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--- Em Hecate, Cronos <cronos_seth> escreveu
Esse texto também é o bicho para quebrar uma certa
"papagaiada esquisotérica analítica".
Jung e a Nova Era:
Um Estudo sobre Contrastes
por David Tacey
{Título do original: Jung and the New Age: A Study in
Contrasts by David Tacey, Ph.D., originally published
on the Internet in English at The Round Table Review}
O nome de Jung tem sido associado com a Nova Era por
cerca de três décadas, mas agora sua alegada
"influência" sobre este movimento está sendo
formalmente proposta e articulada. Em New Age
Spirituality, Duncan Ferguson argumenta que Jung tem
desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento
desta espiritualidade popular(1), e mais recentemente
no New Age Movement o sociólogo Paul Heelas assevera
que Jung é uma das "três figuras-chave" (as outras
sendo Blavatsky e Gurdjieff) responsáveis pela
existência do movimento(2). Em similar disposição,
Nevill Drury mantém que "o impacto de Jung sobre o
pensamento da Nova Era tem sido enorme, maior, talvez,
do que a maioria das pessoas percebe"(3). Em todo
lugar a asserção está sendo feita de que o movimento
Nova Era é um produto de influência junguiana, e hoje
terapeutas de uma diversa faixa de campos, todos,
proclamam ser junguianos, ou referem-se a Jung como
seu ancestral espiritual, autoridade científica,
inspiração ou fonte. Serão válidas tais asserções?
Quão junguiana é a Nova Era? Havendo explorado as
similaridades e diferenças entre a espiritualidade da
Nova Era e a metapsicologia junguiana, concluo que a
Nova Era é não-junguiana ou anti-junguiana em vários
importantes aspectos, que serão considerados aqui.
Jung tem claramente vários pontos em comum com a Nova
Era. Ambos, Jung e a Nova Era, concordam que
significado espiritual não é sinônimo de, e não pode
ser contido pelos estabelecimentos e instituições
religiosos da cultura ocidental. Jung e a Nova Era
estão interessados em explorar fontes não-cristãs, pré
ou pós-cristãs, de significado espiritual; ambos estão
interessados em gnose, alquimia e tradições
contemplativas orientais. Jung e a Nova Era olham
além, para o futuro, com um grau de otimismo, vendo um
"espírito" que trabalha através da história anunciando
um objetivo ou ideal futuro que ainda tem de ser
compreendido. Ambos olham adiante para uma visão
futura que, talvez paradoxalmente, nos ensine como
viver no presente. O presente vive em antecipação de
um futuro "melhor", e para Jung o ideal pode ser
sumarizado na palavra "totalidade", um ideal que ele
freqüentemente contrasta com a ética cristã de
"perfeição". A Nova Era, também, gosta de privilegiar
"totalidade" sobre "perfeição", assim como enfatiza o
Deus imanente sobre o Deus transcendente.
Às vezes parece que a espiritualidade da Nova Era é
simplesmente a psicologia junguiana numa ordem
ampliada, levando o modelo de Jung para o mundo
exterior e distribuindo sua sabedoria para as
multidões necessitadas de direção espiritual. Mas é
claro que aquilo que a Nova Era parece estar fazendo e
o que ela efetivamente faz são coisas bastante
diferentes. A Nova Era não é uma filosofia religiosa
coerente e com freqüência parece estar dirigida mais
por interesses comerciais e forças de mercado do que
por qualquer posição filosófica particular. É
amplamente junguiana em sua ênfase sobre a autoridade
espiritual da experiência individual (que Jung
emprestou do protestantismo), sobre a necessidade de
transformação religiosa e cultural (que Jung derivou
do romantismo alemão), e sobre a importância de
métodos não-ortodoxos de atingir unidade com o Criador
(que Jung emprestou da Gnose, Hermetismo, e Alquimia).
O valor da Nova Era está em como ela desafia a
ortodoxia religiosa ocidental para chegar em novas e
culturalmente relevantes interpretações do espírito
humano. A Nova Era é um "explode coração"(4) das
massas, um clamor para tornar a espiritualidade
relevante a nossos tempos e emocionalmente relacionada
à experiência humana individual. É um movimento
popular que reverte muitas das atitudes, tendências, e
visões que são encontradas na religião ocidental
tradicional, especialmente visões sobre o corpo,
sexualidade, natureza e desejo. É um movimento que
segue e estende um processo arquetípico que está
baseado no "princípio feminino", é compensatório ao
ocidente patriarcal, e tem ligações com o Romantismo,
a Gnose, o Paganismo, o Naturalismo, o Nudismo, e o
Ocultismo.
