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OS NOVOS DESAFIOS EPISTEMOLÓGICOS DA SOCIOLOGIA   Lista de mensagens  
Responder | Encaminhar Mensagem #50 de 69 |
Jean Michel Berthelot

Em que ponto se encontra a sociologia?1 Esta é uma questão
recorrente, nomeadamente na tradição anglo-saxónica, habituada a
States of The Art periódicos. É uma questão que pode ser abordada de
diversas maneiras. Pode-se dedicar interesse à situação empírica
actual da sociologia, ou ao seu estatuto teórico. Pode-se querer
retomar o empreendimento fundador dos grandes teóricos (Habermas,
1981; Freitag, 1986). O nosso propósito será parcialmente diferente.
Interrogar-nos-emos sobre como a sociologia pensa hoje o seu programa
epistémico fundamental.
Esta interrogação merece alguns esclarecimentos. Se se olhar para a
história da sociologia no decurso dos últimos cem anos, torna-se
claro que esta disciplina não retira a sua unidade nem de um consenso
sobre o objecto, nem de um consenso sobre o método, mas do que se
poderia chamar, um tanto paradoxalmente, um consenso polémico sobre o
objectivo visado: elaborar um corpus de referências científicas. Esta
pretensão comum constitui o terreno de um debate sobre a
cientificidade, debate cuja recorrência, depois da célebre polémica
sobre os métodos do século XIX, constitui talvez o traço mais
específico da sociologia.
Este debate foi durante muito tempo delimitado de forma bastante
clara por três posições que poderiam grosseiramente resumir-se da
maneira seguinte.
1 A sociologia não pode fundar-se senão sobre uma determinação
crítica do seu objecto, irredutível a uma simples fenomenologia do
existente. Esta posição é ilustrada exemplarmente por Adorno, na
controvérsia que o opôs a Popper em 1961 (Adorno e Popper, 1969).
Liga o projecto epistémico da sociologia ao programa de uma filosofia
crítica.
2 A sociologia não pode ser senão uma ciência como as outras, devendo-
se admitir que, se a natureza está submetida à autoridade do
princípio da causalidade, não há nenhuma razão para que a sociedade
escape à sua legislação. Esta posição, inaugurada por Durkheim (1981)
com a força que se conhece, encarnou-se depois nas diversas variantes
do racionalismo experimental e do positivismo, por exemplo no sistema
de Bourdieu (1970), o qual, na sua versão estruturo-funcionalista,
ilustra um objectivo de refundação unitária da sociologia científica,
com o risco recorrente de naturalismo que sem dúvida comporta.
3 A sociologia, enfim, deve aceitar ao mesmo tempo o princípio do
racionalismo experimental e o princípio do pressuposto transcendental
da subjectividade. Esta associação difícil mas fundamental é
enunciada pela primeira vez por Weber (1904-1917, 1922) e é retomada
por Schutz (1953, 1963) no seu diálogo com Hempel e Nagel (1963).
Destas três posições clássicas podem encontrar-se com facilidade
múltiplos ecos nas diversas correntes de pensamento que atravessam a
sociologia contemporânea. Esta, no entanto, é percorrida em
simultâneo por tendências deletérias fortes que já não se inscrevem
no espaço conflitual de legitimação definido do modo assinalado: é o
próprio projecto epistémico da sociologia, a sua aspiração a
construir um conhecimento de carácter científico - qualquer que seja
o critério adoptado para definir este último - que parece ser
contestado. Tudo se passa como se, cem anos depois do seu nascimento
como disciplina científica autónoma, a sociologia fosse alvo de uma
contestação radical do objectivo por ela visado.
Limitando voluntariamente a investigação à última década, ou pouco
mais, vamos procurar ver como se estabelece este novo debate da
sociologia consigo própria, a que críticas tem de responder o seu
projecto fundamental e segundo que novas modalidades ele é pensado.
Um primeiro tema emergirá dos diversos contextos de discussão, o tema
do universalismo, sujeito a uma problematização renovada.
Internacionalização e indigenização: do debate político à questão
epistemológica
Em 1945, refugiado nos Estados Unidos tal como muitos outros
universitários europeus, Georges Gurvitch publicou, em colaboração
com Wilbert E. Moore, um tratado de sociologia que permite avaliar o
caminho percorrido desde então. Era uma obra efectivamente
internacional; apesar da presença predominante dos maiores nomes da
sociologia americana, consagrava o seu segundo tomo às sociologias
nacionais, apresentadas na maioria dos casos por um dos seus membros.
Mas esta abertura consciente e conhecedora às tradições nacionais
aparecia a par de uma divisão temática a que era consagrado o
primeiro volume. Desde essa época, duas modificações fortes afectaram
o quadro então apresentado: as segmentações pertinentes do domínio da
sociologia retidas na obra — a meio caminho entre as generalidades
teóricas ou metodológicas e as divisões sectoriais — foram-se
progressivamente confinando em especializações cada vez mais
acentuadas e com frequência estanques (Collins, 1986); e sobretudo,
desde a década de 80, a articulação entre as sociologias nacionais e
o corpo comum da disciplina cessou de ser tida como óbvia para se
tornar problemática. É a internacionalização da sociologia, cujo
movimento, apesar de esboçado desde o início do século XX, se
acelerou fortemente e se aprofundou a seguir à segunda guerra
mundial, que é submetida a questionamento. Esta interrogação nova é
ela própria produto de dois fenómenos distintos, se bem que ligados
entre si. O primeiro é o da globalização, termo que designa,
nomeadamente no pensamento anglo-americano (Wallerstein, Tilly), a
constituição progressiva de um espaço-mundo único regido por
mecanismos conjugados, funcionando através de redes multiplamente
interligadas tendendo a sobrepor às diferenças culturais tradicionais
um novo sistema comum de referências e de comunicação (Sztompka,
1988). O segundo é o da constituição, com as associações
internacionais de sociologia, designadamente a ISA (International
Sociological Association), de um espaço internacional de discussão e
de debate, apoiado em larga medida em revistas como Current Sociology
ou International Sociology.
A internacionalização da sociologia é objecto de um discurso novo,
fortemente contrastado. Aparece aos seus defensores como uma
oportunidade para a sociologia. Assente no processo de globalização
que afecta o mundo moderno, constitui um verdadeiro desafio, tanto
institucional como científico. Permite esperar que o projecto
universalista dos fundadores da sociologia venha a encontrar enfim,
na superação dos particularismos nacionais, o seu verdadeiro suporte
(Sztompka, 1988; Genov, 1991). Convida os sociólogos do mundo inteiro
a tomar o mundo como horizonte, a constituí-lo em espaço de
referência tanto dos seus trabalhos como dos seus ensinamentos
(Tiryakian, 1986). O título do Congresso Mundial de Madrid da ISA (em
1990) inscreveu-se na mesma perspectiva: Sociology for one World.
