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(postado anteriormente na lista Hecate por Cronos)
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Por contraste, Jung descobre espiritualidade em e
através de nossas patologias humanas, não por meio da
transcendência delas. Jung sustenta que para a
humanidade moderna "os deuses viraram doenças", e
encontramos nossa sacralidade rejeitada e reprimida no
centro das doenças, no núcleo das psiconeuroses, e no
meio da angústia mental. Qualquer movimento coletivo
que ache a psicopatologia mórbida, escura, ou indigna
de interesse, está efetivamente perdendo a
oportunidade espiritual do tempo e não merece o nome
de "espiritualidade". A Nova Era, {vista} a partir
desta posição junguiana, trabalha incansavelmente para
evitar qualquer verdadeiro encontro com o verdadeiro
sagrado, preferindo em vez disso seguir algum ideal de
ego abstrato e inteiramente convencional a respeito de
como é o sagrado.
Jung reconheceria na Nova Era uma confusão fundamental
entre o ego (self pessoal) e a alma (ou o Self no
sentido junguiano mais amplo). Na verdadeira prática
religiosa, é a alma que encontra remissão e
libertação, pois esta é a parte imortal da pessoa(9).
Paradoxalmente, a salvação da alma é ao mesmo tempo
uma mortificação do ego, daí a formulação: "quem quer
que perca sua vida por minha causa a encontrará"
(Mateus 16:25)(10). No passado, a necessária
mortificação do ego foi confundida com a mortificação
do corpo, da sexualidade e do feminino, e isto surgiu
amplamente a partir da cisão, na psique ocidental,
entre o espírito e a matéria. Mas hoje, com nosso
conhecimento psicológico maior, ficamos mais próximos
do mistério cristão percebendo que é o si-mesmo
pessoal, o ego, que precisa ser deslocado de modo que
a salvação possa tomar lugar. Na Nova Era, não há
verdadeira separação entre o si-mesmo pessoal e a alma
transpessoal; assim, o primeiro estágio na verdadeira
consciência religiosa não é adquirido; ou, em vez
disso, um processo religioso é conduzido e em cada
ponto desta jornada a vida espiritual é contaminada
com os desejos e ânsias do ego. Neste caminho a
jornada espiritual é corrompida, e degenera em uma
viagem de ego. À medida em que a alma é libertada de
seus grilhões e é elevada a uma realidade maior, o ego
quer viajar junto com ela, e o êxtase da libertação do
espírito é um êxtase que o ego quer para si.
De maneira similar, o faminto ego da Nova Era espia a
grandeza e poder de Deus, e se identifica com aquele
poder, vendo Deus como algum "recurso sobrenatural
não-represado" que pode ser utilizado para a "expansão
de potencial humano". Esta é uma fantasia prometéica
selvagem e sem limites, e a Nova Era efetivamente
acredita no mais fundo de seu coração que o homem pode
se tornar Deus. Como Shirley MacLaine, um de seus
expoentes populares, proclama: "Eu sou Deus, eu sou
Deus, eu sou Deus"(11). Com suas raízes primordiais no
movimento da psicologia humanística, isso casa o
otimismo de Maslow e Rogers com as asserções
selvagemente esotéricas de Blavatsky e Gurdjieff. Na
maior parte da literatura popular, a Nova Era se gaba
a respeito de quebrar fronteiras convencionais,
realizando potencial oculto, e aspirando alturas
divinas.
Jung provavelmente classificaria isto como uma
espiritualidade psicótica, uma espiritualidade em que
o ego tem sido grotescamente inflado a proporções
divinas. O papel secundário do ego não foi
compreendido, e há uma profunda confusão psicológica e
teológica sobre o significado da vida e o papel da
humanidade em servir o divino. O homem da Nova Era vai
dinamitando seu caminho para dentro do reino
espiritual, esperando encontrar bem-aventurança, mas
porque ele está tão narcisisticamente apegado ao ego
suas experiências sempre dão de encontro com o
desapontamento. O sacrifício do ego ao divino, que é
tão básico para a experiência religiosa, não ocorre e
não pode ocorrer, e assim tem lugar inconsciente e
involuntariamente. Intelectualmente, o homem da Nova
Era desposa uma filosofia sonhadora, paradisíaca, mas
atualmente e de fato ele está cheio de queixas e
amargura, porque nada parece caminhar direito, outras
pessoas parecem concentradas em miná-lo ou arruiná-lo,
e mesmo sua prática espiritual é criticada por ser
inadequada. A "perda do ego" que deveria estar
ocorrendo conscientemente cai no inconsciente e, como
qualquer coisa inconsciente, está projetada para fora,
sobre outros e o mundo.
