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From: Lilian Starobinas <lstarobinas@...>
Date: 2009/6/20
Subject: [edublogosfera-l] Pré e contra a Univesp, da Folha de S. Paulo
To: edublogosfera@googlegroups.com
Da Folha de S. Paulo, 20/0609
TENDÊNCIAS/DEBATES
A Univesp é um bom caminho para ampliar o acesso ao ensino superior no país?
SIM
O papel da universidade
GIL DA COSTA MARQUES
A UNIVERSIDADE tem duas funções primordiais. A primeira é expandir as
fronteiras do conhecimento e, assim, enriquecer a cultura científica e
tecnológica do país. A mais importante, no entanto, é promover a
formação de recursos humanos qualificados, os quais são
elementos-chave no fomento do desenvolvimento econômico e social.
Para melhor cumprir sua função social, as universidades públicas devem
buscar alternativas, além do ensino presencial, visando à ampliação da
oferta de cursos novos. Isso levaria à formação de mais indivíduos
qualificados para alavancar o desenvolvimento da sociedade que as
sustenta.
Por isso, vemos como positivas as iniciativas das universidades
estaduais paulistas de investir no ensino à distância. A universidade
é o espaço da criatividade, da pesquisa e da inovação. Espera-se dela
que investigue e analise novas ideias e experiências de natureza
educacional. Assim, urge encontrar mecanismos institucionais visando à
incorporação das novas tecnologias tanto no apoio ao ensino presencial
quanto na ampliação de cursos de extensão e de graduação.
Há uma demanda crescente pelo ensino de qualidade. Há, por outro lado,
no modelo atual de ensino, uma limitação de recursos materiais e
humanos que impede o atendimento cabal dessas demandas. Com a evolução
das ferramentas voltadas para o ensino, a modalidade à distância se
torna uma alternativa viável para atender boa parte da demanda
reprimida.
Portanto, a questão do uso das novas tecnologias não é se devemos
utilizá-las para ampliar a oferta de cursos, mas como fazê-lo e em que
ritmo.
O uso das novas tecnologias no ensino pode representar uma mudança de
paradigma. Trata-se de uma forma de democratização do ensino e uma
alternativa de inclusão social para aqueles que, por conta da sua
condição social ou localização geográfica, não têm acesso ao ensino
presencial.
Pode a universidade pública furtar-se à pesquisa, à disseminação e ao
uso de um instrumento tão promissor?
Podemos oferecer cursos à distância sem que se perca a comprovada
qualidade do ensino presencial?
Temos pouca experiência nessa modalidade, mas chamamos a atenção para
um caso concreto. Tendo em vista a necessidade de formação de
professores, a UFRJ oferece cursos à distância. O relatório de
avaliação do curso de física indica que o desempenho dos alunos e a
taxa de evasão são os mesmos dos cursos presenciais. A experiência da
UFRJ demonstra que uma universidade de prestígio pode praticar ensino
à distância mantendo o mesmo nível do ensino presencial.
O senso de responsabilidade exigido de USP, Unesp e Unicamp impõe, por
outro lado, muita cautela para que não se comprometa a qualidade do
ensino. Ademais, ninguém, ao que se saiba, defende a substituição ou a
redução do ensino presencial.
As duas propostas em discussão na USP, por exemplo, visam tão-só à
ampliação da oferta de cursos. Elas foram formuladas por 32 docentes
de vasta experiência e devem ser (ou foram) analisadas em seis
instâncias diferentes na universidade. Uma vez que temos um longo
percurso pela frente e estamos apenas aprendendo a ensinar utilizando
essas novas tecnologias, essa cautela é justificável. Novos cursos e
modelos educacionais, além dos já sugeridos, devem ser analisados no
futuro.
Por que deveríamos, nesse momento, ampliar a oferta de cursos? Uma
nova perspectiva se abre quando analisamos o problema do ensino de
ciências e matemática no Brasil.
É sabido que avaliações recentes colocam o ensino dessas matérias no
país entre os piores do mundo. Um dos entraves ao ensino de ciências é
a qualificação dos docentes. Assim, acreditamos que a USP deve
oferecer, num primeiro momento, cursos de extensão e cursos de
licenciatura à distância nos diversos ramos das ciências e pedagogia.
Com isso, estaria atendendo a uma demanda de claro interesse social.
A questão central é se essas universidades querem lançar mão do ensino
à distância para resgatar uma enorme dívida social. Estão sendo
instadas a resolver um problema cuja solução está a seu alcance. Cabe
a elas contribuir, de forma significativa, para a melhoria do ensino
no Brasil.