No entanto, esta linha de pensamento optimista, ou voluntarista, é
obrigada a enfrentar uma oposição cuja existência importa menos do
que os argumentos por ela avançados. Estes, com efeito, atacando uma
internacionalização concebida como processo de dominação, levantam a
questão do estatuto, não somente político mas também epistemológico,
das diferenças nacionais na produção e na difusão do discurso
sociológico.
O espectro de posições é evidentemente largo. No entanto, a
articulação da dimensão política com a dimensão epistemológica é
decisiva. É, antes de mais, a um primeiro nível que funciona uma
oposição recorrente entre internacionalização e indigenização: a
sociologia internacional é definida como uma sociologia ocidental que
exporta para os países do terceiro-mundo modelos teóricos
inadaptados, como os da modernização ou da mudança social, os quais
não resistem à prova da respectiva aplicação a contextos sociais e
culturais diferentes (Sanda, 1988). A indigenização, como movimento
inverso, designa tanto um processo cognitivo de elaboração de modelos
adaptados às situações concretas de um dado país como um processo
institucional de constituição de "comunidades nacionais de ciências
sociais", autónomas e estabelecendo permutas com quaisquer outras em
estrito pé de igualdade (Loubser, 1988). Internacionalização conjuga-
se pois com dominação, etnocentrismo e imperialismo. Esta tese pode
apoiar-se no estudo pormenorizado do sistema de produção e de troca
de conhecimentos em ciências sociais e do lugar determinante que nele
ocupam os autores ocidentais e, mais especificamente, americanos
(Gareau, 1985, 1988).
Por detrás deste debate político joga-se, no entanto, um debate
epistemológico de alcance bem mais vasto. O postulado da
universalidade dos modelos teóricos em sociologia pode ser afectado
de maneira diversa segundo a posição adoptada e o estatuto atribuído
ao enraizamento nacional da disciplina. A polémica que opôs Jeffrey
C. Alexander a Richard Münch acerca da avaliação da tradição
germânica comparada com a tradição americana revela claramente que a
questão não se reduz ao par internacionalização/indigenização e às
suas conotações Norte/Sul, mas envolve a questão da pertinência
epistemológica de se tomar em consideração o contexto societal de
elaboração das abordagens teóricas. Afirmar que a definição dos
paradigmas microssociológicos implica "a concepção etnocêntrica de
uma sociedade constituída pelas múltiplas actividades de agentes
livres e independentes" (Münch, 1995: 553) transforma a transferência
e a generalização de tais paradigmas num empreendimento ilegítimo de
imposição, justificando a crítica de "reducionismo" (Alexander, 1995:
544). Por trás da denúncia política de hegemonismo pode perfilar-se,
directa ou indirectamente, o questionamento da própria pretensão da
sociologia a elaborar um discurso universalizável.
No debate sobre a internacionalização é, de facto, e qualquer que
seja a posição adoptada, a questão do universalismo que é colocada: a
globalização é, para uns, o garante de uma internalização que
aproxima os contextos de vida e de experiência, permitindo a
realização prática do ideal dos fundadores da sociologia (Sztompka,
1988); a falência do universalismo é, para outros, um estado de facto
verificado pela precariedade das teorias sociológicas (Sanda, 1988) e
pela incapacidade dos investigadores das ciências sociais em
constituírem comunidades científicas unidas em torno de consensos
como nas ciências da natureza (Gareau, 1988). A determinação social e
cultural dos conhecimentos tem de se aplicar à sociologia tal como
aos outros sistemas de conhecimentos, e o mito universalista não
passa finalmente de um produto da ilusão positivista de uma ciência
universal (Park, 1988).
Seja qual for a pertinência destes argumentos, e mesmo que seja
possível desenvolver uma posição intermédia distinguindo
universalismo lógico e universalização, e registando tanto os
factores favoráveis como os hostis à universalização do saber em
ciências sociais (Smelser, 1991), é claro que o contexto de discussão
que se reporta à internacionalização da sociologia afecta a
pertinência do objectivo original desta. Mesmo se, como declara
apropriadamente Bryan S. Turner (1996), no seu comentário ao debate
Alexander-Münch, os conflitos entre os aspectos nacionais e
universais da sociologia forem resultante necessária de uma
dialéctica do local e do global, e se se incorre numa reductio ad
absurdum ao querer designar-se uma sociologia pela sua origem
nacional ("porque não uma sociologia da Vestefália ou da Baviera?"),
fica colocada em questão a possibilidade de subsistir a pretensão da
sociologia à cientificidade, isto é, a um saber cuja validade seja
irredutível às suas condições de produção.
Esta questão é nova na tradição sociológica. O debate anterior não
incidia sobre a legitimidade do objectivo visado, mas sobre a
definição de cientificidade: seria de ligá-la ao modelo fisicalista
das ciências da natureza, inscrevê-la no desenvolvimento de uma
reflexão crítica ou instalá-la na especificidade de um conhecimento
do homem? Ninguém pensava, fosse qual fosse a via que privilegiasse,
em negar o valor de verdade da via que adoptava. Pelo contrário,
submeter o conhecimento sociológico à determinação exclusiva do seu
contexto de produção, é declará-lo de valor relativo. O que
significa, por conseguinte, entrar num debate novo, e muito mais
amplo, associado ao desenvolvimento da epistemologia pós-positivista
e do movimento de reflexão pós-moderno, opondo já não universalismo e
particularismo, mas, bem mais radicalmente, racionalismo e
relativismo.
A sociologia perante o relativismo
Ao introduzir a retranscrição da mesa redonda consagrada ao problema
do universalismo e do indigenismo aquando do Congresso da ISA
realizado no México em 1982, Akinsola Akiwowo escrevia: "Até que
ponto os esquemas conceptuais e as proposições constitutivas das
principais teorias sociológicas podem ser tidos como relevando de
princípios universais de explicação de toda e qualquer sociedade?"
(Akiwowo, 1988: 155). Fazendo desta questão o cerne do debate entre
internacionalização e indigenização, o autor retomava implicitamente
uma problemática clássica da sociologia do conhecimento, a qual não é
inútil evocar, menos para captar uma mudança de temática do que uma
mudança de contexto.
Quer se trate da teoria marxiana da produção social das ideias, da
teoria durkheimiana da sociogénese das categorias lógicas (Durkheim e
Mauss, 1903; Durkheim, 1985) ou da interrogação weberiana sobre as
condições de emergência do racionalismo ocidental (Weber, 1905), a
sociologia reconheceu, desde as suas origens, o papel das
determinações sociais na elaboração do conhecimento. Mas isso não lhe
surgiu como um obstáculo ao reconhecimento, em simultâneo, da
validade desse conhecimento. O materialismo histórico é, em Marx, a
concepção do mundo mais capaz tanto de exprimir os interesses do
proletariado como de analisar de maneira científica as configurações
históricas e sociais. O pensamento científico, para Durkheim, retira
a sua lógica e a sua força originais da religião, enquanto se vai
desta progressivamente distinguindo pela sua exigência de
controlo: "O conceito que, primitivamente, é tido por verdadeiro
porque é colectivo, tende a tornar-se colectivo apenas na condição de
ser tido por verdadeiro: pedimos-lhe os seus títulos antes de lhe
conceder a nossa crença" (Durkheim, 1985: 624). Enraizado, segundo
Schutz, no conhecimento corrente e nas suas tipificações, o
conhecimento científico não deixa por isso de se desprender dos
limites do hic et nunc, através do sistema de pertinência que promove
(Schutz, 1953). Não se reduzindo ao estereótipo positivista, sendo
pelo contrário susceptível de modulação, de acordo com a diversidade
das filiações filosóficas, o universalismo racionalista continua a
ser o padrão de referência comum da profissão de fé sociológica.
