Estava lendo "Dead Words, Living Words, and Healing Words:
The Disseminations of Dogen and Eckhart", do filósofo David
R. Loy. O texto está disponível em
http://sino-sv3.sino.uni-heidelberg.de/FULLTEXT/JR-ENG/loy2.htm
Um trecho bastante interessante é este aqui:
>>Like Heidegger, Dogen converts nouns into verbs and
uses them to predicate the same noun, in order to say,
e.g., "the sky skys the sky." This allows him to
escape the subject-predicate dualism of language and
point out that, for example, spring "passes without
anything outside itself."<<
Tradução livre (sou péssimo nisso, me desculpem):
>>Como Heidegger, Dogen converte nomes em verbos e usa-os
para 'predicar' [atribuir predicados a] os mesmos nomes,
de modo a dizer, por exemplo, "a nuvem nuveia a nuvem"
[o exemplo original é intraduzível ao português]. Isso
o permite escapar do dualismo sujeito-predicado e a afirmar
que, por exemplo, a primavera "passa sem nada fora de si
mesma."<<
(Para quem não conhece, Dogen é considerado o maior mestre
do zen japonês.)
(Mais sobre David Loy:
http://home.t-online.de/home/mb.schiekel/loybib.htm )
A questão que por muito tempo me interessou é o "feitiço"
(como colocou Wittgenstein) que a linguagem exerce sobre
a nossa percepção. Dizemos, por exemplo, que "O Fulano fez
isso". Sujeito / Ação (verbo). E esta estrutura lingüística
acaba formando a estrutura cognitiva pela qual percebemos os
fenômenos: "Eu fiz aquilo"; "Eu estou com raiva"; "Ele fez
isso comigo"...
Mas será mesmo que conseguimos encontrar um sujeito puro,
que executa as ações e que recebe emoções (raiva, etc.)? Pois
em todos os momentos, sem exceção, o sujeito está agindo e
está com determinadas emoções. Eu nunca consigo me encontrar
livre de ações ou de emoções (e esta análise poderia se aplicar
a todos os aspectos). Estou sempre agindo. Estou sempre com
certas qualidades. Há, então, algum ser por trás de mim? E se
há, há outro ser por trás deste ser?
Enfim, estes questionamentos acabam nos conduzindo ao óbvio:
eu sou inseparável de minhas ações, justamente porque elas
não são "minhas" ações. O mais correto seria dizer: eu sou
as "ações agindo", sou o próprio processo de agir. Se estou
olhando, sou o olhar. Se como, sou o comer. Se ouço, sou o
ouvir.
E quanto às emoções? Eu tenho raiva? E quem é este "eu" que
"fica" com raiva (como se existisse exterior a ela)? Não seria
eu mesmo a raiva? Quando sinto raiva, não sou eu mesmo a
própria raiva?
Se aplicarmos o mesmo raciocínio aos substantivos, chegaremos
à mesma conclusão. Existe mesmo a chuva? Existe o beijo? Existe
o vôo? Pois o que acontece de fato é o chover, o beijar e o voar.
Não há substantivos no mundo, só verbos. E nem mesmo verbos, eu
diria. Os verbos acabam se solidificando em substantivos (o
"morrer", o "viver", etc.). Pois o que existe são ações, sem
sujeito, só ações.
(O curioso é que dentro do domínio das ações, no mundo manifesto,
as "ações" se relacionam e dizem "eu fiz isso", "eu sou assim"...
Isto é, os substantivos e sujeitos existem relativamente. Tanto
que EU, e não qualquer outro, estou enviando este mail para a lista!)
Alan Watts, no seu "The Way of Zen" -- não publicado no
Brasil (edição portuguesa: "O Budismo Zen") --, diz (ao se
referir às convenções da linguagem):
>>Para vermos quão arbitrárias podem ser estas convenções,
tomemos, por exemplo, a pergunta: "Que acontece ao meu punho
(nome-objecto) quando abro a mão?" O objecto desaparece
miraculosamente porque um elemento do discurso, geralmente
atribuído a uma coisa, ocultava afinal um acção! Em Inglês,
as diferenças entre coisas e acções são claramente, se bem
que nem sempre logicamente, distintas, mas um grande número
de palavras chinesas são indistintamente utilizadas para
substantivos e verbos -- razão pela qual quem pensa em chinês
terá pouca dificuldade em ver que os objectos são também
acontecimentos, que o nosso mundo é mais um conjunto de
processos que de entidades.<<
(A pergunta de Watts daria uma ótima resposta à tradicional
pergunta "O que acontece depois da Morte?".)
Se usarmos o conceito de Kosmos (a totalidade de tudo o que
é, incluindo os fenômenos em todas as suas dimensões) como
proposto por Wilber (que retoma Pitágoras) para se diferenciar
de "cosmos" (a dimensão física dos fenômenos), e se tomarmos
tudo o que existe como ações sem substantivos, chegaremos a uma
quase poética percepção: o que chamamos de seres e coisas
são gestos do Kosmos. Cachorro: o Kosmos cachorrando.
Pedra: o Kosmos pedrando. O Kosmos, em sua infinita abertura
(livre de atributos ou condicionamentos), vira homem, vaca,
livro, vento, chuva, computador...
Nosso mundo condicionado expressa a liberdade do Kosmos.
Nossa verdadeira natureza é livre de todos os condicionamentos.
O Kosmos, por ser a natureza vazia de todas as naturezas,
pode assumir a natureza de cão e a isso chamamos "cachorro".
Pode assumir a natureza humana, e a isso chamamos de "homem"
(ou "mulher"). Pode assumir a natureza de vento...
Em infinitas ações, "isto" constrói a si mesmo e vivencia a si
mesmo de infinitos modos. E este mundo é isto. A auto-contemplação
do Kosmos.
E este momento também é isto. A auto-contemplação do Kosmos.
E este e-mail é isto...
Por toda a Eternidade, só houve isto. E nada mais.
[...]
Em profunda reverência a tudo que me rodeia,
Gustavo