--------------------------------------------------------------------------------
GIL DA COSTA MARQUES, 63, é professor titular do Instituto de Física
da USP, coordenador de Tecnologia da Informação da USP e membro do
conselho da Univesp.
NÃO
Univesp é arremedo de ensino superior
CÉSAR AUGUSTO MINTO
NO BRASIL , é comum atribuir relação intrínseca e biunívoca entre
ensino à distância (EàD) e tecnologias de informação e comunicação
(TIC), modernas ou não.
Ledo engano, pois tais tecnologias não caracterizam nem sequer são
exclusivas do EàD. A incorporação das TIC no ensino presencial, por
sinal, é modesta, entre outros motivos, porque faltam às instituições
de ensino recursos para prover a infraestrutura necessária.
Por outro lado, a prática do EàD no país apresenta características
negativas: 1) cursos modulares, aligeirados; 2) reduzida carga de
ensino presencial, nem sempre conduzida por professores (substituídos
por monitores e tutores); 3) fragmentação do processo de ensino:
planejamento, elaboração, acompanhamento e avaliação realizados por
pessoas distintas; e 4) precarização do trabalho dos docentes,
monitores e tutores, todos submetidos a contratos temporários.
Educadores e pesquisadores têm estudado o tema. Experiências que
também se valeram em parte do EàD (como as licenciaturas parceladas no
MT e o projeto Gavião no PA) auguram alguns indicadores positivos.
Mas ainda não dispomos de um conjunto fundamentado de saberes sobre o
assunto que justifique a adoção plena do EàD. Contudo, instituições e
pessoas distorcem os esforços citados para defender o seu uso
indiscriminado, a começar pela formação de professores e em larga
escala. Os defensores incondicionais do EàD têm agido rapidamente,
tanto no plano nacional (criação da Universidade Aberta do Brasil)
como em SP, onde criaram o programa Universidade Virtual do Estado de
São Paulo (Univesp). Discutiremos aqui duas de suas alegações: 1) EàD
e Univesp democratizam o acesso ao ensino superior (ES) e 2) suprem a
falta de professores de algumas disciplinas.
Grande contingente de pessoas não tem acesso ao ES presencial,
supostamente por questões sociais ou geográficas; assim, a adoção do
EàD seria uma iniciativa democratizadora. Porém, muitos desses
excluídos residem em municípios onde há ES público, presencial e de
qualidade, mas sem vagas em número suficiente.
Ora, se há jovens alijados do ensino superior por razões sociais ou
econômicas, os instrumentos a usar são outros: cursos noturnos, bolsas
de estudo, moradia estudantil etc. Quanto às regiões desprovidas de
ES, o Plano Estadual de Educação-Proposta da Sociedade Paulista
(parado na Assembleia Legislativa) resolveria tal problema por meio da
expansão das instituições públicas presenciais.
Do ponto de vista educacional, o EàD poderá trazer inúmeras limitações
para os estudantes, desde ausência de programas de iniciação
científica a dificuldades de acesso a boas bibliotecas e a
laboratórios bem equipados. E serão privados da indispensável
interação entre os estudantes, destes com os professores e de uns e
outros com os objetos de conhecimento, em prejuízo da aprendizagem.
Vários países adotam EàD para contemplar pessoas que não podem ser
atendidas presencialmente: impossibilitados de locomoção,
prisioneiros, militares engajados em regiões de fronteira etc. Por que
não se faz isso no Brasil? Por que se busca impor o EàD em
substituição ao ensino presencial regular?
Todas as redes públicas de ensino, incluindo a paulista, sofrem com a
falta de docentes, em especial de física, matemática, química e
biologia. Mais do que a insuficiência de professores formados, porém,
prevalece a precariedade das condições de trabalho e salário nessas
redes, ignorada por sucessivos governos.
Há um contingente subutilizado de docentes que estão atuando em outras
áreas por ausência de condições na rede pública paulista.
Curiosamente, um dos cursos que darão início à Univesp, com 5.000
vagas, é o de pedagogia, área na qual não faltam profissionais!
Por que comprometer perigosamente a formação de professores nas
próximas gerações? Por que oferecer apenas e tão-somente o EàD àqueles
que, por razões socioeconômicas e, sobretudo, pelo sucateamento da
rede pública, não estão tendo a oportunidade de frequentar o ensino
superior público presencial?
--------------------------------------------------------------------------------
CÉSAR AUGUSTO MINTO, 59, é professor na Faculdade de Educação da USP e
vice-presidente da Adusp (Associação dos Docentes da USP).