É este pano de fundo que, no decurso do século XX, se vê abalado,
dando lugar, a pouco e pouco, a novas convicções, relativistas e
cépticas. Desde o fim da segunda guerra mundial que Robert K. Merton
(1945) as tinha identificado muito claramente. Merton via na
complexificação das sociedades contemporâneas, no estilhaçamento dos
valores e na multiplicação conflitual das referências daí resultante,
o fundamento de uma perda de comunidade de sentido, de uma "desilusão
traumática", de uma "desconfiança activa e recíproca" aberta a todas
as propostas de redução da validade de um enunciado aos interesses
sociais que é suposto ele servir: "Não só se formam universos de
pensamento diferentes, mas a existência de qualquer um deles torna-se
um desafio à validade e à legitimidade dos outros" (Merton, 1945:
379). Sem ser explicitamente formulado, o conceito de
incomensurabilidade está já presente, e com ele o questionamento de
toda a concepção racionalista de verdade: "A `revolução coperniciana'
neste domínio de investigação é a hipótese de que não somente o erro,
a ilusão ou a crença sem fundamento, mas mesmo a verdade, são
condicionadas pela sociedade e pela história" (Merton, 1945: 381).
Se esta retrospectiva histórica se impunha, é porque a questão da
internacionalização não se limita a redescobrir um debate
epistemológico subjacente, mas manifesta, em simultâneo, as
transformações em profundidade que nele ocorrem. O problema do
enraizamento social do conhecimento muda de perspectiva e de
amplitude. Já não é só objecto de análise circunscrito a um segmento
particular da sociologia, por fundamental que ele seja. Torna-se um
escolho para a própria disciplina, enquanto tal, e, de forma mais
ampla, um obstáculo a qualquer pretensão à cientificidade. Deixa de
constituir um debate no âmbito da sociologia, passando a ser, de
forma bem mais alargada, uma confrontação entre filosofias,
concepções do mundo, sistemas de pensamento e de valores. Como
declara Raymond Boudon, perto de cinquenta anos depois de Merton: "O
cepticismo, o relativismo, são deste modo promovidos ao estatuto de
filosofia vulgar das sociedades modernas" (Boudon, 1995b: 240). Como
é que a sociologia reage a este novo desafio, radicalmente diferente
dos que presidiram à sua emergência no século XIX, quando se tratava
de fazer prova da sua aptidão à cientificidade?
O relativismo contemporâneo tem fontes e formas diversas (Hollis e
Lukes, 1984). Vai buscar as suas raízes filosóficas a diversas
correntes que, de Nietzsche a Wittgenstein, Foucault, Derrida ou
Rorty, se empenharam em desconstruir a ilusão assertórica, quer
dizer, a ideia de que um enunciado sobre a realidade possa enunciar
simplesmente sobre esta aquilo que pretende enunciar. Amplifica-se
com a ressonância e a dramaturgia históricas carreadas por uma nova
grande partilha entre modernidade e pós-modernidade, sugerindo que
ao "esgotamento" do projecto da modernidade corresponderia o
estilhaçamento das formas tradicionais de discurso e que aos valores
lógicos viriam substituir-se os valores estéticos, éticos e políticos
(Seidman e Wagner, 1992; Rosenau, 1992). Alimenta-se dos debates e
das tomadas de posição que, fazendo apelo tanto à crítica ao
etnocentrismo como às reivindicações de grupos minoritários, recusam
o postulado weberiano da neutralidade axiológica. Proteiforme, o
relativismo contemporâneo precisa de ser definido com mais precisão,
sob pena de se misturar o que decorre da investigação e da crítica
legítimas dos sistemas de pensamento e o que constitui uma posição
preconcebida contestável. Proporemos aqui, no plano epistemológico
que nos ocupa, o critério seguinte: são relativistas todas as
posições que reduzem o significado de um enunciado à expressão do seu
contexto singular de enunciação. É com esse relativismo
epistemológico que fundamentalmente se vê confrontada a sociologia
contemporânea. Que posição é por esta adoptada?
Teria sido muito surpreendente se a sociologia, tendo em conta a sua
diversidade interna, tivesse ficado à margem do debate. No entanto,
na medida em que seja possível apresentar uma visão panorâmica, o seu
envolvimento parece ter assumido no essencial quatro formas:
- a de uma promoção do relativismo epistemológico, a partir do
programa forte da sociologia da ciência, desenvolvendo de algum modo
até ao limite as tendências já diagnosticadas por Merton no pós-
guerra;
- a de uma emancipação relativamente aos critérios "positivistas" de
cientificidade, encontrando legitimidade histórica na tradição
hermenêutica, vendo no pensamento pós-moderno a ocasião de traçar
novas vias de conhecimento e de escrita, mais estéticos e
figurativos;
- a de uma crítica frontal ao relativismo e aos seus pressupostos;
- a de uma tentativa, enfim, de tomar em conta esta nova situação
civilizacional, social e epistémica, num aprofundamento do projecto
de cientificidade da sociologia.
Estas quatro formas constituem ideais-tipos weberianos. Na prática,
as diferenças podem ser mais fluidas. Mas é relativamente fácil
situar nesta categorização um conjunto de posições contemporâneas.
Assim, Jean Braudillard é a figura emblemática de uma sociologia que
se desfaz da armadura habitual da demonstração e da prova para usar
recursos literários de expressão e de construção de sentido. Este
estilo, no verdadeiro sentido, praticado em grande medida nas margens
das disciplinas, pode procurar a sua justificação epistemológica numa
crítica da razão abstracta, num regresso a uma fenomenologia do mundo
vivido, numa sensibilidade desejosa de restituir a plenitude da
experiência (Maffesoli, 1985, 1996). Caracteriza-se mais pelas
liberdades que toma relativamente às normas de um conhecimento
standard e pela sua aversão ao modelo positivista de cientificidade
do que por uma rejeição relativista do projecto de conhecimento
sociológico. Pelo contrário, e é a quarta forma acima localizada,
certos fenómenos e certos problemas referenciados pelas correntes pós-
modernistas podem ser retomados sem mobilizar a retórica destas
últimas, considerada mais como um reflexo da condição pós-moderna (a
mimetic representation, Bauman, 1988: 806) do que como a sua
teorização sociológica. Esta far-se-á então por outras vias, re-
interrogando a modernidade e o seu projecto, sem cortar por isso as
amarras que a ligam à tradição sociológica (Balandier, 1988, 1994;
Touraine, 1992).
