JC e-mail 3793, de 29 de Junho de 2009.
Artigo de Marcelo Leite
?As objeções ao trabalho não partem só de ONGs ambientais, mas da
própria Embrapa. Até na unidade localizada em Campinas há quem
discorde da maneira como o trabalho foi conduzido?
Marcelo Leite é autor de "Folha Explica Darwin" (Publifolha, 2009) e
do livro de ficção infanto-juvenil "Fogo Verde" (Editora Ática, 2009),
sobre biocombustíveis e florestas. Artigo publicado na ?Folha de SP?:
No Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, caderno especial da Folha
trouxe reportagem deste colunista sobre um estudo controverso,
"Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista". Dados da
Embrapa Monitoramento por Satélite afirmavam que só 29% do território
nacional estariam disponíveis para a agropecuária.
A reportagem chegou a conclusão diversa da que animava o trabalho
realizado sob coordenação do chefe da unidade da Embrapa, Evaristo
Eduardo de Miranda, encampado pela senadora ruralista Kátia Abreu
(DEM-TO) e pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes (PMDB-PR).
"Sobra terra para a agropecuária no Brasil", avisava o título. E,
mesmo que fossem só 29%, já daria para triplicar a safra nacional de
grãos.
O texto dizia ainda que o estudo havia sido questionado, até por sua
"honestidade". Alguns ataques se dirigiam ao coordenador, e nem foram
considerados. Outros contemplavam questões técnicas e de interpretação
das normas ambientais, o que elevaria o percentual para 36% a 43%.
As objeções ao trabalho não partem só de ONGs ambientais, mas da
própria Embrapa. Até na unidade localizada em Campinas há quem
discorde da maneira como o trabalho foi conduzido, divulgado e
utilizado pela bancada ruralista.
Um argumento é que o trabalho vem sofrendo seguidas modificações.
Outro, que não passou pelo crivo de outros especialistas, como é praxe
para estudos científicos. Depois de apresentado ao governo federal,
ganhou destaque em audiência pública no Senado no dia 29 de abril e
terminou publicado pela internet (http://www.alcance.cnpm.embrapa.br).
Uma versão preliminar saíra em dezembro na revista "Agroanalysis", da
FGV.
Miranda pondera que a publicação na internet funciona como uma
consulta pública. À medida que surgem sugestões, críticas e
discussões, os ajustes são feitos, diz. "O site não é uma publicação
análoga a uma revista [científica]." Ele faz um paralelo com os dados
de desmatamento na Amazônia produzidos periodicamente pelo Inpe
(Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Estes tampouco são submetidos a periódicos científicos antes de
publicados pela internet e anunciados pelo Ministério do Meio
Ambiente. O questionamento interno ao estudo da Embrapa subiu de
patamar há duas semanas com a retirada dos nomes de dois coautores,
Daniel de Castro Victoria e Fabio Enrique Torresan. Segundo a coluna
apurou, o motivo seria discordância com modificações feitas sem
consulta a todos os autores do levantamento.
Miranda confirma a exclusão, mas afirma que os resultados obtidos
pelos dois pesquisadores não sofreram alteração. Diz que a iniciativa
teria menos a ver com o conteúdo do estudo do que com a sucessão na
chefia da unidade da Embrapa.
Do ponto de vista do público, pouco importa. Relevante é saber se o
estudo realmente para de pé, e isso compete a especialistas dirimir.
Mas é saudável que "ruralistas" e "ambientalistas" ao menos considerem
a possibilidade de abandonar seus feudos maniqueístas para
enfrentar-se na arena dos dados verificáveis.
Nesse sentido, é positivo que a Comissão de Meio Ambiente da Câmara
dos Deputados tenha anunciado a encomenda ao Inpe de um estudo para
contrapor ao da Embrapa. Quem sabe assim o país responsável por 74% de
toda a superfície de áreas protegidas criadas no mundo depois de 2003
conseguirá concluir se exagerou mesmo na dose.
(Folha de SP, 28/6)
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