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Urariano: Escrever mais e melhor, a única riqueza que ambiciono   Lista de mensagens  
Responder Mensagem #6301 de 6445 |
Urariano: Escrever mais e melhor, a única riqueza que ambiciono

Como disse meu amigo Wagner Beethoven: "O acaso me mata de felicidade". Tive o
prazer de conhecer, pessoalmente, o jornalista e escritor Urariano Mota durante
o Alt Fest Fliporto. Uma semana antes, ele havia respondido minhas perguntas por
e-mail, mas não há nada como a presença, olhos nos olhos. Urariano tem uma
interessante simplicidade viva, sabe ouvir, refletir, ponderar.

Conheçam também um pouco do universo do escritor de Soledad no Recife, livro
discutido até na Universidade de Bolonha.

Revista Zena: Você se considera um escritor marginal?
Urariano Mota: Não, de maneira mais ampla. Depois de publicar um livro pela
Boitempo, editora reconhecida nacionalmente, eu não posso vestir a pele de
"escritor marginal". Mas se você diminui o universo da pergunta para a cena
cultural e literária de Pernambuco, direi, sim, sou "escritor marginal", porque
estou à margem dos jornais, da mídia e do mundo acadêmico das universidades e
academias de letras do estado.

Pra você ter uma ideia, o meu livro mais recente, Soledad no Recife, foi
discutido na Universidade de Bolonha (a mais antiga da Europa); com ele abri um
seminário na USP; com ele fui convidado para a Universidade Federal de
Uberlândia…. mas na UFPE, UFRPE, Unicap, UPE, todas as universidades do meu
estado, só o silêncio. Nos jornais locais, os jornalistas de livros (que
existem, creia) do segundo caderno, o desconheceram. Nos congressos de
literatura de minha cidade, do estado, nada. E olhe que o título é Soledad no
Recife. Na minha aldeia, portanto, estou marginal. Mas se esse é o preço para a
qualidade do que escrevo, está barato.

Revista Zena: Como é o seu relacionamento com os escritores contemporâneos?
Urariano Mota: Tenho bom trânsito com os chamados "poetas marginais" do Recife,
talvez porque sobre eles tenha escrito textos para revistas de circulação
nacional e sites na Europa. Sou companheiro de geração e de luta do contista e
jornalista Marco Albertim. E aí ficam os meus contatos com os "escritores
contemporâneos" de Pernambuco.
Fora do estado, mantenho relações cordiais com alguns escritores do Rio Grande
do Sul e de São Paulo. Mas sei que os escritores raro se unem pela literatura.
Os vínculos e companheirismo entre literatos se dão por outros valores, que
moram e vivem longe dos livros. No cotidiano mesmo, no embate de todos os dias,
os escritores são muito ariscos, egoístas, em permanente estado de competição.
Para quê? Para a glória. Que glória? Restos de pudor me impedem esclarecer o que
é a glória.

Revista Zena: Com quem convivia quando escreveu Os Corações Futuristas?
Urariano Mota: São momentos bem diferentes, distintos (até no sentido de
ilustres): viver a história e escrever um livro sobre ela. Dito assim, até
parece óbvio. Mas o que não é óbvio é o pensamento de que escrever um romance é
voltar os olhos para trás, para o vivido, que pode estar há 20, 30, 40 ou 50
anos. Assim, vivi Os Corações Futuristas durante a ditadura Médici, quando
conheci a mais bela juventude brasileira. Bela pela generosidade e valores
estéticos, aquela estética que é ao mesmo tempo justiça e arte.
É interessante notar que sempre ameacei amigos mais próximos, ao fim de noites
de álcool em Olinda, quando vinha o dia, eu ameaçava: "no dia em que escrever um
romance sobre nós, todos vão ter raiva de mim, vou ficar sozinho, sem nenhuma
amizade". Ameaça fraterna, que se queria durona, falsamente durona, agora vejo.
Eu tenho muita ternura e afeto por toda aquela gente. No segundo momento, tão ou
mais difícil quanto o primeiro, escrevi Os Corações Futuristas como burocrata do
Banco do Brasil. Mas vamos pular essa parte.