Entretanto, na espiritualidade da Nova Era, não apenas
a perda do ego toma lugar inconscientemente, mas o
necessário desenvolvimento e construção do ego ocorre
tal e qual inconscientemente. Este é um lado
diferente, mas relacionado, da trágica e
indiferenciada fusão entre ego e alma. O ego precisa
separar-se da alma de modo a descobrir sua própria
identidade e vida. O ego precisa ativamente abraçar
sua própria separação e mesmo arriscar "alienação" da
alma para chegar a si. Como Jung deixou claro, o
desenvolvimento do ego é sancionado arquetipicamente,
e qualquer tentativa de abafar este desenvolvimento
tem que resultar em desastre. Quando perguntado a
respeito de sua prática espiritual, ou porque seu
estilo de vida é tão diferente das pessoas comuns, os
da Nova Era com freqüência declararão que "passaram
por cima de", "pisotearam" ou "largaram" o ego
ordinário. O que eles querem dizer com isto é que as
coisas usuais associadas com o desenvolvimento humano
foram abandonadas em favor de um estilo de vida mais
pontuadamente relacionado com a realidade da alma.
Entretanto, o ego não foi "largado", e por definição
não pode ser largado; foi meramente (con)fundido com a
vida da alma. Este é o cenário psicológico para o
notório problema do egotismo desenfreado,
emocionalidade, cisões e competitividade que infestam
os grupos, cultos, seitas, ashrams, clubes, sociedades
e comunidades da Nova Era. Embora todos estes grupos
trabalhem em sentido à transcendência do ego em favor
da alma, são freqüentemente destruídos por um egotismo
secreto, escuro e maléfico, que corrói os altos ideais
e eventualmente causa o colapso da edificação toda,
muitas vezes com conseqüências devastadoras para a
sociedade e para todos os envolvidos. O que começou
com perfumes e cantos termina em tribunais de justiça
e em inquéritos policiais: pagamos um preço enorme por
reprimir nossos impulsos comuns e nossa humanidade
básica.
Não é possível livrar-se dos impulsos do ego,
especialmente o impulso de poder e sua pressão por
identidade e estima, através de uma atitude
intelectual que adota foco sobre coisas "mais altas".
Embora a ênfase consciente seja sobre a "abertura"
para o divino, juntar-se a uma vontade superior, e
mística "capacidade [de] negativa", o impulso de poder
do ego se faz sentir na fixidez e dogmatismo com a
qual estas metas "expansivas" são buscadas. Os devotos
declaram que são "nada" perante o divino, ou sem valor
diante do carismático professor, mas no pano de fundo
há ferozes manobras por privilégios e lugares
especiais, por poder e influência dentro do grupo. Nem
pode o impulso sexual ser suprimido por uma intensa
devoção (cheirando incenso) ao etéreo e interesses
paradisíacos. O que é negligenciado ou rejeitado volta
para nos visitar, e usualmente volta com considerável
violência, de modo tal que o ashram local da Nova Era
pode acabar como um covil de iniqüidade, "estourado"
pela polícia e retratado na página três do jornal
local. Embora adote os caminhos da beatitude e
iluminação orientais, o trágico Ocidente encontra sua
vingança engolfando tais ingênuos grupos no
negativismo e no retorno do reprimido.
Jung concordaria com a Nova Era que o Ocidente Cristão
tem se tornado demasiadamente atado a um pessimismo
constitucional e deprimente, um pessimismo que espanta
muitos para longe da prática cristã. As possibilidades
transformativas do autodesenvolvimento e da
individuação dão origem a um certo grau de otimismo, e
um espírito positivo que nos eleva para além do
desespero e da miséria. Ele também concordaria que há
uma necessidade maior por auto-conhecimento na
religião ocidental, e que encontramos suficientemente
demasiada "fé cega" no cristianismo, com muitas
pessoas adotando crenças e doutrinas sem testar estes
preceitos contra a experiência. Precisamos de
exercícios espirituais, contemplações, dispositivos,
sabedorias: o chamado do púlpito para "acreditar" não
é mais suficiente, nem apropriado. Jung tolera muito
do aparato espiritual da Nova Era; sua ênfase sobre
diversidade e pluralismo, sobre sabedorias pré e
pós-cristãs, sobre meditação, introspecção, e
experiência pessoal direta. Entretanto, a menos que a
atitude correta seja adotada, o aparato e as
tecnologias de auto-ajuda são mais do que inúteis: são
positivamente perigosos. Seria melhor que o homem da
Nova Era fechasse sua caixa de truques, fechando o
ashram suburbano, e voltasse para a igreja ou sinagoga
para aprender as lições da humildade e da modéstia.
Não pode haver transformação espiritual alguma a menos
que ego e alma estejam firmemente diferenciados.
O ego e a alma têm ambos de ser vividos, expressos,
celebrados, e desfrutados. Precisamos viver duas vidas
simultaneamente, e especialmente para todos os
ocidentais, como Jung alertou, a vida do ego não pode
ser sub-repticiamente esquecida por debaixo de
clamores e paixões de estados alterados de
consciência. O ego do homem ocidental tem se
diferenciado através de muitos séculos, e nenhum
seminário espiritual ou curso de meditação de
fim-de-semana se livrará dele com sucesso. O ego,
nosso si mesmo (self) pessoal, nossa mortalidade,
nossa separação de Deus, é o instrumento de nosso
sofrimento, mas se este instrumento for explodido de
modo a transcender o sofrimento, terminaremos em mais
dor do que jamais antes. Humildemente, nosso
sofrimento e incompletude têm de ser aceitos, e
somente então alguma transcendência será possível.
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