"a vida não é senão o instante antes do qual nada ainda aconteceu e
depois do qual tudo já foi perdido"
--Olgária Matos (professora de filosofia da USP)
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2702200518.htm
Esportes radicais do destino
"Menina de Ouro" e "Garrincha", e m cartaz em SP e no RJ, tematizam o
boxe e o futebol como formas de ascensão social e de busca da
imortalidade
OLGÁRIA MATOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
Mitos e heróis encontram seu arquétipo ocidental nos combatentes da
Guerra de Tróia, da qual Aquiles e Heitor constituem o arquétipo
exemplar. A morte converte-se em imortalidade, o ato memorável que põe
fim à vida é o mesmo que confere renome e perenidade a façanhas a
serem cantadas por aedos e rapsodos, inscrevendo-os na memória
coletiva, transmitida a todas as gerações vindouras.
"Garrincha - Estrela Solitária", de Milton Alencar, não deixa de ser
uma prova de amor a Garrincha, ao futebol e à afetividade brasileira,
nossos bens de raiz. Apresenta, no entanto, um herói, mas antigrego
-um mortal. Ou ainda, Garrincha é fatalizado por um destino contra o
qual não pode lutar ou do qual não há como escapar -tal um guerreiro
antigo.
Aqui, o gesto que dá a morte é o mesmo que salva.
Mas aqui se trata não da "hibris" gloriosa, mas de bebida e libido
desmedidos. O problema mais grave, porém, é a própria fita, colonizada
pelos padrões novelescos da TV Globo -nenhuma personagem possui
dignidade ou grandeza, Elza Soares é uma mulata tropicalizada segundo
a fórmula da indústria cultural. Não obstante "Garrincha - Estrela
Solitária" toca em uma das circunstâncias mais pungentes da vida do
jogador: a amizade com Newton Santos.
Derivas da fortuna
Consangüinidade espiritual, esta vence o clichê do desfile
carnavalesco das escolas de samba do Rio de Janeiro. É ela que
resguarda a integridade de Garrincha em meio às derivas do destino e
da fortuna -essa temporalidade caprihosa e incerta, que o colocou no
apogeu e também o lançou na abjeção. A fortuna, dispensadora de bens e
de males, fez de Garrincha seu joguete.
É um amor comum pelo futebol-poesia que os reúne -à distância do
pragmatismo do "futebol em prosa"-, pois em "Garrincha" o lúdico
suplanta o elemento da competição. Pode-se, aqui, pensar no que
escreveu Otto Rank, em "O Duplo", sobre o herói. O discípulo de Freud
já notara que os heróis não têm progenitura, como se nascessem de si
mesmos. Por isso, talvez, Garrincha tenha iniciado e concluído um
gênero de futebol, como Proust o fez com "Em Busca do Tempo Perdido".
Já "Menina de Ouro" é de outra natureza. Não porque desrealiza o real
para compreendê-lo, ficcionalizando-o, mas por transfigurar papéis e
valores.
Morte metafísica
O boxe -entretenimento tradicionalmente masculino- transfere-se para
uma jovem que deve vencer um mundo adverso e hostil -desde a história
familiar de uma pobreza que é também a de sentimentos, sem nenhum
rastro de solidariedade ou ternura, passando pelo "avançado da idade"
em seus 30 e poucos anos, até a busca do treinador competente. Este,
encenado pelo próprio diretor, Clint Eastwood, produz, por uma empatia
amorosa, um herói -a menina de ouro.
Diferentemente de "Garrincha", "Menina de Ouro" trata a morte de
maneira "metafísica", uma morte da metafísica do "encontro". Na fita,
o "impossível" é a personagem central. E, aqui, o gesto que dá a morte
é o mesmo que salva, conferindo à "menina de ouro" heroísmo, gesto que
-à semelhança da épica antiga- a transporta para o repouso no céu dos
heróis -e tanto mais por ser ela um herói anônimo, cujo brilho é o de
um astro em um firmamento sem atmosfera.
Malgrado "Garrincha - Estrela Solitária" trazer as marcas do padrão
televisivo e "Menina de Ouro" ser cinema em sentido enfático, ambos
nos deixam diante da questão de sermos ou não senhores de nosso
próprio destino -como no verso "navegar é preciso, viver não é
preciso". Se a arte da navegação pode se valer de sextantes, octantes
e diferentes formas tecnológicas de orientação nos caminhos traçados,
viver, ao contrário, é "impreciso", a vida não é, nos dois filmes,
senão o instante antes do qual nada ainda aconteceu e depois do qual
tudo já foi perdido.
Olgária Matos é professora no departamento de filosofia da USP.