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Renato Janine Ribeiro fala sobre a Paixão   Lista de mensagens  
Responder | Encaminhar Mensagem #9377 de 9453 |

Palestrante seduz público ao falar do equivoco da paixão e da consistência do amor

 

 

"O problema é que as pessoas que desres­peitam não percebem que,

ao tratarem o outro como descartável, elas conside­ram descartável

o próprio sentimento delas, o próprio ser delas. A longo prazo, quem

con­some é consumido não por outra pessoa, mas por si próprio".

 

Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo, onde se doutorou após defender mestra­do na Sorbonne, Janine reconhece que a paixão, ao mesmo tempo que assusta, tam­bém seduz as pessoas. E, neste jogo, ao mes­mo tempo em que ela constrói novas rela­ções, destrói as que existem. E hoje, admi­te, estamos numa fase de descarte. "É mui­to mais fácil as pessoas se descartarem, quando surge um problema, do que elabo­rarem a relação".

Mesmo diante desta constatação, ele con­sidera superior a aposta no amor, apesar de o caminho ser muito mais difícil. "Se há pro­blemas numa relação, eles devem ser trata­dos, discutidos. É preciso saber o que é o amor, que não tem tanto brilho, mas tem den­sidade", explica. Infelizmente, na sua opi­nião, a tendência numa sociedade consumis­ta, narcisista e de enorme desgaste afetivo, é uma só: “Apostar na paixãoâ€.

São duas coi­sas distintas: “A paixão é juvenil, o amor é maduroâ€. Mas o mais importante do que tro­car beijos, garante, "é comunicar a alma, o essencial". Confira abaixo a íntegra da en­trevista.

 

Que lugar a paixão ocupa nos dias atuais?

Paixão é um termo genérico, que se re­fere a todo sentimento. Etimologicamente, tem a mesma origem que as palavras passi­vo e padecer. Já o amor-paixão é o amor in­tenso, ilimitado, aquele sobre o qual não te­mos nenhum controle. Hoje, quando se fala em paixão, se pensa sobretudo no amor-pai­xão. É ele que recebe uma propaganda in­tensa da sociedade. As pessoas são forçadas a amar, obrigadas a cumprir um papel no Dia dos Namorados. E quem não tem namo­rado? Se sente mal, com defeito, errado. Essa propaganda é extremamente nociva no as­pecto social. E é preciso ter independência em relação a isso.

 

Há uma diferenciação entre paixão e amor, quase sempre associando a primeira ao fugaz e segundo, ao duradouro. 0 que vale a pena em um e em outro sentimento?  E qual é a linha divisória entre ambos?

De um modo geral, a paixão tem a ver com um sentimento intenso, muito rápido, sem base na realidade. Então, nesse sentido deveria ser considerada algo delicado, quase negativo. Há sociedades, como as orientais, que desconfiam dela. Paixão vem de pathos, a palavra grega da qual também provém patologia. As pessoas se enganam, estão se relacionando com uma fantasia. Não se sabe quanto dura, se ela vai funcionar ou não. Esse é o problema da paixão. A paixão pode ter a ver com o equívoco . Ao passo que o amor é mais sólido, mais forte, mas seu custo é mais alto e as pessoas nem sempre se dispõem a bancar esse custo. Estamos numa fase de descarte.

É muito mais fácil as pessoas se descarta­rem, quando surge um problema, do que ela­borarem a relação. Hoje, é fácil trocar de par­ceiro. O problema é que, em nossa socieda­de narcisista, as pessoas valorizam mais a paixão que o amor, porque este último exige um conhecimento real da pessoa,  saber quem ela é. Nesse sentido, o amor é mais consistente. E nesse sentido não é popular.

 

Ainda em cima da última questão, o que não vale a pena na paixão e no amor? Que componentes os tiram dos trilhos, do script esperado?

A paixão colore a vida, é ale­gre, dá luz a tudo. Mas é compli­cado, porque se constrói assim um gigante com pés de barro. Você se apaixona, vive num mundo de brilho, e de repente sofre um colapso: ela não era tudo o que você imaginou. Con­sidero superior a aposta no amor, mas o caminho é muito difícil. Daí que a tendência, numa sociedade consumiste, narcisista e de enorme desgas­te afetivo, apostar na paixão.

 

Há amores com roupagem para todo tipo de relação: pos­sessivos, românticos, pegajosos; enfim, na medida da vesti­menta do outro, da espera do outro. Até que ponto essa respos­ta ao padrão é real? Quando um amor se torna doente, em que me­dida?

O doente, no amor, tem a ver com a ilusão. Se você perde alguém a quem amava muito, isto é, se a perde não por­ que ela morreu, mas porque corta de re­pente e sem dizer por que, então é porque ela não existia. Não era a pessoa que você imaginava.. E esta é a grande ocasião de fazer o balanço de sua imaginação: em que medida ela te ilude? Eis o risco do amor-paixão. Ele engana. Por isso mesmo, a tragédia do fim de um amor assim é, na verdade, libertadora. Mostra que você enxergava mal. Doente não é o amor, é a confusão que se faz entre a paixão e o verdadeiro amor.