--
Lilian Starobinas
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Date: 2009/6/20
Subject: [edublogosfera-l] Pré e contra a Univesp, da Folha de S. Paulo
To: edublogosfera@googlegroups.com
Da Folha de S. Paulo, 20/0609
TENDÊNCIAS/DEBATES
A Univesp é um bom caminho para ampliar o acesso ao ensino superior no país?
SIM
O papel da universidade
GIL DA COSTA MARQUES
A UNIVERSIDADE tem duas funções primordiais. A primeira é expandir as
fronteiras do conhecimento e, assim, enriquecer a cultura científica e
tecnológica do país. A mais importante, no entanto, é promover a
formação de recursos humanos qualificados, os quais são
elementos-chave no fomento do desenvolvimento econômico e social.
Para melhor cumprir sua função social, as universidades públicas devem
buscar alternativas, além do ensino presencial, visando à ampliação da
oferta de cursos novos. Isso levaria à formação de mais indivíduos
qualificados para alavancar o desenvolvimento da sociedade que as
sustenta.
Por isso, vemos como positivas as iniciativas das universidades
estaduais paulistas de investir no ensino à distância. A universidade
é o espaço da criatividade, da pesquisa e da inovação. Espera-se dela
que investigue e analise novas ideias e experiências de natureza
educacional. Assim, urge encontrar mecanismos institucionais visando à
incorporação das novas tecnologias tanto no apoio ao ensino presencial
quanto na ampliação de cursos de extensão e de graduação.
Há uma demanda crescente pelo ensino de qualidade. Há, por outro lado,
no modelo atual de ensino, uma limitação de recursos materiais e
humanos que impede o atendimento cabal dessas demandas. Com a evolução
das ferramentas voltadas para o ensino, a modalidade à distância se
torna uma alternativa viável para atender boa parte da demanda
reprimida.
Portanto, a questão do uso das novas tecnologias não é se devemos
utilizá-las para ampliar a oferta de cursos, mas como fazê-lo e em que
ritmo.
O uso das novas tecnologias no ensino pode representar uma mudança de
paradigma. Trata-se de uma forma de democratização do ensino e uma
alternativa de inclusão social para aqueles que, por conta da sua
condição social ou localização geográfica, não têm acesso ao ensino
presencial.
Pode a universidade pública furtar-se à pesquisa, à disseminação e ao
uso de um instrumento tão promissor?
Podemos oferecer cursos à distância sem que se perca a comprovada
qualidade do ensino presencial?
Temos pouca experiência nessa modalidade, mas chamamos a atenção para
um caso concreto. Tendo em vista a necessidade de formação de
professores, a UFRJ oferece cursos à distância. O relatório de
avaliação do curso de física indica que o desempenho dos alunos e a
taxa de evasão são os mesmos dos cursos presenciais. A experiência da
UFRJ demonstra que uma universidade de prestígio pode praticar ensino
à distância mantendo o mesmo nível do ensino presencial.
O senso de responsabilidade exigido de USP, Unesp e Unicamp impõe, por
outro lado, muita cautela para que não se comprometa a qualidade do
ensino. Ademais, ninguém, ao que se saiba, defende a substituição ou a
redução do ensino presencial.
As duas propostas em discussão na USP, por exemplo, visam tão-só à
ampliação da oferta de cursos. Elas foram formuladas por 32 docentes
de vasta experiência e devem ser (ou foram) analisadas em seis
instâncias diferentes na universidade. Uma vez que temos um longo
percurso pela frente e estamos apenas aprendendo a ensinar utilizando
essas novas tecnologias, essa cautela é justificável. Novos cursos e
modelos educacionais, além dos já sugeridos, devem ser analisados no
futuro.
Por que deveríamos, nesse momento, ampliar a oferta de cursos? Uma
nova perspectiva se abre quando analisamos o problema do ensino de
ciências e matemática no Brasil.
É sabido que avaliações recentes colocam o ensino dessas matérias no
país entre os piores do mundo. Um dos entraves ao ensino de ciências é
a qualificação dos docentes. Assim, acreditamos que a USP deve
oferecer, num primeiro momento, cursos de extensão e cursos de
licenciatura à distância nos diversos ramos das ciências e pedagogia.
Com isso, estaria atendendo a uma demanda de claro interesse social.
A questão central é se essas universidades querem lançar mão do ensino
à distância para resgatar uma enorme dívida social. Estão sendo
instadas a resolver um problema cuja solução está a seu alcance. Cabe
a elas contribuir, de forma significativa, para a melhoria do ensino
no Brasil.
