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Jung e a Nova Era 2/4   Lista de mensagens  
Responder | Encaminhar Mensagem #38061 de 93593 |
2/4
(postado anteriormente na lista Hecate, por Cronos)

<...>

Como Jung responderia a este aspecto da Nova Era? Jung
morreu em 1961, alguns anos antes que a Noiva Era
ganhasse impulso internacional, e antes que o
movimento ecológico fosse estabelecido (nos dias de
Jung referiam-se a este como "conservação", e era
usualmente da competência dos politicamente
conservativos). Entretanto, ele tinha previsto a
ascensão do paganismo na psique ocidental(5), e já
tinha, de fato, identificado este paganismo
ressurgente como a fonte arquetípica para o fascismo e
nacional-socialismo do século vinte(6).

Em assuntos religiosos, Jung era tanto Cristão quando
Nova Era. Jung podia ver que os antigos deuses e
deusas pré-cristãos ainda estavam vivos, e
freqüentemente os descobria na psique como o núcleo
central de complexos e psiconeuroses. Jung estava
interessado no pré-cristão, no não-cristão, no
pós-cristão, mas diferentemente da Nova Era ele não
era anti-cristão. Ele não sofria de preconceito
anti-cristão, nem se sentia obrigado, como James
Hillman depois dele, a cantar os louvores da Grécia
Antiga e enquanto isso denunciar a herança
judaico-cristã. Jung estava empenhado na tarefa de
restaurar o Deus Cristão à dignidade cultural e à
compreensão humana. Jung podia ver que a
unilateralidade da cultura e religião patriarcais
necessariamente constelaria o despertar de figuras
arquetípicas femininas e matriarcais, mas sua resposta
a estas figuras era ambivalente. Por um lado,
precisamos encorajar o feminino arquetípico a
apresentar-se após séculos de repressão e
esquecimento. Por outro lado, mal podemos permitir ao
feminino tomar "posse" da consciência; deve ser
integrado e não permitido a dominar em uma nova,
igualmente extrema e portanto igualmente indesejável
unilateralidade.

Jung teve um complexo materno positivo, e isto
inclinou-o a muitas das artes e ciências matriarcais
que têm sido "banidas" pelo patriarcado, as quais já
estavam se tornando disponíveis ao público nos
próprios dias de Jung. O interesse de Jung em
astrologia e adivinhação é bem conhecido, e
virtualmente sozinho ele recuperou a antiga arte da
alquimia para moderna investigação científica e
psicológica. Jung também estava ecológica e
romanticamente atado às paisagens, terra, árvores,
muito antes destas atitudes se tornarem celebradas e
entrincheiradas na ecologia popular. Talvez mais do
que o próprio Jung, seu seguidor maior Erich Neumann
estava embebido na consciência de que o feminino
arquetípico estava a ponto de deslocar e desafiar as
fundações arquetípicas do patriarcado, como podemos
ver especialmente em seu The Great Mother e The
Archetypal World of Henry Moore. Mais recentemente, o
analista junguiano Edward Whitmont dedicou um volume
inteiro, Return of the Goddess, ao fenômeno do
despertar do feminino arquetípico e seu fálico
filho-amante no contexto da modernidade e da
pós-modernidade.

Jung concordaria com a Nova Era que se uma grande
mudança na atitude cultural deve ser efetuada,
incluindo uma dramática mudança de coração a respeito
do relacionamento da humanidade com o ambiente e o
mundo físico, então o suporte arquetípico deve ser
evocado para habilitar a humanidade a "sentir
diferentemente" acerca do mundo. Mudanças sociais que
operam puramente a partir do nível racional, como uma
chamada a despertar a consciência moral a respeito do
mundo, ou uma chamada a intensificar a
responsabilidade ética sobre o ambiente, não serão
efetivas, porque as mais profundas emoções do homem
não foram ativadas ou excitadas. Jung não era um
positivista social, não acreditava na fantasia de que
a sociedade está inevitavelmente se tornando "melhor",
mas estava convencido do poder do mito e sua
habilidade para mobilizar ações humanas e galvanizar
resposta coletiva. Se uma transformação espiritual
pode ser perseguida, e pode ser desenvolvida uma nova
perspectiva que vem de reviver a visão antiga de que a
Terra é nossa "mãe ancestral" ou fonte espiritual,
tanto melhor para o futuro da Terra. Estou certo de
que Jung sentiria que a remitologização teria de
acompanhar a revolução social, e que o retorno de
Gaia, Deméter ou Afrodite a um estado mítico vivente é
um pequeno preço a pagar pela sobrevivência do próprio
mundo, sua biodiversidade e seus habitantes.

Como mencionado, Jung seria crítico se ele sentisse
que um novo culto de Gaia, ou da assim chamada
Hipótese Gaia, viria às expensas do Deus-Pai, o
princípio masculino, e o animus. Qual seria o ponto,
ele perguntaria, de dois mil anos ou mais de
diferenciação do masculino arquetípico, se estamos
preparados para atirar fora tudo isso em uma resposta
de pânico ao apuro do mundo? Por que temos de avançar
rumo a uma enantiodromia (uma corrida de um extremo
oposto a outro) cultural, quando temos a oportunidade
de considerar ambos os lados do espectro arquetípico?
Por que decidir por uma nova unilateralidade quando
nosso mais profundo imperativo, tanto para nós quanto
para nossa cultura, é por um esforço voltado à
totalidade e unidade? Por todos os meios tragam Gaia e
tragam de volta Deméter, mas deixemo-nos engajar estas
personalidades arcaicas em um diálogo pleno de sentido
com a espiritualidade Cristã e a religião ocidental.
Enquanto estamos nisso, deixemo-nos também trabalhar
para uma recuperação da dimensão feminina perdida
dentro do Deus Judeu-Cristão da mesma maneira (como
Sofia, Lilith, Maria, Sabedoria, e Espírito Santo).
Mas ao lançar fora nossa água-de-banho cultural, Jung
avisaria que lançar fora também o Menino Jesus
acarretaria uma explosão completa de repressão do
espírito masculino, e a perigosas repercussões e
conseqüências do esquecido ou banido reino do
masculino.



