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SUPERINTERESSANTE: Matrix - Elementos interessantes para análise   Lista de mensagens  
Responder | Encaminhar Mensagem #29773 de 93593 |
--- Em keshara@..., Anjo Lúcifer <anjo_lucifer@u...>
escreveu


Revista Super Interessante - Reportagens

Teologia, inteligência artificial, filosofia, ciência futurista.
E mais: efeitos especiais inéditos, legiões de fãs extasiados e uma
mistura intoxicante de cinema e videogame. Mergulhe na alma de um dos
filmes mais bem-sucedidos da história e saiba por que os cientistas
acham que ele é muito mais do que uma obra de ficção

Por Rafael Kenski

Olhe à sua volta. Perceba os detalhes da sua cadeira, do lugar
em que você está, da textura das suas roupas, do barulho ao fundo e
das cores nesta página. Parecem reais? Eles não poderiam ser, por
exemplo, uma simulação feita por um enorme sistema de inteligência
artificial? Você pode achar que não, porque eles sempre estiveram ali
e – ao contrário dos computadores – cadeiras e páginas de revista
nunca travaram de uma hora para outra. Mas pense novamente. Existem
muitas pessoas, muito inteligentes, que acham que isso pode ser
verdade. Para elas, o mundo talvez não seja como imaginamos. Há até
quem acredite que temos 25% de chances de viver mesmo em uma
simulação de computador. Ou seja, talvez a trilogia iniciada em 1999
com o filme Matrix não seja tão despropositada quanto parece.

O debate vem em boa hora. Estréia no dia 23 deste mês o filme
Matrix Reloaded, a esperada continuação do filme que descreve um
futuro em que as máquinas mantêm a humanidade presa a uma enorme
simulação da nossa realidade, a Matrix.

O terceiro filme, Matrix Revolutions, chega seis meses depois,
em novembro. A estratégia dos produtores é a mesma dos robôs que
criaram a simulação – preencher todos os sentidos das pessoas até que
elas não consigam mais sair do mundo que eles inventaram. Junto com
Reloaded, chega às lojas o videogame Enter the Matrix, que é também
uma continuação da história. Pela primeira vez o jogo e o filme foram
feitos juntos, como se fossem uma coisa só. Os atores, diretores,
produtores, coreógrafos e cenários do videogame são os mesmos de
Matrix Reloaded – em um dia eles filmavam as cenas do cinema e no
seguinte, as do jogo. O resultado é que quem se aventurar no joystick
não só verá uma hora a mais de história como entenderá melhor algumas
das passagens do filme. Rosana Sun, uma das produtoras do jogo,
explicou ao jornal americano USA Today como será essa interação. Em
Reloaded, por exemplo, há uma cena em que os personagens discutem um
plano para colocar bomba em um prédio de segurança. O videogame traz
a continuação da conversa e coloca o jogador para comandar os
personagens durante a missão. Para distrair a espera entre os dois
filmes, será lançado, em 3 de junho, Animatrix, um vídeo e DVD com
nove animações em estilo japonês, os animes, inspiradas nos filmes.
Quatro delas estão disponíveis de graça na internet, no endereço
www.theanimatrix.com.

A idéia é repetir o sucesso do primeiro filme, que ganhou
quatro Oscars, arrecadou 460 milhões de dólares no mundo todo e foi o
primeiro DVD a vender mais de 1 milhão de cópias. Mais do que isso,
as seqüências de ação em câmera lenta, as lutas coreografadas, as
roupas e os temas cyberpunk serviram de inspiração para dezenas de
filmes, videogames e propagandas que surgiram depois. Poucas coisas
em Hollywood foram tão plagiadas quanto o efeito tempo de bala – o
impressionante truque em que a câmara gira 360 graus ao redor de uma
cena. "Matrix conseguiu misturar estilo e substância de uma maneira
que outros filmes não foram capazes", afirma o filósofo Christopher
Grau, da Universidade da Flórida, organizador de uma seção do site
oficial do filme chamada "A Filosofia de Matrix". Espera um pouco...
filosofia? "É, o filme levanta um número surpreendente de questões
filosóficas. Elas dão peso e substância ao que, de outro modo, seria
apenas um filme cheio de estilo", diz Grau.