Em contrapartida, o relativismo epistemológico, no sentido preciso
que lhe foi dado acima, encontrou na "nova sociologia da ciência" um
recurso tanto mais forte quanto esta enfrentava o próprio coração da
cidadela racionalista e não hesitava em voltar contra ela as suas
próprias armas: os quatro princípios do programa forte de David Bloor
(1976), que reconduzem qualquer elaboração conceptual ao efeito de
uma causa mecânica e qualquer superioridade de uma concepção sobre
outra ao efeito de uma variável determinante, não se limitam a
estabelecer um princípio metodológico de simetria entre teorias
verdadeiras e falsas; suprimem simultaneamente qualquer diferença
pertinente entre os dois termos do ponto de vista do conhecimento. A
dissimetria entre o verdadeiro e o falso já não decorre, em última
análise, do valor científico das teorias mas da força do veredicto
social que repudia implacavelmente as teorias reputadas falsas, à
imagem do infeliz Pouchet, vítima da sua controvérsia com Pasteur
(Farley e Geison, 1974; Latour, 1989). Mais ainda, tanto o estudo
histórico minucioso das controvérsias ou dos produtos científicos
como a descrição meticulosa do trabalho diário dos investigadores não
cessam de alargar o fosso entre a ciência tal como ela se faz e tal
como ela se diz, entre a realidade da sua inscrição concreta e a
idealização da sua representação normativa. A concepção segundo a
qual a validade de um enunciado pode ser reduzida à especificidade
das suas condições de enunciação parece, assim, graças ao programa
forte e aos seus derivados, passar do estatuto de especulação
filosófica ao de observação empírica. Isto, aliás, na sua versão já
não estritamente mecanicista, mas construtivista (Latour, 1984),
reencontra as seduções do estilo pós-modernista.
A crítica ao relativismo epistemológico é conduzida, na sociologia
contemporânea, de diversos pontos de vista. Pode ser necessário
relembrar, perante a diversidade dos ataques anti-ciência de que ela
é objecto, que um grande número destes ataques resultam mais de uma
caricatura do que de uma apreciação justa da actividade científica
(Collins, 1989). Uma outra via consiste em ater-se ao próprio
fundamento do argumento relativista, quer dizer à redução da validade
de uma proposição ao seu contexto de enunciação. Isto implica duas
denegações que o relativismo deveria ser capaz de provar: a do
carácter universal dos princípios lógicos, e especificamente do
princípio da não-contradição, "pedra de toque da inteligibilidade
enquanto tal"; e a da possibilidade de translação bem sucedida do
significado de conceitos ou de sistemas de conceitos (Archer, 1987,
1991). Apoiando-se em exemplos tirados da antropologia, Steven Lukes
(1984) ou Margaret Archer chegam à conclusão que, inversamente, a
universalidade dos princípios lógicos e a possibilidade de translação
dos significados de um contexto para outro são condições de exercício
do pensamento. Pode-se igualmente sublinhar o dilema lógico em que se
envolve o relativismo, cuja posição ou é ela própria universal, o que
o nega, ou é relativa, o que o nega na mesma (Berthelot, 1996)!
Numa perspectiva inscrita sobretudo na sociologia do conhecimento,
Raymond Boudon relembra que, sendo a ciência ao mesmo tempo
contextualizada e produtora de proposições universais, a verdadeira
questão é a de saber "porque é que os partidários de cada campo se
deixam persuadir por soluções absolutizantes (…) e porque é que a
solução sociologista é hoje em dia dominante" (Boudon, 1994: 32).
Numa espécie de inversão, simétrica à operada pela nova sociologia da
ciência a propósito das práticas científicas, o autor coloca sob
interrogação as razões da adesão aos pressupostos relativistas. O
mecanismo da adesão reenvia para um modelo lógico evidenciado por
Simmel, modelo que consiste em retirar de premissas válidas ou
aceitáveis uma conclusão falsa, devido à intervenção implícita de
enunciados não especificados. É o que se passa com o "trilema de
Munchausen", aduzido por Hans Albert, no qual se pretende que nenhuma
proposição dedutiva pode ser fundamentada em definitivo, o que pode
conduzir tanto a uma conclusão racionalista de tipo popperiano como a
uma conclusão relativista. A diferença estará em critérios
implícitos, os quais, para uma posição relativista, serão afinal os
de que uma teoria só pode ser dita objectiva se puder ser
definitivamente fundada, sendo que, em caso contrário, qualquer
adesão a ela releva necessariamente da crença (Boudon, 1995a: 509-
511). A escolha desta conclusão relativista em vez da conclusão
racionalista terá a ver, em última análise, com o contexto global,
céptico e niilista, que a torna mais credível (Boudon, 1995b).
Assim, os debates sobre a internacionalização e a indigenização,
sobre o racionalismo e o relativismo, associam aspectos
epistemológicos e aspectos contextuais: a tese da indigenização
encontra pontos de apoio fortes na crítica ao universalismo e ao
racionalismo que lhe está na base; a adesão a uma posição
relativista, ao invés, vai buscar paradoxalmente argumento e
credibilidade ao sucesso das próprias ciências sociais, à
contribuição destas para o reconhecimento da diversidade cultural e à
legitimidade que elas conferem às reivindicações de grupos
minoritários ou dominados. Podemos pois perguntar-nos se, endurecendo
posições, reduzindo-as a disjunções estritas, a sociologia não estará
a submeter-se à sobredeterminação do seu espaço epistémico por
conflitos que lhe são exteriores. Mais precisamente, não aceita ela
assim uma leitura bipolar de uma realidade muito mais complexa e
matizada, em que a questão central não é deitar às urtigas a
finalidade inicial definida há um século mas repensá-la à luz das
evoluções ulteriores? É esta, com efeito, a via que segue, nos
debates precedentes, um conjunto de autores, rejeitando as oposições
biunívocas a favor de um paradigma pluralista (Oommen, 1988).
Pluralismo e racionalismo
O termo pluralismo é por vezes associado ao de relativismo. Pode
efectivamente ser assim quando o pluralismo exprime uma reivindicação
defendendo a relatividade dos pontos de vista para justificar a
pluralidade destes. Em contrapartida, o termo pode designar
igualmente o reconhecimento - a um nível de elaboração intermédio, o
das teorias e dos programas - de uma pluralidade de construções,
diferentes na sua orientação específica, mas reclamando-se de uma
referência comum aos princípios racionais que regem a actividade de
conhecimento. Este pluralismo é uma das características fundamentais
das ciências sociais. É igualmente um resultado da sua história. E,
hoje, as ciências sociais devem assumir a tarefa de lhe analisar as
formas e de lhe pensar os fundamentos.
Esta questão é para a sociologia, mais uma vez, relativamente nova. É
uma questão que transborda as grandes oposições clássicas entre
positivismo ou sociologia compreensiva, individualismo ou holismo, as
quais podem aparecer como redes de malha demasiado larga que deixam
passar a especificidade de abordagens significativamente distintas.
