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#154 De: "Alessandro" <alessandroloiola@...>
Data: Seg, 9 de Nov de 2009 2:03 am
Assunto: A PARÁBOLA DO SISTEMA ÚNICO DE STUPIDEZ
alessandrolo...
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DR. ALESSANDRO LOIOLA – SAÚDE PARA TODOS -  08/11/2009 -  No.105
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© Dr. Alessandro Loiola -     mailto: alessandroloiola@...
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Olá,

Houve uma época, há coisa de uns 10 anos, em que eu dedicava domingos inteiros
(e muitas vezes outros dias da semana, até de madrugada) para operar
completamente de graça pacientes do SUS. De graça mesmo, não recebia
produtividade, "por fora", nadica de nada. Acredite se quiser.

Por amizade de meu pai, pediatra, possuía um acordo de cavalheiros com Dr.
Zaganelli, Diretor de um hospital público de Vitória (ES), que muito humanamente
permitia que eu levasse para o hospital de sua instituição pacientes atendidos
por mim no Centro de Especialidades. Me condoia atender aqueles pacientes com
indicação cirúrgica e simplesmente retorná-los com o diagnóstico, porém sem uma
saída. Muitos eram do interior do estado, pobres, quase miseráveis, e apenas com
muito custo entendiam o que eu lhes explicava acerca da moléstia que os afligia.

A equipe de apoio era espetacular e permanentemente prestativa - que o diga o
Cléber, então técnico de enfermagem, sempre um grande filósofo e hoje
catedrático de respeito, que inúmeras vezes me honrou com seu auxilio no campo
cirúrgico. Assim como eles, muitos, muitos outros.

Bons tempos. Mas hoje, me sinto vencido pelo SUS. Logo eu, fico pensado, que
imaginava ter dois tumores no cérebro: um secretor de idéias, outro produtor de
otimismo... Prefiro acreditar que os dois ainda estão lá, funcionantes. Apenas
não querem mais perder seu tempo com algo tão imenso.

Imenso na burocracia, na estupidez. Inacabável na burrice. O SUS faz muito com
tão poucos recursos. Mas poderia fazer mais. E poderia ser o que gostaríamos que
fosse, se apenas o tratássemos (nós médicos, os governantes, gestores, cidadãos)
com o valor e a inteligência apropriada.

Mas, ao invés disso, queremos financiar o SUS com migalhas e receber em troca
manjares e pudins de leite condensado. Manuseamos o sistema com hipocrisia, como
colher humanidade e desenvolvimento?

E se canto minha parábola, os que não me conhecem me acusam. Não os culpo. Eu
deveria voltar com meus tumores àquela época, coisa de uns 10, 15 anos atrás,
onde trabalhava tanto com os braços que os olhos não tinham tempo para enxergar
à sua volta.

Envelhecer torna a gente mais consciente ou só mais rabugento? Qualquer que seja
o caso, espero que seja uma boa leitura.

Um abraço,

Alessandro.


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A PARÁBOLA DO SISTEMA ÚNICO DE STUPIDEZ

© Dr. Alessandro Loiola


Era uma vez uma moça muito inteligente chamada Verdade. Toda vez que a Verdade
chegava perto das pessoas, elas fugiam. Algumas até diziam preferi-la sempre à
sua prima biscateira, a Mentira, comentavam como a Verdade era magnífica e
necessária, mas ficar por perto? Não, não.

Então, certa noite, a Verdade sentou-se sozinha e desanimada na beira da
calçada. E antes que algum passante mais atrevido sugerisse um programa (quem
não gosta de apertar, torcer e fornicar com a Verdade?), uma senhora
corcundamente idosa aproximou-se.
- Por que você está tão triste? – perguntou Dona Sabedoria.
- Ninguém gosta de mim. – chorou a Verdade.
A velha mediu a Verdade dos pés à cabeça, fez uma pausa e cravou:
- Mas também, olhe para você, veja só o seu estado...! Lastimável!

A bem da verdade, a Verdade não estava lá essas coisas. Talvez por acreditar que
apenas sua luz interior fosse suficiente, ela nunca havia se preocupado muito
com a parte de fora. O vestido sujo maltrapilho, o penteado dreadlock e aquele
perfume estilo Moscas Ardentes do Boticário não eram realmente sedutores.

- Vamos fazer uma coisa: vou lhe apresentar uma amiga – aconselhou Dona
Sabedoria. - Tenho certeza de que ela poderá lhe dar umas dicas.