 

Num momento de consumo fácil, onde tudo é comprável, como estabelecer uma relação que não sucumba a tan­tas ofertas, inclusive as amorosas?

Sendo muito sério. Se há problemas numa relação, eles devem ser tratados, dis­cutidos. É preciso saber o que é o amor, que não tem tanto brilho, mas tem densidade. A histeria, com freqüência, faz as vezes do amor. As pessoas pensam que amor é inten­sidade. Mas o histérico tem intensidade, só que sem profundidade. O amor traz esta pro­fundidade. Agora, isso também tem a ver com a experiência de vida. A paixão é juve­nil, o amor é maduro.

 

Dia dos Namorados, festa para o comércio, e apelo, apelo e ape­lo. Como você vê essas datas fixas para amar, para demonstrar afeto, etc. Fal­ta iniciativa às pessoas, por isso é preciso criar um evento? Onde anda o amor / a paixão quando ambos não se manifestam com hora marcada?

 Por isso, penso que, no Dia dos Namorados, devemos acabar com esta história de como é bom ter um namorado, uma namorada. Em primeiro lugar, é melhor estar só do que mal acompanhado. Em segundo, a realização das pes­soas não pode depender só disso. Mais importante do que trocar beijos, é comunicar a alma, o essencial. Sexo até sem amor é bom, mas aqui estamos falando de outra coisa, que é amor mesmo.

 

Na sua opinião, o que falta ao amor nos dias atuais? E no contraponto, o que sobra?

O que conquistamos é uma independên­cia maior em relação às regras e às conven­ções. O amor pode ser homossexual, o que an­tes era proibido, e esta é uma conquista. Mas pagamos um alto preço pela liberdade, e esse preço consiste antes de mais nada no cará­ter descartável das relações, no desprezo pelo outro, no desrespeito. O problema é que as pessoas que desrespeitam não percebem que, ao tratarem o outro como descartável, elas consideram descartável o próprio sen­timento delas, o próprio ser delas. A longo prazo, quem consome é consumido - não por outra pessoa, mas por si próprio.

 

Há muita teoria hoje em dia, muita "literatura" (bem entre aspas), en­sinando toda sorte de recur­sos para se dar bem no amor. Como vê esse tipo de oferta? Dá para sepa­rar  o joio do trigo?

A auto-ajuda é geral­mente banal. O difícil é enfrentar os próprios fan­tasmas e, além deles, a realidade: no caso, a frustra­ção de não ser amado pela pessoa que você ama, a desco­berta de que você se iludiu. Mas quem passa por esse turbilhão sai melhor dele, sai mais íntegro.

 

Na palestra Encontro com o Desco­nhecido, no final do mês passado na CPFL, você fez várias re­ferências à paixão e che­gou a falar sobre ter uma "intuição treinada" em lugar do instinto. Como isso se aplica, na práti­ca, à paixão e ao amor? 

Penso isso em termos gerais. É o processo mesmo de educação: você faz ensaio e erro. Se for alerta, aprende. E com isso cres­ce. Essa é a vantagem da maturidade, algo que se aprende que não estava nos livros. Há uma sabedoria na vida, que é que quando você tem muita força físi­ca geralmente tem menos sabedoria, e quando perde o vigor do corpo o compensa com um crité­rio mais atilado para usar as forças que tem.

 

E dentro da necessidade de "melho­rar a capacidade do afeto", essa medida está em quem? Nos dois da relação?

A história do mundo é marcada por uma separação entre o afeto e a razão, sobretudo nos tempos modernos, isto é, nos últimos 500 anos, quando a razão serviu aos grandes avanços culturais e científicos do Ocidente, mas o que diz respeito aos sentimentos, em especial ao amor, ao sexo, à paixão em geral, ficou largado ao que há de mais atrasado na esfera afetiva.. É o que eu chamo, em nossa política, de "afeto autoritário", que leva as pessoas a votarem em políticos reacionários, mas que manipulam bem os símbolos afetivos. Isso tem que mudar e está mudando.

 

Se um laço não for bom, como sabê­-lo ao certo? Aliás, se não há exemplo de um bom laço, como construí-lo, sob qual re­ferência?

Só pelo ensaio e erro. Você pode ficar um ano, dois anos com uma pes­soa, acreditando em tudo, e estar enganado. Mas, se aprender com seu enga­no, você cresce. E não há idade para isso. Não há idade para amar com muito vigor, e não há ida­de para deixar de errar. A vida nos é vendida sem garantia.

 

Para fechar com o tema de sua apresenta­ção de hoje na CPFL, dá para administrar, de fato, a paixão?

Não dá. O que podemos é aprender com a vida. Mas "administrar", esse termo seco e empresarial, está fora deste quadro.

 

Palestrante: Renato Janine Ribeiro




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Ter, 7 de Jul de 2009 7:56 am

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