Para as poucas almas que não viram Matrix, ele conta a história
do hacker Thomas (Keanu Reeves), também chamado de Neo, que encontra
um cara cheio de truques chamado Morpheus (Laurence Fishburne). Ele
toma uma pílula vermelha e descobre então que todo o nosso mundo é
uma realidade simulada por computadores, um enorme mundo virtual
chamado Matrix. A verdadeira realidade é um futuro em que as máquinas
tomaram conta do mundo e mantêm os humanos em pequenas cápsulas, onde
sua energia é usada para abastecer um gigantesco sistema de
inteligência artificial enquanto a mente deles é mantida em uma
espécie de sonho que chamamos de realidade. Morpheus é o líder de um
grupo de rebeldes que quer nos libertar das máquinas e acredita que
Neo é o esperado salvador da humanidade, algo como um novo messias.
Depois de muito treinamento, golpes de kung-fu, roupas sombrias e
armas pesadíssimas, Neo consegue transcender a realidade de Matrix,
desafiar as leis da física e ganhar poderes sobre-humanos.

O enredo não traz só questões filosóficas. O filme é uma salada
de vários tipos de arte (leia mais) feita pelos enigmáticos irmãos
Larry e Andy Wachowski, responsáveis pelo roteiro e direção do filme.
Entre as poucas informações que circulam a respeito deles está a de
que devoram todo tipo de livro, de tratados filosóficos a histórias
em quadrinhos. Talvez por isso, o filme tem ligações com muitas
tecnologias e previsões feitas hoje pelos cientistas, além de
citações a várias obras literárias. Os pequenos detalhes escondidos
nas cenas do filme foram um dos principais fatores que levaram o DVD
a bater recordes – os fãs assistiam dezenas de vezes para perceber,
por exemplo, que os objetos são predominantemente verdes no mundo da
simulação e azuis na realidade. No entanto, a área de onde os
diretores mais tiraram citações, nomes e referências foi o campo das
religiões.

ACORDE, NEO
"Os humanos eram ignorantes do que não podiam ver. Havia muitas
ilusões, como se eles estivessem mergulhados no sono e se
encontrassem em pesadelos. Eles estavam fugindo, perseguindo outros,
envolvidos em ataques, caindo de lugares altos ou voando mesmo sem
ter asas. Quando acordam, eles não vêem nada. Ao deixar a ignorância
de lado, não estimam suas obras como coisas sólidas, mas as deixam
para trás como um sonho." Essas palavras poderiam muito bem ser ditas
por Morpheus em um de seus discursos a Neo, mas na verdade são
trechos do Evangelho da Verdade, um manuscrito do século 4 encontrado
em 1945 em um jarro enterrado no Egito. Ele faz parte de um conjunto
de manuscritos chamado Nag Hammadi, que descreve a crença dos
gnósticos, um grupo de cristãos que viveu entre os séculos 2 e 5 e
possuía suas próprias escrituras, crenças e rituais. "É a corrente
cristã que mais se assemelha à Matrix. Eles acreditavam que nós
iríamos acordar do mundo material e perceber que essa não era a
realidade verdadeira", afirma a professora de história da religião
Frances Flannery Dailey, do Hendrix College, nos Estados Unidos.

Não são poucas as referências que o filme faz ao cristianismo.
Neo é tido como um messias e ressuscita no final do filme. Ele é
amigo de Apoc (apocalipse) e Trinity ("trindade" em inglês). A última
cidade humana, Zion, é uma referência a Sião, a antiga terra dos
judeus, e a nave de Morpheus, Nabucodonosor, tem o nome do rei
babilônico que aparece na Bíblia com um sonho enigmático que precisa
ser decifrado.

Nenhuma religião, no entanto, tem tantas semelhanças com o
filme quanto o budismo. O principal ponto em comum é a idéia de
samsara ou maya, segundo a qual as nossas vidas são uma grande ilusão
montada pelos nossos próprios desejos. É como se todo o mundo fosse,
como diz Morpheus, "uma projeção mental da sua personalidade". As
pessoas estariam presas em um ciclo: elas tratam o que sentem como se
fosse real e a ignorância de que aquilo é só uma ilusão as mantém
presas a esse mundo. Em uma das cenas do filme, Neo encontra uma
criança com trajes de monge budista que entorta uma colher com a
mente. O segredo, diz ela, é saber que a colher não existe. Uma vez
superada a ilusão, atinge-se o nirvana, um estado que as palavras não
podem descrever, em que a noção de indivíduo se perde.

