Senhores(as) do Conselho,
O texto abaixo é da Maguinha, é possíve que alguns de vocês a
conheçam.
Ele trata do que "alguns" acreditam ser a "boa literatura" ou
o "conceito de Literatura".
Este texto foi publicado no Grupo durante o excesso de "um" antigo
membro do Grupo sobre os textos publicados no Grupo (06/11/04).
Este texto representa a Opinião da Moderação do [L&L].
Texto de "Maguinha"
Caríssimo colega, A coisa está ficando impossível, tomara o que Bira
volte logo.
Não pretendia me meter nesta conversa, até mandei uma etiqueta para
se usar em grupos, mas depois do que vc enviou abaixo, foi impossível
ficar quieta. Não estou fazendo provocação, é apenas um
esclarecimento.
Sou professora de literatura brasileira e portuguesa na Universidade
Federal do Acre há 15 anos e vejo que vc está um pouco desatualizado.
Vamos aos fatos: conceituar literatura é coisa antiga que vem da
modernidade, coisa do século XIX. Há muito tempo, literatos, teóricos
da literatura e críticos literários do mundo inteiro já viram ser
impossível conceitur a literatura. Os formalistas russos nas
primeiras décadas do século XX tentaram muito definir literatura e
descobrir a literariedade, aquilo que faria a literatura ser
literatura e que nenhuma outra arte tem. Não conseguiram até hoje,
nem eles nem os que vieram depois.
A professora Marisa Lajolo, professora titular de literatura da
UNICAMP, uma vez escreveu um livrinho: O que é literatura, da coleção
Passo a Passo da Ática. Ela nos dizia em 1994 (faz
teeeeeeeeeemmmmmpo) que tinha se arrependido de escrever o tal
livreto, porque literatura não tem definição.
Derrida e Foucault nos anos 70 andaram mostrando e demolindo muita
coisa com seus escritos e não pouparam nem a literatura. Tudo foi
descontruído. Eles lançaram os tempos da pós-modernidade que agora já
vamos ultrapassando também e vc vem citar verbete de dicionário que
empobrece e limita a literatura com definições didáticas para uso nas
escolas?
Faz tempo não existe mais isso de valorizar como literário apenas o
que tem valor estético. Eu escrevo uma tese de doutorado que envolve
as escritoras do Acre que na grande maioria escreve e publica poesias
sem quase nenhum valor estético, mas muitas de inestimável valor
histórico, documentos da memória cultural de uma sociedade
internalizada nas selvas. Nem por isto deixo de estudá-las e mencioná-
las na tese e sem ofensas, porque não existe apenas o estético como
valor literário.
Senão o que seria da poesia dos anos 70, a poesia marginal, o poema
sujo? Eram poemas com palavrões, obcenidades, linguagem vulgar,
rejeitados na época, foi a geração do mimeógrafo, e que agora constam
dos melhores manuais de história da literatura brasileira.
Veja a História Concisa da Literatura Brasileira do Bosi (eu tenho em
ebook) ou os livros de Afrânio Coutinho. É fácil pesquisar.
Este ano de 2004 saiu pela editora Objetiva alguns volumes
interessantes:
- Como e porque ler poesia brasileira do século XX - de Italo
Moricone (que foi meu professor nos tempos em que fiz Letras no Rio
de Janeiro e que tb lançou o livro: Os 100 melhores contos do século
XX)
- Como e porque ler o romance brasileiro - de Marisa Lajolo (esta foi
minha professora na UNICAMP, no mestrado)
Os livros são dirigidos para o público infanto-juvenil numa linguagem
cheia de gírias e fácil de ler, muito didáticos e instrutivos. Eles
mostram que "novos valores se alevantam", como dizia Camões, em 1572,
nos Lusíadas.
Sem provocação caro amigo, não estou começando nova polêmica e nem de
ironias. Falo como professora. Encare como uma pequena aula e pode
fazer as perguntas que quiser.
Sem ofensas, um abraço
Maguinha (maga@we...)(em 06/11/04)