão fundidos, não porque foram unidos em uma
totalidade maior, mas porque ainda não foram
diferenciados uns de outros. Tudo é "um" porque os
"muitos", e os conflitantes pares de opostos que
constituem os muitos, ainda não foram trazidos à
existência. Esta totalidade é descoberta em mitologias
antigas que idealizam um "paraíso" original do qual
todos decaímos ou partimos. Também é descoberta em
certos tipos de misticismo, em cosmologias
altermundanas, e nos sonhos e fantasias de pacientes
profundamente regredidos que acham difícil aceitar as
tensões e estresses da existência consciente. Existir
no tempo e no espaço é estar "rasgado em dois", estar
dividido, e experimentar em primeira mão a disputa
arquetípica entre as oposições binárias que compõem
nossa vida psíquica. Jung identifica esta totalidade
original, pré-mundial, com o arquétipo da Grande Mãe,
e estes que procuram o incestuoso "retorno à mãe"
estão dispostos a idealizar esta condição primeva.
Neumann desenvolveu a hipótese de Jung da "grande
roda" chamando a este símbolo o Uroboros, ou a
serpente que morde o próprio rabo.

Em contraste, Jung postulou, e defendeu, um segundo
tipo de totalidade na qual os pares de opostos,
separados pelo advento de uma consciência polarizada e
unilateral, tornam-se novamente juntos em uma unidade
relativa. Esta totalidade, ele sentiu, é o objetivo e
ponto-final (telos) da realização consciente. Se a
primeira totalidade pode ser paralelizada com o Éden
ou o Paraíso, a segunda totalidade, recuperada, pode
ser comparada com a Nova Jerusalém de Blake. Se a
primeira totalidade é infantil, e ligada com o
"sentimento oceânico" de Freud, a segunda é um estado
mais elevado de consciência, governada não pela Mãe,
mas pelo arquétipo do Self. Jung e especialmente
Neumann sentiram que era crucial diferenciar entre
estes dois tipos de totalidade porque, enquanto a
totalidade original pode representar a meta de uma
consciência fraca e exausta que desistiu do esforço da
vida, a segunda totalidade representa uma consciência
que está avançando a alma do mundo (anima mundi) pela
recusa em permitir que os pares de opostos se
distanciem. O foco de um segundo tipo de totalidade é
de que a integridade e identidade dos opostos está
mantida e respeitada. Totalidade consciente não é um
caos semelhante a uma sopa, mas uma unidade claramente
diferenciada na qual todas as diferenças e distinções
básicas têm sido honradas, vividas e reconciliadas:
"Sem a experiência dos opostos não há experiência de
totalidade"(13). Jung viu a mandala oriental, um
"círculo mágico" no qual são preservadas a integridade
das formas de vida, das estruturas geométricas e das
figuras sagradas, como símbolo da totalidade
diferenciada que ele tanto admirava.

Meu senso é de que, contrariamente à opinião popular,
Jung consideraria a totalidade da Nova Era como sendo
quase inútil na medida em que advoga a primeira
totalidade, a do tipo regressivo. A totalidade da Nova
Era é amorfa, indiferenciada e sentimental. Muito
casual e desembaraçadamente ela assevera a "unidade"
de tudo, e o faz antes que a óbvia desunião e
dissemelhança dos opostos tenha sido adequadamente
experienciada. A Nova Era advoga um retorno à Mãe do
Mundo, e sua ânsia por unidade é a ânsia do infante
pela unidade com a mãe. A Nova Era não se vê como
herdeira da cultura ou da história do Ocidente, e não
está interessada em "completar" esta história, mas
meramente em suprimi-la. Sua demanda por quietude
imediata, sua ênfase em profundo relaxamento, sua
impaciência com o mundo judeu-cristão e o esforço das
eras, representa não tanto a culminação da tradição,
mas a negação da tradição ocidental. A Nova Era não
afirma o passado, mas quer começar tudo de novo,
construir um futuro mais brilhante, menos trágico, e
está cansada do embate dos opostos que constitui tanto
de nossa história.