Um dos maiores reforços desse ciclo de ignorância é o fato de
estarmos cercados de pessoas que também tratam as ilusões como se
fossem reais. "Essa idéia foi bem retratada no filme como uma rede de
computadores que liga as percepções dos indivíduos, permitindo que um
reforce no outro a ilusão de um mundo que não existe", diz a
historiadora Rachel Wagner, da Universidade de Iowa, que, assim como
Frances, é autora de um texto comparando o filme às religiões.

O caminho para a transcendência é a busca pessoal pela
iluminação, tanto para os budistas quanto para Morpheus, que afirma
que "ninguém pode explicar o que é a Matrix. Você precisa ver por
você mesmo". Já Buda disse a seus seguidores: "Vocês próprios devem
fazer o esforço; os que despertaram são apenas professores", e a
mesma explicação poderia vir de Morpheus: "Estou tentando libertar
sua mente, Neo. Mas eu só posso lhe mostrar a porta. Você é quem tem
que atravessá-la". Pegou o espírito da coisa?

As coincidências são muitas, mas a essa altura você pode estar
se perguntando se afinal os autores do filme realmente pensaram nisso
tudo. Em uma de suas poucas declarações, os irmãos Wachowski disseram
ser fascinados pelo budismo e querer colocar elementos da doutrina no
filme. Boa parte das referências ao cristianismo também deve ser
proposital devido ao grande número de termos bíblicos que aparece na
obra. Eles talvez só não tenham tido a intenção de fazer uma alusão
direta ao cristianismo gnóstico. Para os pesquisadores, isso é até
mais interessante. "Não há certeza sobre a origem do gnosticismo.
Algumas pessoas sugerem que ele surgiu da interação entre o judaísmo
e religiões como budismo e hinduísmo. Se os autores do filme
misturaram conceitos judaico-cristãos com temas orientais e o
gnosticismo surgiu como um resultado não-previsto, isso é muito
intrigante", afirma Frances. Para aumentar a coincidência, o nome de
Neo na vida real é Thomas, que também é o autor do principal
evangelho gnóstico.

A discordância entre o filme e todas essas religiões é que, em
Matrix, a salvação envolve muito quebra-pau. Enquanto as crenças
pregam a paz e a não-violência, a exigência de Neo para salvar
Morpheus são "armas, muitas armas". A pancadaria não vai mudar nas
continuações. O clímax de Reloaded é uma longa perseguição em uma
rodovia que deverá inspirar a maioria das cenas de ação dos próximos
anos. Nada menos do que lutas de kung-fu no teto de um caminhão em
movimento, corridas de moto na contramão, agentes pulando de um
automóvel para outro e batidas suficientes para lotar dezenas de
ferros-velhos. A cena foi a primeira a ser filmada. Para fazê-la, era
preciso achar uma estrada que pudesse ser ocupada durante mais de
dois meses e que, ainda por cima, tivesse um certo aspecto
apocalíptico. Compreensivelmente, os diretores não encontraram um
lugar adequado. A solução foi desembolsar 2,4 milhões de dólares para
construir uma rodovia de 3,2 quilômetros com todos os detalhes em uma
base naval na Califórnia, Estados Unidos. Bancar uma brincadeira
dessas só foi possível devido aos mais de 300 milhões que eles tinham
para fazer os dois filmes, uma quantia enorme até para os padrões de
Hollywood.

A REALIDADE É UM SONHO
Não são só as religiões que aparecem retratadas no filme. Quem
passear pelos fóruns de fãs na internet verá pessoas comparando-o às
mais diversas (e às vezes contraditórias) correntes da filosofia,
psicologia e sociologia. "É uma evidência de que o filme funciona
como um mito moderno – assim como as grandes histórias do passado,
ele pode ser interpretado de muitas formas", diz Christopher Grau.
Algumas pessoas forçam um pouco a barra nas análises, mas existem
algumas teorias que se encaixam tão bem ao filme que, se o autor
estivesse vivo, poderia quase processar os diretores por plágio.