Os desenvolvimentos, ao longo do século XX, de escolas e correntes
que se cristalizam para melhor se distinguirem entre si mostram uma
multiplicação e um pulular que alguns não hesitam em analisar em
termos de "seitas" (Gareau, 1985) e que recolocam de um novo modo a
questão da finalidade fundamental da sociologia. Se a hora já não é
de combates fundadores, se a sociologia é uma disciplina académica
instalada tendo lugar assente no mundo inteiro, poder-se-á atribuir
algum crédito a uma ciência assim tão dividida e estilhaçada? Sabe-se
o que a referência a Kuhn e a utilização imoderada do termo paradigma
fizeram para "clarificar" esta situação: se o que caracteriza a
ciência normal é a unidade paradigmática, se dois paradigmas são
incomensuráveis, então a sociologia, multiplicando à vontade os
paradigmas, seria, de algum modo, uma sub-ciência ao quadrado! Visão
apenas ligeiramente caricatural, a crer em Giordano Busino que fala,
de maneira mais comedida, de "uma ciência doente" (Busino, 1993),
estigmatizando uma "comunidade sociológica fragmentada" (Busino,
1993: 10). Visão esta que poderia ir buscar argumentos à incapacidade
da sociologia em dar de si própria uma face mais unificada, incluindo
nos seus melhores tratados, obrigados quer a assumir essa pluralidade
(Bottomore e Nisbet, 1978), quer a reduzi-la a favor de uma
orientação particular (Boudon, 1992), quer, ainda, a postular-lhe a
reunificação no seio de uma "matriz disciplinar única" (Wallace,
1988).
A novidade deste desafio é que ele já não confronta o projecto de
cientificidade da sociologia com uma petição de princípio, mesmo se
alicerçada na mais rigorosa reflexão epistemológica, como nos casos
de Durkheim e de Weber, mas com uma avaliação do existente. A
sociologia está a cumprir o seu contrato? As suas turbulências e as
suas disputas de superfície, não passarão elas de epifenómenos
mascarando avanços reais (Collins, 1989), ou constituirão divisões
inultrapassáveis, comprometendo irremediavelmente o seu projecto
fundamental? A dificuldade na resposta a estas questões está em que,
na ausência de observadores neutros, ela envolve os autores enquanto
julgadores e enquanto partes, podendo tentá-los a limitar a reflexão
epistemológica à justificação da abordagem que propõem. Em vez disso,
operar esse diagnóstico requer uma mudança de sistema de pertinência
(Schutz, 1953) ou de nível argumentativo (Habermas, 1972): implica a
passagem de um metadiscurso justificativo a um metadiscurso
analítico. Este último distingue-se muito claramente de um
metadiscurso de fundação, do qual diversas manifestações são
facilmente identificáveis na sociologia contemporânea em autores como
Giddens, Bourdieu, Freitag, Habermas, etc. O seu objecto não é
produzir o fundamento teórico de explicações unitárias, resolvendo as
contradições que atravessam o pensamento sociológico, mas submeter
este último à análise epistemológica das suas formas constitutivas.2
A sociologia francesa recente manifesta um interesse sustentado por
esta ordem de questões. As respostas que nela encontramos envolvem
uma visão e uma avaliação contrastadas mas renovadas da capacidade da
sociologia para estabelecer articulações entre a pluralidade de
abordagens e o objectivo da cientificidade.
Num texto escrito por ocasião do aparecimento da obra de Henri
Mendras, Comment Devenir Sociologue, Raymond Boudon (1996) exprime o
seu desacordo relativamente ao niilismo de cátedra que percorre o
livro. Vê nele mais uma expressão do cepticismo contemporâneo já
denunciado anteriormente (Boudon, 1994, 1995a e 1995b). Opõe-lhe,
pelo contrário, a tese de que "existe no magma das ciências sociais
uma corrente científica orientada para a produção de um autêntico
saber" (Boudon, 1996: 58). Essa corrente é composta por teorias de
diversos níveis (A, B, C), constituindo uma arquitectura conforme às
exigências de cientificidade em vigor em todas as disciplinas. No
escalão inferior (A), uma teoria é um conjunto proposicional dando
conta de um enigma: é uma teoria que deve preencher o duplo critério
da congruência das suas proposições empíricas com todos os factos
disponíveis e de aceitabilidade das suas proposições não empíricas.
Satisfazem tal exigência tanto as teorias clássicas da física como um
grande número de teorias sociológicas que se propõem resolver enigmas
sócio-históricos ou sociológicos: porque é que, contrariamente à tese
do desencanto do mundo, é nos Estados Unidos da América, o país mais
moderno, que se mantém o mais alto nível de religiosidade? Porque é
que os pintores holandeses do século XVII pintavam naturezas mortas
em profusão? etc. (Boudon, 1996: 61). A um segundo nível (B), existem
teorias que explicam fenómenos heteróclitos. Um mesmo modelo pode ser
aplicado a uma série de fenómenos independentes uns dos outros: é o
caso do modelo proposto por Olson para dar conta de comportamentos
paradoxais ou o dos efeitos perversos para dar conta das
consequências não desejadas. A um terceiro nível (C), por fim, mais
perto do que se poderia chamar um paradigma, situam-se teorias de um
nível mais elevado de abstracção, susceptíveis de aplicação a
múltiplos casos, como a teoria da acção racional ou o funcionalismo.
No próprio interior deste domínio é possível construir teorias ainda
mais englobantes, como a teoria cognitivista das razões
justificativas.
A avaliação proposta por Raymond Boudon converge, pois, no fundo, com
a que se pode encontrar nos diversos autores que prosseguem o
objectivo de cientificidade da sociologia. Tem, além do mais, o duplo
interesse de tomar a forma de um balanço do existente e de pensar a
pluralidade sob os auspícios de uma hierarquia de níveis de
aplicação.
Se bem que de inspiração diferente, o trabalho de J.-C. Passeron
(1991, 1994) permite comparações interessantes com esta concepção. A
diferença resulta de uma leitura estrita do popperianismo que,
excluindo a sociologia do quadro da falsificabilidade popperiana,
torna nela muito problemática qualquer tentativa de cumulatividade. O
núcleo da argumentação reside na diferença estabelecida por Popper
entre dois tipos de universalidade: a universalidade lógica, em que
uma proposição p é tida por verdadeira quaisquer que sejam as
variações de condições espaciais e temporais; e a universalidade
numérica, em que uma mesma proposição p só é válida num certo
contexto espaciotemporal determinado. Resulta desta distinção que só
os enunciados da primeira categoria "correspondem às exigências
lógicas da mecânica falsificadora" (Passeron, 1991: 378) e que por
definição os enunciados sociológicos pertencem à segunda categoria.
Tirando sistematicamente as consequências desta situação, J.-C.