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GIL DA COSTA MARQUES, 63, é professor titular do Instituto de Física
da USP, coordenador de Tecnologia da Informação da USP e membro do
conselho da Univesp.
NÃO
Univesp é arremedo de ensino superior
CÉSAR AUGUSTO MINTO
NO BRASIL , é comum atribuir relação intrínseca e biunívoca entre
ensino à distância (EàD) e tecnologias de informação e comunicação
(TIC), modernas ou não.
Ledo engano, pois tais tecnologias não caracterizam nem sequer são
exclusivas do EàD. A incorporação das TIC no ensino presencial, por
sinal, é modesta, entre outros motivos, porque faltam às instituições
de ensino recursos para prover a infraestrutura necessária.
Por outro lado, a prática do EàD no país apresenta características
negativas: 1) cursos modulares, aligeirados; 2) reduzida carga de
ensino presencial, nem sempre conduzida por professores (substituídos
por monitores e tutores); 3) fragmentação do processo de ensino:
planejamento, elaboração, acompanhamento e avaliação realizados por
pessoas distintas; e 4) precarização do trabalho dos docentes,
monitores e tutores, todos submetidos a contratos temporários.
Educadores e pesquisadores têm estudado o tema. Experiências que
também se valeram em parte do EàD (como as licenciaturas parceladas no
MT e o projeto Gavião no PA) auguram alguns indicadores positivos.
Mas ainda não dispomos de um conjunto fundamentado de saberes sobre o
assunto que justifique a adoção plena do EàD. Contudo, instituições e
pessoas distorcem os esforços citados para defender o seu uso
indiscriminado, a começar pela formação de professores e em larga
escala. Os defensores incondicionais do EàD têm agido rapidamente,
tanto no plano nacional (criação da Universidade Aberta do Brasil)
como em SP, onde criaram o programa Universidade Virtual do Estado de
São Paulo (Univesp). Discutiremos aqui duas de suas alegações: 1) EàD
e Univesp democratizam o acesso ao ensino superior (ES) e 2) suprem a
falta de professores de algumas disciplinas.
Grande contingente de pessoas não tem acesso ao ES presencial,
supostamente por questões sociais ou geográficas; assim, a adoção do
EàD seria uma iniciativa democratizadora. Porém, muitos desses
excluídos residem em municípios onde há ES público, presencial e de
qualidade, mas sem vagas em número suficiente.
Ora, se há jovens alijados do ensino superior por razões sociais ou
econômicas, os instrumentos a usar são outros: cursos noturnos, bolsas
de estudo, moradia estudantil etc. Quanto às regiões desprovidas de
ES, o Plano Estadual de Educação-Proposta da Sociedade Paulista
(parado na Assembleia Legislativa) resolveria tal problema por meio da
expansão das instituições públicas presenciais.
Do ponto de vista educacional, o EàD poderá trazer inúmeras limitações
para os estudantes, desde ausência de programas de iniciação
científica a dificuldades de acesso a boas bibliotecas e a
laboratórios bem equipados. E serão privados da indispensável
interação entre os estudantes, destes com os professores e de uns e
outros com os objetos de conhecimento, em prejuízo da aprendizagem.
Vários países adotam EàD para contemplar pessoas que não podem ser
atendidas presencialmente: impossibilitados de locomoção,
prisioneiros, militares engajados em regiões de fronteira etc. Por que
não se faz isso no Brasil? Por que se busca impor o EàD em
substituição ao ensino presencial regular?
Todas as redes públicas de ensino, incluindo a paulista, sofrem com a
falta de docentes, em especial de física, matemática, química e
biologia. Mais do que a insuficiência de professores formados, porém,
prevalece a precariedade das condições de trabalho e salário nessas
redes, ignorada por sucessivos governos.
Há um contingente subutilizado de docentes que estão atuando em outras
áreas por ausência de condições na rede pública paulista.
Curiosamente, um dos cursos que darão início à Univesp, com 5.000
vagas, é o de pedagogia, área na qual não faltam profissionais!
Por que comprometer perigosamente a formação de professores nas
próximas gerações? Por que oferecer apenas e tão-somente o EàD àqueles
que, por razões socioeconômicas e, sobretudo, pelo sucateamento da
rede pública, não estão tendo a oportunidade de frequentar o ensino
superior público presencial?
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CÉSAR AUGUSTO MINTO, 59, é professor na Faculdade de Educação da USP e
vice-presidente da Adusp (Associação dos Docentes da USP).
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" Nós somos a mudança que queremos ver no mundo" Ghandi