O principal deles é o filósofo grego Platão. Um diálogo escrito
por ele há quase 2400 anos narra o mito da caverna, uma história
semelhante à de Matrix em uma versão, evidentemente, muito mais low-
tech. Imagine uma prisão subterrânea em que as pessoas ficam
amarradas ao mesmo lugar desde a infância e onde tudo o que conseguem
ver são sombras das pessoas e objetos que estão fora. O cárcere é tão
eficiente que eles nem percebem que estão presos e pensam que o mundo
é mesmo aquele monte de sombras. Caso saíssem, estariam praticamente
indefesos – as pernas não funcionariam, os olhos não conseguiriam
enxergar e até a mente se recusaria a aceitar o novo mundo. Seria tão
chocante que muitos prefeririam voltar para a caverna e esquecer tudo
aquilo. Alguns, no entanto, conseguiriam se adaptar, perceber o
horror da situação inicial e ter um conhecimento superior e mais
verdadeiro sobre o mundo.

Nós humanos seríamos iguais a esses prisioneiros, amarrados a
um mundo de aparências que não refletem a verdadeira realidade. A
saída, segundo Platão, está na filosofia, na educação e na
iluminação. Elas são o caminho para o mundo das formas ou das idéias
(os gregos usavam a mesma palavra para as duas coisas), o lugar onde
está a essência das coisas, a realidade verdadeira. Soou familiar? Os
conselhos de Morpheus também valem para Platão: para chegar lá é
preciso um doloroso processo de autoconhecimento que, uma vez
conseguido, torna a pessoa sábia, justa e capaz de discernir a
realidade da ilusão com a mesma facilidade com que Neo se desvia das
balas. Com essa linha de pensamento, Platão se tornou um dos pais da
ciência moderna. "O filme lida com temas comuns a quase toda a
história da filosofia. Ele não especifica uma teoria ou uma concepção
filosófica, apenas brinca com a diferença entre o inteligível e o que
a gente vê", afirma o filósofo Verlaine Freitas, da Universidade
Federal de Ouro Preto, que pesquisou as implicações teóricas do filme.

Assim como Morpheus pergunta a Neo se ele já teve um sonho tão
real a ponto de se questionar se era sonho ou realidade, René
Descartes, pensador francês do século 18, escreveu: "Quando penso
sobre meus sonhos claramente, vejo que nunca existem sinais certos
pelos quais estar acordado pode se distinguir de estar dormindo. O
resultado é que fico tonto e esse sentimento só reforça a idéia de
que eu posso estar sonhando". Ele imaginou a possibilidade de um
terrível demônio estar constantemente lhe dando a ilusão de que todas
as suas certezas são corretas, quando na verdade elas não fariam
qualquer sentido. Mesmo em coisas simples como calcular 2 mais 2, o
demônio forneceria sempre os mesmos resultados errados, o que daria a
impressão de que eles estão sempre certos. Descartes conclui que,
como não podemos provar se esse demônio existe ou não, nenhuma de
suas opiniões era segura. Ele e diversos filósofos que vieram depois
propuseram saídas para essa cilada filosófica, mas as soluções estão
longe de serem aceitas por todos. A questão de se esse demônio existe
ou não continua de pé até hoje e é quase igual a outra questão: como
garantir que não vivemos na Matrix? Por enquanto, a resposta é,
simplesmente, que não há resposta.

Para fundir ainda mais a cabeça dos fãs, os produtores de
Matrix estão se esforçando para dificultar a distinção entre sonho e
realidade. Os efeitos especiais do filme receberam um belo upgrade:
uma técnica chamada cinematografia virtual, capaz de fazer o truque
de tempo de bala parecer um vídeo de festa infantil. A invenção
simplesmente elimina a diferença entre o que foi filmado no mundo
real e o que é obra do computador. O modo convencional de simular
objetos com computação gráfica é montá-los de dentro para fora:
primeiro fazer o esqueleto, depois cobri-lo com texturas e daí
aplicar a iluminação. Essas imagens, vistas por seres humanos como
nós, capazes de fazer e reconhecer mais de 10 mil expressões faciais,
parecem no máximo um videogame melhorado. A equipe de Reloaded e
Revolutions usou uma abordagem diferente, de fora para dentro. Ela
filmou os atores utilizando, ao mesmo tempo, cinco câmeras de
definição gigantesca, capazes de captar até os poros e defeitos da
pele. Depois jogou todo esse material em um software que acompanhou
os movimentos de cada irregularidade do rosto e montou a cena, em
três dimensões, no computador. Os diretores puderam então filmar do
ângulo e com o movimento que quisessem. O resultado é impressionante:
em uma cena de Reloaded, Neo luta contra 100 cópias de seu maior
adversário, o agente Smith, todas geradas por computador, enquanto o
enquadramento faz movimentos em arco que destruiriam qualquer câmera
de verdade.