Se a Nova Era parece junguiana não é porque tem usado
Jung, mas porque obtém sua vida a partir de uma forte
corrente arquetípica que podemos associar com Jung
porque ele claramente mapeou este território
psicoespiritual. Jung esteve especialmente interessado
nos processos arquetípicos que são "compensatórios"
para o ocidente patriarcal, portanto isto o traz ainda
mais próximo dos interesses da Nova Era. Entretanto,
Jung não celebrou ingenuamente ou idealizou estas
correntes compensatórias na psique ocidental. Ele
identificou estas correntes e as nomeou, mas sua
resposta a elas era sempre crítica, destacada, e
ambivalente. Jung continuamente buscou integrar
opostos conflitantes e elementos contraditórios (como
Paganismo e Cristandade) em um conjunto maior, e quase
nunca deu preferência a um conjunto de asserções
arquetípicas às expensas de outro. Embora Jung
profeticamente visse que os conteúdos "femininos" e
"pagãos" estivessem em ascensão na psique ocidental,
nunca pregou que nos abandonássemos a estes conteúdos;
pelo contrário, ele sentiu que a tarefa da
individuação envolvia resistir a estas forças
coletivas e desenvolver uma resposta crítica a elas.
Qualquer movimento coletivo que se identifica com um
processo arquetípico não vai, virtualmente por
definição, entrar em acordo com o gosto junguiano, que
está baseado na ética e estética da individuação. O
ataque de Jung sobre o que ele chamava "identificação
com a psique coletiva" é conveniente e deliberadamente
ignorado por todos estes terapeutas, consultores,
defensores e xamãs da Nova Era, que gostam de celebrar
livremente e mesmo "adorar" os conteúdos arquetípicos
novamente constelados. Os desejos pagãos, os impulsos
gnósticos, e as lutas espirituais não-ortodoxas que
foram reprimidas por centenas de anos no Ocidente têm
sido liberados após o colapso da autoridade do
Cristianismo, e agora encontramos, sem qualquer
inibição, estes conteúdos alardeados diante de nós.
Embora a Nova Era tente corrigir atitudes
prevalescentes da secular e religiosa cultura
ocidental, uma análise crítica mostra as limitações da
atitude da Nova Era e sua divergência a partir de uma
posição junguiana, particularmente em três áreas.
(1) De Deus a Gaia: reencantamento espiritual na
cultura ocidental
A atitude prevalescente na secular cultura ocidental é
de que os antigos deuses estão há muito mortos, e,
mais recentemente, nosso Deus-Pai judeu-cristão também
morreu. Não há vida metafísica ou espiritual, e o
mundo foi esvaziado de significado religioso. A fé no
espiritual foi erradicada pela educação secular, e a
religião hoje é meramente a província dos
não-educados, os pobres ou os supersticiosos. A busca
moderna e progressiva é por liberação social e
pessoal, e entre as primeiras coisas a serem
descartadas enquanto marchamos em sentido à liberdade
está a subjugação à autoridade religiosa e obediência
ao sagrado.
A atitude prevalescente na cultura religiosa ocidental
é de que a religião patriarcal tradicional está
perdendo autoridade enquanto o mundo se torna mais
pagão, e à medida em que a sociedade se torna mais
permissiva em sua atitude a respeito de desejo,
sexualidade, e satisfações temporais. Enquanto o
superego ocidental enfraquece, permitindo aos impulsos
mais "naturais" governarem a vida social, a Igreja com
freqüência considera que tem de fortalecer sua
resolução e escorar as reivindicações da vida
transcendental. Portanto as igrejas freqüentemente
parecem sitiadas e reacionárias, trancadas em uma
situação defensiva e refreando as marés da mudança.
Tentando corrigir estas abordagens, a atitude da Nova
Era é de mover-se com o fluir dos tempos, admitir o
reino do desejo e da ânsia, encorajar o movimento
pagão da sociedade, mas adicionar a este movimento uma
dimensão sagrada ou espiritual. A Nova Era basicamente
confere "bênção espiritual" a tendências e atitudes
que já são existentes na cultura ocidental:
consumismo, hedonismo, materialismo e narcisismo. A
Nova Era não oferece uma crítica da sociedade, mas
simplesmente mitologiza e mistifica as coisas que já
nos preocupam. Assim, em uma sociedade ocidental
encharcada de sexo e obsedada com o corpo, a Nova Era
propõe "sexo sagrado" e argumenta que o corpo é "o
templo da alma". Em uma sociedade governada por
desejos materiais e gratificação instantânea, a Nova
Era propõe uma crença vitalística em "energia verde",
vê riqueza como um símbolo de "opulência espiritual"
(numa reversão da moralidade judeu-cristã), e
considera "relaxamento profundo" como uma busca
sagrada (revertendo a santificação cristã de trabalho
e fadiga). A Nova Era, como a secular tendência
dominante, aponta seu nariz para a autoridade da
Igreja, vê o puritanismo como sombrio e embotado, e
não está muito interessada em ressuscitar nosso
recentemente falecido Deus-Pai.