Passeron renova a problemática da inscrição da sociologia nas
ciências históricas. Não conclui, recusando o "dilema estéril" do
tudo ou nada (Passeron, 1994: 78), pela exclusão da sociologia de
qualquer espaço de cientificidade, mas sim pela constituição de um
espaço de racionalidade específico, exterior aos critérios
popperianos, estabelecendo os graus de severidade dos seus modos de
protocolização, mas sem jamais poder pretender à culminância lógica
do modus tollens.3 Este espaço de racionalidade pode ser ele próprio
descrito a dois níveis: o da diversidade das teorias empíricas (T2);
e o da unicidade dos princípios que as constituem, precisamente, como
teorias sociológicas. Este segundo nível "transempírico", (T1),
constitui um índex, no sentido em que se pode falar em física de
índex galilaico. Não é teoria sociológica, mas sim teoria do
conhecimento sociológico. Define o "campo de formulação teórica" das
T2 e foi à respectiva explicitação que os fundadores da sociologia
consagraram o seu esforço epistemológico. O problema, a partir daí, é
definir para a sociologia um referencial T1 suficientemente aberto
para aceitar a diversidade de teorias T2 que a história da sociologia
multiplicou, e suficientemente estrito para não aceitar uma
construção qualquer, não importa qual, como teoria sociológica. Os
quatro princípios definidos por J. -C. Passeron são discutíveis,
nomeadamente a respeito da articulação entre o postulado da
interpretação subjectiva de Weber-Schutz e o princípio durkheimiano
da não transparência.4 O essencial, no entanto, parece-nos situar-se
noutro plano. Reside na afirmação de que o quadro de cientificidade
da sociologia não pode ser definido a priori mas tão-só como
resultante de uma dupla análise, uma análise lógica das modalidades
de conhecimento sociológico e uma análise histórica do que no seu
seio é reconhecido valer como ciência.
Diferindo sobre o diagnóstico do regime de cientificidade da
sociologia (popperiano ou não popperiano), Raymond Boudon e Jean-
Claude Passeron estão próximos, em contrapartida, na concepção de uma
hierarquia de níveis, a qual permite subsumir a proliferação de
teorias sob a unidade de alguns grandes paradigmas (as teorias C, em
Boudon), eles próprios susceptíveis de inscrição numa metateoria
global (a T1 de J. -C. Passeron).
Um problema, no entanto, é ignorado pelas duas análises. Diz ele
respeito à própria pluralidade das abordagens e dos quadros de
análise usados pelas diversas teorias. Esta pluralidade exprime-se
nas designações que a história das ciências antropossociais
multiplica numa espécie de desordem permanente: funcionalismo,
estruturalismo, interaccionismo, construtivismo, etc. Podendo ser
considerados como teorias C na análise de Raymond Boudon, não sendo
especificamente tomados em conta na análise de Jean-Claude Passeron,
pode avaliar-se a importância destes quadros de análise quando se
repara que eles, não só são relativamente independentes das teorias
entendidas como sistemas de conceitos e conjuntos de proposições, mas
são susceptíveis de induzir nelas inflexões e leituras diferentes:
por exemplo, o marxismo e a psicanálise, duas "armaduras conceptuais"
(Valade, 1996: 435) dominantes no século XX, puderam ser
interpretados de um ponto de vista sucessivamente mecanicista,
funcionalista, hermenêutico, estruturalista e até accionalista, sem
que os seus termos fossem modificados. Ora, designando cada um deles
programas ou conjuntos de programas de análise, esses termos tendem a
definir abordagens incomensuráveis entre si, pela própria lógica de
uma exposição cujo objectivo primeiro é fundar a sua pertinência na
distinção face a outras. Em sentido inverso, levámos a cabo a
tentativa de uma desconstrução lógica das diversas abordagens
significativas em sociologia (Berthelot, 1990). Tomando como fio
condutor o modelo de inteligibilidade promovido por cada abordagem,
chegámos à construção de uma tabela lógica de seis esquemas, dotados
das seguintes propriedades: especificidade lógica de cada esquema,
identificável com uma forma lógica determinada; passagem possível de
um esquema a outro, através de um jogo de traduções e de
neutralizações invalidando a tese da incomensurabilidade;
especificação de cada esquema em programas particulares, tendo o
mesmo núcleo de inteligibilidade fundamental mas separando-se quanto
a axiomas auxiliares; inscrição, enfim, destas diferentes abordagens
num espaço comum mas bidimensional da prova, privilegiando num pólo a
pertinência semântica e no outro a verificação empírica.
Este tipo de análise é completamente congruente com os dois antes
apresentados, de Raymond Boudon e Jean-Claude Passeron: os dois
critérios weberianos da adequação causal e da adequação significativa
(Weber, 1904-1917, 1922) definem uma teoria científica para Raymond
Boudon, podem ser inscritos, de forma algo mais matizada no que toca
ao segundo, nas T1 de Jean-Claude Passeron, delimitam enfim o espaço
da prova no nosso caso. A articulação, nas teorias T2 de Jean-Claude
Passeron, dos diversos níveis distinguidos por Raymond Boudon é
paralela ao jogo dos esquemas e da sua especificação em programas na
análise que propusemos. Esta congruência, para lá das diferenças que
separam os autores, permite responder à questão inicial: o pluralismo
de facto que a sociologia revela não fragiliza as suas pretensões
iniciais à cientificidade. Em contrapartida, coloca três problemas: o
da depuração das diversas abordagens da sua ganga terminológica e da
sua retórica de exposição que, com demasiada frequência, tendem a
transformar os seus discursos em máquinas de guerra; o da
determinação de critérios que permitam, para diversas teorias
relevando de abordagens diferentes, operar um confronto regulado
conducente a uma espécie de balanço cognitivo, destacando os
contributos e as falhas de cada uma e incentivando a ultrapassar
estas últimas; enfim, o da determinação do modo de cientificidade
próprio da sociologia. Sobre este ponto, a referência popperiana
estabelece uma linha de clivagem determinante entre duas apreensões
do racionalismo.
Estas três questões podem resumir-se numa só, tão mais actual quanto
se está em tempo de balanços: de que cumulatividade é capaz a
sociologia? A resposta a esta questão exige, parece-nos, um argumento
não só lógico mas histórico.
A dialéctica da pluralização e da redução
As tentativas para reconduzir a diversidade das construções
sociológicas a uma organização lógica subjacente, trate-se de
teorias, de "paradigmas", de esquemas de análise ou de programas,
chocam frequentemente com o cepticismo mais ou menos vincado da
comunidade sociológica. Esta parece estar sempre em busca de novos
pontos de vista pertinentes e sempre pronta a imputar ao trabalho de
racionalização intenções e efeitos normalizadores. O rótulo de
anarquismo metodológico dado por Feyerabend às suas posições indica
como a assimilação de uma redução analítica a uma imposição
arbitrária pode facilmente ser feita. O debate entre
internacionalização e indigenização, qualquer outro fundamento que
tenha, é igualmente uma manifestação deste mecanismo. Ora a redução
analítica inscreve-se numa verdadeira dialéctica histórica em que a
proliferação de novas abordagens, associadas à descoberta de novos
enigmas ou problemas, engendra por sua vez processos de decantação e
de filtragem, aos quais sucedem novas criações e nova fragmentação. O
jogo de fertilização recíproca entre teorias A, B, C evocado por
Raymond Boudon é, em simultâneo, um jogo de decantação histórica.