O DESERTO DO REAL
As próprias tecnologias usadas para fazer o filme, com uma
estranha ironia, podem dar origem aos primeiros protótipos do que
seria a Matrix. Um exemplo é o plano da agência de pesquisa militar
do governo americano, a Darpa, que pretende utilizar os mesmos
efeitos especiais para criar simulações de campos de batalha mais
envolventes. Outras tecnologias que aparecem no filme – computadores
inteligentes e a capacidade de carregar informações diretamente ao
cérebro – podem ser feitas em algumas décadas, ao menos segundo os
pesquisadores mais otimistas. "Esses avanços são viáveis e têm uma
boa possibilidade de se tornarem reais ainda durante o nosso tempo de
vida", afirma Ray Kurzweil, um dos mais renomados estudiosos de
inteligência artificial. Para ele, o motivo é que as tecnologias de
diversas áreas têm evoluído em uma escala exponencial, ou seja, elas
não só estão se tornando mais rápidas e sofisticadas como a
velocidade com que evoluem também está aumentando. Haverá um ponto em
que se tornarão tão avançadas que conseguiremos analisar o cérebro
humano em seus mínimos detalhes e reconstruí-lo artificialmente. Isso
nos permitirá fazer máquinas com algumas características humanas e
até misturar neurônios a circuitos eletrônicos para que os dois
possam trocar informações.

Existem outros cientistas um tanto mais céticos a esse
respeito. Há muita dúvida sobre se é possível reproduzir
artificialmente o que o ser humano tem de mais desenvolvido, traços
como a consciência, as emoções e o humor. "Certamente um cérebro
feito com tecidos biológicos pode ser consciente – somos um exemplo
dessa possibilidade. Se utilizarmos outros materiais teremos
propriedades diferentes, mas é pouco provável que seja algo que
reconheceremos como uma consciência humana", afirma o psicobiólogo
Victor S. Johnston, da Universidade do Novo México, nos Estados
Unidos. Essa é outra questão que está longe de ser respondida, mas o
interessante é que, para Johnston e muitos outros psicobiólogos, a
nossa consciência é uma espécie de realidade virtual. "Ela evoluiu
para impor uma interpretação específica das energias e matérias que
estão à nossa volta", diz Johnston. Nada no Universo é, por exemplo,
vermelho ou verde em si mesmo. O que existem são ondas
eletromagnéticas de determinadas freqüências que são captadas pelos
nossos olhos e interpretadas de modo a facilitar a identificação.
Assim, objetos que emitem determinadas ondas são chamados de
vermelhos e outros, com ondas quase nada menores, são chamados de
verdes, apenas para facilitar a identificação. Ao longo do tempo, a
evolução permitiu adaptarmos nossas emoções ao que é benéfico para
nós. Assim, as substâncias emitidas por comidas podres são fedorentas
e com isso as evitamos mesmo sem conhecer as bactérias que as
contaminam. Da mesma forma, a perda de um companheiro é triste, o
açúcar (que fornece energia) é gostoso e o sexo (que perpetua a
espécie) é prazeroso. "Não existem cores, cheiros, gostos ou emoções
sem um cérebro consciente. O mundo da nossa consciência é uma grande
ilusão", afirma Johnston.

