Prezado Alisson Couto,
Mediante o conhecimento de que o próximo “Arte em toda parte” será realizado no Bairro América, venho através deste propor a montagem de um painel com exposição de matérias jornalísticas e textos complementares, que introduzam de forma contextualizada uma página muito importante da história da comunidade do Bairro América. Trata-se do conflito sócioambiental ocorrido no bairro e deslanchado a partir
de problemáticas ligadas à poluição atmosférica: a intitulada “Luta de Davi contra o gigante Golias”, melhor dizendo, entre a Fábrica de Cimento Portland de Sergipe e a comunidade do Bairro América e adjacências.
A exposição do referido painel estimulará a recordação de muitos que viveram o acontecimento e proporcionará, ao mesmo tempo, o resgate de uma memória desconhecida para tantos que vivem no Bairro América. Acredito que a exposição do painel proposto só tem a contribuir com o fortalecimento da memória e identidade da comunidade local, vindo a promover, dentre outras coisas, seu fortalecimento comunitário.
O painel proposto tem como alicerce a pesquisa e dissertação de mestrado intitulada “O meio ambiente em preto e branco: a mensagem ambiental nas páginas do jornal Gazeta de Sergipe (1972-1992)” desenvolvida no PRODEMA-UFS e realizada pela proponente.
Para a concretização da proposta serão necessários: dois painéis, impressões ampliadas de boa qualidade, cola e divulgação necessária à comunidade.
Aguardarei uma resposta da coordenação do projeto.
Obrigada!
Lorena Campello
Um breve histórico
A peleja do povo contra a poluição emanada pela Fábrica de Cimento Portland de Sergipe teve início na metade da década 1970. As reivindicações apareceram, inicialmente, de forma tímida nas páginas do jornal Gazeta de Sergipe (através de notas nas colunas “Editorial” e “Informe GS”). Tal fábrica exalava diariamente um insuportável pó oriundo da produção do cimento e que passou a afetar seriamente a vida e a rotina das comunidades adjacentes à área. As queixas no meio de comunicação foram aumentando e com o tempo ganhando mais espaço na diagramação do jornal, chegando muitas vezes a ganhar espaço na primeira página.
Devido às pressões feitas por líderes comunitários locais e posteriormente pela AMABA (Associação de Moradores e Amigos do Bairro América), medidas de controle da poluição foram tomadas, como por exemplo: a instalação de filtros eletrostáticos e depois um sistema de umedecimento do pó de cimento. Esse processo foi lento e não surtiu o efeito esperado pela população local, pois o filtro além de não acabar com a poluição, era desligado por longas horas do dia devido ao alto consumo de energia. Outro problema foi identificado pela Administração de Defesa do Meio Ambiente (ADEMA) e somado ao da exalação do pó do cimento: o descarte do resíduo (pó do cimento), que vinha sendo acumulado em mediações próximas à fábrica (cerca de 400 quilos).
No entanto, muitas tentativas de fechamento por parte de autoridades locais foram impedidas pelo governo federal, que frequentemente invocava o Decreto-Lei 1.413/75, que lhe atribuía competência exclusiva para determinar a suspensão das atividades de indústrias consideradas “de interesse à segurança nacional”. Através do estudo da Gazeta de Sergipe vimos que poucas fábricas foram interditadas, geralmente pequenas
fábricas. A Fábrica de Cimento Portland de Sergipe arrastou o processo por anos, sendo interditada em 1984 após oito anos de luta da população. Fato este justificável por esta empresa se tratar de um dos maiores e consolidados grupos empresariais do país – a Votorantin.
A transferência da empresa só foi consumada em 1984, quando passados oito anos de agressão ao meio ambiente urbano e consequentemente à comunidade aracajuana, os reflexos da poluição já
tinham causado inúmeros estragos. Tratou-se sem sombra de dúvidas de uma grande batalha e de uma vitória maior ainda de um Davi contra um gigante Golias.
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