Revista Zena: Quanto de político partidário há em Urariano? Ainda és um
entusiasta?
Urariano Mota: Eu não sei quanto. Talvez, muito talvez, eu possa dizer como.
Ora, a minha identidade cresceu com os comunistas, com a esquerda de Água Fria,
o meu subúrbio recifense de infância e juventude. Eu nada seria sem as pessoas
de esquerda que conheci. Nada, nada vezes nada. Foi com eles que descobri o
valor da fraternidade. Foi com eles que o mundo das ideias se abriu para mim.
Foi com eles que descobri o cinema de arte, no cine Coliseu. (Não à toa, a
abertura de Soledad no Recife se dá com uma sessão no Cine Coliseu, depois de um
filme de Buñuel, O Anjo Exterminador). Então como ser eu sem eles? Não sei se
sou "político partidário", porque não sou filiado a qualquer partido. Mas sou um
homem de esquerda, quero viver e morrer como homem de esquerda.

Revista Zena: Como você enxerga o espaço para a cultura artística no Brasil?
Urariano Mota: Existe? Pelo menos em relação à literatura, não há qualquer,
qualquer espaço. Mesmo no Ministério da Cultura, onde trabalhei, é ridículo o
espaço para a literatura. Na Fudarpe, muito menos. "Cultura artística" no Brasil
quer sempre dizer cinema e música. Depois, vem o resto. E no resto do resto do
resto a literatura, quando aparece. Para os escritores há sempre um recomeço de
Sísifo – é como se para eles não houvesse uma história cultural.

Revista Zena: Porque é difícil sair dos literatos clássicos?
Urariano Mota: Por mil e um motivos, por mil e uma noites. Sabe aquela namorada
da infância, sabe aquela primeira namorada que se reencontra 40 anos depois?
Pois então, os clássicos são essa namorada "sem envelhecimento". Não é mágico
mesmo? Não é um feitiço maior que o sofrido por Dulcineia de Toboso, que, depois
de ser a musa e dama pretendida pelo cavaleiro Dom Quixote, foi vista como uma
prostituta decadente em um dos piores puteiros da Espanha? Pois o fildago,
deprimidíssimo, ameaçou acabar com a própria vida até o momento em que Sancho
Pança lhe revelou o segredo e a fórmula da visão daquela mulher naquele estado:
aquilo era feitiço. Ah, Sancho, como és sábio!
Os escritores clássicos têm esse feitiço. Como se pode viver sem Cervantes,
Machado, Tolstoi, Baudelaire? Só mesmo o compositor Antonio Maria, que
melancólico, bêbado, cantarolava: "Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me
chama de Baudelaire…".

Revista Zena: Imagino Cazuza, ainda criança, saindo bêbado da casa de Drummond
depois de uma entrevista. É uma interação fundamental entre as partes, concorda?
O clássico e o moderno devem andar de mãos dadas?
Urariano Mota: Sim, claro, o clássico e o moderno devem andar de mãos dadas. Ou
melhor, o clássico e a criação dos últimos dias, porque todo clássico é moderno.
Assim, é perdido todo esforço, é estéril toda pretensão que se deseja apenas
atual sem o conhecimento desses gigantes. Imagine, falar português somente com
as palavras da última gíria! Que pobreza e miséria seria, não? Os clássicos não
tinham site, internet, telefone, ou o pulha de George W. Bush. Cabe a nós falar
o português das ruas, das casas, mas sem esquecer o português de Camões, que é
moderno que só, e às vezes amarga que nem jiló. Entre os escritores
pernambucanos, por exemplo, o mais recente exemplo de mãos dadas entre a
tradição e o contemporâneo foi o poeta Alberto da Cunha Melo.