Avançamos a tese de que o estudo deste processo, mobilizando de
maneira positiva a história e a sociologia da ciência, pode concorrer
de forma decisiva para a determinação do regime de cientificidade da
disciplina e esclarecer as modalidades de uma cumulatividade que não
pode ser do mesmo tipo do que a presente nas ciências da natureza.
A memória das disciplinas exerce-se de modo diferente consoante elas
sejam constituídas ou não por teorias matematizadas. No caso das
ciências físicas, por maioria de razão das matemáticas, o passado
inscreve-se no presente sob a forma de tradução: a cada passo da
disciplina, a linguagem mais contemporânea recupera e depura os
resultados anteriores inscrevendo-os numa sistematicidade ao mesmo
tempo mais ampla e mais aguda. O passado disciplinar, não na
especificidade da sua historicidade — o contexto de produção do
resultado —, mas na universalidade dialéctica — porque sem cessar
recolocada sob análise — dos conteúdos racionais elaborados, está
sempre activo no presente. Inscreve-se na linguagem, nos
procedimentos de cálculo, nos instrumentos de experimentação.
Incorpora-se no horizonte de trabalho actual de cada um. Nas ciências
humanas, as coisas passam-se de maneira muito diferente. A língua
natural que elas usam impossibilita que, na utilização deste ou
daquele conceito, se leiam imediatamente os estratos sucessivos da
sua elaboração histórica. Estes não resultam duma depuração lenta, de
uma "percolação" (Serres, 1993), como nas matemáticas, mas do jogo
indefinido das denotações e das conotações. A memória disciplinar
exerce-se então, não de maneira imediata e incorporada, mas de modo
disjunto, por lembranças e referências. Disso é caso exemplar a
sociologia, de que se pode mostrar, em comparação com a antropologia,
a história ou a economia, que é a menos sujeita a constrangimentos
textuais fortes (Berthelot, 1996). Acumulação recorrente e ritual de
regressos dispersos e por vezes interessados ao passado, mais numa
preocupação de legitimação do que de análise, assim parece funcionar
a memória sociológica, a qual importa distinguir de todo em todo da
história da sociologia.
Este funcionamento da memória pode também concorrer para uma
desvalorização radical da sociologia. Os positivistas estritos verão
nele a marca incontestável da incoerência epistémica da disciplina.
Os relativistas poderão facilmente evocar essa multiplicidade
irredutível dos pontos de vista e das referências; os mais irónicos
farão mesmo notar que qualquer "indigenização" constitui uma espécie
de relativismo ao quadrado, pelo cruzamento de referências locais com
referências internacionais, elas próprias seleccionadas segundo o
jogo das áreas de influência linguísticas. A "corrente científica"
evocada por Raymond Boudon para refutar o cepticismo envolvente
poderá nesse sentido aparecer bem estreita e frágil.
Ora, pelo contrário, acontece que, se o funcionamento quotidiano da
memória disciplinar no trabalho habitual dos sociólogos pode parecer
levar água ao moinho relativista, a concretização de uma história
racional da disciplina recusa-o tão fortemente quanto a análise
lógica referida na parte precedente.
A história das disciplinas tem o mérito de constituir as respectivas
memórias como um misto irredutível de preservação e de idealização do
passado. Tem, aliás, a vantagem decisiva de reduzir a distância entre
as diversas ciências, de pôr em evidência os mecanismos comuns da sua
constituição, de sugerir aproximações inéditas. Assim, se as ciências
matematizadas e as próprias matemáticas podem sugerir, em virtude dos
seus processos de incorporação e de reescrita permanente, a ideia de
um desenvolvimento linear, mesmo que quebrado por saltos que
constituem mudanças de epistemologia (Bachelard, 1934) ou de
paradigma (Kuhn, 1962), a sua história, ao invés, revela a textura
espessa de continuidades e descontinuidades, de recorrências e
reversões, de complexificações e depurações, pelas quais, pelo menos
em geometria, se constrói um universal (Serres, 1993).
A sociologia é susceptível do mesmo esclarecimento pela história.
Esta permite, ao mesmo tempo, complexificar cada momento, revelar-lhe
as determinantes múltiplas, sociais, culturais, políticas,
científicas, institucionais, até mesmo biográficas (Fournier, 1994),
e captar as filiações profundas, a depuração progressiva de grandes
tendências explicativas ou de grandes pontos de vista analíticos. É
possível assim, cem anos depois das Règles de la Méthode
Sociologique, fazer o balanço duma recepção contrastada do texto
(Borlandi e Muchielli, 1996; Cuin, 1997) e localizar, através das
conjunturas sucessivas da sua leitura, a libertação, relativamente à
ganga terminológica do fim do século XIX que o envolvia, do programa
causalista e experimentalista em sociologia (Berthelot, 1995). Três
mecanismos entrelaçados, característicos da constituição da
sociologia como ciência ao longo do tempo, podem assim ser
identificados.
O primeiro é um mecanismo de proliferação-redução: cada conjuntura da
história da sociologia aparece sempre, à leitura histórica, como de
uma complexidade infinitamente maior do que aquilo de que a memória
da disciplina tinha conservado traços. O grupo da Année Sociologique
não é um conjunto de antigos discípulos às ordens do mestre. Junta um
complexo de individualidades diferentes, inscritas é certo em redes
de proximidade e transacção (Besnard, 1979), mas em que a adesão a um
projecto colectivo passa pela complexidade singular das convicções e
pela troca reiterada de argumentos (Vogt, 1979; Berthelot, 1995). Se
a nascente sociologia alemã teve dificuldades em se constituir como
disciplina autónoma devido às suas raízes intelectuais, soube
rapidamente, graças à fundação da Deutsche Gesellschaft fur
Soziologie, em 1909, e à instituição regular das Soziologentagen,
constituir um meio de trocas particularmente rico e diversificado
(Käsler, 1984). O conflito entre os "qualitativistas" da escola de
Chicago e os "operacionalistas" da escola de Columbia que, entre as
duas guerras, pôs em crise a American Association of Sociology,
esteve longe de opor frontalmente dois departamentos rigidificados no
seu antagonismo. A escola de Chicago manifestou, pelo contrário,
tanto institucionalmente como cientificamente, uma preocupação
permanente de abertura à diversidade dos métodos (Bulmer, 1984). Do
mesmo modo, as conexões entre quadro teórico e técnica de pesquisa,
com frequência reduzidas de maneira apressada a uma espécie de
implicação lógica, revelam-se no plano histórico de uma complexidade
bastante maior, como mostra Jennifer Platt para o funcionalismo e o
inquérito standard (1986). Perante esta multiplicidade de rostos que
a sociologia sempre apresenta, torna-se possível compreender o papel
da redução analítica das diferenças representado pelas diversas
grandes obras teóricas ou programáticas que entrelaçam a sua
história. Pode defender-se a tese de que elas ocupam,
estruturalmente, o mesmo lugar que as obras equivalentes nas
disciplinas das ciências da natureza. O seu efeito, no entanto, é
diferente. Enquanto que, nestas últimas, definem um novo patamar de
abstracção e de recomposição linguística, em sociologia apenas
constituem um momento de fixação e de cristalização, num processo
ininterrupto de diferenciação.