A Nova Era está especialmente interessada em deidades
pagãs de tempos antigos, os espíritos de culturas
xamanísticas, e as figuras divinas de religiões
orientais. Embora diversa e politeísta em seus gostos,
a deidade dominante da Nova Era é provavelmente a
Deusa-Terra ou Deusa-Mãe, seja espelhada como Gaia,
Deméter, Cibele, Afrodite, Astarte, ou numerosas
outras figuras similares em vários contextos
históricos e culturais. A Nova Era é profundamente
não-histórica, universalista e essencialista em seu
foco filosófico. Seu mote parece ser "qualquer deus(a)
vai servir", na medida em que não seja o Deus com o
qual temos sofrido pelos últimos dois mil anos de
religião oficial. Em mitologias antigas, a Deusa-Terra
nunca aparece por si mesma, mas está sempre
representada com seu consorte, filho-amante, ou
sacerdote, e o mesmo é verdadeiro para sua mais
recente aparição na Nova Era. O consorte da Deusa
usualmente simboliza sua própria fecundidade e
fertilidade, e assim suas capacidades fálicas são
geralmente enfatizadas, em figuras tais como Pan,
Dioniso, Adônis, Tamuz, e especialmente Príapo. Na
Nova Era, o filho-amante ou sacerdote da Deusa-Mãe é
com freqüência celebrado em uma figura composta que é
algumas vezes chamada de "Homem Verde". O Homem Verde
simboliza a fecundidade da terra, o ciclo sazonal de
crescimento-morte-renascimento, e a "unidade" de todas
as coisas naturais e orgânicas. Se Cristo é mencionado
na Nova Era, ele está usualmente implicado somente em
sua forma como o Filho da Grande Mãe, como o deus-ano
morrendo e ressurgindo, que é ritualmente pranteado
por sua Mãe e pelas Mulheres Sagradas ao pé da cruz. A
Nova Era, por assim dizer, pode adaptar o retrato
católico-romano de Cristo a seus próprios propósitos,
mas não tem tempo algum para o Cristo protestante e
patriarcal.
A Nova Era enfatiza a missão urgente e redentora de
sua visão religiosa. Almeja trazer novo mistério e
encantamento para um mundo que tem se tornado cansado,
deprimido e desencantado. Procura reacender a vida do
espírito em um mundo que se tornou demasiado racional,
cínico, desiludido. Procura redespertar a consciência
do corpo em uma cultura que se tornou muito presa à
cabeça. Acima de tudo, a Nova Era tem um imperativo
ecológico e salvador-do-mundo: recuperar respeito pela
terra, pela matéria (derivada do Latim "mater",
significando "mãe"), pela fisicalidade, e pelo
ambiente biológico em um tempo no qual o progresso
patriarcal tem perpetrado enorme dano (parte dele
irreversível) sobre a teia biofísica da vida. A
"jogada" é que somente a Deusa-Mãe e seu Homem Verde
podem nos salvar do apuro do ocidente patriarcal. Este
novo mito é encontrado não apenas em ecofilosofia e
ecoespiritualidade, em ecologia profunda e em teologia
ecológica, mas também em filmes populares, tais como
"Fern Gully", em cartuns e espetáculos de guerreiros
ecológicos como "Capitão Planeta", panfletos
ecológicos, literaturas ativistas e ficções populares.
Mitologias e valores ecológicos da Nova Era são também
encontrados no sistema público de educação, programas
de estudos ambientais, políticas verdes, na mídia e no
entretenimento. Estamos testemunhando a ascensão de um
poderoso e arcaico mitologema, um testemunho ao fato
de que "mitos" nunca morrem, e que em culturas
seculares e "desmistificadas" como a nossa os mitos
não somente sobrevivem mas desenvolvem-se - eles são
ainda mais poderosos por não serem considerados como
"míticos".
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