(2) De Sofrimento a Beatitude: o novo vício em
experiências de pico
A atitude prevalescente nas tradições religiosas e
filosóficas ocidentais é a de que a humanidade é
essencialmente trágica e vida é sinônimo de
sofrimento. Há um penetrante pessimismo sobre o valor
e o potencial humano, que tem se erguido a partir da
doutrina do pecado original, a noção de degradação
humana e inata tendência para o egotismo servente a
si. A espiritualidade cristã atinge seu objetivo não
pelo incremento à estatura do self, mas pelo
deslocamento do self inteiro em favor da humildade, do
esvaziamento, e de um tipo de preenchimento negativo,
através do qual o divino aumenta sua completude em
proporção direta à redução do ego. No humanismo
ocidental, também, o self é sentido como sendo
inerentemente limitado e falho, e qualquer tentativa
de sobrepujar a limitação humana inevitavelmente vai
dar de encontro com inflação moral e arrogância
satânica. Sabedoria e direção espiritual não reduzem
nosso sofrimento, mas fazem-no suportável e dão a ele
significado mais elevado. O símbolo para o quinhão da
humanidade na tradição religiosa ocidental é Cristo na
cruz.

A atitude da Nova Era é de que a cultura ocidental é
muito mórbida e depressiva, e precisamos mudar o
roteiro que temos a respeito de nós mesmos. A Nova Era
substitui o senso ocidental de tragédia com um intenso
otimismo acerca da transformação individual e social.
"Uma 'nova' era é possível; o potencial humano é sem
limites; sua dinâmica está disponível e acenando.
Ênfases no pecado e no mal, na redenção e na conversão
devem ceder a um mundo de 'bênçãos originais' em uma
boa criação"(7). O homem não mais precisa
crucificar-se na imagem do Cristo; ele pode descer da
cruz, e celebrar sua existência corpórea, carnal, e
sua capacidade para entrar em diálogo transformativo
com o divino.

O homem da Nova Era procura por experiências de pico,
altas, estados alterados de consciência, e evita as
baixas, depressões e árido pessimismo. Ele procura por
espiritualidade, por o que se lê "dispositivos e
técnicas que me conectarão com o divino", e com
freqüência evita ou rejeita as religiões
estabelecidas, pelo que se lê "estas estruturas
dogmáticas que limitam minha liberdade individual,
inibem a expressão espiritual e diminuem as
expectativas pessoais de glória". A espiritualidade
promete altos, mas a religião ameaça com sua ênfase
sobre restrições morais, consciência social e
obrigações éticas. O homem da Nova Era quer a Meta
(unidade com o divino) sem o Caminho (a disciplina,
ética, e auto-cancelamento que tornam tal unidade
possível). Ele quer jubilosa união sem o sofrimento da
cruz, renascimento espiritual sem ter primeiro que
suportar a morte espiritual. Ele está "enganchado" no
sagrado, viciado em técnicas e práticas espirituais, e
seu credo é: "Siga sua beatitude"(8) (Joseph
Campbell).

Uma resposta junguiana seria a de duvidar da
autenticidade desta assim chamada "espiritualidade" se
ela está projetada meramente para prover gratificação
instantânea para o ego. Jung ficaria suspeitoso de uma
separação demarcada entre "espiritualidade" e
"religião" se estiver designada simplesmente a separar
"altos" de "baixos", ou luz de sombra. Jung veria
qualquer otimismo sem fronteiras como uma defesa
contra a escuridão, e apoiaria o ocidente cristão em
sua ênfase sobre o sofrimento inevitável. De acordo
com Jung, nunca se pode escapar do sofrimento, mas
deve-se abraçá-lo e aceitá-lo como parte da condição
humana.

Uma grande diferença entre Jung e a Nova Era diz
respeito a sua descoberta ou "localização" do sagrado.
A despeito da retórica da Nova Era sobre a "imanência"
do divino e da "mundialidade" de sua visão espiritual,
a Nova Era parece estar presa em uma interpretação
tipicamente ocidental e transcendentalista do
espírito. A Nova Era tende a encontrar suas
experiências espirituais "afastada" da vida e "além"
do solo da experiência ordinária. É atraída para o
bizarro e exótico, para o extramundano e xamanístico.
Uma experiência espiritual é um vôo para longe do
real, daí a importância da palavra "alto" para
descrever esta espiritualidade popular. A Nova Era não
é redentora ou transformadora, e neste sentido a
Cristandade é uma filosofia muito mais radical na
medida em que procura engajar e redimir os elementos
desta realidade. Poderia ser que a Nova Era tenha
herdado a altermundialidade da Gnose histórica, com
sua impaciência com o real e seu foco metafísico sobre
um cosmo distante?

<...>





Qua, 18 de Fev de 2004 3:38 pm

lazarofreire
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lazarofreire
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18 de Fev de 2004
3:38 pm
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