MATRIX ESTÁ EM TODA PARTE
Construir 5ma consciência artificial teria implicações muito
maiores do que uma série de agentes Smith circulando por aí. Talvez
isso seja a própria prova de que a nossa realidade seja de fato uma
simulação por computador. Quem garante é o filósofo Nick Bostrom, da
Universidade de Oxford, no Reino Unido, que trabalhou com a
possibilidade de um dia criarmos programas de computador que tenham
consciência. Em um artigo publicado no mês passado na revista
britânica Philosophical Quarterly, ele calcula que existam apenas
três possibilidades para o futuro da humanidade. A primeira é que nós
seremos extintos antes de construir esses programas, por azar ou
porque eles são simplesmente impossíveis de serem feitos. A segunda é
que, mesmo que nós possamos fazê-los, não haverá interesse da
humanidade em inventá-los, talvez por problemas éticos. A terceira,
mais perturbadora, é que nós um dia inventaremos essas consciências
simuladas e universos virtuais inteiros para que elas tenham onde
viver. Nesses casos, as chances de alguém ter feito isso antes são
muito grandes, e nós talvez fôssemos uma dessas simulações. "Seríamos
como na Matrix, com a única diferença de não termos um corpo em outra
realidade. O cérebro também seria simulado", diz Bostrom. Tudo bem,
sempre resta a esperança de que nós fôssemos o grupo que criou todas
as consciências virtuais, o que ele chama de "história original", mas
isso seria muito improvável. Para Bostrom, existiriam tantas
simulações que precisaríamos de muita sorte para estarmos justamente
no único Universo que é real. "As platéias para quem eu apresentei
essa teoria ficaram intrigadas, mas por enquanto ninguém achou uma
falha no meu argumento", diz Bostrom. A questão agora é descobrir
qual das três propostas é a mais provável – o palpite dele é que seja
a segunda, e que as chances de que habitemos um mundo virtual estejam
em torno de 25%.

Mesmo que o nosso mundo seja apenas uma realidade simulada, é
possível que nossa vida não mude tanto. Afinal, já somos bombardeados
tanto por notícias de lugares distantes, detalhes da vida de
celebridades, programas de televisão, anúncios, filmes e tantas fotos
e imagens que os nossos próprios assuntos ocupam um pedaço cada vez
menor do nosso tempo. Essa é uma das teorias do único filósofo citado
em Matrix, o francês Jean Baudrillard, autor do livro Simulacros e
Simulação, onde Neo esconde os disquetes no início do filme. O
curioso é que Baudrillard estaria mais para Cypher – o rebelde que
trai o grupo para voltar para a ilusão da Matrix – do que para
Morpheus. "Baudrillard prefere trabalhar com a ironia e com os
paradoxos a procurar um mundo mais verdadeiro", diz Juremir Machado
da Silva, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
tradutor de muitas das obras do autor. O próprio universo de Matrix,
com suas cenas, efeitos e histórias envolventes, é capaz de nos
transportar para um outro mundo que não vivemos e fazer com que nós
fiquemos alegres, ansiosos e emocionados com acontecimentos que não
fazem parte da nossa vida. Se os autores quiserem continuar nessa
linha, é possível que, depois de tantas lutas e reviravoltas,
Morpheus, Neo e os demais rebeldes percebam que a realidade que tanto
lutaram para libertar não é muito mais real do que a que viviam na
Matrix.

TUDO É UM COMPUTADOR
O Universo pode ser o mais poderoso simulador existente

Qualquer coisa pode ser um processador. Jogue uma moeda para o
alto e você terá um tipo de informação – cara ou coroa – que poderá
ser traduzida de infinitas formas: ganhar ou não ganhar, sim ou não,
zero ou um, existir ou não existir. Cada opção é igual ao tipo mínimo
de informação utilizada pelos computadores – os bits – e, ao modificá-
la, podemos dizer que a moeda está processando dados.

Agora imagine o movimento de cada átomo que existe no Universo.
Ele também se desloca no espaço, oscila entre um número de estados
possíveis e, dessa forma, funciona como um processador. Tudo o que
existe no Universo segue essa lógica. Você e a revista à sua frente,
só por existirem, por evoluírem com o tempo, estão processando
informação. O universo é, na verdade, um enorme computador.

O físico John Archibald Wheeler, criador do termo buraco negro,
pesquisou idéias como essas ao longo dos anos 80 e concluiu que, em
um nível ainda mais básico do que quarks, múons e as menores
partículas que conhecemos, a matéria era composta de bits. "Cada
partícula, cada campo de força e até mesmo o espaço-tempo derivam
suas funções, seu sentido e sua existência de escolhas binárias, de
bits. O que chamamos de realidade surge em última análise de questões
como sim/não", afirmou Wheeler em uma palestra feita em 1989. É como
se, em um determinado nível, a matéria se tornasse tão pequena que
tudo o que sobra é a informação.

"A teoria descreve fenômenos tão básicos que talvez nem seja
possível um dia testá-la, mas existem pesquisas muito sérias sendo
feitas nessa área", afirma o físico Paulo Teotônio Sobrinho, da
Universidade de São Paulo.

