LITERATURA (28/10/2008)
Uma alma afro-brasileira
Antônio Olinto e seu biógrafo, o cearense José Luís Lira, em
lançamento do livro ´Brasileiro de alma africana´.
A biografia do diplomata e imortal mineiro já tem sua primeira edição
esgotada José Luís Lira lança hoje a biografia do jornalista e
escritor Antonio Olinto
Tudo começou com um presente da imortal Rachel de Queiroz, que passou-
lhe às mãos o romance "A Casa da Água". A partir daí o escritor
cearense José Lira não pôde escapar à curiosidade de saber quem era
aquele homem, indicado por uma das maiores referências da literatura
brasileira. O resultado da inquietação será lançado em Fortaleza hoje
à noite: "Brasileiro com alma africana: Antonio Olinto" revela a vida
e obra desse importante jornalista e autor.
"Conheci Antonio Olinto em 2000, na festa dos 90 anos de Rachel, na
Academia Brasileira de Letras. Quando terminei `No alpendre com
Rachel', perguntei-lhe quem faria o prefácio do livro, e ela o
sugeriu. Anos mais tarde, escrevi a biografia do poeta Mello Mourão e
decidi chamar Olinto, que era seu amigo, para apresentar o livro no
Ceará. Na ocasião, pedi permissão para fazer sua biografia. Ele ficou
surpreso, mas logo autorizou", recorda Lira.
A partir daí foram muitas conversas telefônicas e viagens ao Rio de
Janeiro e Minas Gerais. "Vi que, além de mineiro, Antonio Olinto é o
próprio Brasil de um canto a outro, de norte a sul; mas é também
africano", enaltece Lira. O elogio remete à época em que Olinto foi
nomeado adido cultural em Lagos, capital da Nigéria, pelo governo
parlamentarista brasileiro de 1962.
Em quase três anos de atividade, fez cerca de 120 conferências na
África Ocidental, promoveu grande exposição de pintura sobre motivos
afro-brasileiros, colaborou em revistas nigerianas, investigou
assuntos da nova África independente e, como resultado, escreveu uma
trilogia de romances - "A Casa da Água", "O Rei de Keto" e "Trono de
Vidro" -, hoje traduzida para 19 idiomas e relançada com título "Alma
da África". Seu livro "Brasileiros na África", de pesquisa sobre o
regresso dos ex-escravos brasileiros ao continente africano, tem sido
motivo de teses e debates.
"O cargo de adido cultural foi criado para ele e incorporou-se à
diplomacia brasileira. Descobri coisas curiosas como, por exemplo,
quando o então presidente do Senegal, Léopold Sédar Senghor, vindo ao
Brasil, quebrou o protocolo e quis ser recebido por Antonio Olinto e
sua esposa, Zora Seljan", revela Lira.
Segundo o autor, o interesse de Olinto pela cultura africana surgiu
ainda em Minas. "Olinto foi seminarista e, além da cultura, bastante
rica naquele Estado, herdou para toda a vida a religiosidade. Quando
nasceu, em 1919, teve contato com ex-escravos, agregados de família
que tinham conhecimento de uma cultura afro passada oralmente. Ao
chegar a Lagos, apaixonou-se pela alegria do africano, pelo profundo
respeito por seus antepassados e divindades. Ele que até então não
tinha enveredado no romance, ao sair da África, fez-se um dos maiores
romancistas no que diz respeito à cultura africana. Sua
trilogia `Alma da África' é a mais completa sobre assunto e possui
lugar de destaque na literatura mundial. Na sua despedida da Nigéria,
um representante tribal, ao homenageá-lo, disse que o diplomata tinha
a alma negra - na tradição deles, é o maior elogio que se pode dar a
um não-africano. Por isso Olinto é um brasileiro com alma africana",
ilustra Lira.
Ao longo da carreira, Antonio Olinto foi ainda professor, jornalista
e crítico literário. Fez conferências sobre cultura brasileira em
universidades e entidades culturais em mais de 50 cidades ao redor do
mundo. Em 31 de julho de 1997 foi eleito para a ABL na Cadeira n° 8,
sucedendo ao escritor Antonio Callado.
Fonte:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=584561