De acordo com Jung, a tarefa da humanidade é tornar
consciente, e trazer para a reconciliação simbólica, o
esforço e tensão que são inerentes à construção do
universo. A importância da "humanidade" para "Deus" é
que a humanidade pode expressar, viver, e
esperançosamente transformar os elementos conflitantes
primevos dos quais o Ente Supremo é como que
"inconscientemente" composto. A humanidade traz os
elementos querelantes da natureza de Deus, a luz
sublime e a misteriosa escuridão, a masculinidade e a
feminilidade, o sublime amor e o terreno eros, em um
novo tipo de relação. Se abandonarmos esta tarefa
porque é muito exigente, se abandonarmos a crucifixão
que espelha nosso doloroso sofrimento sobre a cruz de
oposições, desistiremos então não apenas de nossa
missão humana, mas também da antiga busca do divino
por si mesmo.

Jung argumentaria que não se pode falar de totalidade
até que a escuridão ou "sombra" da natureza humana
tenha sido maduramente aceita e integrada. Eis aqui
onde a Nova Era trai seu infantilismo e sua fingida
"totalidade", porque o lado escuro da natureza humana
é quase sistematicamente ignorado. A Nova Era está
voando da escuridão e da realidade do mal, vendo a
escuridão meramente como a ausência de luz. Em sua
ânsia por bem-aventurança e prazer, sua ênfase sobre o
escape através da transcendência, a Nova Era perde a
substância e a fundação com o real que tornaria
possível uma integração da escuridão.

Para Jung, a aceitação da escuridão nos envolve em um
"próximo passo" maior na tradição ocidental. Onde a
Nova Era quer destruir a morbidez cristã, Jung quer
aprofundar o senso de escuridão para uma nova imagem
da própria divindade. "Deus nos enche de mal tal como
de bem... e porque ele quer se tornar homem, a
unificação de sua antinomia precisa tomar lugar no
homem. Isto envolve o homem em uma nova
responsabilidade"(14). A era cristã promoveu uma ética
de perfeição em sua ênfase sobre a figura
paradigmática de Cristo, mas uma era genuinamente nova
ou vindoura estará, para Jung, baseada sobre uma ética
da totalidade cujo foco não será Jesus, mas o Espírito
Santo. "O Espírito Santo é uma reconciliação de
opostos e daí a resposta ao sofrimento no Ente Supremo
que Cristo personifica"(15). Uma Nova Era do Espírito,
de acordo com Jung, apresentará não a segunda vinda de
um Cristo humano, mas "a revelação do Espírito Santo a
partir do próprio homem"(16). A Era Vindoura não
destruirá o Cristianismo substituindo-o com paganismo
(a Nova Era), mas transcenderá o Cristianismo
histórico substituindo a imitação de Cristo pela
experiência direta e vivente do Espírito Santo. O
próprio Cristo insinuou (João 16:7-13) que o Espírito
Santo ou Confortador viria depois dele, não apenas
para derramar as línguas do Pentecostes sobre seus
discípulos, mas para impregnar toda a humanidade com o
"espírito da verdade".

Para Jung, portanto, uma compreensão correta da
totalidade é essencial não apenas para nossa saúde
psicológica pessoal, nosso bem-estar moral e ético, e
nosso senso humano de sentido da vida, mas é o padrão
pelo qual participamos na auto-evolução do divino. A
totalidade da pessoa humana no esforço da individuação
nos envolve simultaneamente na criação de uma nova
ética, uma nova disposição psicológica e cultural, e
uma nova fase em nossa história religiosa. É por isto
que Jung insiste através de seus escritos que nós
mantemos a tensão entre os opostos e nos movemos
adiante; não devemos relaxar a tensão de modo que os
opostos percam sua definição e retornem ao uroboros
primevo. "Sem oposição não há fluxo de energia, não há
vitalidade. A falta de oposição leva a vida a uma
estagnação aonde quer que tal falta alcance"(17). Jung
não era um guru da Nova Era que pregava profundo
relaxamento e a dissolução do estresse, mas pelo
contrário, ele implorava aos outros para permanecerem
conscientes de divisões, fortalecer isso, e manter os
opostos em relação dinâmica. Somente então poderá a
"função transcendente", que em metapsicologia
junguiana seria o Confortador ou Paracleto, vir em
nosso auxílio e tornar suportável a carga que estamos
carregando.