A teoria deu origem à ciência da física digital, que possui uma
maneira bem peculiar de descrever os fenômenos. Quando, por exemplo,
um átomo de oxigênio se junta a dois de hidrogênio para formar água,
é como se cada um usasse as questões do tipo sim/não para avaliar
todos os possíveis ângulos entre eles até optar pelo mais adequado.
No final, a impressão é que os átomos fizeram uma simulação dos
processos físicos. Se tudo for mesmo feito de bits, o Universo poderá
ser uma enorme simulação, muitas vezes mais potente que a Matrix. É
preciso um enorme poder computacional para rodar todos esses
processos, o que inspira os cientistas a construir computadores
quânticos capazes de aproveitar grande parte dessa potência.

Uma questão que surge então é que tipo de programa o Universo
estaria rodando. É possível que o software de todas as coisas seja
simples, com talvez não mais de quatro instruções repetidas muitas
vezes. Quem afirma é Stephen Wolfram, um físico que completou seu
doutorado aos 20 anos, criou aos 27 o bem-sucedido software
Mathematica e se tornou milionário. Dedicou então os 15 últimos anos
para desenvolver sua teoria, divulgada no ano passado.

A idéia é simples: faça uma linha de quadrados e pinte um deles
de preto. Desenhe outra igual embaixo e, na hora de colorir, invente
regras simples, como deixar pretos somente os espaços que tiverem uma
outra célula escura na diagonal superior. Repita a operação milhares
de vezes. Dependendo do caso, é possível construir imagens de enorme
complexidade com apenas três ou quatro regras. A figura que aparece
aqui, no fundo deste texto, utiliza apenas sete instruções para
formar padrões que surgem e interagem de forma bastante complexa.

O Universo poderia funcionar da mesma forma, com regras simples
elaboradas no início dos tempos, repetidas até gerar todas as coisas
que conhecemos. Assim como a figura aqui atrás, seríamos apenas
padrões interagindo com complexidade. Apesar de ter causado um grande
alvoroço, grande parte da comunidade científica não está convencida
de que a regra de Wolfram seja universal. Portanto, uma Matrix que
simulasse todo o nosso Universo com certeza precisaria de um enorme
processador. Resta saber se necessitaria de um software sofisticado.

OBRA-PRIMA MULTIMÍDIA
O universo de Matrix surgiu da mistura de vários tipos de arte

Anime
Desenhos animados em estilo japonês como O Fantasma do
Futuro e Akira deram a mistura de alta tecnologia, cenários
apocalípticos e muita ação

Kung-Fu
Filmes de artes marciais dos anos 70 deram o tom da
pancadaria e inspiraram efeitos em que o ator fica preso no ar por
arames

Quadrinhos
Artistas de graphic novels como Geof Darrow foram
chamados para bolar os cenários, desenhar os aparelhos e construir as
cenas
Religião
Neo faz o papel de messias da humanidade e ressuscita no
final do filme. O caminho para a sua iluminação é igual ao pregado
por Buda

Agentes
Os homens de preto do serviço secreto do presidente
americano John Kennedy são a grande inspiração de vilões como o
agente Smith


Filosofia
A história do filme transmite a idéia de Platão expressa
no mito da caverna. Também lembra vários temas de outros pensadores e
até cita o francês Jean Baudrillard
Lewis Carroll
O autor de Alice no País das Maravilhas aparece citado na
pílula vermelha, no coelho branco, no espelho que se liquefaz e em
muitas das frases ditas por Morpheus
Cyberpunk
Neuromancer, de William Gibson, trouxe os ciborgues que
se conectam a outra realidade por um plug na nuca. Também estão lá os
hackers fazendo papel de heróis



PARA SABER MAIS
NA LIVRARIA

Taking the Red Pill
Glenn Yeffeth (editor), BenBella Books, EUA, 2003

The Matrix and Philosophy
Willian Irwin, Open Court, EUA, 2002

Simulacros e Simulação
Jean Baudrillard, Relógio d'Água, Portugal, 1991

A New Kind of Science
Stephen Wolfram, Wolfram Media, EUA, 2002

Why We Feel
Victor Johnston, Perseus, EUA, 2000
NA INTERNET

www.matrixfans.net

www.thematrix.com

www.theanimatrix.com

www.kurzweilai.com





Superinteressante - maio 2003



Fonte:
http://superinteressante.abril.uol.com.br/revista/0188/capa/1881.html






Fim da mensagem encaminhada ---





Ter, 3 de Jun de 2003 9:53 pm

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