E Dona Sabedoria e a Verdade foram até uma casa de massagem gerenciada por uma
cafetina chamada Riqueza. A Riqueza era, por assim dizer, o bicho: por mais que
ela se escondesse e esquivasse, os homens sempre estavam atrás dela – e algumas
vezes por cima e por baixo também. A Riqueza sem dúvida alguma sabia das coisas.

- Eu não entendo... – questionou a Verdade, olhando com desdém para a Riqueza.-
Você é fútil, volátil, passa de mão em mão sem criar laços, não cultiva respeito
ou sentimentos. Afinal, o que os homens vêem em você?
- O que eles vêem em mim, querida? – disse a Riqueza, colocando o indicador com
3 cm de unha postiça vermelha no canto da boca. - O que eles não vêem em você,
eu lhe digo. Mal acabada desse jeito, nem o inquilino do viaduto vai lhe dar uma
cantada. Mas eu já sei o que fazer: vou lhe emprestar um vestido meu que é
fatal. Tiro e queda, meu amor. Ele se chama Parábola.

E desde então, a Verdade tem conseguido se aproximar dos homens travestida de
Parábola. A parábola não assusta, é engraçadinha e permite que a Verdade dê sua
opinião. Entretanto, é só marcar aquela esticada no motel e tudo recomeça: ainda
não existe um remédio para evitar o terror na frente da verdade nua e crua. A
resposta para isso, nem mesmo a Sabedoria ou a Riqueza parecem ter.

E é com esse espírito altruísta em busca da Verdade que abrimos o champanhe para
comemorar os 20 anos do SUS – ou Sistema Único de Stupidez, como costumo chamar,
pedindo perdão pela transgressão da língua no último verbete, mas imprescindível
para sustentar a sigla. O SUS é fruto daqueles surtos psicóticos que nossos
governantes tem quando acham que vivem em um planeta com recursos ilimitados.

No papel, o SUS é belíssimo. Na prática, é de uma patetice sem tamanho. Em
teoria, o SUS é um plano de saúde com cobertura em 100% do território nacional,
oferecendo resgate e assistência clínico-cirúrgica em todas as especialidades
24h por dia, 7 dias na semana, além de pré-natal, puerilcultura, vacinas,
tratamento oncológico e assistência odontológica sem glosas por pré-existência.
Um plano assim, particular, se fosse Unimed ou Saúde Bradesco por exemplo,
sairia em média a uns R$200 por cabeça, por mês. No mínimo.

Vamos fazer a contabilidade. Duzentos reais por cabeça por mês. Somos 200
milhões de brasileiros. Se o governo fosse de fato oferecer o que reza a
Constituição (um plano de saúde top de linha com acesso universal), seria
necessário um investimento de cerca de R$40 bilhões/mês (R$200 x 200 milhões de
pessoas), ou R$480 bilhões/ano. E de quanto é o orçamento anual do SUS? R$35
bilhões/ano. Isso lá em casa dava até pra fazer uma festa, mas no universo do
SUS... tsc tsc...

Se formos temperar a conversa com os desvios, os superfaturamentos, as
prefeituras que instalam manilhas, compram lanche de escola e inauguram praças
com verba da saúde, então é melhor nem pensar em colocar na ponta do lápis.

E se o governo fala em aumentar impostos para financiar o embuste, ops, perdão,
financiar o SUS, a gritaria é geral. Melhor fazer reuniões e encontros e
workshops e conferências intermináveis para saber como humanizar o inabitável,
como pagar com um sorriso nos lábios e uma explicação estapafúrdia a conta que
nunca fecha.

Para fazer o SUS engrenar, não precisamos de mais parábolas. Muito menos desse
cordel de faz de contas. Para fazer o SUS engrenar, é preciso algo acima. É
preciso muuiiito dinheiro e uma nação de homens (e mulheres) de Verdade, de
preferência guiados pelas mãos da Sabedoria. Aí sim, teremos saúde. E qualidade
de vida. E um país de Verdade, ao invés de futebol com carnaval para inglês ver.

Apesar dessa ser uma idéia boa e linda, acho que não vai rolar. Todo brasileiro
sempre adia o encontro com a velha corcunda para passar antes no bordel da
Riqueza, "pra dar aquela saideira, sacumé?". Sei. Quem sabe depois, né? Quem
sabe depois.

Eu vou estar esperando sentado na beira da calçada.


---
Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA
JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E
SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo
Horizonte, Minas Gerais.
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