Pelo lado positivo, Jung possivelmente consideraria o
interesse da Nova Era por totalidade como uma
prefiguração arcaica e incompleta de uma totalidade
futura verdadeiramente autêntica. Quando os arquétipos
primeiro aparecem na psique coletiva, eles com
freqüência apresentam seu lado insípido e menos
desenvolvido a princípio, devido a seu longo período
de imersão nas profundezas do inconsciente. Embora
conceitualmente a indiferenciada unidade do uroboros e
a totalidade diferenciada da mandala estejam distantes
anos-luz, em um nível psicológico e experiencial a
primeira poderia bem ser a precursora da última. Isto
também significa que o regressivo "retorno à mãe"
poderia também prenunciar ou prefigurar como vamos
negociar nosso "retorno ao Self" em um nível muito
mais alto. A "suave entrega" da Nova Era poderia
representar tanto nosso desejo de abortar a jornada
humana quanto uma tentativa de uma totalidade que
transcende as realidades rompidas à força na era
moderna.

A Nova Era pode abrigar as sementes para o futuro, mas
estas sementes são brutas, não-cultivadas, e precisam
de muito refinamento. Sentindo estes augúrios e esta
profética possibilidade, Jung provavelmente não seria
totalmente exonerativo da Nova Era, mas concentraria
suas energias em encontrar elementos nela que sejam
dignos de crédito e interesse.


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Notas

1 Duncan S. Ferguson, ed., New Age Spirituality: An
Assessment, Louisville, Kentucky: Westminster/John
Knox Press, 1993.

2 Paul Heelas, The New Age Movement: The Celebration
of the Self and the Sacralization of Modernity,
Oxford: Blackwell, 1996, p. 46.

3 Nevill Drury, The Elements of Human Potential,
Dorset: Element Books, 1989, p. 25.

4 (N. do T.): No original em inglês. "cry of the
heart".

5 Jung, "Schiller's Ideas on the Type Problem" (1926),
CW 6, § 150.

6 Jung, "Wotan" (1936) and "After the Catastrophe"
(1945), in CW 10, § 371f.

7 Tony Kelly, "The New Age Movement", in An Expanding
Theology, Sydney: E. J. Dwyer, 1993, p. 41.

8 (N. do T.): Frase original: "Follow your bliss".

9 (N. do T.) Talvez se aqui o leitor tomar pessoa
(person) no sentido de personalidade mais do que no
sentido restrito de sujeito o entendimento fique mais
claro.

10 (N. do T.) No original: "whosoever will lose his
life for my sake shall find it". Na Bíblia Sagrada em
português, edição traduzida da Vulgata Latina pelo
padre Antônio Pereira de Figueiredo, publicada pela
Editora Guarabu (RJ) em 1960, lê-se (em Mateus,
16:25): "Porque o que quiser salvar a sua alma,
perdê-la-á; e o que perder a sua alma por amor de mim,
achá-la-á".

11 Shirley MacLaine, Going Within: A Guide for Inner
Transformation, London: Bantam, 1990, p. 13.

12 (N. do T.) Aqui também o sentido está em
preocupação como ocupação prévia.

13 Jung, CW 12, § 24.

14 Jung, CW 11, § 747.

15 Jung, CW 11, § 260.

16 Jung, CW 11, § 267.

17 Jung, CW 10, § 359.


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Primeira publicação em português na Internet neste
site, em Fevereiro de 2002, por
Daniel Ricardo Augusto Wood


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Cronos - também conhecido como Marcelo Brasil
http://www.projeto-hecate.com.br






Qua, 18 de Fev de 2004 3:40 pm

lazarofreire
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4/4 (postado anteriormente na lista Hecate por Cronos) <...> (3) De Dualismo para Totalidade: a dissolução do si-mesmo em uma unidade primeva "Ninguém sabe...
Lázaro Luiz Trinda...
lazarofreire
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18 de Fev de 2004
3:40 pm

Uuff...finalmente terminei de ler o ensaio, é bem interessante. Resumindo, o ponto parece ser que Jung reconhece a luta Ego-Alma, e que só se atinge uma...
Eduardo Bassani
bassani_xol
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19 de Fev de 2004
2:32 pm
Avançado

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