O mecanismo de proliferação-redução, qualquer que seja a força das
obras que, a dada altura do desenvolvimento da disciplina, entendem
canalisá-lo e controlá-lo, aparece sempre, simultaneamente, como um
mecanismo de redução-proliferação: a delimitação provisória do que
pode contar, não como teoria privilegiada, mas como paradigma, no
sentido que lhe é dado por Raymond Boudon na tipologia que propõe,
não leva apenas a precisar e a fundamentar os quadros de análise de
um programa existindo anteriormente em estado disperso. Torna
possível ao mesmo tempo a contestação, pondo a nu os postulados em
que se sustenta. Se, no seguimento de Lakatos, considerarmos que as
grandes vias de análise sociológica constituem programas e se, na
continuidade do que foi lembrado acima, remetermos estes para grandes
esquemas analíticos, então o jogo de protecção de um programa pela
cortina de hipóteses auxiliares é tanto menos eficaz em sociologia
quanto o veredicto da experiência é nela mais ambíguo. Uma obra forte
fixa e depura um programa. Não reduz a diversidade programática, mas
desloca o palco de confrontação. Pode-se encontrar um exemplo recente
no debate Coleman-Sewell sobre as relações entre os níveis micro e
macro na explicação sociológica (Coleman, 1986, 1988; Sewell, 1988).
Esta persistência da pluralidade, inscrita numa verdadeira dialéctica
da pluralização e da redução, pode dar de novo alimento ao
relativismo se nos contentarmos em estabelecer tal constatação ou em
fazer o respectivo inventário. Defendemos, em contrapartida, que essa
persistência manifesta em profundidade um mecanismo de decantação a
longo prazo do núcleo racional das diversas abordagens sociológicas,
homólogo ao mecanismo de filtragem e de percolação de que fala Michel
Serres a propósito da geometria. Através da diversidade das
ocorrências singulares e da multiplicação dos terrenos de análise,
por trás das oposições entre um universalismo sempre provisório e as
situações inscritas na singularidade de uma história e de uma
cultura, tornam-se progressivamente visíveis as articulações e as
codificações conceptuais para aquém das quais já não é possível
retroceder: do organicismo proliferante no século XIX ao paradigma
funcional estabelecido por Merton, do causalismo ainda impregnado de
metafísica de Durkheim aos modelos da análise causal moderna, do
individualismo metodológico do início do século XX à sua tematização
por Coleman ou Boudon, realiza-se um verdadeiro progresso de
conhecimento.
É certo que este não tem a amplitude dos grandes êxitos científicos
míticos. Mas não chegará para provar que, um século depois, a
sociologia se ateve, pelo menos no essencial, ao seu contrato:
construir um projecto de cientificidade de longa duração sujeito à
verificação do real?
Conclusão
Esta construção é, afinal, um teste à própria cientificidade. As
diversas discussões de que nos fizemos eco são por vezes marcadas
pelo primado de um extremismo disjuntivo pronto a recusar a validade
de uma construção ou de uma proposição em nome de um princípio
implícito de tudo ou nada (Boudon, 1995a). Este princípio pode, no
caso de certas reivindicações identitárias, ser instrumento de boa
causa e justificar-se. Está-se então na ordem do debate político, não
na da avaliação epistemológica. Esta é ao mesmo tempo mais rigorosa e
mais subtil. Requer que seja delimitado o regime de conhecimento
próprio de uma disciplina e que seja compreendida a dialéctica
histórica da constituição do racional no seu seio. Tal como os
trabalhos fundamentais em história das ciêncas de Koyré, de
Bachelard, de Blanché ou de Holton não invalidaram a natureza dos
conhecimentos da física clássica ao revelarem o seu pano de fundo
metafísico ou simbólico, também o pluralismo recorrente da sociologia
não é argumento para qualquer relativismo que seja. Precisa, pelo
contrário, de ser descrito e analisado tanto pelos meios da
investigação histórica como da análise lógica a fim de que seja posto
em evidência o regime de cientificidade da sociologia. A oposição
entre popperianismo e não-popperianismo, por mais argumentada que
seja, não nos parece pertinente na medida em que postula que o
popperianismo estrito constitui uma descrição satisfatória da
actividade das ciências naturais, o que está longe de ser
unanimemente aceite (Lakatos, 1970; Robert, 1993). Ao invés, conceber
a sociologia como um esforço de descrição reflectida do mundo social,
de resolução de enigmas, de elucidação de mecanismos constitutivos,
de aferição de esquemas interpretativos, permite definir um vector
epistemológico comum, irredutível sem dúvida a uma unificação
teórica, mas suficiente para circunscrever um espaço de
problematização partilhado. Aprofundar esse espaço pela depuração e
pela comparação regulada dos grandes programas da sociologia,
favorecer os modos de cumulatividade crítica procedendo, não por
simples adição ou integração, mas por indexação clara dos resultados
a referenciais confrontáveis, constituem sem dúvida tarefas comuns
que cem anos de sociologia legam àqueles que, actualmente, continuam
a reclamar-se do objectivo por ela visado desde início.

Notas
1 Uma primeira versão deste artigo foi publicada, em francês, na
revista Sociologie et Sociétés, XXX (1), 1998.
2 Estas contradições engendram, a par de obras de fundação, os seus
próprios debates. Encontram-se disso ecos nítidos na literatura dos
últimos dez anos, por exemplo a propósito dos níveis pertinentes da
explicação sociológica e da relação entre micro e macro (Coleman,
1986; Sewell, 1988), ou a propósito das relações entre actores e
estruturas, por exemplo no debate estabelecido ao longo dos números
da Revue Suisse de Sociologie publicados entre 1992, 18 (1) e 1994,
20 (2).
3 O modus tollens, quer dizer a lei lógica segundo a qual de p®q, só
a inferência ¬q®¬ q é verdadeira, é o núcleo da tese popperiana do
poder exclusivamente refutativo da experiência.
4 Princípios enunciados desde Le Métier de Sociologue, de construção
do objecto, de não transparência, de explicação do social pelo
social, ao qual se junta um princípio de "pobreza do poder de
organização sintética próprio a qualquer teoria sociológica"
(Bourdieu, Chamboredon e Passeron, 1994, 1970: 115).

Fonte:
http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?pid=S0873-
65292000000200006&script=sci_arttext&tlng=pt





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