Revista Zena: O que a Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto)
significa para você enquanto escritor?
Urariano Mota: Para mim, como escritor, enquanto escritor, nada. O que escrevo
passaria e passa sem ela. Por e-mail, eu já lhe disse que, em Pernambuco, para
os pernambucanos, os bons escritores moram longe ou já morreram. Como por
enquanto, estou fora de uma ou de outra condição, paciência.
Mas entendo, claro, que a Feira tem um significado imenso para a rede hoteleira,
para os empresários do turismo, e para um certo ar basbaque diante do
alienígena.

Revista Zena: Qual é a maior dificuldade encontrada para publicar um livro?
Urariano Mota: Publicá-lo. Publicar um livro exige mais sorte, resistência e
talento que o ato de escrevê-lo.

Revista Zena: Soledad no Recife foi um fruto feliz apesar da tragicidade da
história? Qual é o sentimento de Urariano hoje pelo livro?
Urariano Mota: Sim, é o meu fruto mais feliz. Na verdade, Soledad no Recife é um
acerto de contas com um trauma de nossa juventude. Em palestras, digo sempre que
senti um novo tempo no dia em que vi a Rede Globo anunciar o lançamento do livro
em sua agenda cultural, antes das 7 da manhã. Quando vi o retrato de Soledad na
tela, eu me disse, em silêncio, "aquilo que foi o nosso terror, aquilo que foi o
nosso terror, agora aparece na televisão com o seu rosto de musa". É claro,
todas as vezes em que falo sobre isso tenho que me socorrer de um copo d'água,
pra engolir o nó na garganta.
Penso que Soledad é meu melhor livro. Um ou outro amigo discorda. Mas eu sei o
que me custou, o filtro, o cadinho pelo qual passei, os fracassos que tive antes
de achar o seu ponto, o seu lugar de Arquimedes na minha narração.
Todas as vezes em que estou no avião, lá em cima nas nuvens, passando por zonas
de turbulência, eu, que sou covarde além da conta, que tenho pavor de avião, me
digo, nessas horas, apertando o braço do assento: "literatura, a quanto me
obrigas. Só você me faria passar por este momento".
Repito aqui o que disse ao escritor Marco Albertim:
A densidade, a precisão em Soledad, vem da escolha, da economia de espaço e
duração. Em qualquer obra, há um tempo dramático, onde não há cirurgia ou reparo
de remédio de salvação. No tempo dramático há uma exigência fuderosa que não
perdoa nem dá segunda chance. Os personagens, nesse tempo, crescem, crescem e
somem. E somam por isso. É claro, fracassei muitas vezes para construir esse
livro, que Os Corações Futuristas já anunciava naquele clímax do ano de 1973, no
amor por Cíntia. Mas onde eu batia antes nas paredes, como um morcego nas
cavernas à procura de saída, Soledad me deu. De fato, em Soledad no Recife sei e
sinto que estou mais maduro e exigente com minhas próprias possibilidades de
escritor. É verdade, ainda, que nele eu amei com todas as minhas forças essa
heroína de 4 povos, de que falava Mário Benedetti. É como se fosse possível
salvá-la do cabo Anselmo. É como se o amor que não pudemos antes falar, agora
falasse, livre. E o que é o amor se não a expressão mais alta de liberdade?

Revista Zena: Acredita na magia da palavra empatia?
Urariano Mota: Sim, até por experiência. Não acredito em escritor que não tenha
essa característica psicológica de sair da própria pele, de se pôr no lugar de
outro, de outra, de outros, como se fosse ele próprio. Não acredito tampouco em
leitor que não tenha essa capacidade. É magia? É humano.

Revista Zena: Um sonho?
Urariano Mota: Escrever mais e melhor. Esse é o meu prêmio máximo de loteria. A
única riqueza que ambiciono.

Revista Zena: Um amor vão?
Urariano Mota: Não sei se existem amores vãos. Existem amores que não terminaram
bem, que foram frustrados ou infelizes. Mas vão, inútil, não. Amores vão, mas
nunca são vãos.

Fonte: Zena
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=148734&id_secao=11


urs.bira@...




Sex, 11 de Mar de 2011 11:18 pm

urs_bira
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11 de Mar de 2011
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